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domingo, fevereiro 20, 2011

334 - CONSTRUIR SEGURANÇA: Prevenção do crime através da concepção do espaço - Infohabitar 334

Infohabitar, Ano VII, n.º 334

Breve nota de introdução
É sempre com um gosto muito especial que acolhemos no nosso Infohabitar um artigo de um novo colaborador desta revista semanal, que aborda os aspectos muito amplos da qualidade do habitar num verdadeiro sentido de vivermos um dia-a-dia que verdadeiramente nos motive.
Assim acontece aqui, hoje, nesta 334.ª edição do Infohabitar, com o grande e interessante artigo de Daniela Fernandes, Subcomissário da PSP, que nos introduz aos aspectos da "prevenção do crime através da concepção do espaço", uma matéria que foi tratada nas últimas duas edições da nossa revista, e que neste artigo é apresentada de uma forma sintética e historicamente estruturada, proporcionando caminhos lógicos de aprofundamento disciplinar e cooperando na divulgação de uma temática, que é urgente ter em conta num ordenamento urbano de pormenor que se baseie numa plataforma técnica multidisciplinar, e que, infelizmente, entre nós, tem sido uma matéria ainda pouco considerada na formação superior dos técnicos ligados a esse ordenamento.
Saúda-se, portanto, a colega Daniela Fernandes e deseja-se que esta seja, apenas, a primeira de muitas participações no nosso Infohabitar.
E, já agora, avisam-se os leitores que, na próxima semana, teremos um interessante artigo sobre a importância da rua no bom viver da cidade; e a rua bem viva e vivida é factor essencial da segurança urbana.

António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar


CONSTRUIR SEGURANÇA:

Prevenção do crime através da concepção do espaço
Daniela FernandesSubcomissário da PSP

Pensar no espaço construído para a prevenção do crime
O crime é um fenómeno muito complexo que se integra na sociedade urbana em que vivemos, para o qual não existe uma fórmula universal capaz de o fazer desaparecer, existindo, no entanto, formas de o prevenir. Segundo Paul e Patrícia Brantingham (1981), o crime é caracterizado por quatro dimensões: a lei, o infractor motivado, a vítima/alvo vulnerável e o ambiente favorável.






Fig. 01 - relações entre agressor, vítima/alvo e local do crime, fonte: Paul e Patricia Brantingham, 1981

Assim, poderá partir-se do princípio de que as estratégias preventivas deverão incidir tanto no potencial autor do crime e na vítima, como nas características do espaço onde ocorre o ilícito criminal.

Desde 1950, muitas reflexões a nível mundial têm vindo a explorar a manipulação do espaço, como forma de prevenir e reduzir a criminalidade e, consequentemente, aumentar os níveis de segurança. Autores como Jacobs (1961), Newman (1972), Jeffery (1971,1977) e Crowe (1991) começam a encarar o espaço urbano, a forma como este está concebido e o tipo de utilização dado ao mesmo, como um possível factor criador ou inibidor de oportunidades para a prática de crimes e incivilidades. Com estes autores começam a surgir conceitos, encarados como abordagens preventivas, que explicam a influência do espaço físico nas ocorrências criminais.

Evidencia-se o conceito Defensible Space e o conceito CPTED, assentes na ideia de criação de um espaço defensible através de estratégias preventivas voltadas para a manipulação das características arquitectónicas e urbanísticas desse espaço. Merece especial destaque a 2ª geração da CPTED, desenvolvida por Crowe, pois esta abordagem não se limita a incidir sobre as características físicas do espaço, incorporando também uma preocupação sobre a componente social do mesmo.






Fig. 02 - Jane Jacobs: fonte www.listal.com/viewimage/13718277

1. Os olhos postos na rua (Jane Jacobs)
O trabalho mais influente acerca do ambiente urbano e da sua relação com o crime foi, provavelmente, a obra The Death and Life of Great American Cities, publicada em 1961 por Jane Jacobs. Nesta obra, esta jornalista, especializada em assuntos de arquitectura, “propõe uma nova forma de ver a relação entre a degradação urbana e o crime” (Fernandes, 2007:38), defendendo que ao restabelecer o tráfego pedestre diminuía-se, consequentemente, as actividades transgressivas, devido ao que ela denominou de Eyes on the street.

Para Jacobs, as ruas da cidade são inseguras quando estão desertas, isto é, a pouca utilização de determinados espaços potencia a ocorrência de crimes por falta de vigilantes. Neste sentido, segundo a autora, as bases do funcionamento equilibrado de um espaço urbano podem ser resumidas da seguinte forma (Fernandes, 2007:40):

(1) Demarcação clara entre o espaço público e privado;
(2) Vigilância por parte daqueles que habitam na zona e exercem o controlo social informal;
(3) E por último, passeios que proporcionem uma utilização contínua, de forma a aumentar a vigilância e, consequentemente, a segurança.

Jane Jacobs aproximou-se das questões da morfologia urbana e deu um dos primeiros passos no sentido da recuperação das formas tradicionais do urbanismo. “De acordo com ela os grandes arquitectos não tinham compreendido que as cidades eram seres orgânicos, constituídas por uma miríade diária de interacções sociais e económicas, e os seus edifícios, nomeadamente os grandes prédios, interferiam nesse processo e eram potenciadores de crime” (Fernandes, 2007:41).


