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quinta-feira, julho 19, 2007

149 - PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO - Infohabitar 149


  - Infohabitar 149

ESCLARECIMENTO PRÉVIO (anexado ao artigo em 2007-08-02)


Foi recebido na sede do Grupo Habitar, em 2007-08-02, datado de 2007-07-24, um ofício da Direcção Municipal de Gestão Urbanística – Unidade de Projecto do Alto do Lumiar (ref.ª OF/1073/DMGU/UPAL/07), que refere o seguinte, relativamente ao conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela SGAL, S.A, com o projecto do Gabinete Frederico Valsassina Arquitectos, Lda. e a coordenação do arquitecto Bernardo Lacasta (transcreve-se na íntegra o texto que nos foi enviado):

Assunto: Prémio INH/IHRU 2007 de Promoção Privada. www.infohabitar.blogspot.com

Ex.mos Senhores,

De acordo com a informação disponibilizada no vosso blogue, o prémio em referência terá sido atribuído ao empreendimento de um conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela SGAL, S.A, com o projecto do Gabinete Frederico Valsassina Arquitectos, Lda. e a coordenação do arquitecto Bernardo Lacasta. (...)

Ora, a informação que identifica o empreendimento como privado não é correcta.
A promoção dos referidos 47 fogos foi realizada pela Câmara Municipal de Lisboa, ao abrigo do Programa Especial de Realojamento (PER), com o apoio financeiro do INH, e executado/construído no âmbito de um Contrato-Quadro PER, celebrado com a SGAL, em 1996, para adaptar «o Plano do Alto do Lumiar, na sua componente de realojamento, (...) aos princípios do Programa Especial de Realojamento (...)».
Pelo exposto, solicitamos de V. Exas. a necessária correcção da informação disponibilizada.

Com os melhores cumprimentos,
Nota da edição do Infohabitar

A coordenação do Infohabitar muito agradece a informação prestada pela Direcção Municipal de Gestão Urbanística – Unidade de Projecto do Alto do Lumiar, informação esta a que dá o máximo de divulgação que lhe é possível, e aproveita para reafirmar que o artigo que se segue apenas regista o conteúdo da Acta de apreciação do Júri do Prémio INH/IHRU 2007, sem quaisquer outros elementos complementares, por parte da edição do Infohabitar; condição esta que, consequentemente, não torna possível qualquer mudança do referido texto, que foi um texto colectivo, do referido Júri, e que foi devidamente tornado público na cerimónia de atribuição do Prémio INH/IHRU 2007, que teve lugar no Auditório da Biblioteca Almeida Garrett no passado dia 3 de Julho de 2007, e onde esteve presente, entre muitos outros técnicos, um representante da SGAL para receber o respectivo Prémio.

Mais se refere que o Infohabitar apenas teve como objectivo contribuir para a melhor divulgação de uma iniciativa muito meritória como é o Prémio INH/IHRU e que, naturalmente, nada teve a ver com a organização deste mesmo Prémio, pelo que se considera que quaisquer alterações na designação dos premiados, editadas aqui no Infohabitar, terão de ser apontadas pela própria organização do Prémio INH/IHRU 2007; condição esta que, sucedendo, será imediatamente divulgada no Infohabitar.

O coordenador do Infohabitar

António Baptista Coelho

PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO

Edita-se, em seguida, a acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, numa cerimónia muito concorrida, que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, tendo contado com diversas comunicações, e com a intervenção do Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, Professor João Ferrão, que presidiu à sessão..

A ideia é divulgar mais amplamente um texto que foi tornado público no decorrer da referida cerimónia, sem quaisquer outros comentários suplementares; apenas com a junção de uma imagem respeitante a cada um dos conjuntos premiados e mencionados.

Salienta-se que a autoria do texto que se segue é do colectivo do Júri do PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, que se refere em seguida:

Associação Nacional dos Municípios Portugueses:
Arq. Armindo Alves Costa.

Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas:
Arq.ª Paisagista Maria Celeste Ramos.

Associação das Empresas de Construção e Obras Públicas:
Dr. Luís Filipe Ferreira da Silva e Eng.ª Teresa Nogueira Simões.

Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas:
Eng.ª Joana Vaz.

Associação Nacional de Empreiteiros de Obras Públicas:
Eng.ª Maria João Surrécio.

Federação Nacional das Cooperativas de Habitação Económica:
Senhor Manuel Tereso.

Ordem dos Arquitectos:
Arq.ª Paula Petiz.

Ordem dos Engenheiros:
Eng. Jorge Menezes Torres.

Laboratório Nacional de Engenharia Civil:
Arq. António Baptista Coelho

Instituto Nacional de Habitação:
Eng. José Teixeira Monteiro (Presidente do Júri).
Dr. Jorge Morgado Ferreira e Eng. Paulo Reis.
Arq. José Clemente Ricon.
Arq. Rogério de Oliveira Pampulha


Refere-se que o PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO decorreu ainda no decurso do funcionamento do Instituto Nacional de Habitação, instituto este que no início do mês de Junho de 2007 ampliou as suas áreas de actuação e passou a designar-se Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU).



APRESENTAÇÃO

Apresentam-se os empreendimentos candidatos ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, concluídos no ano de 2006 e promovidos por Municípios, Empresas Privadas e Cooperativas de Construção e Habitação.

No corrente ano, registaram-se vinte e nove candidaturas, das quais oito são de Promoção Municipal, doze de Promoção Privada e nove de Promoção Cooperativa.

O Júri incluiu representantes das seguintes instituições:
Associação Nacional dos Municípios Portugueses, Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, Associação das Empresas de Construção e Obras Públicas, Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, Associação Nacional de Empreiteiros de Obras Públicas, Federação Nacional das Cooperativas de Habitação Económica, Ordem dos Arquitectos, Ordem dos Engenheiros, Laboratório Nacional de Engenharia Civil e Instituto Nacional de Habitação .

