quinta-feira, março 15, 2007

130 - Humanização do habitar: algumas reflexões – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 130

 - Infohabitar 130


Humanização do habitar: algumas reflexões


António Baptista Coelho


Fig. 1

Disse Carlos de Azevedo que “a casa é um documento autêntico da vida do homem – documento de pedra e cal, mas de extraordinária importância para estudarmos os costumes, a evolução do gosto e da vida social.” (1)
E Vicente Verdú, citado por Anatxu Zabalbeascoa, situa a casa “entre a realidade e o desejo … entre o possível e o desejado” e diz que a casa “pode acolher sonhos e satisfazer necessidades.” (2)



Fig. 2: uma arquitectura caracterizada, viva e culturalmente fundamentada – Caldas da Rainha, Telheiras Lisboa (Arq. Rodrigo Rau), Parque das Nações Lisboa, o Porto à noite.

Os grandes autores estão a convergir em matérias que muito têm a ver com uma arquitectura caracterizada, viva e culturalmente fundamentada. Matérias a conjugar em partes de novas e velhas cidades que para serem sustentáveis têm de estar cheias de interesse urbano e de vitalidade habitacional. Cidades que acolham o crescimento da necessidade de mais habitação, que resulta da desagregação da família tradicional, do aumento da esperança de vida, do desenvolvimento do trabalho e do lazer em casa, e também da concentração urbana, que irá agudizar-se nos próximos decénios.

E não nos iludamos, é, de facto, ainda preciso construir nova habitação, Espanha e França têm apontado, recentemente, tal necessidade; e só em França, e por conta dos maus exemplos do passado recente, parece que serão demolidas e feitas “de novo”, 250.000 habitações, em 10 anos, realojando-se, assim, espera-se, melhor, cerca de 5 milhões de suburbanos.


Fig. 3: Madalena, Funchal, de Duarte Cabral de Mello, Maria Manuel Godinho de Almeida e João Francisco Caires (1992)

Mas entre fazer de novo e reabilitar habitação, entre novos conjuntos e o fundamental “construir no construído”, num caso e noutro há que humanizar e vitalizar, urgentemente, centros históricos e subúrbios; e num tal desígnio, é fundamental o habitar, e um habitar bem pormenorizado e qualificado, que não falhe mais nas suas ligações com o habitante e com a cidade, e para tal não chegam os aspectos mais objectivos da qualidade residencial.



Figura 4: sobre os vários níveis urbanos habitados; Baixa de Lisboa, Cooperativa Massarelos Porto de Francisco Barata e Manuel Fernandes Sá, Alvalade Lisboa de Faria da Costa uma rua residencial

E é nessa matéria de uma ampla pormenorização do habitar que muito está em jogo, em termos de humanização: Diz Fumiko Maki, que “nas cidades do passado, há a família e acima desta a comunidade e acima desta a cidade. Há um mundo público evidenciado e, por outro lado, há um mundo privado afirmado, e cada um deles interage com o espaço para formar cidade.”(3)

Entre estes dois mundos sempre houve um terceiro mundo, o do espaço comum ou colectivo, que assegura uma aliança com a convivialidade urbana e citadina , e que é ainda o verdadeiro elemento agregador da cidade de hoje; e Georges Perec descreve-o: "o lugar neutro, que é de todos e de ninguém‚ onde as pessoas se cruzam quase sem se ver, onde a vida do prédio ecoa..., longínqua e regular. Do que se passa por detrás das pesadas portas dos apartamentos apenas captamos quase sempre esses ecos estilhaçados, esses restos, esses destroços, esses esboços, esses estímulos, esses incidentes ou acidentes que se desenrolam no que se chama as «áreas comuns»....”(4)


Figura 5

Mas em todos estes mundos há, hoje em dia, na cidade contemporânea, sinais bem negativos: de desumanização, de isolamento atrás da porta de cada habitação e de crítica falta de cidade habitada e amigável; dá vontade de dizer, falta de cidades suaves e calmas, conceitos estes que podem ser bem copiados da engenharia de tráfego, pois nem só o tráfego precisa de modos suaves e de modos de acalmia; toda a cidade deles necessita.
E sobre eles diz Riken Yamamoto, que “uma coisa que sentimos quando tentamos viver em soluções habitacionais densificadas é que a disposição dos compartimentos separa totalmente do exterior. O encerramento e a abertura das habitações, a relação entre interior e exterior, foram assuntos frequentemente investigados, mas Os sentimentos reais, quando aí tentamos viver são horríveis. Até quando subimos as escadas, vendo apenas portas de segurança fechadas, sentimos uma crítica falta de compreensão das actividades no interior das habitações. E ao entrar e ao fechar-se a porta, tudo se torna um outro mundo, totalmente isolado do mundo real.” (5)
Vale bem a pena confrontar esse “lugar neutro, que é de todos e de ninguém, onde a vida do prédio ecoa”, referido por Perec, com esta “crítica falta de compreensão das actividades no interior das habitações” e com este “outro mundo, totalmente isolado do mundo real”.


Figura 6: sobre os limiares urbanos habitados e coesos, uma redescoberta da importância formal e convivial dos “limiares” na humanização habitacional da cidade – Alvalade de Faria da Costa, Habijovem Albufeira de Faria da Costa, Chasa Alverca coord. Duarte Cabral de Mello, Monte Espinho Matosinhos de Paula Petiz.

Riken Yamamoto aponta no sentido de uma redescoberta da importância formal e convivial dos “limiares” na humanização habitacional da cidade, numa linha gémea daquela seguida por Alexander e Chermayeff em 1963 e por Hertzberger em 1991, e diz que tudo é uma questão de “organizações” espaciais; … matéria bem na linha de vários desenvolvimentos feitos neste trabalho, por exemplo, ao nível do desenho, das tipologias residenciais, das “escalas” urbanas e de uma ampla integração.




Figura 7: exemplos de habitações que atingem um significado social (HSS) - Cooperativa Lar Para Todos, Beja, de Raúl Hestnes Ferreira (1986); reabilitação para pequenos fogos para idosos, Funchal, de Susana Fernandes (2001); Fronteira, de Alexandre Costa e Cláudia José (2003); Mosteiró, Vila do Conde, de Miguel Leal (2003); cooperativa UGTIMO, Zambujal, de José Bicho (1997); Mataduços de Carlos Fonseca e Alfredo Machado (2001); Milheirós, de João Carlos Santos (2001); Chouso, de Luís Miranda (1999); e B. Padre Cruz, de Rosa Leitão (1992) ...

Sublinha-se, também, que a humanização do habitar não tem a ver com os custos da construção, mas sim com a qualidade do projecto e da construção. E, a propósito, cita-se uma afirmação bem recente de Kazuo Shinohara: “na nossa enorme sociedade actual há pouca diferença entre fazer cem casas ou duzentas casas; a quantidade que é difícil apurar é o número de casas que são feitas e que atingem um significado social.” (6)
E termina-se lembrando o conceito “from the bedside to the bench”, apontado, recentemente, por António Coutinho; um conceito que, nas áreas do habitar e da arquitectura, tem de ligar urgentemente os casos habitacionais humanizados às mesas de concepção de intervenções habitacionais e urbanas.



Figura 8: da complexidade e da subtileza

E lembremos, a propósito, uma recente e fundamental afirmação de Benevolo e Albretch: “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza. Só o leque completo dos resultados em que a excelência qualitativa aflora das maneiras mais diversas e imprevistas, dá uma ideia justa dos recursos da mente humana...” (7)



Figura 9: habitare, derivado de habere, ter, implica uma identidade entre a pessoa e o mundo

Sustenta Franco Purini que “a etimologia latina de habitare, derivado de habere, ter, implica uma identidade entre a pessoa e o mundo. A base do conceito de habitar é, pois, muito ampla, e exprime um sentido de plenitude, de totalidade e de segurança...” (8)
Temos, assim, a palavra “habitar”, que sintetiza um verdadeiro e amplo serviço de habitação, que parece ser o objectivo central de toda esta ideia; de certo modo até se pode considerar que o conceito de habitar já, em si, inclui o sentido de humanização.