2. Defensible Space (Oscar Newman)





Fig. 03 - Oscar Newman: fonte: www.desensiblespace.com/

Abraçando o espírito de Jacobs, Oscar Newman defendeu a importância da concepção e do ordenamento do espaço físico, no que diz respeito à prevenção criminal, lançando em 1972 o seu conceito Defensible Space exposto no seu livro Defensible Space: Crime Prevention Through Environmental Design, onde concentra a sua análise nos bairros sociais. Tal como Jacobs, este Arquitecto estava convencido de que a deterioração das habitações sociais americanas se devia, em parte, à má concepção do espaço e à falta de interacção do mesmo, pois esta má concepção das habitações sociais provocava o desânimo nos residentes, que deixam de responsabilizar-se pelo espaço público e de exercer os normais instintos de territorialidade (Walsh, 1999:42). Neste sentido, Newman afirmou que o aumento da visibilidade e a separação dos espaços, em áreas atribuídas a um pequeno número de residentes, incentiva ao aparecimento de um sentimento de territorialidade e a uma maior capacidade de controlo dessa área, uma vez que, presumivelmente, os eventuais infractores perceberiam esta atitude por parte dos cidadãos, abstendo-se de praticar ilícitos criminais nessas áreas.

Para este autor, o Defensible Space é um conjunto de estratégias capazes de reestruturar os espaços residenciais das cidades, tornando-os controlados pela comunidade que os partilha. Estas estratégias englobam barreiras simbólicas ou reais, as áreas de influência fortemente definidas e o aumento das oportunidades de vigilância, tudo articulado para criar um espaço capaz de ser controlado pelos seus residentes (Newman, 1996:2).

Newman abordou, ainda, a graduação tipológica do espaço: espaço público, semipúblico e privado, e, segundo este autor, “o espaço torna-se mais defensável se existirem demarcações claras” entre estes tipos de espaços (Fernandes, 2007:44).






Fig. 04 - Esquema da graduação do espaço - privado, semi-privado, semi-público, público - segundo Oscar Newman, fonte: Oscar Newman, 1972.

A inexistência de uma delimitação rígida dos espaços torna-os “impessoais” e “anónimos”, o que leva a uma ausência de vigilância por parte dos residentes que não percepcionam o espaço como sendo seu (Heitor, 2001:8).

O conceito Defensible Space é composto por quatro princípios essenciais, que funcionam individualmente ou em conjunto, para ajudar na criação de um ambiente urbano mais seguro (Fernandes, 2007:44):

a. Territorialidade: capacidades do espaço físico para criar áreas de influência territorial perceptíveis, ou seja, determinadas soluções arquitectónicas podem informar os estranhos de que uma determinada área é privada e controlada por quem ali habita.

b. Vigilância natural: capacidade do ordenamento físico do espaço para proporcionar uma vigilância, sem necessidade de recorrer a meios mecânicos e electrónicos. Isto pode ser conseguido através da construção de edifícios com portas e janelas que permitam aos utilizadores ter uma boa visibilidade do exterior para o interior, e vice-versa, possibilitando a detecção e identificação da presença de estranho. Ou através da correcta configuração dos edifícios, do mobiliário urbano e dos elementos paisagísticos que evite a existência de pontos de refúgio ou de cobertura para potenciais criminosos.

c. Imagem: Capacidade da concepção influenciar na percepção da singularidade do projecto, no isolamento e no estigma. O objectivo do Defensible Space é “transmitir a percepção de que se está num ambiente seguro e não vulnerável, em que existe uma certa solidariedade social entre os residentes e, ao mesmo tempo, evitar o estigma associado aos bairros sociais.

d. Inserção no ambiente (milieu): Exploração da influência da justaposição geográfica de zonas seguras, na segurança de áreas adjacentes. Newman defende que a implementação de bairros sociais em áreas onde o crime é reduzido, e a utilização diversificada do espaço, aumenta a segurança decorrente do aumento da actividade na área.

Embora tenham existido muitas criticas ao conceito Defensible Space, o trabalho de Newman tornou-se de extrema importância ao postular a necessidade de reflexão sobre a concepção e o ordenamento do espaço físico na prevenção do crime, dando ênfase a ideias, tais como, delimitação entre o espaço público e privado e vigilância natural por parte dos residentes e utilizadores do espaço. Newman rejeitava a ideia de “fortaleza urbana” que obriga os residentes a refugiarem-se dentro das suas casas, impedindo o uso e o controlo do espaço e, consequentemente, afastando por completo o sentimento de responsabilidade sobre a área em que habitam.







Fig. 05 - Ray Jeffery: Fonte: www.asc41.com/obituaries/2007obits.htm

3. Modelo CPTED Original (Ray C. Jeffery)Em 1971, Ray Jeffery desenvolve o conceito CPTED, publicando-o na obra Crime Prevention Through Environmental Design, que marcou um importante ponto de viragem no que diz respeito ao modo de pensar acerca do comportamento anti-social e criminoso. Este conceito representou um grande avanço na teoria criminológica e lançou as bases para uma perspectiva única a aplicar ao estudo do crime, a perspectiva de “sistemas integrados”.

Este novo modelo passa a assumir “que os actores criminosos executam as suas decisões com base num processo racional, ainda que muito incipiente, sendo que as suas percepções podem ser manipuladas no sentido de induzir nos mesmos um risco elevado relativamente ao cometimento de um determinado crime. Estas percepções, ao influenciarem o processo de tomada de decisão, poderão levar o potencial criminoso a optar por desistir da acção, se no decurso do seu processo decisório concluir que os potenciais riscos superam os eventuais lucros derivados da acção criminosa” (Fernandes, 2007:51).

Existem, então, dois elementos importantes para a prevenção criminal através da concepção do espaço, o lugar onde ocorre o crime e a pessoa que o comete.
Assim, Jeffery (1990) afirma que podemos impedir ou diminuir o crime alterando o organismo e/ou o ambiente externo. Segundo este novo modelo, a CPTED, as características físicas do ambiente são centrais na facilitação ou inibição da ocorrência de actos criminosos, pelo que a redução da criminalidade pode ser obtida pela gestão e manipulação do ambiente onde os crimes ocorrem, centrando-se na redução das vulnerabilidades e das oportunidades de cometer crimes existentes em certos locais (Fernandes, 2007:51).