Numa primeira reunião, o júri deliberou visitar todos os empreendimentos, tendo elaborado o respectivo programa de visitas. Na última reunião, efectuada após as deslocações às obras, o júri decidiu atribuir:


O Prémio INH/IHRU 2007 de Promoção Privada ao empreendimento :


- 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL, S.A., construído pela empresa Teodoro Gomes Alho, S.A., com o projecto do Gabinete Frederico Valsassina Arquitectos, Lda e a coordenação do arquitecto Bernardo Lacasta.

Neste conjunto residencial destaca-se a forte relação entre o edificado e a morfologia do terreno, bem como, a forma como se articula com o conjunto de habitação colectiva adjacente.
O desenho dos espaços exteriores, de grande agradabilidade, identifica-se com o espírito do local e das formas de habitar nesta zona de periferia, contribuindo também para uma valorização do território urbano sob o ponto de vista ambiental.
Tanto nos logradouros como interior das habitações, é explorada uma interessante relação entre o espaço e a luz natural, potenciada pelo uso dos materiais e pelos detalhes construtivos.




Fig. 01: 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL.


O Prémio INH/IHRU 2007 de Promoção Cooperativa no âmbito da Habitação a Custos Controlados, ao empreendimento :


- 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira, promovido pela cooperativa Habipaços, C.R.L., construído pela empresa Manuel Roriz de Oliveira, S.A., e com o projecto e coordenação do arquitecto Paulo Bettencourt.

Este empreendimento, com uma imagem sóbria e visualmente serena, apresenta-se como uma intervenção que influencia de forma positiva a zona urbana em se insere.
Os espaços exteriores, bem dimensionados e bem tratados, incluindo parterre-vert, interagem com os espaços de habitação, espacialmente interessantes, de que realça o elevado nível de construção.
De referir, também, a forma como se desenvolvem os acessos aos edifícios, onde as rampas, em complemento com as escadas, se assumem como base dos edifícios, resolvendo problemas de mobilidade.




Fig. 02: 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira, promovido pela cooperativa Habipaços.


Em ex-aequo, foi atribuído o Prémio INH/IHRU 2007 de Promoção Cooperativa no âmbito do Estatuto Fiscal Cooperativo, aos empreendimentos:


- 72 fogos na Bouça, Porto, promovidos pela cooperativa Águas Férreas, C.R.L., construídos pela empresa FDO – Construções, S.A., com o projecto e a coordenação do arquitecto Álvaro Siza Vieira e do arquitecto António Madureira.

Trata-se de um notável conjunto habitacional, referência de um período muito significativo do nosso passado recente, de que se realça o facto de ter sido reabilitado e concluído com a colaboração dos moradores de origem, trinta anos após a sua concepção e execução parcial.
A forma como se articulam o edificado e o espaço aberto, através da forma e exposição das fachadas que delimitam espaços ajardinados que se abrem à envolvente urbana, potencia a diversidade de usos, e permite também uma regulação climática.
É de grande relevância o tratamento exemplar da luz, nesta obra de grande beleza formal e actualidade.




Fig. 03: 72 fogos na Bouça, Porto, promovidos pela cooperativa Águas Férreas.


- 101 fogos em Ponte da Pedra, Matosinhos, promovidos pela NORBICETA, U.C.H., construídos pela empresa J.Gomes, S.A., com projecto coordenado pelo arquitecto António Carlos de Oliveira Coelho.

Este empreendimento destaca-se pela sua preocupação de sustentabilidade com instalação de equipamentos para o aproveitamento de energia solar, para reciclagem e consumo racional de água, além da selecção dos resíduos sólidos, enquadrando-se no programa europeu Sustainable Housing in Europe. Estes aspectos são implementados num projecto equilibrado, dotado de espaços exteriores verdes, abundantes relativamente à massa edificada e ao número de habitantes a acolher.
Estes espaços são também valorizados com intervenções de arte urbana e parterre d’ eau que complementam os elementos de natureza viva implantados no espaço público, orientando-se também pelo conceito de circuito fechado com vista ao tratamento e economia de água.
Numa perspectiva de futuro, é um exemplo pioneiro a seguir por todos os promotores de habitação de interesse social.




Fig. 04: 101 fogos em Ponte da Pedra, Matosinhos, promovidos pela NORBICETA U.C.H.


O Prémio INH/IHRU 2007 de Promoção Municipal, não foi atribuído.


Foram distinguidos com Menção Honrosa, os seguintes empreendimentos:

52 fogos em Outeiro da Forca, Portalegre, promovidos pelo Município de Portalegre e construídos pela empresa José Coutinho, S.A., com o projecto do Atelier de Arquitectura Carlos Gonçalves, Lda.

Este conjunto de habitação colectiva, explorando as potencialidades do terreno, organiza-se a partir de um extenso pátio conformado por bandas de habitação e comércio que, através da adaptação à topografia e de um diálogo visual com a envolvente, se desenvolve em interessantes sequências espaciais. É de realçar a forma como é permitida a acessibilidade e a mobilidade em plataformas com diferentes níveis que, funcionando simultaneamente como espaços autónomos, definem e caracterizam o espaço central como unidade.
A partir de espaços conviviais de grande interesse, promovem-se relações de vizinhança de proximidade e, paralelamente, criam-se condições para que esta vivência comunitária se possa articular com os espaços envolventes, no sentido de continuidade urbana.




Fig. 05: 52 fogos em Outeiro da Forca, Portalegre, promovidos pelo Município de Portalegre.


21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes, S.A. e construídos pela empresa Sanibetão, S.A., com projecto coordenado pelo arquitecto Miguel Rocha e pelo arquitecto Miguel Saraiva.

Este conjunto habitacional afirma-se positivamente pelas tipologias de habitação adoptadas, pela forma como se associam os fogos, e pela sábia maneira como o conjunto se implanta no solo. A forma e cor harmonizam-se com a envolvente edificada e com os enquadramentos visuais que se vão estabelecendo com o mar.
As habitações são espacialmente interessantes, intensamente marcadas pela escala humana, e tipologicamente respondem às expectativas de uma população ainda com características de vida rural.




