sexta-feira, abril 20, 2007

Sobre Alvalade, um comentário – de Pedro Taborda - Infohabitar 135

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O Bairro de Alvalade, que tem por base o " Plano de Urbanização da Zona Sul da Avenida Alferes Malheiro", de autoria do arquitecto Faria da Costa ainda nos anos 40, é um verdadeiro laboratório de propostas habitacionais (mais de 25 anos de período de urbanização).

As várias unidades de urbanização constituem estrutura urbana de raiz projectada por vários arquitectos mas com o acompanhamento do autor do plano, permitindo por esse motivo uma forma de planear aberta, aferindo as diferentes fases, evoluindo de acordo com as exigências da arquitectura, pela forma nas unidades morfológicas projectadas tendo em conta os aspectos ambientais, culturais, lúdicos e desportivos.

Nesta oportunidade, seria então reivindicada a renovação dos conceitos arquitectónicos e urbanísticos, segundo os princípios racionais da arquitectura moderna internacional, ainda que nos anos posteriores à realização do “ 1ª Congresso Nacional de Arquitectos” em 1948 o desejo de afirmação entre nós de uma arquitectura moderna, fosse marcado ainda com as imposições de uma pretensa arquitectura nacionalista, há muito imposta pelo regime, à imagem das primeiras casas de renda económica de 45 no exemplo das células I e II pelo Arq. Miguel Jacobetty.

Em todo o caso, nas várias células e Planos de Detalhe apresentavam já na primeira fase, de influência francesa, uma clara visão de complementaridade social: habitação a custos controlados; espaços livres e zonas de equipamentos primários, serviços públicos e comércio, apresentando também projectos-tipo para blocos de habitação que nelas se integravam.

Patente estes fundamentos ainda na primeira proposta, abandonando a caracterização minuciosa do desenho urbano, em detrimento dos novos conceitos que estabeleciam claramente o esquema viário e o zonamento de preenchimento menos especificado; posteriormente o bloco de habitação colectiva em altura integra a manifestação de uma linguagem moderna apoiada nas novas técnicas, resolvendo os problemas da necessidade de habitação na ideia da “rua corredor”, ao sabor da Carta de Atenas e dos cinco postulados de Le Corbusier.

Em todos os casos o Bairro de Alvalade constitui-se como paradigma do urbanismo Português: demonstra-se o claro interesse expresso em fazer cidade, perceptível numa ideia de conjunto em criar motivação ao modo de vida consentâneos com os aspectos sociológicos ao tempo, a revisitar várias vezes como lição do desejo da arquitectura experimentar as novas soluções urbanísticas e assim fazer vivenciar a possibilidade da abertura do poder Público e das suas Instituições à defesa quer do interesse colectivo do espaço colectivo, quer da coesão social, visando a concepção de modelos para o planeamento das áreas de expansão das cidades.
Face ao crescimento que a cidade nos revela actualmente, o esquecimento a que foram votadas as experiências urbanas de grande qualidade como as do Bairro de Alvalade conduziram ao preterido e à falta de qualidade reveladas no primarismo de conceitos que traduz a fraca formação técnica daqueles que efectivamente construiriam as cidades: quer renegando a validade em assimilar o conceito de projecto-tipo, quer renegando os conceitos urbanísticos no desenvolvimento dos programas de planeamento dos destinos das cidades. E este esquecimento é de uma enorme gravidade para todos nós.

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