4. 2ª Geração da CPTED (Timothy Crowe e Diane Zahm)Inicialmente, o conceito CPTED foi alvo de críticas por apresentar algumas lacunas graves, desancando-se:

a) Exagerada importância dado ao espaço físico em detrimento do factor social, subvalorizando-se o delinquente e a vítima;

b) Centralização na planificação urbana e na concepção arquitectónica, que colocou completamente de parte a manutenção do espaço;

c) Ausência de um trabalho conjunto por parte dos diferentes actores que deveriam participar no processo de concepção e manutenção do espaço urbano.

Todos estes problemas iniciais foram superados por Timmothy Crowe, com a 2ª geração da CPTED. Nesta nova geração, a CPTED foi aperfeiçoada passando, por um lado, a incorporar a dimensão social, de forma a assegurar que o espaço se torne defensible pelos seus residentes, e por outro a preocupar-se com a criação de actividades sociais positivas e diversificadas para encorajar os residentes a apropriarem-se do espaço e a retirar proveito da vigilância natural (Cozens, 2008:437).

Assim, a 2ª geração CPTED é um modelo que assenta na ideia de que um ordenamento adequado e uma utilização apropriada do espaço podem conduzir a uma redução da incidência criminal, melhorando consequentemente a qualidade de vida e “as suas estratégias desenvolvem soluções compatíveis com uma concepção do espaço físico que atenda às necessidades (físicas, sociais e psicológicas) dos utilizadores desse espaço, bem como às actividades que aí se irão desenvolver e ainda à previsão dos comportamentos dos utilizadores legítimos ou dos potenciais criminosos” (Fernandes, 2007:56).





Fig. 06 - fonte: Daniela Fernandes, 2010

CPTED como abordagem preventiva aplicada ao espaço urbano
As estratégias propostas pela CPTED partem do princípio que o “ambiente urbano pode influenciar o comportamento delituoso de dois modos: fisicamente, proporcionando as condições espaciais onde os indivíduos actuam, e socialmente, promovendo as relações sociais a que os indivíduos respondem” (Heitor, 2007:9). Para a aplicação destas estratégias, orientadas para o planeamento e para a manipulação do espaço, existem quatro princípios cuja observância contribui para a criação de espaços seguros, pois, guiam a análise tanto de lugares inseguros como de futuros projectos e criam recomendações para a concepção do espaço que podem ter efeitos redutores sobre os índices de vitimização e de insegurança.

Estes quatro princípios essenciais em que se baseia a aplicabilidade das estratégias e técnicas da CPTED são:

1. Controlo natural de acessos: visa dissuadir a prática de crimes criando a percepção no delinquente de que corre o risco de ser detectado e ao mesmo tempo visa reduzir a prática de crimes negando o acesso a locais onde os intrusos não são facilmente detectados. Isto pode ser conseguido, por exemplo: canalizando a circulação para determinados locais onde exista uma maior vigilância através da utilização de passeios, portões, iluminação e árvores ou centralizando as áreas de uso comum o mais próximo possível das principais zonas de circulação previstas no projecto.

2. Vigilância natural: a disposição do espaço pode facilitar a possibilidade de ver e ser visto por outros. A boa visibilidade de um lugar aumenta a possibilidade de controlo sobre este pelos seus residentes e utilizadores, e por sua vez diminui a possibilidade de ocorrência de crimes. Os mecanismos de vigilância natural passam pela colocação estratégica de janelas, portas e arvores, pela boa iluminação do espaço e pela promoção de actividades que levem à passagem e frequência de pessoas, maximizando a vigilância.

3. Territorialidade: o sentimento de propriedade pode ser reforçado quando os residentes se identificam com os espaços e quando a configuração do espaço é legível para eles. Um dos elementos que define o espaço como vulnerável é o abandono. Um espaço sem uso e sem ninguém que se preocupe com ele tem geralmente como consequência a sua degradação por falta de controlo social. O reforço territorial emprega elementos de design, tais como, calçadas, paisagens e varandas, que ajudam a distinguir as áreas públicas e privadas, e ajudam consequentemente os residentes e utilizadores a mostrarem sinais de propriedade. Este princípio sugere que o projecto físico pode criar ou ampliar uma esfera de influência territorial e fazer com que potenciais infractores percebam essa influência. O reforço territorial fomenta, então, o sentimento de propriedade dos residentes sobre o seu espaço, contribuindo para uma adequada utilização e manutenção deste, evitando-se que os espaços fiquem degradados e atraentes para actividades ilícitas.

4. Manutenção do espaço novo ou recuperado: é vital para que as estratégias de prevenção sejam sustentáveis. Esta manutenção pode ser feita através de programas municipais, em que as autoridades são incumbidas da limpeza do espaço, ou através da comunidade que se responsabiliza por essa limpeza. É importante incorporar a comunidade no processo de recuperação e de concepção do espaço, através de uma participação activa. Os espaços onde são visíveis sinais de decadência, são notavelmente mais propícios ao crime, induzindo também mais medo. A existência de uma área dominada pelo abandono, independentemente da tipologia arquitectónica usada, é certamente um espaço “indefensible”.





Fig. 07 - Timmothy Crowe, fonte: www.ncpc.gov.sg/icpc2004/speakers.htm

Timmothy Crowe sugere uma série de técnicas CPTED que podem ser aplicadas de forma a melhorar o controlo natural de acessos, a vigilância natural e a territorialidade, entre as quais se destacam (Crowe, 2000:126-127):

- Providenciar uma definição clara das fronteiras para controlar o espaço, ou seja, uma clara transição entre o espaço público e o privado. O objectivo é reforçar o sentimento de territorialidade, podendo ser conseguido através de demarcações físicas ou simbólicas.

- Estabelecer áreas de reunião em locais com vigilância natural, longe da vista de possíveis delinquentes, de modo a diminuir o efeito de atracção;

- Colocar actividades seguras em locais inseguros e actividades inseguras em locais seguros;

- Estabelecer barreiras naturais ao conflito entre actividades;

- Superar a distância e o isolamento através da melhoria das comunicações e de um ordenamento eficiente (exemplo: telefones de emergência, percursos pedestres);

- Melhorar a programação do espaço para estabelecer um controlo efectivo e critico da intensidade da utilização;

- Desenhar o espaço de forma a aumentar a percepção da vigilância natural.

