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domingo, julho 09, 2006

92 - Outros destaques no Prémio INH 2006 - Infohabitar 92

 - Infohabitar 92

Outros destaques no Prémio INH 2006

António Baptista Coelho

(INH, Prémio, habitação, habitação social, urbanismo, conjuntos residenciais, exemplos)
No presente artigo do Infohabitar editam-se algumas breves apreciações sobre outros conjuntos residenciais e urbanos candidatos na 18ª edição do Prémio INH, em 2006 e que na opinião do autor deste artigo, também merecem significativos destaques aqui no Infohabitar, essencialmente na área da arquitectura e do urbanismo, de forma a que determinados aspectos positivos de experiências residenciais e urbanas de habitação de interesse social não fiquem sem registo.
Depois destas notas e, de certa forma, também como conclusão desta longa série de artigos sobre o Prémio INH 2006, tecem-se mais alguns comentários sobre a riquíssima experiência do Prémio, apontando-se um leque de conclusões práticas, muito centradas nos aspectos ligados ao tipo preferencial de dimensão da intervenção residencial, conclusões estas julgadas úteis, na área de uma promoção habitacional de interesse social que faça com a cidade viva e humanizada um compromisso solene e de futuro.
Nota: os projectistas referidos, neste e nos artigos precedentes, são os projectistas coordenadores dos respectivos empreendimentos, tal como foram indicados nas candidaturas ao Prémio INH.


O Prémio INH 2006, mais alguns destaques entre os concorrentes.

Promoção cooperativa (Habitação a Custos Controlados):

- GUIMARÃESCOOPE Cooperativa de Habitação C.R.L., construtor, NVE – Engenharias, Lda. Guimarães, Fermentões, 16 fogos, Arq.ª Maria Fernanda Martins.





Neste conjunto salienta-se a grande qualidade patente no desenvolvimento espacial e no acabamento dos espaços domésticos, com destaques para as excelentes cozinhas e para o bom dimensionamento das circulações.



Promoção cooperativa (Estatuto Fiscal Cooperativo):

- MAIACOOPE Cooperativa de Habitação C.R.L., construtor, Mozinho, Construção Civil e Obras públicas S.A. – Maia, Gueifães, R. 5 Out, 28 fogos, Arq.ª Sandra Couto.




Este empreendimento, cujas características urbanas estão, ainda, em desenvolvimento, salienta-se, desde já, pelos excelentes acabamentos, bem visíveis nos seus alçados. Interiormente, e para além dos excelentes acabamentos, destaca-se a interessante solução espacial aplicada na varanda, que sendo comum à sala e à cozinha aproveita mais profundidade útil na zona que “prolonga” a sala, e também se refere a muito versátil solução de sala em dois espaços, ligados por gola e por porta de correr, que proporciona uma grande diversidade de apropriações.



Promoção municipal:

- C. M. de CasteloBranco – C.Branco, Bº Horta d`Alva, 32fogos, Arq.º CassianoNeves e Arq.º Gonçalo MarçalGrilo, construtor Contrope Lda.





Neste conjunto destaca-se o aspecto depurado e racional patente no desenho dos alçados, racionalidade esta que também é positivamente aplicada na organização dos fogos, e o cuidado investido na manutenção das árvores preexistentes.

- C. M. doPorto –Porto, Parceria e Antunes, 54fogos, Arq. Cancelliere & Costa, construtor Constructora SanJose, S.A.





Este é um belo conjunto ao nível dos aspectos urbanos e de integração local pormenorizada, aplicando-se uma interessante solução de grande garagem comum, apenas semi-enterrada, e que se conjuga com as pequenas “alas” residenciais, criando agradáveis pequenas vizinhanças de proximidade, muito apropriadas a usos pedonais. O desenho de arquitectura é exteriormente depurado e muito atraente e foram visitadas excelentes soluções domésticas, em termos de equilíbrio de espaços e de capacidade de apropriação. Não é possível deixar de sublinhar que é esta a opção mais correcta de introduzir no centro da cidade pequenos conjuntos de habitação de interesse social caracterizados por uma grande capacidade de integração local e por um desenho de arquitectura muito atraente.




Promoção privada – Contratos de Desenvolvimento de Habitação:

- EFIMÓVEIS Imobiliária S.A., construtor, EDINORTE Edificações Nortenhas S.A. – SantoTirso, S. Martinho doCampo, Lugarde Leiras do Ribeiro, 72fogos, Arq.º J.Bragança e Arq.º M.Marques.