Figura 10: uma humanização do habitar que tem de passar por reflexões técnicas, mas também por sonhos.

Uma humanização do habitar que tem de passar por reflexões técnicas, mas também por sonhos, pois, como escreveu Kafka:
“Quando me deixo levar pela meditação, perco-me em reflexões técnicas, recomeço a sonhar uma toca perfeita sob todos os aspectos, e vejo com os olhos fechados fascinantes possibilidades de arquitecturas ideais...”
E uma humanização do habitar que tem de passar por certezas, Como as de Sophia de Mello Breyner:
“Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes”,

Referências bibliográficas:
[1] Carlos de Azevedo, “Solares Portugueses – introdução ao estudo da casa nobre”, Livros Horizonte, 1988 (1969), (p.13)
2 Anatxu Zabalbeascoa, “La casa del arquitecto”, Ed. Gustavo Gili, p.6, 1995.
3 Fumiko Maki, citado por Riken Yamamoto, “Spatial Arrangement Theory – On the Concept of «Threshold»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, p. 440.
4 Georges Perec, “A vida modo de usar” 1989, Trad. Pedro Tamen, (1978), p. 19.
5 Kenchiku Zasshi, em “Lifestyles and Layouts of Mass Housing” (1990), citado por Riken Yamamoto, “Spatial Arrangement Theory – On the Concept of «Threshold»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, p. 441.
6 Kazuo Shinohara, “Now, «modern next»”, em “Contemporary japanese houses, 1985-2005”, Tóquio, TOTO Shuppan 2005, p. 435.
7 Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, pp.10 e 13.
8 Franco Purini, “La Arquitectura Didactica”, pp. 126 a 130 (a marcação a bold é minha).

quinta-feira, março 08, 2007

129 - O conjunto de habitações sociais do Monte de São João – artigo de Duarte Nuno Simões - Infohabitar 129

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Introdução ao texto de Duarte Nuno Simões

Reedita-se, em seguida um texto de análise elaborado pelo Arq. Duarte Nuno Simões sobre o conjunto habitacional promovido pela Câmara Municipal do Porto no Monte de São João, Paranhos, Porto, projectado pelos Arquitectos Rui Almeida e Filipe Oliveira Dias, e que foi Prémio do Instituto Nacional de Habitação de Promoção Municipal em 2004. Este artigo foi um dos primeiros editados no Infohabitar, mas é agora acompanhado por uma sequência fotográfica que não pretende acompanhar o texto, mas sim desenvolver uma outra leitura, naturalmente “paralela”, mas feita por outros olhos e numa outra sequência de “passeio” relativamente ao conjunto em análise.

Sublinha-se que a verdadeira leitura desta análise só ficará completa com a visita a este conjunto de realojamento, visita esta que vivamente se recomenda, no entanto o texto incide seja sobre vários aspectos da desejável “fusão” entre a qualidade arquitectónica e a qualidade residencial, seja sobre os modos que podem e devem ser seguidos para um melhor conhecimento das obras arquitectónicas e residenciais, seja também sobre importantes aspectos elementares do próprio desenho da arquitectura urbana; e sobre todos estes aspectos é muito rico o texto que se segue, com o os qual todos ganharemos a partir de uma leitura e reflexão cuidadas.

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 7 de Março de 2007
António Baptista Coelho





O conjunto de habitações sociais do Monte de São João, um texto de análise de Duarte Nuno Simões,
com fotografias de António Baptista Coelho




O conjunto de habitações sociais do Monte de São João, ultrapassadas as primeiras impressões de claro agrado, revela uma grande coerência quanto aos objectivos que parece terem norteado os seus autores.


Como todas as obras de qualidade o conjunto não revela de imediato os seus “segredos”, antes apela ao nosso interesse em descobri-los, ou seja, de aceitar o jogo de desvendar o que, estando patente, não podemos de imediato, conscientemente, ver…




Da arquitectura deste conjunto dir-se-á que recusa o auto-comprazimento pela forma como fim último e seu principal objectivo. Aqui a arquitectura assume a sua condição mais nobre de espaço da vida dos homens , onde o livre espraiar dos afectos e da solidariedade entre vizinhos será possível. Tal como foi concebido este conjunto não se fecha autisticamente sobre si próprio, antes estimula o encontro, a troca, a convivência dos moradores não podendo prescindir, também, do interesse pelos valores formais, aqui postos ao serviço de uma proposta que assume, deliberadamente, a construção do espaço dos homens, sua finalidade última e imprescindível.

Então a que valores formais me refiro?

Antes de mais à escala do conjunto, à clareza da imagem proposta, ao tratamento dado à praça interna, mas também à simplicidade dos elementos arquitecturais, independentemente da sua importância e à existência de funções complementares integradas no conjunto edificado.




A recusa do modelo do grande bloco em altura, parede intransponível, objecto-obstáculo no qual as pessoas, os moradores, tendem a isolar-se umas das outras, originou um conjunto cujos elementos se desmultiplicaram em vários volumes, articulados em “três blocos que parecem oito”, como dizem os seus autores. Estes ao desconstruirem o modelo do grande bloco, propõem-nos um conjunto à nossa escala, uma arquitectura surpreendentemente jovem e afável. “Três blocos que parecem oito” testemunha a consciência da importância e do empenhamento dos seus autores de resolverem o problema da escala do conjunto, tomado o homem como referência, assumindo também conscientemente a continuidade da memória da cidade feita de edifícios que, sucessivamente, se encostam a outros edifícios, dando origem a praças e ruas.




Refira-se também a clareza com que o conjunto se apresenta a quem desprevenidamente o veja: oito blocos que afinal não são senão três e que determinam e abraçam uma praça interna, organizada em dois níveis principais, tema originador de grande parte da riqueza espacial do conjunto, caracterizado por uma aparente e deliberada simplicidade dos elementos vários que o compõem.

Cada um dos três blocos é servido por uma escada e um elevador e tem, em cada piso, uma galeria coberta que dá acesso a quatro fogos. Ora, a opção pelo uso de galerias não é inocente: é que as galerias acrescentam à sua função imediata de acesso às habitações, aquela outra de se constituírem como elementos de animação, de sinal de vida do conjunto e também como espaços de transição entre os interiores das habitações, quadro da privacidade das famílias e a praça interna quadro possível das mais variadas formas de sociabilidade dos habitantes.




Por isso, pelo discreto e imprevisível espectáculo que as galerias podem suscitar, as suas guardas não se constituíram como defesas opacas, antes protecções que assumem a transparência garantida pelos painéis de rede metálica.

A praça interna, evolução dos antigos logradouros privados dos quarteirões urbanos tornada aqui espaço comum, é um dos elementos que melhor caracterizam, conceptual e formalmente, o conjunto do Monte de São João. De facto, a praça tem todas as condições para estimular e servir de suporte a modos de conviviabilidade entre os habitantes e até entre estes e os habitantes das proximidades. Pense-se como as crianças poderão usar a praça em segurança para os seus jogos e nos contactos que elas induzirão entre os adultos seus familiares!



Outra das características do conjunto corresponde à simplicidade do desenho dos seus elementos mais significantes como sejam as janelas, as guardas das galerias, os óculos que iluminam e assinalam as escadas, a elegância das entradas dos três blocos, a organização dos vários elementos que integram a praça interna e, ainda, o desenho das entradas de luz da garagem colectiva, sem esquecer o cuidado posto na pormenorização dos interiores dos 55 fogos e dos vários equipamentos que integram o conjunto: um ATL, a sede da associação de moradores e da administração do conjunto e três fracções comerciais.