Importa referir que a CPTED é um processo aplicado a nível contextual e local e as suas intervenções ambientais dependem da análise do tipo de espaço, do tipo de pessoas que o utilizam e do tipo de crime. Neste sentido, é importante analisar cuidadosamente cada situação antes de planear e decidir as possíveis intervenções. Cada espaço é um espaço.

Zahm (2007) defende que a resolução do problema específico através da CPTED implica uma série de medidas destinadas a responder a 4 questões:

1. Qual é o problema?

2. Porquê naquele espaço?

3. O que pode ser feito para resolver o problema?

4. Até que ponto as mudanças correspondem à resolução do problema?

Cada uma das questões representa uma fase do método SARA: Scanning (exploração), Analysis (análise), Response (resposta) e Assessment (avaliação). SARA é um método utilizado para identificar e isolar os problemas de segurança e criminalidade. Zahm (2007), nos seus estudos, mostra como se pode resolver o problema específico de um espaço através da CPTED, recorrendo a este método.

Tanto no caso de novos projectos de construções, como em projectos de reabilitação é importante que, na fase de análise, seja feita uma avaliação do risco de ocorrência de crimes, proveniente do espaço físico. O risco é entendido como a antecipação das consequências decorrentes da materialização de um conjunto de ameaças, num determinado período de tempo, relativamente a um determinado alvo. Esta avaliação fornece uma indicação tanto da provável magnitude do crime como do provável tipo de crime. A consideração destas dimensões, quantidade e tipo de crime, ajudarão na escolha e na combinação adequada das estratégias CPTED a aplicar.

Surge então a seguinte questão: quem deverá estar envolvido na escolha das estratégias a aplicar ao espaço específico? A CPTED é um processo que integra, ou deverá integrar, diversos participantes na tomada de decisão no que concerne à aplicação de estratégias adequadas a tornar ou criar um espaço seguro. Cada um dos participantes tem uma perspectiva e base única de conhecimento, e é a combinação desse conhecimento que torna a CPTED uma abordagem unificada e eficaz na eliminação ou redução de oportunidades para o crime, num espaço específico.

A experiência internacional mostra que, para alcançar bons resultados é necessária a formação de equipas multidisciplinares capazes de dialogar e trocar conhecimentos para a solução de problemas específicos. Essas equipas deverão ser constituídas por técnicos e especialistas: da arquitectura, do urbanismo, dos domínios da administração local (Câmara Municipal), das Forças de Segurança, das Autoridades de Protecção Civil, bem como pelas comunidades locais, apostando na interdisciplinaridade dos seus membros.

É essencial que as Forças de Segurança locais estejam envolvidas nas iniciativas CPTED, pois estes são capazes de identificar os problemas relacionados com o espaço construído e sabem onde ocorrem os diferentes tipos de crime, facto que não se verifica em Portugal e que não vem previsto na legislação urbanística. Os utilizadores do espaço têm também um papel importante, principalmente ao nível da reestruturação do espaço, pois são pessoas, geralmente, conscientes do tipo de problemas vividos na área onde residem ou trabalham.

Contudo, para que possa existir um trabalho conjunto entre os vários participantes na aplicação de estratégias CPTED, é absolutamente necessário, existir uma formação nesse âmbito. A formação ao nível da CPTED deverá estar presente nos currículos de todos os profissionais, principalmente dos arquitectos, urbanistas, projectistas e elementos policiais, bem como nos programas de formação relacionados com o planeamento, concepção e manutenção, facto que não se verifica nas escolas de arquitectura portuguesas, nem no Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna.

É imperioso que as entidades que tomam decisões locais se familiarizem com a CPTED, para que as suas decisões não ignorem os princípios de uma concepção adequada. Embora os princípios CPTED possam parecer simples, a sua implementação requer a orientação de especialistas formados na área. Em alguns Países, a Polícia tem um papel fundamental neste sentido, realizando cursos para os responsáveis pela concepção e planeamento urbano, actuando como um órgão técnico responsável pela intervenção CPTED ou como um componente fundamental no âmbito de equipas multidisciplinares.

Diversos países têm adoptado estas estratégias de prevenção criminal criando programas capazes de identificar as condições sociais e físicas que contribuem para o aumento da criminalidade, no sentido de desenvolver acções capazes de modificar as ditas condições. Em muitos casos, como por exemplo na Europa, a CPTED é conhecida por Designing Out Crime (DOC) ou Designing Against Crime (DAC).

As principais tendências de aplicação da CPTED têm origem nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas ao longo dos anos o êxito destas iniciativas começou a propagar-se por diversos países, tais como: Canadá, Holanda e Austrália. Todas estas iniciativas mostram que é fulcral compreender a particularidade da experiência local e do espaço urbano específico que se pretende manipular e que é de vital importância a capacidade técnica das equipas que levam a cabo os processos de aplicação das várias estratégias CPETD, bem como a inclusão da comunidade enquanto elemento transversal a todo o processo.

a) Estados Unidos da América (1)

A experiência da abordagem CPTED Americana, baseada no legado de Jacobs e Newman, focalizou-se na solução de problemas particulares a partir de uma intervenção conjunta, por parte de uma suma de actores importantes para a problemática da segurança em meios urbanos, tais como, a Polícia, o Governo, os Arquitectos, os Projectistas, os Urbanistas e até mesmo a Comunidade. Este trabalho em equipa permitiu implementar projectos baseados na confiança e na articulação de esforços, aumentando a eficácia do controlo e da resolução de problemas criminais e securitários.