Fig. 06: 21 fogos em Relva, Ponta Delgada, promovidos pela empresa Engenheiro Luís Gomes.
36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro, Lda. e construídos pela empresa Aurélio Martins Sobreiro & Filhos, S.A., com projecto e coordenação do arquitecto Delfim Sobreiro.

Deste conjunto habitacional, com uma imagem exterior sóbria, sobressai a forma como se desenvolvem os acessos às habitações através de galeria interior, bem dimensionada e dotada de luz natural.
O edificado evidencia-se pela robustez da construção e pela pormenorização cuidada.
O conjunto, com espaços abertos bem dimensionados que proporcionam a presença de elementos verdes, aparece como uma intervenção que valoriza o espaço urbano em que se insere.




Fig. 07: 36 fogos em Vila Praia de Âncora, Caminha, promovidos pela empresa Sobreiros e Ribeiro.

271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro, S.A. e construídos pela empresa Sótrabalho, S.A., com projecto e coordenação da arquitecta Carla Baptista e do arquitecto Freddy Ferreira César.

Este empreendimento, confirmando a qualidade da metodologia adoptada na concepção do projecto, surpreende pela sua dimensão, pela forma como se relaciona com o território, e como consegue gerar dinâmicas urbanas.
No conjunto de edifícios de habitação colectiva, comércio e equipamentos o declive das coberturas vai-se ajustando ao declive natural do terreno, ao mesmo tempo que os edifícios se soltam do solo, como que levitando. Desta forma consegue-se um sábio efeito de transparências no nível térreo, assim como se imprime qualidade visual e climática aos espaços.
De salientar a grande qualidade das zonas verdes colectivas, com uma imagem “acabada,”e exuberante, e a forma como estas se relacionam com o edificado, permitindo que o conjunto se leia como “unidade”.




Fig. 08: 271 fogos no Amparo, Funchal, promovidos pela empresa Imopro.


12 fogos em Abraveses, Viseu, promovidos pela cooperativa Chevis, C.R.L.. e construídos pela empresa Abrantina, S.A., com o projecto coordenado pelo arquitecto Francisco Simões.

Deste conjunto residencial de grande interesse, realça-se a capacidade que houve no ajuste entre o loteamento e o programa específico dos moradores. Assim, foi possível criar uma unidade habitacional que se organiza com base num pátio central, protegido da agitação do ambiente urbano em que se insere, que estimula fortemente as relações de vizinhança.
Destaca-se, também, a inteligente adaptação do edificado à morfologia do terreno, reforçando-se os princípios da intervenção e enriquecendo os conceitos de habitar que lhe são subjacentes.




Fig. 09: 12 fogos em Abraveses, Viseu, promovidos pela cooperativa Chevis.


18 fogos na Rua Gonçalo Cristovão, Porto, promovidos pela cooperativa de Santo Ildefonso, C.R.L. e construídos pela empresa J.Gomes, S.A., com o projecto coordenado pelo arquitecto Jofre Bispo.

Este edifício de habitação colectiva, com situação previligiada na cidade, destaca-se pela sua sobriedade e pela qualidade da construção.
A coexistência da habitação e da sede da cooperativa, localizada no piso térreo, permite gerar dinâmicas enriquecedoras nas relações com o espaço público.
As habitações têm uma interessante espacialidade, reforçada por uma pormenorização e por uma execução cuidadas, especialmente as carpintarias.




Fig. 10: 18 fogos na Rua Gonçalo Cristovão, Porto, promovidos pela cooperativa de Santo Ildefonso.


O Júri decidiu, ainda, atribuir as seguintes Menções:

- 12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez, construídos pela empresa Sociedade de Construções do Bico, Lda, sendo o projecto e a coordenação do arquitecto Carlos Machado.

Nestas intervenção realça-se a metodologia seguida por este muncípio, que procura fixar as famílias rurais nos seus locais de origem, realojando-as em habitações com tipologias que se adequam e valorizam os seus modos de habitar.




Fig. 11: 12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez.


- 21 fogos em Horta das Figueiras, Évora, promovidos pela cooperativa CHC, C.R.L. construídos pela empresa Algomape, Lda, com o projecto coordenado pelo arquitecto Nuno O Neill.

Este conjunto habitacional, inserido-se num contínuo edificado e permitindo a interacção de várias camadas sociais, ajusta-se ao ecosistema urbano e humano pré-existente.
O empreendimento confirma a possibilidade de se poder resolver as necessidades habitacionais das famílias mais carenciadas, sem descurar a qualidade do espaço.
Esta cooperativa, em parceria com o município, promove assim a construção de habitações com qualidade para o arrendamento apoiado.




Fig. 12: 21 fogos em Horta das Figueiras, Évora, promovidos pela cooperativa CHC.


INSTITUTO NACIONAL DE HABITAÇÃO, 30 DE MAIO DE 2007.


As imagens que ilustram o texto são de António Baptista Coelho, com excepção das figuras 02, 03, 07, 10 e 11, cuja autoria é de José Clemente Ricon.

Preparado para edição por António Baptista Coelho em 15 de Julho de 2007.
Editado por José Baptista Coelho em 19 de Julho de 2007.

sexta-feira, abril 20, 2007

135 - Sobre Alvalade, um comentário – de Pedro Taborda - Infohabitar 135

 - Infohabitar 135

Pedro Taborda



O Bairro de Alvalade, que tem por base o " Plano de Urbanização da Zona Sul da Avenida Alferes Malheiro", de autoria do arquitecto Faria da Costa ainda nos anos 40, é um verdadeiro laboratório de propostas habitacionais (mais de 25 anos de período de urbanização).

As várias unidades de urbanização constituem estrutura urbana de raiz projectada por vários arquitectos mas com o acompanhamento do autor do plano, permitindo por esse motivo uma forma de planear aberta, aferindo as diferentes fases, evoluindo de acordo com as exigências da arquitectura, pela forma nas unidades morfológicas projectadas tendo em conta os aspectos ambientais, culturais, lúdicos e desportivos.

