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segunda-feira, dezembro 11, 2017

Dos quartos aos pequenos apartamentos - Infohabitar 622

 Infohabitar, Ano XIII, n.º 622
Dos quartos aos pequenos apartamentos: um novo artigo e links para cinco artigos sobre o tema
por António Baptista Coelho

Caros leitores, nesta edição da Infohabitar, depois de uma pequena introdução encontrarão um novo artigo sobre uma ampla temática que parte dos quartos domésticos e que vai aos grandes quartos autónomos e aos pequenos apartamentos, integráveis em edifícios com espaços e serviços comuns; para além deste artigo são também disponibilizados links para cinco artigos sobre o mesmo tema. 

Em setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições semanais regulares e considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos artigos de reflexão e comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Lembra-se que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já divulgámos, a maior parte dos artigos desta série editorial (editados talvez ao longo de dois anos) não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista - o Blogger.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

Registam-se, em seguida, os artigos já disponibilizados na Infohabitar sobre a temática dos “dos quartos  e do pequenos apartamentos privados” (basta clicar sobre o título para aceder ao respectivo texto):


Dos quartos aos pequenos apartamentos

(novo artigo)

 A eterna escolha entre mínimos e “máximos” de espaciosidade

As temáticas associadas e associáveis à matéria geral dos quartos domésticos são muito amplas, sensíveis e significantes; portanto, não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar, aqui, de forma exaustiva, iremos sim desenvolver, de seguida, uma reflexão geral e informal sobre o tema.
E uma tal reflexão inicia-se, simplesmente, com a ideia geral da caracterização própria e relacional entre quarto mínimo e quarto máximo (esta última uma ideia pouco usada, mas que se julga interessante) e podemos, desde já, apontar que sobre o “quarto mínimo” muito se reflectiu, designadamente, em termos de áreas mínimas, e já menos em termos de dimensões mínimas – que correspondem a matéria essencial – e também muito pouco em termos de áreas e dimensões recomendáveis, que é matéria essencial, designadamente, para a boa adaptabilidade e para a boa apropriação dos espaços de quarto; havendo apenas e sistematicamente, a ideia de se ligar a “tipologia” de quarto mínimo a uma definição da sua ocupação – por uma duas pessoas e pouco mais – e numa perspectiva sempre limitada de se considerar o quarto individual com cama individual e o quarto de casal com cama de casal.
Relativamente à, pouco frequente, ideia de “quarto máximo”, podemos visar a noção ou a “figura” do pequeno apartamento em um único espaço principal marcado por com continuidades visuais caracterizadoras, ainda que, eventualmente, parcialmente repartido em subespaços; e aqui facilmente poderemos imaginar uma unidade do tipo “T0”, que pode ter uma pequena bancada de cozinha, uma boa casa de banho e um conjunto de diversos subespaços razoavelmente caracterizados. E continuando a avançar nesta ideia pode-se considerar como sendo, de certa forma, facultativa/opcional a maior ou menor autonomia desta unidade (pequeno apartamento espacialmente compacto): (i) numa habitação (que ela própria pode ser funcional e ambientalmente muito diversificada), (ii) ou, directamente, num edifício multifamiliar, que pode ter, ou não, espaços, equipamentos e serviços comuns bem desenvolvidos.  
Já poderemos considerar que a capacidade e diversidade de agregação do “quarto mínimo” é, claramente, mais limitada, dirigindo-se, designadamente, para quadros de habitação também mínima, e para situações específicas em que quartos razoavelmente mínimos se agregam, quer em unidades habitacionais especializadas e, por exemplo, dedicadas a pequenos grupos de pessoas idosas ou de jovens, quer em equipamentos específicos e especializados, como hospitais e prisões – estas são matérias bem distintas, mas ambas extremamente especializadas.
E julga-se valer a pena desenvolver este perfil de reflexão, pois no caso da unidade de quarto maximizada ela pode constituir um elemento extremamente maleável na geração de novas tipologias edificadas e funcionalmente mistas (habitação e equipamentos), enquanto no caso da unidade de quarto minimizada ela pode ser um caminho interessante para a disponibilização de um expressivo “maior número” de espaços realmente individualizados, privatizados e bem apropriáveis, integrados em soluções de equipamentos que, de outro modo, continuariam a apostar em quartos para duas, três e até mais pessoas, situação esta que parece poder ser adequada em casos excepcionais , mas não por regra, pois anula muitas das adequadas condições de direito à privacidade pessoal e de adequada apropriação espacial e ambiental.