Em geral, as principais áreas de intervenção da CPTED, nos Estados Unidos, correspondem à inclusão nas leis e nos planos urbanísticos: da concepção e manutenção do espaço; do desenvolvimento de processos de revisão do ordenamento local; da renovação urbana; e do embelezamento da cidade através da revitalização dos espaços públicos.

b) Canadá (2)

Outro caso interessante é a experiência Canadiana, que tem acumulado conhecimentos e metodologias em matéria de prevenção criminal através da concepção e ordenamento do espaço.

As estratégias CPTED têm sido implementadas, principalmente, pelos diversos departamentos policiais e pelos municípios deste País, sendo de destacar a capacidade inter-institucional existente, que permite convocar e coordenar as diversas entidades que trabalham em torno desta temática, na hora da tomada de decisão.

Um dos principais programas na linha da CPTED é o Safe Cities, que está integrado numa série de políticas de segurança, lideradas pelo Município de Toronto. Este programa aponta para a promoção de mecanismos e instâncias de cooperação entre as várias entidades envolvidas no combate ao fenómeno da violência e do crime, entre as quais se podem destacar: o Governo Central, o Governo Local, a Polícia e a Comunidade, todas com uma participação activa no desenvolvimento de projectos à escala humana e focalizadas para a resolução de necessidades locais.

São objecto das intervenções CPTED diversos tipos de estruturas urbanas, dentro das quais se destacam: as ruas, os bairros, os parques, os transportes, e o comércio/indústria.

c) Europa: Reino Unido e Holanda (3)

Na Europa, o Reino Unido e a Holanda são bons exemplos da aplicação do desenho urbano na prevenção criminal.

No caso do Reino Unido, em 1989, a polícia Britânica apresentou um projecto designado por Secured by design, que actualmente funciona na maioria das polícias de Inglaterra e Gales. Os corpos de polícia britânicos formaram especialistas, conhecidos como Architectural Liaison Officers, cujas funções se podem encontrar num manual publicado pela Home Office, em 1997. Neste manual a Polícia reconhece que o espaço físico pode ter influência significativa no comportamento criminal, uma vez que, o crime se apoia na oportunidade, no anonimato, no acesso fácil e nas vias rápidas de acesso.

O Secured by design é um processo de certificação, cujo principal objectivo é dar normatividade à planificação residencial que permita assegurar um espaço com qualidade e segurança. O processo consiste em identificar e modificar os elementos avaliados por um potencial agressor que influenciem na decisão de cometer um crime, combinando elementos situacionais e arquitectónicos, para que desse modo se possa evitar o cometimento de crimes e a percepção do medo.

A entidade responsável pela realização deste processo e pela posterior certificação é a Polícia. São objecto de certificação todas as novas construções ou reconstruções de espaços, os estacionamentos, as estações de comboios, as zonas habitacionais, as áreas de lazer, os bairros e os edifícios em geral. A certificação é feita com base na observação relacionada com os acessos públicos, a vigilância natural e o desenho das vias públicas.

Na Holanda foi implementado o programa Police Label for safe housing, que tem como fim reduzir a delinquência e a percepção do medo através da implementação de uma certificação conferida, como base na ideia de que um espaço deve conter padrões de segurança pertinentes.

Como tal, existe uma série de critérios, à escala micro e macro-urbana, relacionados com a planificação de espaços comuns, os planos de edificação, as estruturas específicas no ambiente residencial (ex.: estacionamento, paragens de transportes públicos, espaços de lazer), a participação e responsabilização dos residentes (principalmente ao nível da manutenção), e com a concepção arquitectónica. A certificação é emitida se o projecto cumprir com os requisitos de avaliação exigidos.

ConclusãoDepois do exposto verifica-se que o conceito CPTED assenta na ideia de que através da concepção, utilização e manutenção se poderá reduzir as oportunidades para a ocorrência de crimes e, consequentemente, mitigar o sentimento de insegurança. Com base em quatro princípios (controlo natural de acessos, vigilância natural, territorialidade e manutenção) as estratégias CPTED deverão ser voltadas para o espaço específico que se pretende manipular, tendo em conta o problema criminal, secutário e social do mesmo. Não existe, portanto, um conjunto pré-definido e generalistas de estratégias a aplicar, caberá a uma equipa multidisciplinar, que inclua “actores” do poder local, da segurança, da arquitectura e do urbanismo, analisar e decidir quais as melhores estratégias a aplicar ao espaço, com vista a solucionar o problema especifico.

No que diz respeito à PSP, actualmente existe por parte desta Polícia um trabalho desenvolvido sobre os potenciais agressores e as vítimas vulneráveis, com o objectivo de prevenir o crime e garantir a segurança. Diariamente, nesta sociedade cada vez mais urbanizada, equipas da investigação criminal desbravam terreno para deter criminosos, patrulhas auto e apeadas policiam as ruas da cidade e elementos dos programas de policiamento de proximidade mantém um contacto próximo com os cidadãos, alguns dos quais já vítimas de crimes. No entanto, embora este trabalho recolha muitos frutos, é importante incluir neste rol de medidas preventivas a manipulação do espaço urbano como um importante factor de influência sobre as oportunidades para as práticas criminais. Muitas vezes o mau ordenamento do espaço até se torna um obstáculo para as próprias Forças de Segurança levarem a cabo a sua missão (preventiva e repressiva).

Assim, defende-se que ao integrar a manipulação do espaço urbano nas políticas governamentais de prevenção, poderá ganhar-se mais um instrumento para o combate ao crime e para o fortalecer do sentimento de segurança geral.

Bibliografia:
• Brantingham, P. J. e P. L. Brantingham (1981), Environmental Criminology. Beverly Hills, Sage Publications.

• Crowe, T. D. (2000), Crime Prevention Through Environmental Design: Applications of Architectural Design and Space Management Concepts. Butterworth – Heinman, Boston.

• Cozens, P. (2008), New Urbanism, Crime and the Suburbs: A Review of the Evidence. In Urban Policy and Research, vol.26, nº4, Amsterdam.