Este é um excelente conjunto, seja pela sua escala (equilibrado número de fogos) e imagem gerais, seja pela qualidade evidente da sua construção, seja pela atractividade de alguns dos seus pormenores, importantes para a sua apropriação pelos moradores – “pormenores” de grande escala como o atraente jardim público frontal e de pequena escala marcando as entradas dos edifícios – , seja pela excelente ideia que foi criar uma verdadeira vizinhança de proximidade e de convivialidade, desenvolvendo uma espécie de grande “L” edificado, um agradável espaço urbano côncavo, vitalizado pelos acessos aos edifícios e dinamizado por um pequeno “café”, que rapidamente se tornará o pólo de vitalidade desta vizinhança. Nos edifícios salientam-se as agradáveis escadas comuns e nos fogos um merecido destaque para a dotação com pequenos terraços das habitações menos elevadas.




- EFIMÓVEIS Imobiliária S.A., construtor, Ferreira Construções S.A. – Gondomar, RioTinto,Areias, 94fogos, Arq.º J.Bragança e Arq.º M.Marques.




Sublinha-se neste conjunto a muito interessante praceta residencial, com grande utilidade para recreio e desporto e bem hierarquizada e separada da via contígua, proporcionando-se, assim, melhores condições de segurança e uma agradável marcação da respectiva vizinhança de proximidade.




- Construtora.do Távora Lda. – Trancoso, Bº, Sr.ª dosAflitos, 11fogos, Arq.º Aires Almeida e Arq.ª Sofia Jacob





Neste conjunto fazem-se três merecidos destaques, um deles para uma imagem global na envolvente muito bem harmonizada com uma predominância local de edifícios unifamiliares, outro, no edifício, para a funcional relação entre cada fogo e a sua respectiva garagem privativa, e o último, ao nível doméstico, para a agradável e funcional organização da habitação, marcada por belíssimas cozinhas, verdadeiras salas de família, pelo seu espaço e pelos seus acabamentos – condição esta que pode possibilitar o uso da “sala-comum” apenas como sala de estar.




- EUROHORIZONTE Lda., construtor, FDO- Construções S.A. – Aveiro, Aradas, Magustão, 63fogos, Arq. Jorge Matias.






Neste conjunto destaca-se a atraente imagem geral, marcada pelas agradáveis entradas dos edifícios, que marcam ritmicamente um longo e amplo passeio arborizado. Refere-se também, a nível urbano, o cuidado investido no equipamento de recreio e desporto, e, a nível doméstico, o desenho dos vãos e as amplas cozinhas.





- EUROHORIZONTE Lda., construtor, FDO- Construções S.A. – Trofa, S.Martinho Bougado - Mosteiró, 85fogos, Arq.º Ricardo Alarcão.






Sublinha-se a agradável imagem geral, marcada por uma volumetria orgânica desenvolvida por um amplo conjunto de elementos, desde os edifícios, a muretes e a grandes e contínuas floreiras bem associadas aos edifícios; e tudo isto numa atraente relação com as árvores de arruamento, plantadas já com a dimensão certa. Outros destaques seja para a generosidade, tão adequada, de uma grande amplitude de espaços de recreio e desporto bem equipados, seja para a solução funcional de estacionamentos cobertos sob os edifícios, aproveitando os desníveis do terreno.

- HABIMARANTE Sociedade de Construções S.A. – Cabeceiras de Basto, Arco.de Baúlhe, 21 fogos, Arq.º Hugo Maia.





Destacam-se especialmente quatro aspectos neste conjunto: a coragem de se continuar a usar uma tipologia em galeria exterior que tem os seus problemas, mas também tem as suas vantagens; a variedade de tipos de fogos; a excelente zona de estacionamento e de garagem que marca todo o amplo espaço inferior do conjunto, uma solução que transformou uma parte do problema de implantação numa solução funcionalmente vantajosa; e a integração com a habitação de um equipamento colectivo de apoio infantil (julgo que do tipo “Actividades de Tempos Livres”).

- Hagen Imobiliária S.A., construtor, Sociedade de Construção Hagen, S.A.– Sines, Qt. dosPassarinhos, 128fogos, Arq. MiguelRocha e Arq. Miguel Saraiva.





Este é também um agradável conjunto que merece um destaque muito específico e amplo: relativamente à imagem urbana geral, marcada pela atractividade e dignidade; ao nível das excelentes pracetas pedonais com uma agradável escala geral e um interessante equipamento; relativamente a soluções pouco frequentes, mas muito interessantes, de articulação de vias de acesso com “impasses” residenciais muito bem pedonalizados (este aspecto é visível em uma das imagens); ao nível de soluções de edifícios em que se desenvolvem pequenas galerias comuns interiores de distribuição, mas com iluminação natural; e finalmente, quanto aos fogos, destaca-se a muito agradável distribuição doméstica, a associação entre arrumações e definição de espaços e privacidades, e a definição de espaçosas cozinhas e salas (concentrando-se, aqui, um máximo de área).