Nesta oportunidade, seria então reivindicada a renovação dos conceitos arquitectónicos e urbanísticos, segundo os princípios racionais da arquitectura moderna internacional, ainda que nos anos posteriores à realização do “ 1ª Congresso Nacional de Arquitectos” em 1948 o desejo de afirmação entre nós de uma arquitectura moderna, fosse marcado ainda com as imposições de uma pretensa arquitectura nacionalista, há muito imposta pelo regime, à imagem das primeiras casas de renda económica de 45 no exemplo das células I e II pelo Arq. Miguel Jacobetty.

Em todo o caso, nas várias células e Planos de Detalhe apresentavam já na primeira fase, de influência francesa, uma clara visão de complementaridade social: habitação a custos controlados; espaços livres e zonas de equipamentos primários, serviços públicos e comércio, apresentando também projectos-tipo para blocos de habitação que nelas se integravam.

Patente estes fundamentos ainda na primeira proposta, abandonando a caracterização minuciosa do desenho urbano, em detrimento dos novos conceitos que estabeleciam claramente o esquema viário e o zonamento de preenchimento menos especificado; posteriormente o bloco de habitação colectiva em altura integra a manifestação de uma linguagem moderna apoiada nas novas técnicas, resolvendo os problemas da necessidade de habitação na ideia da “rua corredor”, ao sabor da Carta de Atenas e dos cinco postulados de Le Corbusier.

Em todos os casos o Bairro de Alvalade constitui-se como paradigma do urbanismo Português: demonstra-se o claro interesse expresso em fazer cidade, perceptível numa ideia de conjunto em criar motivação ao modo de vida consentâneos com os aspectos sociológicos ao tempo, a revisitar várias vezes como lição do desejo da arquitectura experimentar as novas soluções urbanísticas e assim fazer vivenciar a possibilidade da abertura do poder Público e das suas Instituições à defesa quer do interesse colectivo do espaço colectivo, quer da coesão social, visando a concepção de modelos para o planeamento das áreas de expansão das cidades.
Face ao crescimento que a cidade nos revela actualmente, o esquecimento a que foram votadas as experiências urbanas de grande qualidade como as do Bairro de Alvalade conduziram ao preterido e à falta de qualidade reveladas no primarismo de conceitos que traduz a fraca formação técnica daqueles que efectivamente construiriam as cidades: quer renegando a validade em assimilar o conceito de projecto-tipo, quer renegando os conceitos urbanísticos no desenvolvimento dos programas de planeamento dos destinos das cidades. E este esquecimento é de uma enorme gravidade para todos nós.

sexta-feira, março 30, 2007

132 - Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 132

 - Infohabitar 132

Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial 


Neste artigo, depois da apresentação e do enquadramento do Bairro de Alvalade, projectado pelo arquitecto e urbanista Faria da Costa, em Lisboa, fala-se do que se designa pelo “mistério” de Alvalade, nem mais nem menos do que o fazer cidade viva com habitação, depois aborda-se este bairro como exemplo, bem actual, de sustentabilidade urbana e residencial, em seguida comenta-se a intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade e, finalmente, aponta-se Alvalade como suporte de experiências residenciais e urbanas e conclui-se com alguns comentários sobre a utilidade social deste “novo” bairro de Lisboa.


(Fig.01) Uma rua residencial com edifícios das HE-FCP.

Apresentação e enquadramento do Bairro de Alvalade


A II Grande Guerra tinha acabado e a inovação que chegava ao País, bem como as críticas necessidades habitacionais, levaram à criação, em 1946, de um novo organismo, as “Habitações Económicas”, ligado à Federação das Caixas de Previdência (HE-FCP), tecnicamente equipado, e orientado para uma promoção habitacional mais urbana. Este organismo irá actuar ao longo de cerca de 25 anos, até 1972, altura em que as suas atribuições passaram para o recém-criado Fundo de Fomento da Habitação (Teotónio Pereira, “As casas económicas 1947 – 1969”, Jornal Arquitectos n. 16, 17 e 18, Março/Abril de 1983, p. 11).


Nas Habitações Económicas da Federação de Caixas de Previdência - (HE-FCP), destaca-se ainda o muito meritório, extenso e aprofundado trabalho do Serviço de Estudos e Projectos, que, entre outras actividades, publicou (embora com a designação de “circulação restrita”) um significativo e extremamente útil conjunto de cadernos técnicos e de estudo e investigação sobre a problemática habitacional, que abarcaram desde aspectos de pormenorização construtiva a estudos normativos.


(Fig. 02) Exemplo dos estudos habitacionais desenvolvidos para Alvalade na Federação de Caixas de Previdência - Habitações Económicas, e apresentados pelo Arq. Miguel Jacobetty no 1.º Congresso Nacional de Arquitectura, em Maio/Junho de 1948

Considerando a excelente obra deixada pelas Habitações Económicas (HE-FCP) é interessante salientar que elas continuam a ser, ainda hoje, o organismo português ligado à habitação de interesse social que mais tempo esteve em actividade, merecendo, naturalmente, uma adequada divulgação da sua actividade, que foi longa, completa e produtiva.

A criação das HE-FCP, em meados dos anos 40, conjugou-se com a programação, pela Câmara Municipal de Lisboa, do bairro de Alvalade.

O ainda hoje inovador grande bairro de Alvalade – 45.000 habitantes em 230 ha –, foi realizado para 31.000 habitantes em fogos de renda económica mais 2.000 em moradias também de renda económica, sendo os restantes fogos marcados também por modalidades intermédias de promoção habitacional, como é o caso da renda condicionada.

Este novo bairro caracterizou-se por ser um conjunto integrado de habitação para vários grupos sociais e de equipamentos colectivos e serviços dos mais diversos tipos, conjunto este que foi sendo concluído em prazos bem definidos e razoavelmente cumpridos.


(Fig. 03) Alvalade, Planta de apresentação, 1945, Arquivo Municipal de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa.