• Fernandes, L.F. (2007), “Jacobs, Newman e C. Ray Jeffery. Contributos para a prevenção da criminalidade”. In Urbanismo Segurança e Lei. Tomo I. Edições Almedina, Coimbra.

• Heitor, Teresa (2001), A Vulnerabilidade do Espaço em Chelas. Uma Abordagem Sintáctica. Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas. Lisboa, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e Tecnologia.

• Heitor, Teresa (2007), Insegurança em meio urbano: o espaço na mediação de
oportunidades delituosas. Revista Psicologia volume XXI, nº2, págs. 31 a 44. Lisboa.

. Jacobs, J. (1961), The Death and Life of Great American Cities. New York, Random House.

• Jeffery, C. R. (1977), Crime Prevention Through Environmental Design. Beverly Hills, Sage Publications.

• Newman, O. (1972), Defensible Space: Crime Prevention Through Urban Design. New York, Macmillan.

• Newman, O. (1996), Creating Defensible Space. Institute for Community Design Analysis, Office of Planning and Development Research (PDR), US Department of Housing and Urban Development (HUD), Washington.

• Valente, M. (2007), Urbanismo Segurança e Lei. Tomo I. Coimbra, Edições Almedina.

• Walsh, E. (1999), Crime Prevention Through Environmental Design. Jornal of housing and community development. Junho/Agosto p:42 a 44.

• Zahm, D. (2007), Using Crime Prevention Through Environmental Design in Problem-Solving. U.S. Department of Justice Office of Community Oriented Policing Services, Washington.

http://www.cpted.cl

Notas:(1) http://www.safecascadia.org/
(2) http://cptedontorio.ca/
(3) http://www.designagainstcrime.com http://www.stichtingvob.nl/

Notas editoriais:(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 334, 20 de Fevereiro de 2011

quinta-feira, setembro 20, 2007

158 - Sobre uma cidade naturalmente segura, I – artigo de António baptista Coelho - Infohabitar 158

  - Infohabitar 158

Sobre uma cidade naturalmente segura

António Baptista Coelho

Sublinha-se que se trata aqui da segurança urbana mais do que da insegurança urbana, e que mesmo assim tal assunto é considerado numa perspectiva que põe em evidência que o tratar-se de tal assunto se justifica porque tal condição é fundamental para uma fruição da cidade e do habitar em plenitude.

Sublinha-se assim que não se trata da segurança urbana por se considerar que este é um tema central, em si mesmo, na sociedade urbana actual, cada vez maior e mais intensa, mas que o tema da segurança e a problemática da segurança são fundamentais para o cumprimento da cidade como adequado sítio de vida, agradável, culturalmente enriquecedor, despoletador de ideias e de vocações e não sítio de inúmeros incómodos e mesmo verdadeiros “castigos”, associados à dificuldade de usar em plenitude e com prazer a rua, o jardim e a vizinhança do habitar de cada um.



A propósito deste assunto global e tão urgente numa sociedade cada vez mais marcada pelas questões da segurança ou da insegurança urbanas, faz-se também uma primeira e, julga-se, oportuna ponte com a divulgação dos dez mandamentos da urbana orientada para a comunidade (a “norte-americana” COP, Community Oriented Policing) um policiamento urbano que está já a ser aplicado em Portugal e que se considera ser muito adequado a uma cidade mais amigável e mais egura.

Faz-se, assim, aqui no Infohabitar, uma primeira e relativamente informal incursão nestas matérias, associando este tema ao tema, igualmente importante, do espaço defensável e ainda, aos temas igualmente importantes, da criação de espaços apropriáveis e amistosos e equilibrados em termos de convivialidade e privacidade, mesmo no exterior, e, finalmente, ao tema, também igualmente importante, de uma gestão local eficaz e humanizada; e no final ainda se referem alguns aspectos associados aos temas, hoje na ordem do dia, da aplicação das novas tecnologias, por exemplo de vídeo-vigilância, e de desenvolvimento, pelas forças de segurança, de uma prática de cooperação com a comunidade.

Sistematizando estes aspectos teremos cinco tipos de factores que podem e devem confluir para se desenvolver uma cidade habitada, que seja, o mais possível, naturalmente segura, o que se conseguirá através do desenvolvimento de:

espaços urbanos defensáveis;
espaços urbanos conviviais e privatizados;
gestão urbana de proximidade eficaz e humanizada;
espaços urbanos apropriáveis e amistosos;
e de condições específicas de segurança urbana aliando o uso da tecnologia disponível e uma orientação privilegiada para a cooperação com a comunidade.

Teremos, assim, uma espécie de pentágono, o que até terá algumas irónicas conotações em termos de segurança, mas acredite-se que foi um acaso; um pentágono cujos vértices são marcados pelos seguintes aspectos:
  • espaços urbanos defensáveis
  • espaços urbanos conviviais e "privatizados"
  • gestão urbana de proximidade eficaz e humanizada
  • espaços urbanos apropriáveis e amistosos
  • polícia urbana orientada para a comunidade



Tais aspectos levar-nos-iam muito longe ainda que num seu singelo ou sumário desenvolvimento e no acompanhar das suas relações com outras temáticas urbanas de primeira linha, mas em vez de esperar que fosse possível considerar toda uma rede desse tipo, optou-se por avançar aqui neste artigo de forma exploratória nestas matérias, comentando com alguma parcimónia cada um desses vértices e deixando para outras oportunidades o respectivo desenvolvimento.

E assim se abordam, sinteticamente, os referidos cinco vértices do pentágono de uma cidade naturalmente segura, terminando até com os aspectos mais ligados à COP e com um brevíssimo comentário conclusivo, que quer deixar linhas abertas para próximos artigos e comentários meus e de outros.


