sexta-feira, abril 20, 2007

O CÉU DE LISBOA – artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 136

 - Infohabitar 136

O CÉU DE LISBOA


Convidam-se os leitores a apreciarem um novo texto de Celeste Ramos, um texto sobre “o céu de Lisboa”, ou será que não é sobre o céu da cidade, de qualquer cidade amada.
E depois deste texto, e da mesma boa amiga Celeste, um segundo texto se junta, um texto “segundo”, que não é necessário depois do primeiro, mas que será lido, por quem o quiser ler, desde que com um espírito aberto e receptivo, semelhante ao que foi necessário para o escrever.
E os leitores atentos entenderão o contraste entre o céu da cidade, que nos deixa pensar sem limites, e os limites que existem, cada vez mais, em muito do que ainda faz a verdadeira beleza do nosso mundo.

Foi um pequeno e livre comentário do editor,

ABC



O CÉU DE LISBOA

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…
Depois de escrever, leio …
Porque escrevi isto ?
Onde fui buscar isto ?
De onde me veio isto ? Isto é melhor do que eu …
Seremos nós neste tempo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos ??

(In: Álvaro de Campos, Edição Ática de 1958)



Fig. 00

Que tarde tão bela e tão luminosa tal que toda a gente deveria estar na rua – sim, na rua – a ver o dia, a ver a luz, a ver tudo o que o olhar pode olhar e "ver" para além do que é visto e se mostra. E a ver também as árvores e os pássaros se é que ainda há pássaros na cidade.

Ver e sentir e, podendo, comunicar com alguém o sentimento de banho de luz na tarde luminosa e fresca de Lisboa.

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras .
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, na verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta com várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e tudo para ele é pouco

Cada alma é uma escada para Deus
É um corredor-Universo para Deus
Cada Alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito



Fig. 01

Olhei para o chão e as pedrinhas dos passeios parecia que sorriam à luz daquele sol rasante iluminando-as e dando-lhe existência na forma, e cor, e luz e vida.


Olhei para as plantas, algumas que sabiam que algo se estava a passar e que iria acabar em breve, despedindo-se do nosso olhar com cor de oiro porque a morte não tem de ser só negro e tristeza porque o negro é a ausências de todas as cores que é também a cor do céu mais escuro e que agora até tem mais cores do que se pode calcular e inventar.

Olhei para a terra tão pouca e cada vez mais rara porque betão e betuminoso a invadem implacável e impunemente mesmo com os Polis que tudo re-qualificam impermeabilizando o inimaginável, mas terra que ainda a há na cidade, e tão castanha e refrescada pela chuva acabada de cair que dava perfume que parecia que respirava e falava com as plantas que segurava bem, porque lhes tinha permitido criar raízes para poderem ali ficar todo o tempo do mundo e serem vistas muitas vezes por muita gente se houver quem para elas goste de olhar e compreender como são vida e alegria da própria terra.



Fig. 02

Mas, e a luz ?
Estava sempre a mudar porque lá mais no alto aquelas nuvens que permitiam o sol e a luz, eram no entanto muito cinzentas e por vezes tão negras, mudando de formas constantemente a desafiar o rosa e o oiro que o sol insistia dar-lhes, como se o céu com os seus caprichos as fizessem dançar e também ouvir muito ao de leve algum diálogo, talvez musical, provocado pela atrito das partículas de água de que se formam e, nunca se sabe, se é sol se é borrasca, se é a maior das tempestades quando as partículas se agridem até faiscar.

No entanto que felizes ainda somos os que vivemos aqui enquanto tudo fizermos individual e colectivamente para que a fricção das partículas de chuva não venha nunca a provocar terríveis perturbações electromagnéticas no céu que fazem tudo desabar - só duas gotinhas de água a friccionar uma na outra, por diferença de temperatura, podem ser o início da pior das devastações e morte pois que sendo embora fenómenos naturais podem ser reforçados na sua violência e ocorrência pela mão humana e mesmo deslocalizados para lugares onde não pertenceria acontecer, como é o caso do país onde até a natureza foi sempre doce e pacífica, mas já não é.

E já não o é, pois que tendo o clima mudado e o país despovoado em benefício das áreas metropolitanas, continua-se a ignorar o constante des-ordenamento de todas as paisagens, mas também a vigilância de áreas remotas e sem habitantes, num eterno esquecimento da dinâmica dos territórios face ao uso humano ou às intempéries, normais ou acidentais, tornando-se assim o ordenamento mais e mais premente não importa em que espaço nacional; diríamos mesmo que a “velha” GNR que a cavalo percorria o país rural, faz falta ela ou outra instituição, que se ocupe de ver “o que se vai passando por aí”.