O quarto como espaço mínimo

Globalmente julga-se que mesmo uma pequena “cela” individual (uma cela que pode ser de um monge ou de um recluso, por exemplo), desde que extremamente bem projectada e pormenorizada (espaço, pormenor, ergonomia, conforto ambiental, relações espaciais, cor, mobiliário, “carácter”, etc.), e desde que integrada num “complexo” que disponha de adequados espaços, equipamentos e serviços comuns  – e aqui a referência a “adequação” é muito específica e poderá ser muito especializada e exigente em aspectos bem distintos dos aspectos da agradabilidade doméstica, aqui abordados, como acontecerá no caso de um estabelecimento prisional (mas nem por isso há que pôr de lado a referida condição do “bom projecto” dos respectivos espaços de cela e comuns) –, será, sempre, mais humana para uma pessoa isolada, do que a “convivência” forçada em espaços, relativamente, maiores, mas partilhados; onde ou ninguém pode exprimir a sua individualidade, ou alguém irá fazê-lo e assim acabar por sobrepor-se à individualidade dos outros.

Haverá, sem dúvida, situações que recomendam a outra opção de partilha do espaço de quarto, quando seja recomendável em termos de bem-estar e de saúde, ou mesmo quando preferida pelos habitantes/utentes – mas aqui há que cuidar bem de como se apura uma tal preferência, que tem de ser expressa de forma bem livre de influências.

Mas atenção que, tal como acontece na concepção de espaços ditos mínimos em habitação de interesse social, este caminho da concepção do quarto mínimo está só ao alcance de um projecto de arquitectura de muito elevada qualidade e que, designadamente, em casos específicos (ex., quartos hospitalares, quartos para idosos, quartos para pessoas com demência, celas prisionais, etc.) deverá articular-se com a participação de diversos especialistas; afinal, uma exigência que não se limita à matéria da concepção de espaços “mínimos”, mas que adquire vital relevância em espaços mínimos.

E há, sempre, que ter cuidado com uma opção por espaços mínimos, havendo que incluir na “opção pelo mínimo”, o valor de tal opção no conjunto da respectiva operação, e sempre que tal avaliação não seja relevante será sempre preferível trabalhar acima dos mínimos espaciais, e designadamente quando o espaço “a mais” não está associado a uma mais significativa disponibilização de instalações e de equipamentos; isto, é, quando o espaço a mais é, apenas, um pouco mais de chão, tecto e paredes simples – e esta é uma noção que interessa aprofundar em futuros artigos e que decorre, seja de uma reflexão lógica sobre o assunto, seja de testemunhos de promotores de habitação de interesse social, que o afirmaram claramente.

E quando a opção for por espaços mínimos há que a tratar “especificamente” e há que a “suavizar” e pormenorizar nessa mesma perspectiva de “pequeno espaço”, isto é: (i) assumi-la em termos de caracterização da solução, de uma forma, sempre que possível, bem distinta do desenvolvimento de um “quarto clássico”, mas minúsculo e até, eventualmente, com esse pequeno dimensionamento visual e negativamente reforçado por um grande pé-direito (altura de paredes); (ii) tratá-la de modo muito benéfico no que se refere a aspectos de conforto ambiental, com um especial destaque para a relação visual com o exterior (vistas agradáveis e estimulantes e bem visíveis do interior, até em posições sentadas e/ou deitadas), para adequadas condições (exposição e controlo) da luz natural e da insolação e para excelentes condições de isolamento sonoro (e pensando ao contrário é só imaginar as péssimas condições oferecidas por um quarto minúsculo, “sem” vistas, frio e ruidoso); (iii), se possível, pormenorizá-la “apaixonadamente” e seguindo um pouco a tipologia de microarquitectura de interiores, “superergonómica”, usada, por exemplo, em iates e autocaravanas.

Mas importa aqui sublinhar que o que acabou de ser apontado para uma adequada geração de quartos mínimos tem uma aplicabilidade genérica para qualquer quarto mínimo, mas uma aplicabilidade específica para exercícios bem dirigidos para a procura de espaços de quartos/espaços pessoais mínimos e extremamente bem adequados em termos de ergonomia e caracterização; o que corresponde a mais uma matéria a desenvolver em outros textos e que é, aliás, matéria muito querida de grandes nomes da Arquitectura e da Filosofia, designadamente, quando se dedicam à concepção dos espaços por vezes designados como pequenos abrigos e “cabanas”.


O quarto como espaço “máximo” ou pequena mas agradável habitação

Acabámos de abordar, sumariamente, os quartos como espaços mínimos e vamos agora seguir um mesmo caminho no que se refere a considerar os quartos como espaços “maximizados”, constituindo verdadeiras pequenas habitações.