Espaços urbanos defensáveis




Uma imagem de Elvas

“Jogar” na defensibilidade do espaço urbano é algo, que por si só, longe nos levaria. Trata-se de um tema que foi desde sempre caro aos urbanistas e trata-se de uma matéria que, na cidade tradicional, está praticamente resolvida, com naturalidade, pois há por todo o lado vistas mútuas, entre as janelas das habitações e a rua, entre as lojas e a rua e mesmo entre os utentes da rua; há portanto um sentido comunitário ou cívico, um sentido de auto-protecção que corresponde a uma auto-defesa natural dos territórios que são considerados mais “nossos” ou sob a nossa influência.

Há também aqui uma perspectiva mais física e de configuração mútua, que pode ajudar ou dificultar este jogo de visibilidades – num jogo arquitectural que nos deve levar longe mas sempre com clareza, articulando acessos a habitações, vistas naturais de janelas sobre o espaço público, passagens públicas e presença de comércios conviviais – e uma perspectiva mais social, que se liga a questões de números de vizinhos – afinal, de números de “caras” conhecidas – e de equilíbrios, sempre sensíveis, entre diversos grupos socioculturais.




Uma vista de rua em Alvalade/Areeiro, Lisboa

Há ainda aqui um sentido de decisão sobre fechar ou não fechar determinados acessos e onde e como o fazer.

E há finalmente uma grande ligação desta matéria com as matérias da convivialidade e da privacidade, que sejam consideradas as mais adequadas ou as mínimas num meio residencial que, neste caso, tenderá a ser vincadamente urbano; matéria esta que faz a ponte entre o desenho do exterior (rua, praceta, jardim urbano, largo) e o desenho e a caracterização da tipologia edificada.

Como se disse uma matéria que nos leva muito longe, mas é preciso que desde já se diga que todos estes aspectos são para serem verdadeiramente equacionados, seja na própria estruturação e encadeamento dos diversos espaços urbanos e edificados, seja no tratamento de pormenor dos elementos de encerramento, de semi-encerramento/marcação e de vigilância natural ou específica que serão distribuídos por esses encadeamentos espaciais.

Falta dizer que um espaço só é defensável se for bem definido, se estiver bem definido nas suas margens e nos seus conteúdos, se estiver razoavelmente recintado, se não for excessivamente amplo pois neste caso deixa de ser visível e “dominado” pela vista e pelo movimento potencial de quem nele circula e se for claro nos seus conteúdos em termos de eventuais sub-espaços, equipamentos e elementos de comunicação.


Espaços urbanos conviviais e "privatizados"


Trata-se de uma matéria que se liga às restantes (dos restantes vértices do referido pentágono), mas que tem também uma razão de ser bem própria.

É importante sublinhar estas ligações mútuas porque convivialidade e privacidade estão na base, directa e indirecta, de muitos dos aspectos que fazem viver o espaço urbano.

Mas a adequada definição de níveis de privacidade, numa marcação subjectiva e objectiva, é caminho muito andado na implementação de uma segurança urbana naturalmente pressentida; e nesta matéria tem de haver lugar a claras definições de permissão de acesso, mas também deve haver uma cuidadosa ambiguidade.




Uma vista de Portalegre

Ainda quanto à importância da privacidade para a segurança urbana há que sublinhar que há poucos elementos tão efectivos para um sentido de controlo natural do que se passa na rua, do que uma porta aberta de uma habitação, que entreabre e expande um dado mundo doméstico até ao alcance da vista de quem tantas vezes passa horas nesse limiar entre casa e cidade; é real uma tal influência securizadora, sentimo-la quando passamos pelas ruas estreitas de Centros Históricos habitados; e naturalmente que uma tal influência benfazeja também é produzida pelos vãos de janela e pelas sacadas em que quase sentimos o pulsar de quem lá habita quando passamos rente.



Uma vista de Elvas

E finalmente quanto à influência securizadora da convivialidade ela é bem evidente, seja na disseminação de equipamentos conviviais, alguns dos quais ocupam com as suas esplanadas partes do exterior, proporcionando aí pontos de observação estratégicos dos respectivos enfiamentos e perspectivas mais amplas, seja pela pontuação e acompanhamento das sequências urbanas e dos pontos mais estratégicos com equipamentos, seja pela fundamental definição de zonas de vizinhança de proximidade que agrupam conjuntos de residências cujas identidades constituem elementos de primeira linha numa cidade mais segura.


Gestão urbana de proximidade eficaz e humanizada


Naturalmente que a gestão urbana e designadamente uma gestão urbana exercida com eficácia na proximidade directa das habitações e dos equipamentos é um factor de primeira linha numa securização natural do espaço urbano.


Uma vista de Alvalade/Areeiro, Lisboa

Afinal, dominamos melhor e mais naturalmente aquilo a que estamos directamente ligados em termos de processo de gestão e aquilo cuja gestão está clarificada em termos de zonas de responsabilidade e de presença periódica mas efectiva dos respectivos agentes de gestão local de proximidade.
E deixemos o desenvolvimento deste tema para outros artigos desta série.


Espaços urbanos apropriáveis e amistosos

Provavelmente a matéria aparentemente menos objectiva nas que têm sido aqui tratadas, neste artigo, e que integram o referido pentágono é esta do desenvolvimento de espaços urbanos apropriáveis e amistosos.

Mas parece ser claramente entendível se nos lembrarmos da capacidade de apropriação e da amistosidade que caracterizam os espaços urbanos tradicionais.

Um segredo desta relação entre apropriação e segurança é naturalmente que se defende mais aquilo de que mais se gosta e que é considerado como mais “nosso.”

Mas provavelmente esta justificação não é a única, pois talvez uma zona urbana que interiorizamos como mais “amiga,” porque mais afectiva, seja um sítio em que nos comportamos mais à vontade, de certa forma exteriorizando um sentido de segurança natural, condição esta que é consequentemente factor de segurança acrescida.

E há ainda um outro aspecto extremamente objectivo nesta relação entre segurança e amistosidade do espaço urbano que se habita, que é a escala geral e a escala tratada das intervenções, pois naturalmente que uma praceta rodeada de “segundos andares”, transmite como que um estar quase “dentro de casa,” e aí quem é estranho “entra” sentindo-se estranho pois está quase à distância de um braço de quem lá habita e chama “sua” a uma tal praceta.