Algumas, sempre poucas, notas conclusivas

O Júri do Prémio embora anualmente renovado, garantiu a manutenção de um núcleo de aspectos de observação e análise, que asseguraram, genericamente, o acompanhamento da mais recente habitação de interesse social em Portugal, possibilitando, assim, uma muito útil e interessante noção da evolução qualitativa dessa habitação e das suas diversas modalidades de promoção ao longo de quase duas décadas.
Mas um aspecto deve ser aqui salientado, pois é, de certa forma, uma conquista deste período de promoção habitacional com o apoio do INH, que, embora não se possa considerar, ainda, como reflexo de uma guerra ganha, é uma conquista muito significativa no apoio a uma habitação de interesse social bem integrada, física e socialmente, e ligada a uma arquitectura urbana bem qualificada; esta conquista é a “pequena” escala e a diversidade das intervenções, que:
- favorece a participação dos habitantes, a identidade local, o desenvolvimento comunitário, e o controlo local
- facilita o equilíbrio ecológico de cada conjunto.
- privilegia o peão e favorece uma rede de espaços públicos conviviais
- proporciona diversidade de soluções de edifícios habitacionais e mistos.
- favorece uma ampla gama de usos e actividades.
- pode e deve privilegiar o verde urbano em todas as suas formas.
- e assegura o desenvolvimento de pequenos conjuntos urbanos, controláveis, fáceis de gerir, capazes de funcionarem como elementos positivos de qualificação e requalificação urbana; o que é muito importante.

Encarnação – OlivaisN, Lisboa
António Baptista Coelho

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

O conjunto de habitações sociais do Monte de São João - Infohabitar 7

 - Infohabitar 7


O conjunto de habitações sociais do Monte de São João

um texto de análise de Duarte Nuno Simões


Introdução ao texto de Duarte Nuno Simões
Edita-se, em seguida um texto de análise elaborado pelo Arq. Duarte Nuno Simões sobre o conjunto habitacional promovido pela Câmara Municipal do Porto no Monte de São João, Paranhos, Porto, projectado pelos Arquitectos Rui Almeida e Filipe Oliveira Dias, e que foi Prémio do Instituto Nacional de Habitação de Promoção Municipal em 2004.
Sublinha-se que a verdadeira leitura desta análise só ficará completa com a visita a este conjunto de realojamento, visita esta que vivamente se recomenda, no entanto o texto incide seja sobre vários aspectos da desejável “fusão” entre a qualidade arquitectónica e a qualidade residencial, seja sobre os modos que podem e devem ser seguidos para um melhor conhecimento das obras arquitectónicas e residenciais, seja também sobre importantes aspectos elementares do próprio desenho da arquitectura urbana; e sobre todos estes aspectos é muito rico o texto que se segue, com o os qual todos ganharemos a partir de uma leitura e reflexão cuidadas.
António Baptista Coelho