E, desde já, se volta a lembrar que esta é uma reflexão, que se deseja útil, mas que se deverá articular com muitas outras reflexões sobre o assunto, que vale bem um adequado aprofundamento, seja pela importância fulcral que, para todos nós, sempre teve e terá a boa concepção dos nossos quartos privados – e atente-se que, mesmo aqui, se está a evitar usar a designação, considerada limitativa, de “quartos de dormir” –, seja porque há novas e renovadas funções a considerar nos nossos quartos privados, seja porque há todo um “novo” leque tipológico a considerar no desenvolvimento de quartos privados, seja considerando aspectos de vital especialização (ex., de hospital), seja considerando o (res)surgimento de um interessante e amplo leque de tipologias em que os quartos privados podem/devem ser, também, praticamente, pequenas habitações, ou pequenas células habitacionais, mais ou menos, autonomizadas relativamente a um edifício em que se integram e que poderá dispor de um também amplo leque de espaços, equipamentos e serviços comuns e até, eventualmente, de acesso/uso público.

Importa, ainda, sublinhar que será, naturalmente, muito benéfico, para não dizer mesmo obrigatório, que não existam, por regra e considerando as situações especializadas à parte, fronteiras rígidas entre intervenções que integrem células habitacionais privadas mínimas e outras maximizadas, sendo, claramente, muito desejável que se desenvolvam soluções mistas a este nível, e que, designadamente, tratem as suas células mínimas de forma muito adequada em termos dos seus conteúdos espaço funcionais e ambientais específicos e que não façam transparecer essa condição “mínima” para além da respectiva porta de entrada.

E aqui se avança para o desenvolvimento de conjuntos edificados que integrem uma expressiva mistura de quartos e pequenos apartamentos privados com variadas dimensões, e que proporcionam, assim, a sua ocupação por pessoas com uma expressiva diversidade de recursos financeiros, numa “mixagem” sociocultural que tem os seus riscos e exigências de gestão, mas que parece ser caminho essencial a seguir, designadamente, em estruturas habitacionais que integrem pessoas idosas – e já agora importa referir que uma tal “mixagem” raramente foi feita, entre nós, ao nível da contiguidade entre edifícios habitacionais para diversos grupos socioculturais.

E faz-se, ainda, uma referência para a importância que assume a referida mistura  de quartos e pequenos apartamentos privados com variadas dimensões, que são dirigidos para pessoas com diversidade de recursos financeiros e que, devido a essa expressiva diversidade dimensional poderão mobilar e equipar os seus espaços privados de forma adequada e compatível com os seus meios, evitando-se negativas situações de espaços deixados praticamente vazios de mobiliário por evidente ausência de meios do habitante.

Dito isto, que é, talvez, o mais importante, podemos considerar que uma pequena célula residencial ambientalmente “compacta”, tal como tem vindo aqui a ser abordada, e que seja razoável ou mesmo maximizadamente tratada em termos dos seus conteúdos espaço funcionais e ambientais específicos, poderá ter como características, designadamente:

(i) uma adequada espaciosidade, privacidade, multifuncionalidade e capacidade de apropriação da zona ou quarto mais dedicado ao dormir/repousar ;

(ii) uma adequada espaciosidade, capacidade convivial, multifuncionalidade e capacidade de apropriação da zona mais dedicada ao estar;

(iii) capacidade específica para o desempenho de uma dada actividade especializada, que possa ser relativa ou totalmente isolada;

(iv) capacidade para receber visitantes em pernoita (que pode ser razoavelmente mínima em termos de condições específicas);

(v) razoável capacidade e autonomização/isolamento para preparação de refeições; (vi) boas capacidade e agradabilidade nos espaços integráveis na casa de banho;

(vii) possibilidade de estar em pequeno espaço exterior privado e com relativa ou total privacidade;

(viii) e razoável capacidade de recepção, representativa e protegendo a privacidade dos restantes espaços privados. Globalmente um programa habitacional “compacto”, mas “maximizado”, deste tipo pode corresponder, num limite máximo, a uma pequena tipologia T2 ou mesmo "T2,5", mas pode haver integrações espaço funcionais diversas que “comprimam” a solução sem aspectos negativos significativos.

Importa, ainda, referir que, naturalmente, uma unidade habitacional, mesmo baseada num grande quarto (com múltiplas zonas) ou numa pequena habitação “compactada”, mas com diversos compartimentos, se quisermos que ela seja bem integrável em conjuntos residenciais com espaços e serviços comuns, não deverá ser espacialmente excessiva, até porque se pretende, como se referiu, que exista uma adequada integração entre unidades com diversos dimensionamentos e porque será desejável a presença de um número razoável de “condóminos” ou vizinhos.