Não gostaria, também, de deixar em claro dois aspectos que considero muito significativos da minúcia e cuidado com que este conjunto foi projectado e realizado. Um, as paredes de fundo das galerias, pintadas cada uma com sua cor pastel, criam uma referência facilmente apreensível sem prejuízo da unidade do conjunto. O outro, a ligeira inclinação, que as afasta de um aparente paralelismo, das paredes dos corpos avançados que rematam os dois blocos e que assinalam a articulação entre os níveis da praça interna: não sendo paralelas, como parecem, as referidas paredes reforçam a continuidade da praça, delimitada e definida pelas frentes que sobre ela abrem, sendo assim a unidade do conjunto salvaguardada e reforçada.




Tudo aqui transmite-nos uma sensação tão evidente de agrado que um esforço de análise mais apurado do que o que tentei pode parecer inútil ou mesmo fastidioso. No fundo ele não vai acrescentar grande coisa ao prazer sentido: tenho presente a reacção de pessoas tão diferentes de formação e, até, de geração como a dos elementos do Júri do Prémio INH 2004 que não se eximiram a espontaneamente manifestar o seu agrado pelas características observadas deste conjunto de habitações sociais.




Toda a verdadeira arquitectura – a verdadeira, aquela que não só parece, mas que é – é um labirinto, convite não só à curiosidade mas à necessidade da descoberta. E o visitante, qual novo Teseu a quem Ariana deu outra vez o prudente fio, poderá encontrar o caminho da saída, daquilo que, escondido, se encontra bem à vista: o caminho de um maior entendimento.




A arquitectura não pode prescindir da sensibilidade nem da inteligência de quem a imagina. Mas uma e outra têm que ser acrescentadas pelo talento. Só assim se garantirá a passagem de um nível honesto mas banal para o desejável grau superior da verdadeira arquitectura assumindo-se então a sua vocação de obra de arte, de contribuição cultural, de marca significante do tempo em que vivemos. Todas essas qualidades o conjunto do Monte de São João no-las revelou.




Lisboa, 06 de Setembro de 2004
Arq. Duarte Nuno Simões

Texto ilustrado e revisto para reedição em 2007-03-07

quinta-feira, março 01, 2007

128 - Regulamentação térmica e sustentabilidade na habitação – artigo de António Baptista Coelho, Fausto Simões e Pina dos Santos - Infohabitar 128

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Regulamentação térmica e sustentabilidade na habitação – artigo de António Baptista Coelho, Fausto Simões e Pina dos Santos

Durante a tarde do passado dia 15 de Fevereiro, no Auditório do Edifício Sede do INH, em Lisboa, decorreu mais um Encontro técnico desenvolvido através da colaboração entre o Instituto Nacional de Habitação (INH) e o Grupo Habitar (GH).

Este Encontro correspondeu à 9.ª Sessão Técnica do GH e abordou, de forma geral, as temáticas da “regulamentação térmica e da sustentabilidade na habitação a custos controlados”.

Neste artigo faz-se uma reportagem, informal, desta tarde de trabalho, através da indicação dos seus principais intervenientes e das temáticas por eles tratadas, mas, desde já, se sublinha que esta foi uma primeira ocasião de reflexão e debate sobre uma problemática que obrigará a outras sessões deste tipo e num futuro próximo; sessões estas para as quais se conta com as muito interessantes intervenções que, em seguida, se apontam e, muito brevemente, se sumariam.

Concluindo o artigo e proporcionando-lhe um adequado conteúdo técnico, apresentam-se dois textos, em que dois dos intervenientes no Encontro, o Arq. Fausto Simões e o Eng. Pina dos Santos, fazem o enquadramento geral das respectivas intervenções.

O Encontro foi aberto pelo Senhor Eng. Teixeira Monteiro, Presidente do INH e pelo Presidente do GH, que deram as boas-vindas aos presentes e apresentaram o programa de trabalhos previsto.




Ainda numa fase inicial dos trabalhos foi feita uma referência destacada à recente atribuição, no início de Fevereiro de 2007, do Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007 a um projecto europeu, o projecto SHE – Sustainable Housing in Europe, no qual se integra e salienta, porque corresponde a uma obra acabada bem dentro dos prazos previstos, um conjunto de habitação apoiada pelo Estado português, portanto financiado pelo INH, e promovido por um conjunto de cooperativas de habitação económica que integram a Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), localizado na Ponte da pedra, Leça do Balio, Matosinhos.

Trata-se do primeiro empreendimento cooperativo de construção sustentável em Portugal, promovido pela NORBICETA – cooperativas Nortecoop, As Sete Bicas e Ceta, sob a direcção técnica do Eng. José Coimbra e sob coordenação global do Presidente da FENACHE Guilherme Vilaverde.
Mais informações sobre este conjunto estão disponíveis em diversos artigos já editados no Infohabitar.

Passando ao conteúdo técnico do encontro, este integrou os seguintes temas e intervenientes:




1.ª Intervenção: Objectivos de conforto e de sustentabilidade ambiental em intervenções habitacionais, pelo Arq.º. Fausto Simões

autor de projectos de arquitectura e de trabalhos de divulgação e estudos publicados sobre arquitectura climática.

Como se anexa um pequeno texto, da autoria do próprio Arq.º Fausto Simões, sobre esta temática apenas se refere aqui que se tratou de uma intervenção com grande riqueza de conteúdos técnicos e forte interesse expositivo, que abordou os diversos níveis físicos urbanos e residenciais, assim como as suas fundamentais interacções e elementos constitutivos que têm influência num conforto ambiental mais sustentável e mais efectivo, seja no exterior citadino, seja em nossas casas, seja no Inverno, seja no Verão.

E chama-se, assim, a atenção para o texto do Senhor Arq.º Fausto Simões, que integra este artigo, intitulado “Arquitectura conforto e ambiente – Da caixa hermética à “vida entre os edifícios”, onde se faz o enquadramento genérico desta apaixonante e hoje crucial temática.




Refere-se, ainda, que o Arq.º Fausto Simões é autor de projectos de arquitectura climática com resultados registados e publicados: Casas Solares Passivas de Vale Rosal e do Casal do Cónego, Casa do Telheiro, Casa do Padrão, Escritórios da Taxa de Porto. Fausto Simões desenvolveu, também, obras de iniciação à arquitectura climática e sustentável: Clicon – Método de Concepção para Projectar como Clima; A Green Vutruvius - Princípios e Práticas de Projecto para uma Arquitectura Sustentável (revisão da versão original e supervisão da versão portuguesa); um livro que está disponível nas livrarias e que vivamente se recomenda.



2.ª Intervenção: Características e aplicações do novo Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos Edifí­cios (RCCTE), considerando a habitação a custos controlados, pelo Engº. Pina dos Santos

Investigador do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Como se anexa um pequeno texto, da autoria do próprio Eng.º Pina dos Santos, sobre esta temática apenas se refere aqui que se tratou de uma intervenção cujo interesse e oportunidade nos levariam muito mais além do tempo de apresentação previsto; situação esta que Pina dos Santos soube contornar através de um salientar estratégico dos aspectos por ele considerados mais importantes e oportunos.



O Senhor Eng.º. Pina dos Santos é Investigador do Núcleo de Revestimentos e Isolamentos (NRI) do Departamento de Edifícios do LNEC e esteve, desde sempre, ligado às temáticas do conforto térmico em edifícios.




3.ª Intervenção: Sistema Nacional de Certificação Energética e da Qualidade do Ar Interior nos Edifícios (SCE) e Água Quente Solar, pelo Dr. Alexandre Fernandes

Director Geral da ADENE – Agência para a Energia.

Nesta intervenção foram desenvolvidos os seguintes temas, que aqui se citam da respectiva apresentação do Senhor Dr. Alexandre Fernandes: intensidade energética em crescimento; o desafio de cumprir Quioto; consumo de energia primária (tipos de fontes energéticas); consumo de energia final (por sectores de actividade); evolução da legislação aplicável, destacando-se o novo pacote legislativo de 4 de Abril de 2006; integração das peças legislativas; regulamentação específica para edifícios residenciais, considerando edifícios novos e existentes; sistema de certificação (da verificação da aplicação dos requisitos regulamentares à classificação e emissão de certificado); perfil do “Perito Qualificado”; intervenções no SCE, considerando o RCCTE e o RSECE, ao longo das etapas da vida de um dado edifício (do respectivo projecto à sua utilização) e visando a emissão de Declaração de Conformidade Regulamentar e de Certificados Energéticos; verificação de requisitos relativamente ao RCCTE e ao RSECE; classificação energética (habitação e serviços); Classes energéticas residenciais; processo de certificação.