Mas que felizes podemos ser ainda se percebermos a parte que nos cabe de prevenir e conservar as situações que mantêm o clima que temos ainda, por mais ameaçadoras que já tenham sido algumas situações sobretudo nesta década do novo milénio e mesmo não tendo gravidade maior, o certo é que a nossa cidade começa também e assistir a fenómenos muito fora do que era habitual pois que já neva em Lisboa ou no litoral soalheiro e mesmo no Alentejo.



Fig. 03

Mas que felizes poderemos ser só de ir passear e olhar a luz de todo o ano, olhar a terra e as árvores, olhar as folhas em tempo de despedida mas que deixaram os frutos pendurados e a secar, olhando também para o chão de terra onde caem e logo se transformam em vida, olhar o cais e a água do rio que se entrega ao mar e a luz que dele também vem, e o vento, sim, o vento, a mostrar-se nas ramadas fazendo-o assobiar, e a mostrar-se também na água a ondular, o mesmo vento que faz mudar essas nuvens impacientes que correm pelo céu a anunciar, a anunciar, a anunciar-nos que terra e céu estão ligados e nós de permeio a tentar perceber o que tudo quererá dizer: olhar o chão, olhar o céu, olhar a vida de qualquer lugar.

Sinfonias da terra e céu desdobradas em tudo que a habita, como nós, os habitantes mais cruéis e distraídos das coisas desse eterno diálogo que é imperioso ouvir, ouvir, e não esquecer e escolher ouvir melodia, mas até quando?

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…

Mas ao mesmo tempo que deixo correr as ideias ia vendo, na SIC Notícias, das 02.30 às 03.OOh da madrugada de 23 setembro 2006 , e pela segunda vez em menos de um ano, um programa sobre os apanhadores de bivalves na ponta mais noroeste do Reino Unido, grande planície de areia de ilhotas e braços de mar e estuários, que logo que a maré começa a subir silenciosamente tudo inundando sem se dar por nada. Estes apanhadores de bivalves, chineses, ilegais, são explorados e arriscam a vida, diariamente, num ritmo de marés que em boa parte desconhecem, dormindo em pardieiros em Liverpool, sem direito a planos nem sonhos de vida, vivendo apenas um dia de cada vez; o que me faz lembrar os portugueses dos anos 60 ou os emigrados do Sahel de hoje, destes primeiros anos do III milénio d.C.

Afinal, cada um pode fazer o quê?? Cada um deverá fazer o quê?



Fig. 04

A minha cidade de céu de todas as cores e luz sem imitação, abriga ainda tanta vida mas também tanta indiferença pelo que se passa pelo mundo, e mesmo pelo que nela se passa, de feio e mesmo de belo porque quem toca a beleza quererá certamente partilhá-la.

Nada?? A impotência do homem comum como eu que só posso, ao menos, escrever sobre isso, e depois?? Depois nada!

Cada um por si, cada nação por si, só pode mesmo ser assim?

O céu cheio de nuvens carregadas de negro e chumbo, para uns a morte, para mim, hoje, a beleza incompleta e imperfeita porque não consigo olhar só uma face das coisas, que até vêm ter comigo sem as ter procurado a esta hora tão tardia.

Depois de escrever, leio …
Porque escrevi isto ?



Fig. 05

Porque fui ver a beleza da luz e das nuvens negras, e porque gostava de poder partilhar a grandeza do que vi mas que, entretanto, foi interceptada pelo que acontece, lá mais longe, onde nem nuvens havia, mas a morte reinava, não a das folhas das plantas, mas dos homens e dos seus sonhos que não tiveram tempo de sonhar.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta com várias pessoas,

E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida

Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,

Sentir tudo de todas as maneiras
Sentir tudo excessivamente
Porque todas as coisas são na verdade excessivas

Mas mais completo serei pelo espaço fora

Sursum corda

E fica a Vida, a que persiste.


Texto segundo:


Fig. 06
In:www.dias-com-arvores-fevereiro 2007

Semente de sobreiro: na terra caiu uma semente que ninguém semeou, que dará uma grande e milenar árvore de onde o homem retirará grande riqueza mesmo sem ter de a regar ou adubar, no entanto sempre ameaçada pelo betão e betuminoso, mesmo sendo a árvore protegida por lei há mais tempo no país, mas que os “Polis” em vez de requalificar, abatem.