O “mistério” de Alvalade: o fazer cidade viva com habitação

Mais do que um bairro fez-se cidade viva, e “os mistérios” (da qualidade urbana e residencial) de Alvalade, desenhado por Faria da Costa, levar-nos-iam longe, mais longe do que é possível ir neste capítulo.

A referência ao “mistério” de Alvalade tem origem num texto de Cardoso Pires, integrado no livro “A Cavalo no Diabo”, em que o escritor diz sobre Alvalade (onde viveu muitos anos): ” Não tem história, só comércio, vá lá, bombeiros e escolas para lhe dar alegria. Os jornais dizem que é uma das zonas de mais assaltos em Lisboa, mas não se vê nem sombra de polícia ... E no entanto, à primeira vista tudo é ordem e paz – o mistério de Alvalade está aí.”

Regista-se que, já em 1999, no âmbito de um trabalho de cooperação entre o LNEC e o Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB), o mistério de Alvalade voltou a destacar-se, quando elementos desse organismo de investigação parisiense, após terem visitado Alvalade, salientaram ser este um dos melhores conjuntos urbanos residenciais que visitaram na Europa.


(Fig. 04) A caracterização envolvente e chã das “células sociais” de Alvalade

E, bem a propósito, junta-se um texto do CSTB:

“C’est un urbanisme qui réussit à articuler et à hierarchiser, sur une grande échelle urbaine, les différents espaces – des avenues aux impasses, et des espaces les plus publics aix espaces les plus privés. Il est surprenant que cet exemple ne soit pas valorisé davantage, dans la littérature professionelle internationale; il représente en effet une forme idéal typique de la ville urbaine moderne, comparable à celle élaborée par Haussman à Paris ou par Cerda à Barcelone.

A propos de l’Alvalade il faut d’abord parler du plaisir de la déambulation au hasard des avenues et des rues, jusqu’au coeur des îlots. Nous avons retrouvé ce plaisir typiquement urbain du promeneur qui flâne, erre, découvre un lieu inconnu, se laisse surprendre au milieu d’une placette aux allures villageoises, par la diversité des porches, par les mille détails de modénature, par l’échappée visuelle sur un clocher, par l’ambiance champêtre d’un jardin, puis par l’animation d’une grande avenue et qui se prend à rêver qu’il pourrait lui aussi vivre dans cet appartement dont la fenêtre est ouverte et dont s’échappe une odeur de cuisine qui lui évoque des souvenirs... Peut-être est-ce là un indice subjectif, mais néanmoins bien réel, da la qualité d’un quartier: la capacité du promeneur à s’imaginer habitant le lieu et à l’investir?”

O estudo referido, do qual se fez esta longa citação (da sua página 10), foi elaborado por Brigitte Guigou, Jean Didier Laforgue, Patrice Séchet, e designa-se “Qualité architecturale et urbaine et satisfaction résidentielle” – Projet nº 233 H3, Rapport de mission”, Programme de Coopération Scientifique et Technique Luso-Française – Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB) – Laboratoire National d’Ingénierie Civile (LNEC), Laboratoire de Sociologie Urbaine Générative, CSTB, Paris, Setembro.


(Fig. 05) Em Alvalade o peão ainda é “rei”

Alvalade: um exemplo de sustentabilidade urbana e residencial

Alvalade foi, nos anos 40, o primeiro exemplo da hoje tão referida durabilidade e vitalidade urbana e residencial e está aí, claramente, para “lavar e durar”, quem sabe e desejavelmente no âmbito de uma possível e bem oportuna acção de melhoria e requalificação, ligada a uma sua classificação como zona de interesse urbano, residencial e social/convivial especial.

No grande Alvalade e nas suas “células sociais” fez-se arquitectura urbana de pormenor, integrando-se pequenos edifícios multifamiliares com uma ainda forte ligação e utilização do espaço exterior privado, numa directa adequação a modos de vida provavelmente pouco citadinos. Enquanto, logo ali ao lado, nas avenidas, se fazia, ao mesmo tempo, habitação para famílias provavelmente mais citadinas, que podiam pagar mais pela habitação e, assim, ajudar a pagar a outra habitação mais “económica”.


(Fig. 06) Um dos segredos de Alvalade é o suscitar natural do convívio e do flanar

É possível dizer, citando em parte Cardoso Pires, que Alvalade tem mistérios, mistérios de bem-fazer cidade habitada e habitação na cidade. Alguns desses mistérios vão sendo descobertos, outros, dando razão à designação, ainda não. Mas podem e devem ser aqui referidos certos desses “mistérios”, muito ligados à matéria da desejável aliança entre qualidade de desenho, residencialização e satisfação de necessidades e mesmo dos sonhos humanos:

- A benignidade integradora de várias arquitecturas, sem dominâncias cansativas ou pouco cuidadas.

- A neutralidade, a dignidade e a escala humana de um desenho de arquitectura que é global, “rodeando” todo o edifício e integrando atraentemente edifícios e vizinhanças de proximidade (“impasses” e pracetas residenciais).

- A naturalidade da relação entre vários tipos de edifícios destinados a vários grupos sociais, apostando-se numa eficaz disseminação dos potencialmente diferentes grupos socioculturais.

- A “fácil” integração e concentração dos grandes e pequenos equipamentos ao longo das ruas, praticamente sem se provocarem quebras na crucial continuidade urbana.

- A marcação dos percursos e a capacidade de orientação, também proporcionada pela humana e comunitária repartição em grandes grupos de vizinhança, polarizados por equipamentos de proximidade e, depois, em pequenos agrupamentos de vizinhança de proximidade (pracetas e “impasses rodoviários”).

Seria possível continuar a identificar outros atributos específicos. Atributos estes que resultam de novas conjugações entre os primeiros atributos, que geram novas potencialidades. É assim que é a cidade, sempre em parte inexplicável, quando rica. E cá está a “explicação” dos mistérios. Mas à frente a eles voltaremos, felizmente, também noutros conjuntos urbanos.