E neste sentido poderemos avançar que a referida maximização espacial deverá, em princípio, respeitar uma espaciosidade designável como razoável, isto é, claramente acima dos mínimos, com expressiva capacidade de adaptação e usos múltiplos e com grande capacidade a nível da circulação interna, mas não caracterizada pelo uso do espaço “a mais”, globalmente justificável apenas como “espaço representativo”; e julga-se que entrar nesta dimensão das unidades quartos/mini-habitações marcadas por este espaço representativo far-nos-ia passar para uma outro quadro de reflexão, que neste momento não nos interessa.

Mas atenção que, seja nas unidades “mínimas”, seja nas “maximizadas”, a matéria da circulação interna e da multifuncionalidade no uso dos espaços e nas tarefas domésticas deve ser especificamente cuidada, considerando que as pessoas à medida que envelhecem habitam melhor com suplementos dimensionais e funcionais.


Complemento da caracterização das pequenas unidades habitacionais autonomizáveis

Esta reflexão deveria iniciar outro texto específico, mas o que importa, desde já, salientar é que uma pequena unidade habitacional “compacta”, autonomizável e agregável numa unidade com forte potencial de usos comuns – do grande quarto ao  apartamento compacto com poucos quartos – deve caracterizar-se não só pela funcionalidade, mas também por adequadas e exigentes capacidades no que se refere à boa apropriação e à agradabilidade doméstica proporcionadas; de certa forma produzindo-se como que pequenas unidades habitacionais mas com uma muito expressiva capacidade de vivência doméstica, privada e própria de cada um ou de cada casal – quase que numa “compactação” ou intensificação estratégicas do ambiente e das funcionalidades proporcionadas numa habitação maior e significativamente isolada.

Não será fácil assegurar este tipo de condições, com certeza que não, mas parece ser esse o caminho certo e tudo que seja contrário a tal caminho deve ser claramente evitado e negado; e apenas para dar alguns exemplos, podem-se apontar situações de equipamentos residenciais que agregam pequenas unidades habitacionais e serviços comuns e globalmente caracterizados por: mobiliário repetido, “frio” e mal desenhado; ausência de um arranjo de arquitectura de interiores completo e adequado, e incluindo os espaços comuns; espaços comuns com carácter “hospitalar”, frio e “nu” (sem adequada integração de elementos de arranjo também nas paredes).

Exemplos de bons caminhos nestas matérias associadas ao desenvolvimento de pequenas unidades habitacionais autonomizáveis e agregáveis numa unidade com forte potencial de usos comuns também se apontam: específico e muito cuidadoso tratamento dos espaços de acesso às unidades privadas; aconselhamento e apoio na decoração dos espaços privados, visando-se a criação de ambientes agradavelmente “domésticos”; disponibilização de recantos e espaços para integração de mobiliário da pessoa/família; cuidadosa estratégia de iluminação natural e artificial; etc., etc.

De certa forma poderemos sintetizar que estas unidades habitacionais autonomizáveis para além de expressivamente funcionais têm de ser expressivamente “bem habitáveis” e agradáveis de viver, equilibrando com estas últimas características os aspectos de funcionalidade especializada que poderão ter (ex., no apoio a condicionados na mobilidade e na percepção), e os aspectos de expressiva ou relativa redução e concentração espacial que, habitualmente, também terão; mas conceber tudo isto, sublinha-se, exige um excelente programa e um excelente projecto de Arquitectura residencial e urbana, deve “beber” em muitos casos de referência actualmente já disponíveis, tratando-se de um processo que não está, directamente, limitado por questões financeiras, pois a diferença entre um bom e um mau projecto reflecte-se numa operação basicamente viável ou inviável, e uma operação que deve ser considerada, seja em termos da sua dimensão estritamente económica, seja em termos da sua potencial relevância humana e social, e neste sentido e desde já se recomenda um caminho organizacional que passe por uma vertente cooperativa e/ou associativa, com expressiva sensibilidade social de proximidade, embora, naturalmente, associada a uma componente “empresarial” que assegure adequada continuidade e vitalidade à iniciativa.

Antes de concluir este subtema relativo à caracterização das pequenas unidades habitacionais autonomizáveis deixa-se uma pequena reflexão para futuro, uma reflexão que se dirige, basicamente, para um amplo quadro de soluções habitacionais e urbanas que se podem distribuir entre dois “conceitos limite”, que definem um amplo leque de soluções: das casas/quartos aos recantos/casas.

As casas/quartos são aqueles espaços que acima abordámos, casas/habitações apenas relativamente espaçosas, e onde uma pessoa só ou um casal pode “dominar”, facilmente, boa parte do respectivo espaço, mas onde será possível o isolamento ou o trabalho específico em subespaços específicos; enquanto os recantos/casas serão os grandes quartos multifuncionais ou, até e no limite, verdadeiros subespaços onde conseguimos concentrar e expressar boa parte da nossa vida e identidade; depois, depois ficará à conta da imaginação e da racionalidade projectuais a capacidade para se gerarem soluções que possam “casar” estas individualidades (da pessoa ou do casal, e perdoem esta liberdade) com uma agradável e funcional convivência, no verdadeiro sentido do termo (vivência em comum), no quadro de conjuntos de edifícios e espaços de uso comum ou público verdadeiramente adequados e estimulantes.