Uma vista de Alvalade, Lisboa

Mas se a praceta for formada por edifícios de sete ou oito pisos tudo se passa de modo diferente, logo porque o “espaço entre” não tem uma tal “escala do braço e do homem,” pelo menos directamente tem uma escala eventualmente mais “representativa,” e diz-se “directamente,” porque há formas de “rebaixar”, aparentemente, uma tal escala humanizando-a e fazendo transparecer muito mais a presença do homem, mesmo em edifícios mais altos, por exemplo evidenciando galerias exteriores comuns e diversificando vãos exteriores.


Polícia urbana orientada para a comunidade


Nesta matéria de uma acção policial de proximidade é de grande interesse a consulta aos “dez mandamentos” da “polícia orientada para a comunidade” (COP, Community Oriented Policing) expressos por David L. Carter (1) e que aqui se sintetizam:

(i) “A «Polícia Orientada para a Comunidade» é uma filosofia e uma organização estratégica que permite à polícia e à comunidade de residentes trabalhar estreitamente em conjunto e de novas formas para resolver problemas de crime, medo do crime, desordens físicas e sociais e degradação das vizinhanças...

(ii) Exige , em primeiro lugar, que todas as pessoas ligadas à polícia, incluindo o pessoal civil, aprofundem formas e processos de traduzir essa filosofia na prática...

(iii) Para se implementar uma verdadeira «Polícia Orientada para a Comunidade», os departamentos de polícia devem criar e desenvolver um novo tipo de agente de linha, o Agente de Polícia de Comunidade, que actua como uma ligação directa entre a polícia e as pessoas da comunidade...

(iv) O amplo papel do Agente de Polícia de Comunidade exige um contacto contínuo e sustentado com as pessoas cumpridoras da lei na comunidade, de forma a que em conjunto possam explorar soluções criativas para as preocupações locais em termos de crime, medo do crime, desordem e degradação, servindo os cidadãos como voluntários não pagos...

(v) A «Polícia Orientada para a Comunidade» implica um novo contrato entre a polícia e os cidadãos por ela servidos, que ofereça a esperança de ultrapassar a crescente e invasora apatia, mas restringindo-se todos os impulsos para a criação de «vigilantes»...

(vi) A «Polícia Orientada para a Comunidade» junta um elemento de protecção vital ao papel reactivo tradicional da polícia, resultando isto num serviço policial com espectro largo...

(vii) A «Polícia Orientada para a Comunidade» desenvolve novos processos de protecção e de apoio às vidas dos mais vulneráveis – jovens, idosos, minorias, pobres, deficientes e sem-casa...

(viii) A «Polícia Orientada para a Comunidade» promove o uso judicioso da tecnologia, mas também se baseia na ideia de que nada substitui o que humanos dedicados, trabalhando e dialogando em conjunto, podem conseguir...

(ix) A «Polícia Orientada para a Comunidade» deve concretizar um processo totalmente integrado que envolva todos na polícia, com os Agentes de Polícia de Comunidade no papel de especialistas na ligação entre a polícia e as pessoas servidas.

(x) A «Polícia Orientada para a Comunidade» proporciona um serviço à comunidade com características descentralizadas e personalizadas. Assume que a polícia não pode impor ordem na comunidade a partir de fora dela, mas que as pessoas devem ser encorajadas a pensarem na polícia como um recurso que podem usar na ajuda à resolução de problemas que preocupam as comunidades actuais...”





Naturalmente será fundamental aprofundar as relações estratégicas entre espaços de habitar defensáveis, uma actividade de polícia, assim, orientada para a comunidade, e objectivos cívicos e éticos bem definidos, porque a referida e defendida “polícia de comunidade” tem também de ser uma polícia orientada para a defesa e o desenvolvimento de uma verdadeira qualidade de vida, tal como é defendido por William Bratton e William Andrews (2):
“O policiamento da qualidade de vida é importante por três razões. Em primeiro lugar, porque a maioria dos cidadãos é mais sensível a situações como a prostituição, o pequeno comércio de droga, os excessos de ruído, o alcoolismo juvenil e outros delitos menores do que ao grande crime…em segundo lugar … os ambientes convulsos atraem o crime e provocam o medo. Em terceiro lugar, porque os autores de crimes graves também cometem muitas vezes outros tipos de pequenos delitos; o policiamento da qualidade de vida permite aos agentes da polícia intervir junto destes grupos e por vezes impedir a ocorrência de crimes sérios.”

Notas complementares
Entre muitos outros aspectos ficam prometidos três temas complementares para outros artigos desta série e deixam-se também estes temas como desafios positivos aos leitores e eventuais autores de opiniões e pequenos ou grandes textos sobre estes assuntos:
(a) Que condições específicas de segurança urbana poderão ser servidas pelo uso da tecnologia disponível, sem se afectar significativamente a liberdade individual e o uso “livre” da cidade.
(b) Como desenvolver uma orientação privilegiada entre a securização urbana e a cooperação da(s) comunidade(s).
(c) Que experiências já podem ser apontadas nestas áreas, designadamente, em Portugal.

Como este é o primeiro artigo desta série não serão feitos comentários conclusivos. Apenas se refere a importância que sempre terá numa securização urbana quase natural uma cuidadosa e trabalhosa, porque afirmada, associação entre: (i) aspectos de desenho de arquitectura urbana e de integração física; (ii) e de integração e mistura social feita com naturalidade e com um mínimo de “esquecimentos”.

(1) David L. Carter, “Fundamentals of community oriented policing”, s.d.

(2) William Bratton e William Andrews, no livro organizado por Myron Magnet, Paradigma urbano – as cidades no novo milénio (The Millennial City), 2001 (2000), p.112.
Edição em 20 de Setembro de 2007, Lisboa, Encarmação/Olivais Norte
José Baptista Coelho