(Fig. 07) A intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade

A intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade

Alvalade possui uma positiva qualidade urbanística ligada ao conhecimento sobre como fazer conjuntos dominantemente habitacionais, por um lado caracterizadamente residenciais porque suavizados, envolventes e fortemente marcados pela natureza e pela escala e usos humanos (ex. quintais) e, por outro lado, caracterizadamente urbanos, porque bem estruturados no interior (hierarquicamente) e no exterior da malha (na continuidade da cidade existente e entre vias urbanas importantes), marcados pela continuidade urbana, onde também participam os próprios equipamentos colectivos, pela existência de zonas com actividade concentrada, elas próprias criando vários tipos de sequências, pela aliança entre tráfegos de peões e veículos e por uma integração social realizada de forma que parece natural.

E se estamos hoje em altura de grande atenção aos aspectos de durabilidade, integração e eficácia urbana, que dizer do privilegiar da circulação pedonal, em largos passeios e veredas, dos muito reduzidos cuidados com o verde público, que em boa parte é cumprido pelas jardinetas e pelos quintais privados – eles próprios potencialmente utilizáveis para uma significativa actividade agrícola –, e da sábia integração da pequena indústria não poluente, criando-se uma completa actividade citadina. E é bem interessante salientar que o jovem Ribeiro Telles já participou no projecto paisagista de Alvalade.


(Fig. 08) Em Alvalade é possível viver num ambiente humanizado e suavizado pelo verde urbano a “dois passos” de uma intensa animação urbana

Em Alvalade, e embora tenhamos hoje o problema do estacionamento automóvel – mas este é um problema relativamente novo no Bairro e que tem também contornos de verdadeira irracionalidade, tal como tem salientado Gonçalo Ribeiro Telles (Entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles, em Documentos de Arquitectura DA03, p. 40) – , é possível viver num ambiente humanizado e suavizado pelo verde urbano a “dois passos” de uma intensa animação urbana, gozando, ainda, de diversas facilidades funcionais e da proximidade em segurança a equipamentos destinados a crianças.

De certa forma é a tal mítica “quinta com porta para o Chiado”, um conjunto de pequenos “oásis” residenciais, mas associados a eixos com intensa vida própria e bem caracterizada, e teve, ainda, a abertura funcional e a capacidade plástica para receber e valorizar excelentes intervenções residenciais modernistas, complementando-se assim, ainda um pouco mais, um bairro que é também história viva, testemunho da evolução da vida cultural portuguesa.


(Fig. 09) Alvalade acolheu a inovação residencial e arquitectónica, por exemplo, no Bairro das “Estacas” de Formozinho Sanchez e Ruy Athouguia (concluído em 1954)

Alvalade como suporte de experiências residenciais e urbanas


Alvalade teve, de facto, também, outra virtude, não repetida depois noutros bairros. Foi o suporte de experiências residenciais e urbanas modernistas, que marcaram cruzamentos, praças e avenidas, fazendo-se cidade histórica e viva, sem quebras, mas sim com surpresa e mesmo emoção, tal como é necessário.

E lá estão, entre outras meritórias intervenções de arquitectura urbana pormenorizada, e para além das grandes “células sociais” concluída cerca de 1948 (com cerca de 500 fogos cada) de Miguel Jacobetty, o conjunto da Av. Rodrigo da Cunha, de Joaquim Ferreira (1951), o Bairro das Estacas, de Formosinho Sanches e Ruy d’Athouguia (1955), e os conjuntos da Av.ª do Estados Unidos da América, de Croft de Moura, Henrique Albino e Craveiro Lopes (1958) e da Av. do Brasil, de Jorge Segurado (1960).

Prova-se, assim, que é possível e necessário harmonizar uniformidade com surpresa, regra e dignidade com inovação. O plano urbano de Alvalade é, como refere Francisco Barata, “um exemplo de como um tecido urbano legível e identificável pode suportar a variação tipológica dos modelos de habitação, sem perder urbanidade” (Francisco Barata Fernandes – As formas da casa na forma da cidade. Palestra proferida nos Encontros da Associação dos Arquitectos Portugueses – Habitação, Construir Cidade com Habitação, AAP, 1998, p. 9).

Outro aspecto a salientar é que a experiência de Alvalade foi, positivamente, apresentada e discutida, entre arquitectos, no I Congresso de Arquitectura, em 1948, onde se divulgaram as células sociais de Alvalade e se “reivindicou a construção de habitações populares em altura, como condição necessária para a solução das graves carências de que sofriam as classes trabalhadoras nos meios urbanos” (Teotónio Pereira (83), ob. cit., p. 11).


(Fig. 10) Em Alvalade desenvolveu-se uma verdadeira integração social

Sobre a utilidade social de Alvalade: alguns comentários


Afinal, tal como sublinha Nuno Teotónio Pereira, Alvalade “serviu de rampa de lançamento da Federação (Habitações Económicas – Federação das Caixas de Previdência, HE-FCP)), forneceu os projectos de unidades – lote de 4 pisos – para utilização na construção de pequenos núcleos de casas de renda Económica em capitais de distrito e noutras localidades” (Teotónio Pereira (83), ob. cit., p. 11), os pequenos “alvalades” (de pequenos edifícios multifamiliares) que iriam acompanhar os pequenos “restelos” das casas económicas (de edifícios unifamiliares), também utilizando uma óptima imagem desenvolvida pelo Arq. Teotónio Pereira.

De certa forma e como também aponta o Arq. Teotónio Pereira, no artigo citado, pretendeu-se, com esta “faixa” de promoção mais urbana e “com um regime de locação menos exigente”, alargar a habitação de interesse social às classes médias, que se considerava terem, também, críticas carência habitacionais e “de cujo apoio o regime precisava.”

É interessante ir confirmando esta referência cíclica à classe média “remediada” que parece que vive bem, mas que, na prática, tem muitas carências habitacionais. Hoje em dia tal sucede novamente, ou será que nunca deixou de suceder?
E, de facto, cerca de 1948 havia essa percepção na sociedade portuguesa, tal como se demonstra pelas palavras do Eng. António Faria na apresentação do seu livro “O problema das casas económicas” (p. 10), quando diz: “este trabalho não se dedica, como vereis, a indicar apenas uma solução para a habitação dos chamados pobres, mas, também, para a da chamada classe média, que, sendo aquela que neste momento mais sofre (na luta pelas aparências), parece, também, ser aquela para a qual menos se tem olhado, embora esteja em grande maioria ...”.