Esta intervenção Dr. Alexandre Fernandes, igualmente de grande interesse e que iria motivar um animado debate final, foi rematada com as seguintes temáticas: apresentação do Portal ADENE/SCE, actualmente em conclusão; Certificado Energético e Certificado Energético e Solar; entrada em vigor do RCCTE, do RSECE e do SCE e respectivas implicações actuais e futuras; enquadramento geral geográfico da temática do aproveitamento Solar Térmico; dados sobre o aproveitamento Solar Térmico na União Europeia; diagnóstico geral do aproveitamento Solar Térmico em Portugal; e evolução expectável do aproveitamento solar térmico entre 2007 e 2010.




4.ª Intervenção: A responsabilidade e intervenção das empresas de materiais na sustentabilidade ambiental, pelo Engº. Jorge Ramos

da Empresa Imperalum.

Nesta intervenção foram desenvolvidos os seguintes temas, que aqui se citam, de forma muito sintética, a partir da respectiva apresentação do Senhor Eng. Jorge Ramos: caracterização ambiental da indústria da construção, com relevo nos respectivos impactes negativos; caracterização ambiental da indústria da Imperalum, com destaque para a fabricação de membranas betuminosas de impermeabilização e emulsões; Certificação Ambiental; contributos possíveis para a qualidade de vida nas edificações e para a sua sustentabilidade.

Salienta-se que o Eng. Jorge Ramos assegurou uma sequência natural e estimulante na abordagem da temática geral da sustentabilidade na construção de habitação, concluindo as apresentações da tarde num registo muito ligado à prática, mas uma prática claramente comprometida com a qualidade ambiental.





Apresentam-se, em seguida, os textos de enquadramento que foram, na altura, disponibilizados aos presentes, pelo Arq.º Fausto Simões e pelo Eng.º Pina dos Santos, textos estes que, em conjunto com as apresentações em Power Point dos restantes intervenientes, constituíram uma bem organizada documentação fornecida pelo excelente secretariado do Encontro aos seus mais de 100 participantes.



Arquitectura conforto e ambienteDa caixa hermética à “vida entre os edifícios”- texto de Fausto Simões

http://www.orbis.t2u.com/

O sector da edificação confronta-se hoje com uma nova Regulamentação Energética que é dominada pela Térmica. A QAI (Qualidade do Ar Interior) e a Iluminação são tratadas na perspectiva das instalações de AVAC (Aquecimento, Arrefecimento e Ar Condicionado). O edifício também, tendo em vista, sobretudo, reduzir o consumo de energia comercial dos equipamentos activos. De facto são estes e não os edifícios que consomem energia comercial.

Em Portugal, a importância energético-ambiental dos edifícios é relativamente pequena, mas tenderá a agravar-se na medida em que remetemos para as instalações especiais problemas que poderiam ser melhor resolvidos pelos edifícios, ou nem sequer existir. Neste sentido, há cada vez mais edifícios que só são habitáveis graças á “máquina”. Falta robustez ambiental ao nosso património edificado, o que se tornará mais crítico se considerarmos o desenraizamento e o envelhecimento da população face aos efeitos das alterações climáticas.

Consequentemente, a resposta da arquitectura aos problemas energetico-ambientais não se pode divorciar dos problemas sociais e, portanto, não se deve circunscrever ao detalhe dos isolamentos térmicos e dos acabamentos interiores não poluentes. Isso é o que pede aos arquitectos a concepção do edifício como uma caixa hermética mecanicamente ventilada (Figura 1), seguindo o modelo da Passiv Haus que "vem do frio", da Europa não mediterrânea. Esta concepção tem uma forte presença na articulação da Regulamentação Energética.




Figura 1 Da “caixa hermética” aos “espaços entre os edifícios”

A concepção que tenho vindo a defender é menos linear e centra-se mais nas nossas relações com o clima e a sociedade, mediadas pelos edifícios. No nosso clima moderado e misto, o isolamento térmico que se integra sobretudo nas estratégias de conservação do calor, têm que se conjugar, não só com o solar passivo no Inverno, mas também com o leque de estratégias para o Verão, tendencialmente mais importantes, nas quais o isolamento térmico tem uma posição mais discreta; a térmica tem que se conjugar com a iluminação natural com a acústica e outras componentes ambientais, considerando um conforto adaptativo, mais complexo, com interessantes reflexos nos consumos de energia... E o "ambiente" tem que se conjugar com a urbanidade.

Chegamos assim a formas edificadas que não podem caber no modelo da caixa hermética e em que ganham importância os "espaços intermédios" .

A incorporação destas preocupações na arquitectura implica a revisão em profundidade dos currícula, na perspectiva "sustentável" da arquitectura enquanto "arte aplicada" e da participação pró-activa dos arquitectos em equipas pluridisciplinares, ao nível do projecto dos edifícios e das suas agregações urbanas, com uma especial atenção aos "espaços entre os edificios" (Figura 1), nomeadamente nos Planos de Pormenor. Note-se que é ao nivel da cidade e do primeiro esquisso que são tomadas as principais decisões, as quais condicionarão irrevogavelmente o projecto, a construção e a utilização do meio edificado e, portanto, ditarão o seu impacte energetico-ambiental.

No que concerne à prática profissional, parece óbvio que o velho método separativo em que o engenheiro mecânico fica à espera que o arquitecto lhe entregue a "estrutura" definitiva para introduzir os dados nos seus cálculos sobre os equipamentos, deverá ser substituído por um processo iterativo ao longo do projecto e desde o primeiro esquisso, designadamente nos maiores projectos. Este processo interactivo não requer apenas novas competências de parte a parte, mas também métodos de cálculo que permitam que ambos progridam concertadamente em detalhe do programa base até ao projecto de execução.

E depois do projecto de execução, vem ao caso salientar, torna-se pertinente não só dar uma efectiva assistência à obra, mas também acompanhar a sua utilização. O acompanhamento da utilização pelo projectista durante um ou dois anos, traz inestimáveis ensinamentos que podem vir a ser aplicados in loco e em futuros projectos.

Tudo isto envolve significativas alterações na prática profissional e custos adicionais que estão expostos de forma sistematizada no "A Green Vitruvius", um "primer" sobre "princípios e práticas de projecto para uma arquitectura sustentável" editado pela Associação dos Arquitectos Portugueses, actual Ordem dos Arquitectos que ainda não o aproveitou para despoletar a discussão desta matéria em português.

Texto de Carlos Pina dos Santos

pina.santos@lnec.pt

O Decreto-Lei nº 80/2006 de 4 de Abril revoga o anterior RCCTE (Decreto-Lei nº 40/90 de 6 de Fevereiro, o qual pela primeira vez tinha introduzido, por via regulamentar, requisitos térmicos no projecto de novos edifícios e de grandes remodelações.

Apesar do duvidoso cumprimento sistemático das exigências regulamentares impostas pelo “velho” RCCTE, é indiscutível que esse documento legal contribuiu para introduzir alterações significativas nas práticas construtivas adoptadas na edificação corrente.

As paredes exteriores, nas quais se generalizou a adopção da parede dupla, passaram com alguma frequência a incluir um mínimo de isolamento térmico. As coberturas, em terraço ou inclinadas, também passaram a receber com regularidade um tratamento térmico, embora nem sempre adequado.