Sobre a variedade das unidades habitacionais autonomizáveis e agregáveis

Lembremos, agora e para concluir, que se começou com uma reflexão sobre “simples” quartos e se acabou com ideias sobre habitações; e assim se revela um novo “jogo da glória” – novo, porque distinto do “jogo da glória” urbano que, desejavelmente, nos deve levar, com naturalidade e motivação, da nossa vizinhança, ao pé de casa, ao centro da cidade e vice-versa –, um “jogo da glória” interior, privado e comum, que nos deve apoiar e fazer viver, com satisfação, entre o nosso espaço pessoal e o espaço de convivência do nosso agregado familiar, ou outro agregado social em que habitemos, numa perspectiva que, potencialmente, conjugada com um amplo leque de espaços, equipamentos e serviços comuns e/ou de uso público, constitui, provavelmente, a principal unidade agregadora de um enorme e tão pouco explorado leque tipológico residencial.

e a estas matérias voltaremos; mas, salienta-se que, tal como já se apontou, logo no início da edição, na lista de cinco artigos acima disponibilizada encontrarão, desde já, outros conjuntos de reflexões.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 622
Dos quartos  aos pequenos apartamentos privados: um novo artigo e links para cinco artigos sobre o tema
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, maio 29, 2016

Grande variedade de quartos - Infohabitar n.º 584

Infohabitar, Ano XII, n.º 584

Grande variedade de quartos - Infohabitar n.º 584

António Baptista Coelho
Artigo CI da Série habitar e viver melhor

Atualidade:

4.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono, desta vez associado a uma série de atividades, e a diversas cidades, decorrerá novamente em Portugal, entre 5 e 10 de março de 2017; muito em breve, aqui na Infohabitar, terá início o lançamento do 4.º CIHEL.

Neste artigo da “Série habitar e viver melhor”, terminamos a abordagem da temática do projeto arquitetónico dos quartos domésticos.

Várias zonas de quartos


Naturalmente, consoante a dimensão da habitação, mas podendo aplicar-se, logo, a partir de habitações com apenas dois quartos – habitualmente designadas por T2, o que se refere a Tipo 2 (quartos), podemos edevemos privilegiar o desenvolvimento de várias pequenas zonas de quartos – por exemplo cada uma delas com um ou dois quartos, uma casa de banho e arrumações comuns –, considerando-se que cada uma delas possa ser utilizada com relativa independência em cada um dos seus respectivos quartos, ou, eventualmente, de forma unificada mediante a utilização de cada um dos dois quartos por uma pessoa, ou através do uso de um dos quartos como espaço de dormir e o outro como uma saleta privada, ou como espaço de trabalho ou lazer recatado.

Uma habitação mais adaptável e estimulante

Uma ideia como esta resulta na organização diversificada de uma habitação em várias zonas mais íntimas ou mais privadas, o que atribui a essa habitação um potencial de adaptabilidade e de adequação muito superior ao que caracteriza uma habitação com uma única zona “íntima” ou de quartos; o que naturalmente resultará numa habitação mais caraterizada e estimulante.
Esta opção também tem a dupla vantagem de proporcionar uma integração da casa de banho mais “indirecta”, relativamente ao espaço de dormir, o que será interessante no que se refere à separação das respectivas funções e de permitir que uma casa de banho possa funcionar praticamente como “privativa”, por exemplo, de dois quartos.


Verdadeiras “suites”

Podemos, ainda, sublinhar que se fizermos suites, então devemos tirar desta linha de desenvolvimento doméstico todo o partido que se já possível, na referida perspectiva de dotar a habitação com excelentes e diversos níveis de leitura e vivência, podendo chegar-se a este nível mais privado com a revelação de um ambiente extremamente cativante, humanizado, funcionalmente diversificado e atraentemente ligado ao exterior.

Espaços domésticos bem individualizados e apropriados

Há que considerar que cada criança "luta pela possibilidade de jogo, de luz, de porta aberta...", podendo sentir-se demasiado isolada se dormir só, num compartimento clássico, com acesso por uma zona de circulação "impessoal", podendo ser criados grupos de alcovas, ou microcompartimentos individuais (mínima mas completamente equipados, com cama, posto de trabalho e mini-estantes), que, eventualmente, rodeiem um espaço comum de jogos e convívio (1).