Notas finais

Este artigo foi retirado, quase integralmente, de um capítulo do livro que realizei para o Instituto Nacional de Habitação (INH) e que foi lançado há cerca de um ano, marcando-se os vinte anos de actividade do INH – “INH, 1984-2004 20 Anos a Promover a Construção de Habitação Social”.
Com este artigo pretende-se incrementar a atenção que Alvalade bem merece nos mais variados aspectos urbanos, habitacionais e sociais, bem numa linha que tanta falta faz em Portugal e que corresponde a uma sistemática divulgação técnica das melhores práticas; e desde já se aponta que Alvalade voltará a ser, proximamente, revisitada aqui no Infohabitar através de uma análise arquitectónica residencial sistemática bastante dirigida para as suas “células sociais”.

domingo, julho 09, 2006

92 - Outros destaques no Prémio INH 2006 - Infohabitar 92

 - Infohabitar 92

Outros destaques no Prémio INH 2006

António Baptista Coelho

(INH, Prémio, habitação, habitação social, urbanismo, conjuntos residenciais, exemplos)
No presente artigo do Infohabitar editam-se algumas breves apreciações sobre outros conjuntos residenciais e urbanos candidatos na 18ª edição do Prémio INH, em 2006 e que na opinião do autor deste artigo, também merecem significativos destaques aqui no Infohabitar, essencialmente na área da arquitectura e do urbanismo, de forma a que determinados aspectos positivos de experiências residenciais e urbanas de habitação de interesse social não fiquem sem registo.
Depois destas notas e, de certa forma, também como conclusão desta longa série de artigos sobre o Prémio INH 2006, tecem-se mais alguns comentários sobre a riquíssima experiência do Prémio, apontando-se um leque de conclusões práticas, muito centradas nos aspectos ligados ao tipo preferencial de dimensão da intervenção residencial, conclusões estas julgadas úteis, na área de uma promoção habitacional de interesse social que faça com a cidade viva e humanizada um compromisso solene e de futuro.
Nota: os projectistas referidos, neste e nos artigos precedentes, são os projectistas coordenadores dos respectivos empreendimentos, tal como foram indicados nas candidaturas ao Prémio INH.


O Prémio INH 2006, mais alguns destaques entre os concorrentes.

Promoção cooperativa (Habitação a Custos Controlados):

- GUIMARÃESCOOPE Cooperativa de Habitação C.R.L., construtor, NVE – Engenharias, Lda. Guimarães, Fermentões, 16 fogos, Arq.ª Maria Fernanda Martins.





Neste conjunto salienta-se a grande qualidade patente no desenvolvimento espacial e no acabamento dos espaços domésticos, com destaques para as excelentes cozinhas e para o bom dimensionamento das circulações.



Promoção cooperativa (Estatuto Fiscal Cooperativo):

- MAIACOOPE Cooperativa de Habitação C.R.L., construtor, Mozinho, Construção Civil e Obras públicas S.A. – Maia, Gueifães, R. 5 Out, 28 fogos, Arq.ª Sandra Couto.




Este empreendimento, cujas características urbanas estão, ainda, em desenvolvimento, salienta-se, desde já, pelos excelentes acabamentos, bem visíveis nos seus alçados. Interiormente, e para além dos excelentes acabamentos, destaca-se a interessante solução espacial aplicada na varanda, que sendo comum à sala e à cozinha aproveita mais profundidade útil na zona que “prolonga” a sala, e também se refere a muito versátil solução de sala em dois espaços, ligados por gola e por porta de correr, que proporciona uma grande diversidade de apropriações.



Promoção municipal:

- C. M. de CasteloBranco – C.Branco, Bº Horta d`Alva, 32fogos, Arq.º CassianoNeves e Arq.º Gonçalo MarçalGrilo, construtor Contrope Lda.





Neste conjunto destaca-se o aspecto depurado e racional patente no desenho dos alçados, racionalidade esta que também é positivamente aplicada na organização dos fogos, e o cuidado investido na manutenção das árvores preexistentes.

- C. M. doPorto –Porto, Parceria e Antunes, 54fogos, Arq. Cancelliere & Costa, construtor Constructora SanJose, S.A.





Este é um belo conjunto ao nível dos aspectos urbanos e de integração local pormenorizada, aplicando-se uma interessante solução de grande garagem comum, apenas semi-enterrada, e que se conjuga com as pequenas “alas” residenciais, criando agradáveis pequenas vizinhanças de proximidade, muito apropriadas a usos pedonais. O desenho de arquitectura é exteriormente depurado e muito atraente e foram visitadas excelentes soluções domésticas, em termos de equilíbrio de espaços e de capacidade de apropriação. Não é possível deixar de sublinhar que é esta a opção mais correcta de introduzir no centro da cidade pequenos conjuntos de habitação de interesse social caracterizados por uma grande capacidade de integração local e por um desenho de arquitectura muito atraente.




Promoção privada – Contratos de Desenvolvimento de Habitação:

- EFIMÓVEIS Imobiliária S.A., construtor, EDINORTE Edificações Nortenhas S.A. – SantoTirso, S. Martinho doCampo, Lugarde Leiras do Ribeiro, 72fogos, Arq.º J.Bragança e Arq.º M.Marques.





Este é um excelente conjunto, seja pela sua escala (equilibrado número de fogos) e imagem gerais, seja pela qualidade evidente da sua construção, seja pela atractividade de alguns dos seus pormenores, importantes para a sua apropriação pelos moradores – “pormenores” de grande escala como o atraente jardim público frontal e de pequena escala marcando as entradas dos edifícios – , seja pela excelente ideia que foi criar uma verdadeira vizinhança de proximidade e de convivialidade, desenvolvendo uma espécie de grande “L” edificado, um agradável espaço urbano côncavo, vitalizado pelos acessos aos edifícios e dinamizado por um pequeno “café”, que rapidamente se tornará o pólo de vitalidade desta vizinhança. Nos edifícios salientam-se as agradáveis escadas comuns e nos fogos um merecido destaque para a dotação com pequenos terraços das habitações menos elevadas.