Olhar o céu, para quê??
Só o céu??
O que o céu dá vê-se cá em baixo no chão!
O país orgulha-se de ser o maior produtor de cortiça e, dela, a melhor para rolhas para o champanhe francês e apesar de ser o sobreiro a árvore há mais tempo protegida, é constante o abate de milhares de árvores, as que se sabe serem abatidas mas, pior, as que não se sabe porque é escandaloso as abater “ao sol”

Porém, esta árvore que nem de água quase precisa porque o que é “grande” muito dá e nada pede, precisa no entanto de um mínimo pois que não é “palmeira-de-oásis”

Acontece que com a generalização sem nenhum critério da eucaliptização do país desde o vale à montanha escarpada, desde o norte chuvoso ao sul seco, acontece que mesmo no norte onde por enquanto ainda chove, onde ainda há manchas de sobreiro no seu estado de floresta natural, nesta “primavera de 2007” quando as folhinhas novas a nascer deviam, como qualquer outra, ser de verde claro, já são amarelas, o sub bosque é pobre porque as plantas bravas do seu ecossistema já não aparecem, nem os pássaros, a atestar o empobrecimento do conjunto e a ausência de água no solo, dada a envolvente de eucaliptal que lhe retira a água que lhe pertenceria, que retira água e vida e desenvolvimento, anunciando assim a morte em directo do que em breve irá acontecer, talvez para justificar o seu “abate” por estarem velhos e podres, esta árvore mais do que centenária e fonte de silêncio e beleza e por fim de bens para as economias pois que sem natureza não há economia a prosperar e não consta que desertificando se encontre petróleo.

A ONU já revelou que em 2050 não haverá água potável para toda a população mundial e, em cada lugar da terra, a água potável é a maior riqueza pois que sem ela nem indústria haverá, mas apenas morte e, quem sabe se em breve a guerra entre os homens deixará de ser o petróleo, mas sim a ÁGUA? – veremos bem cedo que assim será.

E, para já, o aumento de preço da água canalizada aumenta a quantidade de água disponível? E será de direito a água de quem a pode ainda pagar? E será de direito esconder a quantidade que se perde nas canalizações de captação e distribuição? E será de direito o uso da água armazenada em barragens para desporto motorizado e poluente? Valerá perguntar o que são direitos e deveres de Cidadania? E se teremos de ter algum “ensino-especial” para os aprender e fazer aprender?

Valerá a pena?
Por mim, esta sabedoria ainda existe, mas apenas, nos analfabetos-ignorantes-rurais que vão morrendo e envelhecendo e com eles desaparecerá a ética e estética das paisagens que as universidades não sabem ensinar, para além de outros conhecimentos que a Cidade despreza.

Acabei!

Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Lisboa - Bairro de Santo Amaro
Setembro 29 – 2006 + Fevereiro 11-2007 + Abril 04-2007 (COR)
Revisto e ilustrado para publicação no Infohabitar em 2007-04-06 (ABC)
Editado no Infohabitar em 2007-04-19 (JBC)

1 comentário :

Anónimo disse...

Para além da luz, do vento e do olhar (não há paisagem sem olhar contemplativo) a água tem que ser paga. Mas será que os agricultores a respeitam? Não é a actividade agrícola e os seus sistemas de rega ineficientes os grandes responsáveis pelo consumo de água, numa ordem que ultrapassa os 70% dos consumos? A agricultura não é um bom/mau exemplo desse espírito proprietarista, individualista e egoísta que leva à apropriação dos recursos hídricos e ao uso e abuso dos pesticidas e das 'caldas'? Que sentido ético e estético das paisagens humanizadas (onde o rural não é sinónimo de natural)? Sem dúvida que a procura de uma consciência humana e ecológica continua, mas não se esgota nos «homens-rurais» nem na rusticidade dos «campos», e este artigo impele-nos para essa procura. Queria também, aproveitando a atenção que o artigo dedica à questão da água, deixar aqui o endereço do último relatório da ONU sobre Desenvolvimento Humano, que certamente conhecerão, mas privilegia exactamente a questão da água e da sua escassez:
http://hdr.undp.org/hdr2006/report_pt.cfm
[JLCraveiro]