Todavia surgiram alguns problemas, mais ou menos graves, involuntariamente criados pelo RCCTE. Podem referir-se, a título de exemplo, as inadequadas soluções de “correcção” das pontes térmicas e o descuramento de outros aspectos do desempenho dos elementos da envolvente, nomeadamente, em termos de segurança contra incêndio. Sem esquecer a fraca qualidade de execução das soluções de isolamento térmico, geralmente observada na construção corrente.

Por outro lado verificou-se nos últimos anos um acréscimo (mais ou menos sazonal) da aquisição e da instalação de sistemas energéticos de aquecimento e de refrigeração, embora com frequência usados com moderação, por razões de ordem económica.

Mas nesses últimos anos o consumo de energia no nosso País apresentou acréscimos associados, quer à aquisição e uso intensivo de variados equipamentos domésticos e profissionais, nos edifícios, quer à utilização dos meios de transporte .individuais.

Por último, uma sociedade próspera tende a esquecer rapidamente a necessidade de adoptar algumas práticas ética e socialmente responsáveis. As atitudes e os aspectos comportamentais face à utilização racional dos recursos disponíveis afectam, drasticamente, os resultados de quaisquer políticas ou medidas que se pretendam implementar.

O novo RCCTE, aprovado como se referiu passados dezasseis anos após o primeiro regulamento térmico, surge no contexto da evolução social, económica e energética entretanto registada no País e “transpõe em parte” a Directiva nº 2002/91/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 16 de Dezembro (publicada em 4 de Janeiro de 2003), relativa ao desempenho energético dos edifícios.

Esta Directiva, entre outros requisitos, impõe (transcrevendo o preâmbulo do novo RCCTE) “aos Estados membros o estabelecimento e actualização periódica de regulamentos para melhorar o comportamento térmico dos edifícios novos e reabilitados, obrigando-os a exigir, nestes casos, com poucas excepções, a implementação de todas as medidas pertinentes com viabilidade técnica e económica.

A directiva adopta ainda a obrigatoriedade da contabilização das necessidades de energia para preparação das águas quentes sanitárias, numa óptica de consideração de todos os consumos de energia importantes, sobretudo, neste caso, na habitação, com um objectivo específico de favorecimento da penetração dos sistemas de colectores solares ou outras alternativas renováveis”.

Para além da obrigatoriedade da instalação de colectores solares térmicos, salvo justificação fundamentada em contrário, o novo RCCTE introduz novos aspectos que visam a melhor quantificação dos consumos potenciais de energia para aquecimento, arrefecimento e preparação de águas quentes sanitárias.

A maior complexidade no tratamento dado a algumas das matérias relevantes (ganhos solares, pontes térmicas, ventilação) traduzir-se-á na necessidade de adopção de soluções passivas ou activas menos comuns na prática corrente.

Embora as condições de referência adoptadas possam ser consideradas apenas simplificações de cálculo (e não recomendações para serem cegamente cumpridas), e os consumos nominais de energia útil estimados se possam afastar significativamente da realidade, o novo RCCTE pretende criar uma base convencional de comparação entre edifícios com vista à respectiva Certificação Energética que entrará em vigor ainda este ano.

Como o próprio preâmbulo do novo RCCTE também refere “para maior flexibilidade de actualização destes objectivos em função dos progressos técnicos e dos contextos económicos e sociais este Regulamento é estruturado por forma a permitir a actualização dos valores dos requisitos específicos, fixados de forma periódica pelos ministérios que tutelam o sector”.




Finalmente houve lugar a um animado debate, gerido por uma mesa composta pelos intervenientes e pelo moderador Arq.º Vasco Folha do INH.

Ficou vontade de se ter mais tempo, seja para as apresentações, seja para o debate das temáticas e das questões levantadas pelas apresentações. Talvez que numa possível réplica deste Encontro, provavelmente no Porto e, também provavelmente, no Auditório da Delegação do INH no Porto, seja possível proporcionar um pouco mais de tempo para se ouvir falar e para se discutirem estas fundamentais matérias da “regulamentação térmica e da sustentabilidade na habitação a custos controlados”; e talvez que então seja possível, pelo menos, introduzir numa tal apresentação e discussão a problemática da reabilitação habitacional associada a essas temáticas.

Aproveitando-se este artigo faz-se aqui um agradecimento público, em nome do Grupo Habitar, aos principais intervenientes neste Encontro, Dr. Alexandre Fernandes, Arq.º Fausto Simões, Eng. Jorge Ramos e Eng.º Pina dos Santos, pelas excelentes intervenções, ao Arq.º Vasco Folha pela motivada moderação do debate e a todos os que estiveram connosco na tarde de 15 de Fevereiro de 2007 no INH em Lisboa.




E naturalmente o Grupo Habitar deixa aqui bem expresso o agradecimento ao INH, na pessoa do seu Presidente Eng. Teixeira Monteiro e do seu Conselho Directivo, por mais esta jornada técnica e de colaboração com o GH. Um agradecimento que deve ser estendido ao excelente secretariado do Encontro, coordenado, como sempre com grande eficácia, pela Dr.ª Teresa Machado, e, naturalmente, a uma das almas do INH e do GH, o Eng.º Hermano Vicente, que, desde início e até ao fim, ajudou a organizar e dinamizou esta tarde de trabalho.


quinta-feira, fevereiro 22, 2007

127 - A árvore suporte do mundo no espaço urbano (II) – das árvores/jardins, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 127

 - Infohabitar 127

Celeste Ramos
Participação de António Baptista Coelho na ilustração (parte das figuras

Palavras-chave: ecossistemas globais [alianças florestais mundiais - floresta (mata) - continuum naturale-contínuo edificado]; REN urbana, estrutura verde urbana e corredor verde [pulmões urbanos]; árvore notável, árvore património e árvore viária [na estrada, no passeio de peão e alameda e no jardim público e privado]; água na cidade e fauna urbana; ecossistema urbano versus ecossistema humano [a alma das gentes e da árvore - espaços para a alma, o silêncio, a meditação e o divino - a música do vento e a árvore inspiração do poeta - a árvore que na copa capta o sol e na raiz capta a água]; o espírito da árvore e o espírito do homem


Resumo
Partindo de citação breve dos grandes agrupamentos fitossociológicos planetários a fim de ter uma ideia global das condições geo-edafo-climáticas que os determinam, passando pela caracterização de resinosas e folhosas, centra-se a forma como são "escolhidas" para o espaço urbano e referem-se as mais variadas funções na qualificação do espaço urbano e termina-se com apelo de geo-consciência e geo-cidadania.

Da árvore ao jardim uma excelente e crucial viagem urbana

Se for grande e muito arborizado qualquer jardim ou parque urbano, de tudo isto podemos recolher o prazer e ensinamentos da natureza sem precisar de sair da cidade, mas onde estão, nas cidades, esses grandes jardins? E o hábito de os frequentar?

Onde estão os grandes parques de periferia de equilíbrio ecológico e climático e de sinalização-verde da cidade, de recepção das grandes cargas pluviométricas previsíveis ou "anormais", lugares constantemente ameaçados pelo romper de mais estradas ou arruamentos e gigantescos equipamentos urbanos, e outras coisas da cidade, reduzindo-os a caricaturas de jardim e de espaços de protecção ecológica, que deveriam constituir as "cinturas verdes urbanas”, sobretudo nas grandes metrópoles, áreas também importantes para desporto e lazer, como é Monsanto (Mont Saint) ou o Bois de Bologne?

Fisiografia, solo e clima, determinam a existência das espécies, a não ser que se introduzam "exóticas", de que o melhor exemplo será o da Serra de Sintra de que foi responsável o rei D. Fernando de Sax e Cobourg, que por condição e amor às árvores e sua imensa variabilidade de formas e cor, coleccionou tantas espécies de quase todo o mundo que fez da Feteira da Condessa um verdadeiro Arboretum conhecido no mundo e visitado também por isso, parecendo-me que esse paraíso vegetal está actualmente no total abandono e degradação, sujeito a fogo e vandalismo, como tantas coisas preciosas e únicas do país, que tantos antepassados se preocuparam em trazer e humanizar para depois usufruir, privadamente, e mais tarde publicamente, e de que os melhores exemplos no país serão Serralves e a quinta do Convento de Tibães, com projecto de recuperação feito por arquitecto-paisagista, agraciado com prémio europeu pelo seu magnífico restauro.