- EFIMÓVEIS Imobiliária S.A., construtor, Ferreira Construções S.A. – Gondomar, RioTinto,Areias, 94fogos, Arq.º J.Bragança e Arq.º M.Marques.




Sublinha-se neste conjunto a muito interessante praceta residencial, com grande utilidade para recreio e desporto e bem hierarquizada e separada da via contígua, proporcionando-se, assim, melhores condições de segurança e uma agradável marcação da respectiva vizinhança de proximidade.




- Construtora.do Távora Lda. – Trancoso, Bº, Sr.ª dosAflitos, 11fogos, Arq.º Aires Almeida e Arq.ª Sofia Jacob





Neste conjunto fazem-se três merecidos destaques, um deles para uma imagem global na envolvente muito bem harmonizada com uma predominância local de edifícios unifamiliares, outro, no edifício, para a funcional relação entre cada fogo e a sua respectiva garagem privativa, e o último, ao nível doméstico, para a agradável e funcional organização da habitação, marcada por belíssimas cozinhas, verdadeiras salas de família, pelo seu espaço e pelos seus acabamentos – condição esta que pode possibilitar o uso da “sala-comum” apenas como sala de estar.




- EUROHORIZONTE Lda., construtor, FDO- Construções S.A. – Aveiro, Aradas, Magustão, 63fogos, Arq. Jorge Matias.






Neste conjunto destaca-se a atraente imagem geral, marcada pelas agradáveis entradas dos edifícios, que marcam ritmicamente um longo e amplo passeio arborizado. Refere-se também, a nível urbano, o cuidado investido no equipamento de recreio e desporto, e, a nível doméstico, o desenho dos vãos e as amplas cozinhas.





- EUROHORIZONTE Lda., construtor, FDO- Construções S.A. – Trofa, S.Martinho Bougado - Mosteiró, 85fogos, Arq.º Ricardo Alarcão.






Sublinha-se a agradável imagem geral, marcada por uma volumetria orgânica desenvolvida por um amplo conjunto de elementos, desde os edifícios, a muretes e a grandes e contínuas floreiras bem associadas aos edifícios; e tudo isto numa atraente relação com as árvores de arruamento, plantadas já com a dimensão certa. Outros destaques seja para a generosidade, tão adequada, de uma grande amplitude de espaços de recreio e desporto bem equipados, seja para a solução funcional de estacionamentos cobertos sob os edifícios, aproveitando os desníveis do terreno.

- HABIMARANTE Sociedade de Construções S.A. – Cabeceiras de Basto, Arco.de Baúlhe, 21 fogos, Arq.º Hugo Maia.





Destacam-se especialmente quatro aspectos neste conjunto: a coragem de se continuar a usar uma tipologia em galeria exterior que tem os seus problemas, mas também tem as suas vantagens; a variedade de tipos de fogos; a excelente zona de estacionamento e de garagem que marca todo o amplo espaço inferior do conjunto, uma solução que transformou uma parte do problema de implantação numa solução funcionalmente vantajosa; e a integração com a habitação de um equipamento colectivo de apoio infantil (julgo que do tipo “Actividades de Tempos Livres”).

- Hagen Imobiliária S.A., construtor, Sociedade de Construção Hagen, S.A.– Sines, Qt. dosPassarinhos, 128fogos, Arq. MiguelRocha e Arq. Miguel Saraiva.





Este é também um agradável conjunto que merece um destaque muito específico e amplo: relativamente à imagem urbana geral, marcada pela atractividade e dignidade; ao nível das excelentes pracetas pedonais com uma agradável escala geral e um interessante equipamento; relativamente a soluções pouco frequentes, mas muito interessantes, de articulação de vias de acesso com “impasses” residenciais muito bem pedonalizados (este aspecto é visível em uma das imagens); ao nível de soluções de edifícios em que se desenvolvem pequenas galerias comuns interiores de distribuição, mas com iluminação natural; e finalmente, quanto aos fogos, destaca-se a muito agradável distribuição doméstica, a associação entre arrumações e definição de espaços e privacidades, e a definição de espaçosas cozinhas e salas (concentrando-se, aqui, um máximo de área).





Algumas, sempre poucas, notas conclusivas

O Júri do Prémio embora anualmente renovado, garantiu a manutenção de um núcleo de aspectos de observação e análise, que asseguraram, genericamente, o acompanhamento da mais recente habitação de interesse social em Portugal, possibilitando, assim, uma muito útil e interessante noção da evolução qualitativa dessa habitação e das suas diversas modalidades de promoção ao longo de quase duas décadas.
Mas um aspecto deve ser aqui salientado, pois é, de certa forma, uma conquista deste período de promoção habitacional com o apoio do INH, que, embora não se possa considerar, ainda, como reflexo de uma guerra ganha, é uma conquista muito significativa no apoio a uma habitação de interesse social bem integrada, física e socialmente, e ligada a uma arquitectura urbana bem qualificada; esta conquista é a “pequena” escala e a diversidade das intervenções, que:
- favorece a participação dos habitantes, a identidade local, o desenvolvimento comunitário, e o controlo local
- facilita o equilíbrio ecológico de cada conjunto.
- privilegia o peão e favorece uma rede de espaços públicos conviviais
- proporciona diversidade de soluções de edifícios habitacionais e mistos.
- favorece uma ampla gama de usos e actividades.
- pode e deve privilegiar o verde urbano em todas as suas formas.
- e assegura o desenvolvimento de pequenos conjuntos urbanos, controláveis, fáceis de gerir, capazes de funcionarem como elementos positivos de qualificação e requalificação urbana; o que é muito importante.

Encarnação – OlivaisN, Lisboa
António Baptista Coelho