E evidentemente o que aqui se refere para as crianças aplica-se, talvez ainda com maior força, aos adolescentes e jovens adultos, que devem ter o seu quarto, ou no mínimo um seu “canto” bem privatizado e apropriável.
Desta forma proporcionam-se espaços privatizados, que até podem ser espacialmente contidos, mas bem articulados por espaços mais comuns e diversificados, que não se limitam à habitual sala comum, tão disputada e tantas vezes pouco apropriável, em favor de um certo sentido de representação/formalidade doméstica.

Alcovas

Christopher Alexander (2) aponta alguns aspectos relativos ao desenvolvimento de alcovas para dormir e repousar, sublinhando que elas devem ter configurações simples e pormenorizações claras, podem ter áreas relativamente folgadas (caracterizando-as como verdadeiros espaços privativos mas não totalmente autonomizados), devem poder ser vedadas em termos de privacidade visual, e devem ter condições de iluminação e ventilação bem garantidas, desejavelmente, por janela própria.




Fig. 01:  pequenos quartos em pequenas habitações – neste caso do tipo T1  - sem portas entre boa parte das diversas zonas domésticas – habitação integrada no conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Asklund & Jansson.


Fig. 02: outra imagem da mesma habitação (vista a partir da zona de dormir). 

Diversidade de quartos

Da grande suite super-equipada à alcova mínima há um amplo leque de possibilidades de figuras formais e funcionais de quartos.
Finalmente, há que sublinhar duas claras tendências, bem distintas, mas ambas bem efectivas nos dias de hoje e associadas aos quartos.

Quartos e suites para idosos

Somos uma sociedade cada vez mais idosa e no que se refere a novidades e tendências nesta matéria do dormir doméstico sublinha-se a importância que tem, cada vez mais, o dormir de pessoas idosas, que tem reflexos: funcionais, no que se refere a uma mais desenvolvida facilidade nas actividades de apoio ao dormir/repousar; ambientais, por exigências de privacidade, sossego e segurança acrescidas; de relação com casas de banho e aqui esta integração ou grande proximidade tem uma importância muito especial e deve associar-se a boas condições no uso dessas casas de banho; e de potencial desenvolvimento de “pequenos mundos” razoavelmente privativos e potencialmente bem apropriados, que permitam uma vivência pessoal aprofundada, embora em grande relação com a restante família, ou numa retirada estratégica para um espaço mais controlável e multifuncional dentro de uma casa maior.

É, portanto, essencial, que os espaços da habitação dedicados aos quartos tenham acrescidas e exigentes condições de sossego e conforto ambiental.

Quarto de trabalho

E a outra tendência actual bem vincada e que já tratámos neste trabalho refere-se à habitação que, cada vez mais, se torna um sítio de trabalho, e mesmo mais: um sítio de agregação de pessoas que além de lá habitarem, lá, também, desenvolvem as suas actividades profissionais segundo um horário extremamente flexível e cada vez mais numa potencial perspectiva de "jornada contínua"; e esta matéria tem implicações seja na espaciosidade de cada quarto - sítio de dormir, lazer e trabalho -, seja na sua localização na habitação, que não deve estar relegada/degredada para a tal zona íntima, onde "antes", essencialmente, se dormia, e hoje se terá de dormir e trabalhar, e atenção que, cada vez mais, não é uma única pessoa a precisar de um espaço deste tipo, praticamente todos os membros da família têm essa necessidade.

Quarto como lugar de individualidade

Para concluir esta temática salienta-se que um outro aspecto a ter em conta de forma muito específica nestas temáticas habitacionais ligadas à concepção dos compartimentos/quartos, é a importância que pode ter o quarto/compartimento individual numa sociedade cada vez mais individualista e composta por muitas pessoas sós, seja numa perspectiva de habitações integradas por quartos/compartimentos com uma forte capacidade de apropriação e vivência individual e de compatibilidade de agregação na totalidade da habitação, durante muito longos períodos temporais.

A pequena habitação – pouco mais do que um grande quarto

Tudo isto obriga também a uma estruturação específica de tais habitações, seja numa perspectiva reforçada e diversificada de oferta de quartos/habitações dos tipos T0 ou T1, extremamente bem elaborados num equilíbrio sólido entre as funções clássicas do quarto e as restantes funções de uma habitação, incluindo nelas as novas funções do trabalho em casa.
Pela importância que se reconhece a estas matérias nas novas formas de habitar elas são um pouco mais desenvolvidas na parte final desta série editorial, num conjunto de artigos referido ao tema "das novas grandes habitações de uso livre e adaptável aos renovados quartos/casas".

Notas:
(1)Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 601 a 603.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 762 e 763.