Quase todos os climas do mundo

O país de norte a sul contém, também por condição de situação geográfica e orográfica, quase todos os climas do mundo (atlântico, alpino, euro-atlântico e mediterrânico) e, daí, a maior variabilidade do mundo vegetal, tanto na floresta como em culturas agro-fruti-florícolas, e tanto nas áreas de regadio como de sequeiro, que o FOGO, betão e betuminoso, expansão urbana e de Centros Comerciais, vão dizimando. Riqueza a que só alguns, muito poucos, dão valor, como se se tivesse implantado o "ódio à árvore" e aos Jardins e mesmo à terra agricultável – que é, apenas, 36% do território nacional segundo a investigação e execução da cartografia orientada por esse grande agrónomo Ário Lobo de Azevedo –, porque é “prioritária” a construção de equipamento de consumismo popular ou elitista como o golfe, ou é preciso que "o arquitecto" modernize aquela alameda ou outro espaço qualquer, que já fez história e é memória dos lugares e habitantes, mas que interesse tem? Se é preciso fazer e desfazer constantemente, porque a criatividade e desenvolvimento deste e daquele lugar só se faz "modernizando" desta maneira destrutiva e irracional, repetitiva e inútil a que os decisores nos habituaram como se fosse normal e inteligente? Não, não é, porque privado da sua história – paisagem-memória – um povo entra em degradação.

A tal propósito é oportuno citar a imagem que correu na TV1-20h de 12 Novembro 2006, de um milhão de ovelhas que os agricultores de Espanha levaram até à capital a fim de reclamar contra a destruição e o corte das áreas de pastagem, com 125 mil km de estradas e expansão urbana, de que Portugal é vítima não apenas com as famosas IPs, designadas de estradas-criminosas pela UE, por várias razões: local de implantação, desenho de traçado, declives longitudinais, ausência de separadores de trânsito central para a velocidade legal, destruição de pequenos e grandes relevos e respectivos micro-climas e ecossistemas, e, por fim, pelo desmantelamento de ecossistemas.

No país o problema agrícola foi resolvido da forma mais brutal. Pois que se deixou simplesmente de considerar o sector agrícola e a sua população, parte dela obrigada a demandar o litoral, abandonando-se a produção agrícola e tudo o que daí derivava de actos contínuos de âmbito de produção artesanal e cultural, só reanimada pelos emigrantes que nunca, por enquanto, desistem de voltar à sua aldeia, em férias de Verão e de Natal, reavivando tradições e costumes, mas com os dias contados porque seus filhos já construíram suas vidas fora do país.




Nunca vi nada, nada que valha a Pena

"Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia e o Egipto e nunca vi nada, nada que valha a Pena. É a cousa mais bela que tenho visto. Este é o verdadeiro Jardim de Klingsor e, lá no alto, está o Castelo do Santo Graal" – Richard Strauss.

Já decorreu muito tempo sobre a acção dos "Monges agrónomos" - os Beneditinos - com o seu amor ao cultivo da videira para produção do vinho de celebração da Missa, e das flores para o Altar, e de árvores de fruta, que deram fama a Alcobaça de que resiste muito pouco, porque os decisores insistem, desde 1986, no país florestal (que ardeu) e não no país agrícola que tem 2 mil anos, porque os produtos agrícolas "alheios", dizem, são mais baratos, embora sejam apenas produtos químicos que há muito põem em perigo a saúde pública, sendo que França já voltou atrás muito recentemente, recuperando a sua agricultura-ecológica.

E ainda assim somos o país mais velho do mundo na delimitação das fronteiras físicas, tendo também, sem ser por acaso, a mais velha zona agrícola demarcada do mundo, a região do Douro, que faz agora 250 anos, mais velha do que alguns países tidos como desenvolvidos e fazendo parte do grupo restrito dos que decidem a vida do resto do mundo. Pobre país que perdeu a sua independência alimentar e de tão alta qualidade, pois que a sua gastronomia continua a ser apreciada mundo fora, e é cartaz turístico associado a saberes respectivos do cultivo da terra, bem como a manifestações culturais ancestrais, que se vão perdendo, quebrando-se uma longa cadeia de interdependências saudáveis, produtivas e autosustentáveis, perdidas nos jogos políticos indecifráveis e empobrecedores da própria cultura primordial nacional, e sabendo-se, contudo, que nenhum país do Clube Europeu, tão recentemente criado, destruiu um único m2 agrícola.

E é, assim, o país obrigado a importar o que "come", sem que se vislumbre qualquer opção até porque, por outro lado, os jovens abandonaram o interior produtivo e não irão mais deixar a cidade, os que ficaram envelhecem e morrem, ou suicidam-se e os poucos resistentes não são bastantes para recuperar e reanimar tudo o que se perdeu em escassas dezenas de anos em que se destruiu o que se construiu em 2 mil anos – pão e história e tradição nunca recicladas ou reabilitadas.




Sobre as velhas árvores e sobre o que não faz qualquer sentido

Pobres as árvores que levaram dezenas e centenas (ou milhares como as oliveiras - Olea sativa ou Sequoias sempervirens) de anos a ser Árvore e a conquistar o seu ecossistema de árvores de sombra que abriga, de árvores e arbustos de orla ou de clareira, e que, em minutos, a serra mecânica corta e transforma em lenha, inútil, dizimando-se o clima e a fertilidade do solo, pobres as árvores de espaço urbano que, igualmente, têm de dar lugar ao betão.

E é interessante focar como as velhas oliveiras que restaram em Lisboa (em Portugal há figueiras e oliveiras de norte a sul e de este a oeste), mesmo milenares, são muitas delas transplantadas, como é o caso do Jardim a que deram o nome “Jardim das Oliveiras”, no CCB; oliveira, a Árvore dos Santos Óleos dos cristãos do Mediterrâneo e ainda hoje respeitada pelos Judeus portugueses, cujo óleo é usado para cerimónias especiais da sua religião, afirmando-se que a qualidade do seu azeite é de valor superior, sobretudo o das oliveiras que ainda persistem em Trás-os-Montes.

Não será que a árvore também sofre? Não será que também a árvore tem alma?

Sobre a árvore centro de vida

E os animais da fauna cinegética (aves e mamíferos) que abriga bem como todas as espécies vegetais que à sua sombra se desenvolvem? E as colmeias? E todos os produtos dela derivados que são vida e economias e património do país e do mundo global? E que são igualmente ecossistemas de áreas ribeirinhas e outras zonas húmidas, que são local privilegiado de aves migradoras que, sem local de alimento e nidificação, se vão extinguindo, e que a UE insiste, através de Directivas, em fazer conservar nos países do sul (e do Sol) tanto as Aves como os Habitats.

E o como se destrói o seu húmus doce (mull), que a chuva ajuda a fazer escorrer encosta abaixo para fertilizar e ajudar a determinar o zonamento agro-silvo-pastoril; para além das sementes que vai "semeando".

Ora desta multiplicidade de árvores produtivas e benfazejas, incluindo árvores de fruto, o homem urbano escolheu algumas para as introduzir no seu espaço de habitar .




A cidade jardim no miolo dos quarteirões

No miolo dos quarteirões, fez pomar e horta-jardim quase como reminiscência da sua origem rural ancestral, plantou figueiras e nespereiras, pessegueiros e amendoeiras e pilriteiros, fez horta de legumes que consome ao longo ao ano, e não se esqueceu de plantas ornamentais como a bouganvillea, a roseira e os jarros, os narcisos e as dálias, e tantas outras espécies de jardim, que há pouco tempo ainda se assomavam aos muros de delimitação do casario nobre ou menos nobre, ou eram por outros vistos de andares mais altos, regalo para o olhar e memória ancestral e, ainda, terra permeável que absorvia grande parte da queda pluviométrica alimentando toalhas freáticas urbanas, e assim amenizava o clima, através da evapo-transpiração no Verão, e permitia respirar ar puro e nunca ozono e que, a seu tempo, impedia as enxurradas, que apenas há uma vintena de anos aumentam de intensidade e gravidade; e que, no Inverno, já sem folhas, deixavam olhar o Sol que aquecia a cidade.