O conjunto de habitações sociais do Monte de São João, ultrapassadas as primeiras impressões de claro agrado, revela uma grande coerência quanto aos objectivos que parece terem norteado os seus autores.
Como todas as obras de qualidade o conjunto não revela de imediato os seus “segredos”, antes apela ao nosso interesse em descobri-los, ou seja, de aceitar o jogo de desvendar o que, estando patente, não podemos de imediato, conscientemente, ver…
Da arquitectura deste conjunto dir-se-á que recusa o auto-comprazimento pela forma como fim último e seu principal objectivo. Aqui a arquitectura assume a sua condição mais nobre de espaço da vida dos homens , onde o livre espraiar dos afectos e da solidariedade entre vizinhos será possível. Tal como foi concebido este conjunto não se fecha autisticamente sobre si próprio, antes estimula o encontro, a troca, a convivência dos moradores não podendo prescindir, também, do interesse pelos valores formais, aqui postos ao serviço de uma proposta que assume, deliberadamente, a construção do espaço dos homens, sua finalidade última e imprescindível.
Então a que valores formais me refiro?
Antes de mais à escala do conjunto, à clareza da imagem proposta, ao tratamento dado à praça interna, mas também à simplicidade dos elementos arquitecturais, independentemente da sua importância e à existência de funções complementares integradas no conjunto edificado.
A recusa do modelo do grande bloco em altura, parede intransponível, objecto-obstáculo no qual as pessoas, os moradores, tendem a isolar-se umas das outras, originou um conjunto cujos elementos se desmultiplicaram em vários volumes, articulados em “três blocos que parecem oito”, como dizem os seus autores. Estes ao desconstruirem o modelo do grande bloco, propõem-nos um conjunto à nossa escala, uma arquitectura surpreendentemente jovem e afável. “Três blocos que parecem oito” testemunha a consciência da importância e do empenhamento dos seus autores de resolverem o problema da escala do conjunto, tomado o homem como referência, assumindo também conscientemente a continuidade da memória da cidade feita de edifícios que, sucessivamente, se encostam a outros edifícios, dando origem a praças e ruas.
Refira-se também a clareza com que o conjunto se apresenta a quem desprevenidamente o veja: oito blocos que afinal não são senão três e que determinam e abraçam uma praça interna, organizada em dois níveis principais, tema originador de grande parte da riqueza espacial do conjunto, caracterizado por uma aparente e deliberada simplicidade dos elementos vários que o compõem.
Cada um dos três blocos é servido por uma escada e um elevador e tem, em cada piso, uma galeria coberta que dá acesso a quatro fogos. Ora, a opção pelo uso de galerias não é inocente: é que as galerias acrescentam à sua função imediata de acesso às habitações, aquela outra de se constituírem como elementos de animação, de sinal de vida do conjunto e também como espaços de transição entre os interiores das habitações, quadro da privacidade das famílias e a praça interna quadro possível das mais variadas formas de sociabilidade dos habitantes.
Por isso, pelo discreto e imprevisível espectáculo que as galerias podem suscitar, as suas guardas não se constituíram como defesas opacas, antes protecções que assumem a transparência garantida pelos painéis de rede metálica.
A praça interna, evolução dos antigos logradouros privados dos quarteirões urbanos tornada aqui espaço comum, é um dos elementos que melhor caracterizam, conceptual e formalmente, o conjunto do Monte de São João. De facto, a praça tem todas as condições para estimular e servir de suporte a modos de conviviabilidade entre os habitantes e até entre estes e os habitantes das proximidades. Pense-se como as crianças poderão usar a praça em segurança para os seus jogos e nos contactos que elas induzirão entre os adultos seus familiares!
Outra das características do conjunto corresponde à simplicidade do desenho dos seus elementos mais significantes como sejam as janelas, as guardas das galerias, os óculos que iluminam e assinalam as escadas, a elegância das entradas dos três blocos, a organização dos vários elementos que integram a praça interna e, ainda, o desenho das entradas de luz da garagem colectiva, sem esquecer o cuidado posto na pormenorização dos interiores dos 55 fogos e dos vários equipamentos que integram o conjunto: um ATL, a sede da associação de moradores e da administração do conjunto e três fracções comerciais.
Não gostaria, também, de deixar em claro dois aspectos que considero muito significativos da minúcia e cuidado com que este conjunto foi projectado e realizado. Um, as paredes de fundo das galerias, pintadas cada uma com sua cor pastel, criam uma referência facilmente apreensível sem prejuízo da unidade do conjunto. O outro, a ligeira inclinação, que as afasta de um aparente paralelismo, das paredes dos corpos avançados que rematam os dois blocos e que assinalam a articulação entre os níveis da praça interna: não sendo paralelas, como parecem, as referidas paredes reforçam a continuidade da praça, delimitada e definida pelas frentes que sobre ela abrem, sendo assim a unidade do conjunto salvaguardada e reforçada.
Tudo aqui transmite-nos uma sensação tão evidente de agrado que um esforço de análise mais apurado do que o que tentei pode parecer inútil ou mesmo fastidioso. No fundo ele não vai acrescentar grande coisa ao prazer sentido: tenho presente a reacção de pessoas tão diferentes de formação e, até, de geração como a dos elementos do Júri do Prémio INH 2004 que não se eximiram a espontaneamente manifestar o seu agrado pelas características observadas deste conjunto de habitações sociais.
Toda a verdadeira arquitectura – a verdadeira, aquela que não só parece, mas que é – é um labirinto, convite não só à curiosidade mas à necessidade da descoberta. E o visitante, qual novo Teseu a quem Ariana deu outra vez o prudente fio, poderá encontrar o caminho da saída, daquilo que, escondido, se encontra bem à vista: o caminho de um maior entendimento.
A arquitectura não pode prescindir da sensibilidade nem da inteligência de quem a imagina. Mas uma e outra têm que ser acrescentadas pelo talento. Só assim se garantirá a passagem de um nível honesto mas banal para o desejável grau superior da verdadeira arquitectura assumindo-se então a sua vocação de obra de arte, de contribuição cultural, de marca significante do tempo em que vivemos. Todas essas qualidades o conjunto do Monte de São João no-las revelou.
Lisboa, 06 de Setembro de 2004
Arq. Duarte Nuno Simões