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 584
Artigo CI da Série habitar e viver melhor

Grande variedade de quartos - Infohabitar n.º 584

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



domingo, maio 22, 2016

Quartos bem habitáveis - Infohabitar n.º 583


Infohabitar, Ano XII, n.º 583

Quartos bem habitáveis - Infohabitar n.º 583

António Baptista Coelho
Artigo C da Série habitar e viver melhor


Atualidade:

O 4.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono - 4.º CIHEL, desta vez associado a uma série de atividades, e a diversas cidades e visitas, decorrerá novamente em Portugal, entre 5 e 10 de março de 2017; muito em breve, aqui na Infohabitar e nas entidades organizadoras, terá início o lançamento do 4.º CIHEL.


Neste artigo n.º 100 (C) da “Série habitar e viver melhor”, continuamos a abordar a temática do projeto arquitetónico dos quartos domésticos.


Problemas correntes nos quartos domésticos

Quando tratamos dos quartos o problema mais frequente e grave é o da sobreocupação, um problema que terá resultados muito negativos em termos de saúde física e psíquica, considerando, designadamente, aspectos de eventual falta de ventilação e de reduzida volumetria de ar interior, muito possíveis em compartimentos dimensionalmente reduzidos (exemplo, com reduzida altura) e, naturalmente, graves problemas de ausência de privacidade e de possibilidade de apropriação de um espaço mais individualizado.
Nesta matéria há interessantes bases de dimensionamento dos quartos para diversas pessoas e salienta-se, aqui, uma simples "fórmula": devem ter uma área mínima por pessoa de 6.00, 5.50 e 5.00m², consoante se destinem a 2, 3 e 4 ocupantes; sendo a área total, respectivamente, 12.00, 16.50 e 20.00m² (1). E é interessante aqui perceber a criação de compartimentos entre 12 e 20 m2, portanto desafogados espacialmente, numa opção que deverá ser cruzada, por exemplo, com as tendências sociais vigentes em termos de composição de família.

E há aspectos críticos no uso dos quartos, entre os quais se destacam e  apontam, em seguida, alguns.
Nas zonas sociais dos fogos dúplex deve existir, pelo menos, um quarto; só assim a respectiva habitação não ficará hierárquica e funcionalmente diminuída, com uma natural tendência para aspessoas se acumularem na zona social, nem que seja devido a uma tendência natural para poderem ir optando entre pequenos períodos de convívio e de "privacidade em companhia", sem terem de ultarapassar o desnível sempre que façam tal opção.

O uso multifuncional dos quartos, ou o seu uso específico por idosos e doentes, obriga a que em todas as habitações deve haver a possibilidade de posicionar uma cama, perpendicularmente à respectiva parede de encosto; esta é a regra "básica", que, no entanto considero claramente insuficiente, e que deveria ser substituída por uma contrária que referisse que, apenas, a  partir de uma dada tipologia com vários quartos se aceita que em um deles não seja possível optar por essa posição da cama.

A actividade de fazer e desfazer as camas e as tarefas de limpeza e arrumação que lhes estão directa e indirectamente associadas constituem e constituirão boa parte e a parte mais “pesada” da lide da casa, situação esta que deve obrigar a cuidados especiais e exigentes de dimensionamento e acabamento dos quartos. No caso das camas encostadas às paredes deve ser possível desencostá-las, cerca de 0.60m, de modo a facilitar o "fazer a cama" e a permitir boas condições para tratar pessoas doentes e acamadas (condição importante nas camas em nichos, onde se deve prever uma distância mínima de 0.40m entre um dos topos da cama e a parede do nicho).


Equilíbrio de espaciosidade entre zonas domésticas

Um aspecto importante é o desenvolvimento de um equilíbrio entre o espaço dedicado aos quartos e às zonas de convívio doméstico, equilíbrio este que deverá prolongar-se na zona de quartos por uma harmonização entre soluções com mais quartos pequenos ou com menos quartos maiores; tais condições poderão ser objecto de opções iniciais de projecto, podendo prolongar-se, posteriormente, por diversas acções de reconversão (exemplo, ligação e separação de compartimentos).

De certa forma um tal equilíbrio refere-se a uma escolha importante e básica sobre como organizar uma habitação, designadamente, no aspecto fundamental da opção por uma maior zona privada ou, inversamente, por uma zona mais socializadora predominante; ou ainda por um espaço amplo e convertível em ambientes dedicados a diversas ocupações e actividades, que poderão ir evoluindo no tempo e consoante  evolução das necessidades e dos desejos dos habitantes. Uma coisa é certa: muitos quartos regulamentarmente mínimos não configuram uma solução com adequado valor de uso.



Fig. 01:  entrada de quarto (ver figura a seguir) – habitação integrada no conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Moore, Ruble, Yudell, Bertil Öhrström.