Hoje, esses quarteirões são locais de densificação urbana ou de construções auxiliares para estacionamento automóvel ou, simplesmente, lixeiras colectivas dos materiais mais imprevisíveis, que se abandonam, porque "educação ambiental" é, também, assunto escolar de meninos, para desenhar e aprender a brincar, sem intenção de ir formando cultura e consciência.

Os jardins de traseira, tão importantes como os pequenos jardins de quarteirão, cheios de árvores e arbustos e plantas anuais, que se enchiam na primavera de pássaros de telhado e andorinhas, que voltavam na primavera ao mesmo lugar, já não existem nem fazem história, mas não são merecedores de qualquer manifestação na Avenida da Liberdade; porque qualidade de vida, sobretudo desde a década de 80, não passa de peditório de aumento salarial, porque a tal se resume a exigente cultura urbana portuguesa.


A cidade histórica desmorona de esquecimento e desprezo. A VIDA começa a morrer na Cidade.

A ecologia urbana passa a ser diferente e os habitantes animais são outros, como as formigas, as baratas e as ratazanas e a insalubridade geral, porque os funcionários da CM envenenam os pombos e dizimam cães e gatos "vadios", pois que já nem esses habitantes "tradicionais" existem, porque não é sinal de se ser civilizado nem mesmo nos bairros periféricos e mais "familiares".




A Árvore na Cidade

Assim a ÁRVORE na Cidade, seja a de arruamento (ou alinhamento) em fileira única ou em alameda, em sebe para protecção do vento ou divisão de propriedade, ou maciço em Jardim, isolada como exemplar-património, em enquadramento paisagístico de edifícios singulares, não é mais do que a que foi escolhida nos ecossistemas naturais por poder adaptar-se às mais difíceis condições de poluição e exiguidade de espaço, tendo o "jardineiro" imitado em espaço artificial os ecossistemas naturais de que o mais brilhante exemplo é o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ou quase "torturando" os seres vegetais obrigando-as ao desenho mais geométrico obedecendo à planta do espaço ajardinado ou mesmo domesticando-lhe a forma natural de que Vaux-le-Vicomte será o mais belo exemplo de jardins do mundo, desenhado pelo erudito jardineiro e hidráulico Le Nôtre para o ministro das finanças de Louis XIV, que logo encomendou a construção de Versailles, num pântano, sendo que Villandry, no Vale do Loire, do séc. XVII, é igualmente de grande beleza, sendo duplamente jardim de prazer e de ervas de cozinha, horta e pomar, mas sendo que, em Versailles, continua a existir o "Potager du Roi", embora se tenha destruído, em Serralves, a área de Horta, para construir Museu de Arte Moderna desenhado por altamente premiado arquitecto - sem opção, porque para arquitecto das pedras não há opção para arquitecto-paisagista.

Quando o homem se tornou sedentário e fez agricultura, fez o primeiro jardim

Quando o homem se tornou sedentário e fez agricultura, fez o primeiro jardim. Sempre o homem procurou o divino nas estrelas do céu, mas foi nos jardins que o encontrou e lhe chamou Éden. Dos jardins suspensos da Babilónia chegou-se ao esplendor do jardim formal obrigando as plantas a conterem-se na forma artificial até que o próprio homem se libertou da sua imposição à natureza libertando-a à sua forma natural com o jardim à inglesa.

A árvore na cidade já pouco é indicadora das quatro estações do ano com as suas folhas perenes ou caducas exibindo todas as cores de doirado a castanho e ferrugem de Outono, não dá ninho e alimento aos pássaros e não obriga o cidadão a lembrar-se como é a natureza e o clima e como são os ritmos naturais, como acontece no espaço rural que ainda é habitado, a árvore já não transpira no Verão para equilibrar a humidade relativa do ar, juntamente com a evaporação da terra, que já não há por ter dado lugar ao betuminoso, sendo assim quase nula a evapo-transpiração; e assim a temperatura média urbana alterou-se porque as áreas são de matérias artificiais acumuladoras de calor, a árvore já não é agente de infiltração da chuva através dos orifícios criados pelas suas raízes, porque nos jardins já só há cimento e as caldeiras são calcadas e impermeabilizadas pelo automóvel que sobre ela estaciona.
Há/houve árvores na cidade

Há árvores de folhas persistentes e outras, cujas folhas são caducas.Mas o que me faz confusão, é que andem nuas no invernoe vistam um sobretudo de folhasno verão!
FolhagensJorge Sousa Braga, Herbário (1999)

Era uma árvore no passeio
E fosse tempo claro ou feio
havia uma paz de agasalho
dependurada em cada galho
E foi vivendo. Viveu gasta
músculo e flama de ginasta
quanto mais uma arvorezinha
meio garota de sobrinha




Carlos Drummond d'Andrade, Mola de Bolso


A Árvore já não existe nos separadores de trânsito centrais que foram destruídos para alargar o número de faixas de rodagem ou, nos que existem, a terra foi tapada por betuminoso para servir de estacionamento automóvel, que não pode ficar sujo de lama.

O homem urbano só olha para a árvore quando os seus ramos lhe entram pela janela ou lhe tapam a vista e quer ver cortadas, mas é capaz de se queixar da sua ausência quando o calor de verão aperta.

Com o sol a trepar pelas árvores
Não tardará
que a manhã corra mais limpa
e se possa beber

Véspera de Sol
Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra, 1982





Cidades "plantadas" à beira-rio



São muitas as cidades "plantadas" à beira-rio, mas nem todas têm um rio tão largo, um rio tão belo como o Tejo, que não é apenas ocupado com os transportes públicos como a maioria dos que atravessam a cidade ao meio, partindo-a e desligando-a, porque os serviços tomam conta dela pois que o Tejo separa e une as cidades que se implantaram na borda do seu pequeno "mediterrâneo" - O Mar da Palha -, na cidade-capital que lhe é "sobranceira" do alto das suas colinas, sentinela vigilante de ambas as margens, tão maltratadas e mal aproveitadas para usufruto da população que as invade logo que o tempo seja de sol.

Haverá muitos rios belos como o Tejo mas não há nada mais belo do que o Rio da minha aldeia/cidade e com as áreas verdes, que entram na cidade e se vão ligando aos grandes e pequenos jardins privados e públicos, por ela dispersos, perfaz o Continuum naturale.

Morreu no Tejo a gaivota mais esbelta
a que morava mais alto e trespassava
de claridade as nuvens mais escuras com os olhos
Cantos de pescadores, embalai-a!
Versos de poetas embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor de velas, embalai-a


Tejo – elegia para uma gaivota, Sebastião da Gama – Campo Aberto


Tu que passas por mim tão indiferente
no teu correr vazio de sentido,
na memória que sobes lentamente
do mar a nascente
és curso do tempo já vivido
Não, Tejo,
não és tu que em mim te vês,
sou eu que em ti me vejo ??

Por isso, à tua beira se demora
aquele que a saudade ainda trespassa
repetindo a lição, que não decora,
de ser, aqui e agora
só um homem a olhar o que passa
Não Tejo
não és tu que em mim te vês,
sou eu que em ti me vejo !

Um voo desferido é uma gaivota
não é o voo da imaginação
gritos não são agoiros, são a lota ...
Vá, não faças batota,
deixa ficar as coisas onde estão
Não Tejo
não és tu que em mim te vês,
sou eu que em ti me vejo

Tejo desta canção, que o teu correr
não seja o meu pretexto de saudade
Saudade tenho sim, mas de perder
as águas vivas da realidade
Não Tejo
não és tu que em mim te vês,
sou eu em mim que me vejo !

O Tejo corre no Tejo, Alexandre O’Neill - Feira Cabisbaixa





O fantástico século XX



Depois da II Guerra Mundial o mundo parecia regenerar-se e engrandecer e dar espaço ao enriquecimento material já que à libertação do feminino no virar do século XIX-XX se seguiu, nos anos 60, o movimento juvenil de S.Francisco do flower-power, make love not war, que foi o primeiro "ensaio já de escala mundial" de resposta à liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução francesa, pois que também nasciam novas nações submergidas no colonialismo.

Mas a segunda metade do séc. XX foi, em paralelo, o tempo de maior desenvolvimento, de todos os tempos, de todas as ciências e tecnologias que se por um lado vieram em benefício do Homem, por outro, foram de destruição até ao actual nível de agonia da Terra-Mãe, a Gaia, planeta sagrado. Da individualização imperou o individualismo, mas estando mais uma vez atentos, os jovens que são sempre o sangue novo e a seiva do mundo, construíram a universalidade do amor entre todos sem distinguir nem famílias nem idades, nem mesmo nações, de que vocês são, todos, o produto final como se se tivesse finalmente encontrado o ecossistema global Terra-Homem.

Da grande escuridão do Poder da Igreja e dos Estados, ou mesmo da família, começa-se a ver acenderem-se cada vez mais velinhas no mundo de que vocês já fazem parte e que disso têm de ter consciência e, agora, não apenas em termos de relacionamentos humanos, mas também da relação HOMEM-HABITAT, dando continuidade a esse Geo-instante para construção de uma Geo-consciência de Geo-cidadania, ou não estivéssemos já numa total visão do sentido da globalização, não da selvagem que vigora, mas daquela que vos pertence continuar como tarefa gigantesca, sob pena de estar em perigo não apenas a Terra mas também o homem e a vida global, homem que, apenas em 50 anos, desbaratou o que a Gaia ofereceu depois de se ter engalanado em festa durante 4 mil e 600 milhões de anos para que estivéssemos aqui.



A esperança


Eu que herdei o passado de que vos falo e atravessei a grandeza e queda do Homem e do Planeta só posso, como ser vivo no fim da linha da vida, confio na juventude, e por isso digo que os jovens portugueses não são já só portugueses, mas sim pessoas globais, apenas se distinguem dos outros jovens pela língua-mãe e talvez por uma alma tão diferente das dos restantes países, alma-colectiva e riqueza nacional a preservar neste mundo global mal entendido de estandardização dos gestos da vida.

Que parte cabe a cada cidadão, e a cada jovem, para manter viva a tradição-memória definidora da nossa cultura, e seguir um bom caminho? Cabe às novas gerações tratar, como trata a sua casa, esta Gaia e dela ser vigilante responsável não apenas em termos de local de habitar nem mesmo de território nacional, já que a Natureza não tem as fronteiras que o Homem desenhou para criar países, pelo que, hoje, no mundo global de gestos e costumes semelhantes, aculturados e hibridados, o que fizermos na nossa “casa” reflecte-se além fronteiras próximas e longínquas, porque só há uma Casa, o Planeta Azul.

A função das árvores

Nos cinco continentes, as árvores, na sua maior diversidade têm todas a mesma função de suportar o mundo e o clima e a vida global.

Formas imponentes à beira rio, nas montanhas geladas ou nos vales, e mesmo nos oásis dos desertos de areia. Esculturas vivas definidoras geoestratégicas e geoclimáticas de todas as longitudes e latitudes do planeta.

Lições de vida do ser e no estar no “lugar identificando-o diferenciadamente, dele tomando a identidade e, aqui sim, o termo sustentável colhe a sua maior expressão e significado. Mas multiressistentes e adaptáveis o homem colheu-as de um lugar e levou-as para mais perto de si, mesmo para ao-pé-da-porta e por isso nos permitiram conhecer de perto o que estaria só tão longe.

E se o país pequenino em dimensão física pela sua situação geo-gráfica-climática na ponta mais ocidental da Europa, solo e relevo, é repositório da maior variabilidade de árvores atlânticas e mediterrânicas, também, recebeu as muitas exóticas para aqui trazidas ao longo de séculos por reis ou viajantes, que tão bem se adaptaram não se sentindo “estrangeiras” nesta “nesga de terra rodeada de mar”. E assim sendo é repositório de espécies arbóreas dos cinco continentes, neste rectângulo “quase” de oiro.

Mas riqueza tamanha foi transformada em “achas para a fogueira” e tal que, desprotegidos os solos a chuva os faz aluir e descarnar até às pedras-mãe (rocha-mãe), fazendo jorrar a pouca vegetação que resta e o solo fértil transformado em lama até entrar na habitação e mesmo em património monumental provocando enxurradas catastróficas, pobreza e dor, apesar de chuvadas com queda pluviométrica normal, própria do clima português de características ancestrais de instabilidade.


Fora da cidade e dentro dela à árvore foi roubada a sua função planetária

Fora da cidade e dentro dela à árvore foi roubada a sua função planetária – vida – beleza – livro de leitura e de aprendizagem também das quatro estações do ano e da sua dimensão de abrigo de outros seres que dela dependem. Na área geográfica de clima planetário equatorial e Ásia das Monções, as árvores são eternamente verdes (abundância de calor e chuva todo o ano – duas estações – das chuvas e do cacimbo).

Cada árvore, porém, ao ser deslocalizada, mantém, em outro lugar, as suas características genómicas.


PLANTAI ÁRVORES


PLANTAI VIDA


Lisboa 28 de Outubro a 8 de Novembro - Bairro de Santo Amaro
Maria celeste d'Oliveira Ramos
engª.silvicultora e arquitecta-paisagista

Refere-se, em seguida, um elemento bibliográfico fundamental nestas temáticas:
Contributos para a Identificação e Caracterização da Paisagem em Portugal Continental (+ volume Açores)”
Editado pela DGOTDU-Projecto co-financiado pela Comunidade europeia - FEDER - Programa Interreg II C – Sudoeste europeu
Edição elaborada pela Universidade de Évora - departamento de Ordenamento Biofísico e Paisagistico, 2002
Coordenado pelos professores arquiectos paisagistas - Alexandre Cancela d'Abreu ,Teresa Pinto Correia e Rosário Oliveira
Sete livros: uma caixa de cartografia das unidades de paisagem do país e um CD – preço 100 euros


Texto-base de conferência proferida pela Arq.ª Maria Celeste Ramos em Novembro de 2006 em Lisboa, na Universidade Nova, FCSH.

Revisto para publicação no Infohabitar e re-ilustrado por António Baptista Coelho, em 11 de Fevereiro de 2007.

Editado por José Baptista Coelho, em 22 de Fevereiro de 2007


Nota do editor:
Acaba aqui este novo excelente e grande artigo de Celeste Ramos que foi editado esta semana e na semana passada aqui no Infohabitar com o título e sub-títulos: “A árvore suporte do mundo no espaço urbano: (I) dos homens-árvore às florestas de resinosas e folhosas; e (II) das árvores/jardins”.
Este artigo corresponde ao texto-base de uma conferência que foi proferida pela Arq.ª Maria Celeste Ramos em Novembro de 2006 em Lisboa, na Universidade Nova, FCSH.


Alguns sites que “falam” de árvores:

http://www.dias-com-arvores.blogsopt.com/

http://arborday.org/trees/majTreesMain.cfm

http://asiatours.net/press/en/images-laos.html

http://www.europanostra.org/images/awards_2004_winners/buckelwiesen2.jpg

http://fount-k.com/~tomo/sumb/yun_2654.jpg

http://www.owlfish.com/weblog/2004/10/toronto-autumn.jpg

http://www.britishacorn.com/tourism/sandalwood/index.html

http://www.fireflybooks.com/travel/new.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Jakarta_silhouetto.jpg