Fig. 02:  pequenas zonas específicas no mesmo quarto; o espaço não é tudo, pois é essencial definir zonas e atribui-lhes funções potenciais e distintas (como é visível na figura); mas tais cuidados exigem um excelente projeto de arquitetura e bem pormenorizado – habitação integrada no conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Moore, Ruble, Yudell, Bertil Öhrström.



Várias zonas nos quartos

Os quartos devem proporcionar virtualidades de ocupação e de mudanças de usos e não serem obstáculos a tais mutações, proporcionando, no conjunto dos quartos da casa, diversos tipos de ocupação – por exemplo através de um ou dois quartos para dormir e/ou estar, mais perto da entrada da casa e fora da “tradicional” zona de quartos/zona íntima – e de número de ocupantes, seja numa versatilidade adequada à eventual recepção de muitas pessoas, seja numa adequação simples à vivência por poucas pessoas ou mesmo uma pessoa sozinha, reduzindo-se os associados aspectos de solidão.

Estas matérias são muito práticas pois nem é difícil propiciar um espaço amplo e multifuncional (por exemplo, ligando cozinha, sala, quarto(s) e entrada) que receba bem uma festa familiar, e, num sentido oposto um grande quarto ou uma sala em dois espaços e com uma zona mais recatada podem constituir excelentes sítios de vivência multifuncional, por exemplo, para uma pessoa só e idosa.


Várias zonas de quartos

A disposição dos quartos quando feita não exclusivamente na “tradicional” zona íntima é também um aspecto importante na abertura da habitação a mudanças nos tipos de uso e nas respectivas disposições de mobiliário (por exemplo, quarto que se transforma em saleta, quarto que evolui para biblioteca, quarto que se liga a uma sala contígua).

Um aspecto fundamental é que os quartos sejam dispostos, preferencialmente, nas zonas da habitação mais sossegadas e recatadas relativamente à vida urbana e nesta matéria os aspectos de privacidade acústica são estratégicos, mas, frequentemente, esquecidos.

Quartos multifuncionais

Quando se abordaram os aspectos de expressiva multifuncionalidade nos quartos de casal e de crianças e jovens, atribuindo-lhes outras actividades e outros ambientes que não os exclusivamente ligados ao “dormir” está a seguir-se a ideia do desenvolvimento de um rico e diversificado nível pessoal na habitação, um nível onde se pode estar sozinho, mas ao qual se pode trazer algum convívio e um leque bastante amplo de actividades e de gostos de como viver e de como decorar os espaços mais pessoais.

E naturalmente a habitação ganhará em actividades, ambientes e diversidade com uma tal opção, assim como ganhará, também nesta perspectiva de enriquecimento funcional e ambiental (em termos de arquitectura de interiores) com a eventual disseminação nos espaços de estar e mais sociais de sub espaços e de recantos onde seja possível repousar e até, eventualmente, dormir.


Quartos muito completos – “suites”

Uma das actuais tendências no desenvolvimento dos espaços domésticos refere-se à criação de “suites”, cuja caracterização funcional e ambiental pode ser sintetizada pela solução do quarto de hotel com pequena entrada privada, casa de banho privativa, espaço de vestir, zona de cama, zona de toucador e/ou de pequeno escritório, e pequeno espaço de estar; isto considerando a solução maia corrente que, naturalmente, se concretiza em opções mais e menos espaçosas e equipadas. (2)

Considera-se que esta é e será uma tendência interessante no que se refere ao desenvolvimento do já apontado enriquecimento dos diversos níveis de leitura e de vivência do espaço doméstico, em camadas sobrepostas e mutuamente vitalizáveis. Mas apenas e só se um tal desenvolvimento de “pequenos mundos privados” não afectar, negativamente, o restante desenvolvimento doméstico, o que por vezes e infelizmente acontece no caso da promoção de habitação de interesse social; e, por exemplo, nesta perspectiva faz sentido a solução, apresentada por Neufert (3), de conjugação de dois quartos, servidos por um pequeno corredor privativo que dá acesso a uma casa de banho comum a esses dois quartos. Por outro lado importa considerar se tais desenvolvimentos privados não afectam o potencial de adaptabilidade e de convertibilidade da habitação no seu todo.

Notas:
(1) MHOP; LNEC, Instruções para Projectos Promovidos pelo Estado (IPHPE), FFH (Documento 5, p. 22)
(2) Neufert considera que as suites se integram melhor nos ângulos dos edifícios, permitindo uma diversificação das fontes de luz natural e, consequentemente, uma mais fácil e favorável criação de zonas diferenciadas; e ainda segundo o autor os quartos/suites podem dispor-se dois a dois, simetricamente, deixando-se um espaço central para varandas ou balcões – Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 334.
(3) Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 334.

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XII, n.º 583
Artigo C da Série habitar e viver melhor

Quartos bem habitáveis - Infohabitar n.º 583

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.