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domingo, maio 25, 2008

198 - O PRIMEIRO EMPREENDIMENTO COOPERATIVO DE CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL EM PORTUGAL – artigo de José Coimbra - Infohabitar 198

 - Infohabitar 198
Nota explicativa e de introdução

O artigo que se segue, da autoria do Eng. José Coimbra, um nosso colaborador a quem o Infohabitar já deve alguns excelentes textos, corresponde ao conteúdo técnico de uma palestra que o Eng. José Coimbra desenvolveu, em 8 de Abril de 2008, no “Curso Construção Sustentável e Promoção Imobiliária, realizado no Instituto Superior Técnico em Lisboa.

Agradecemos ao colega José Coimbra mais esta contribuição num tema que é, actualmente, crucial e que corresponde já a uma muito rica ponderação, da sua parte, relativamente à obra residencial cooperativa que coordenou tecnicamente na Ponte da Pedra, e que está aí para ser visitada e apreciada em tudo aquilo que pode ajudar a trazer de novo para um habitar mais amigo dos habitantes, mais amigo da cidade e da cultura urbana e mais amigo do ambiente.

É, naturalmente, com reflexões como esta que podemos ir avançando e informando novas realizações, porque se trata de análises feitas pelos agentes fundamentais na execução das obras sobre as quais se faz essa reflexão e, simultaneamente, técnicos e investigadores esclarecidos relativamente ao que podem ser as novas tecnologias residenciais mais sustentáveis urbanística e ambientalmente.

De imediato se “passa a palavra” a José Coimbra, mas faz-se, naturalmente a referência para ter sido a Ponte da Pedra uma obra urbana e residencial promovida pela Cooperativa Norbiceta, uma união das Cooperativas Nortecoop, Sete Bicas e Ceta, com projecto global coordenado pelo Arq. Carlos Coelho, uma obra realzada no âmbito do Prgrama Europeu Sustainable Housing in Europe (SHE), referida a habitação realizada com controlo de custos, portanto habitação de interesse social apoiada pelo Estado, e uma promoção que mereceu, aliás, diversos prémios, com destaque para o Prémio INH-IHRU de 2007.

Refere-se, ainda, que o leitor poderá encontrar aqui no Infohabitar outros artigos de apresentação e de análise deste excelente conjunto da Ponte da Pedra, bastará para tal aceder ao catálogo interactivo disponível logo aqui na margem esquerda do Infohabitar.

Salienta-se, finalmente, que estas preocupações práticas de sustentabilidade urbana e ambiental no projecto, na promoção e na cosntrução de habitação de interesse soacial estão tambéma a ser levadas à prática, igualmente no sector cooperativo habitacional, mas na zona da Grande Lisboa, pela Nova Habitação Cooperativa (NHC) nos seus últimos conjuntos residenciais, actualmente, em projecto avançado e em desenvolvimento.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho








Fig. 01: vista geral da Ponte da Pedra

O PRIMEIRO EMPREENDIMENTO COOPERATIVO DE CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL EM PORTUGALJosé Paulo Tavares Coimbra
Coimbra@setebicas.com


Resumo

Pretende-se dar a conhecer, não apenas as características de construção sustentável do Empreendimento Cooperativo que constituiu um ponto de viragem na actividade das Cooperativas promotoras e da sociedade em geral, mas também explanar as possibilidades de inovação em cada uma das temáticas nas quais assenta a sustentabilidade do Empreendimento da Ponte da Pedra e dos que lhe sucederam, tendo em conta que a Sustentabilidade é sempre um modelo inacabado.
Esta abordagem do tema “Construção Sustentável” é desenvolvida de acordo com a experiência que as Cooperativas de Habitação Portuguesas têm vindo a adquirir na promoção de empreendimentos cooperativos e, portanto, deve ser lida tendo sempre por base este fio condutor.






Fig. 02: a introdução da arte urbana na Ponte da Pedra


1. Critérios de Construção Sustentável
1.1. Âmbitos de Intervenção
A sustentabilidade de um Edifício deriva do adequado desempenho da construção e do processo que a promove a vários níveis, resultante de uma abordagem integrada de todos eles. Propomo-nos, de seguida, abordar cada um dos temas da construção sustentável e analisar quais as medidas implementadas no Empreendimento da Ponte da Pedra e quais aquelas que, não tendo sido implementadas neste Edifício, podem vir a sê-lo, melhorando, ainda mais, o desempenho global do Edifício.

1.1.1. Processo de Participação

A vertente social da sustentabilidade não pode ser descurada, dada a importância que o envolvimento das pessoas e dos moradores do Edifício tem para optimizar o desempenho do próprio Edifício e maximizar as poupanças nas despesas mensais de água, electricidade e gás. As características da habitação podem ser efectivamente melhoradas com um adequado comportamento por parte dos utilizadores.

O facto de estarmos perante uma organização promotora cooperativa é já um grande avanço a este nível, dada a vocação social das Cooperativas de Habitação que pressupõe, por inerência, a participação dos Cooperadores ao longo do processo de promoção habitacional, sendo o seu nível de satisfação periodicamente aferido ao longo do mesmo.

Mas esta vertente social da construção sustentável abrange também a Empresa Construtora, o Gabinete de Projectos e o Município Local com o objectivo de sensibilizar e envolver todos os agentes que podem influenciar o desenvolvimento do Programa.

Cumprindo o objectivo de coesão social, através da participação activa de todos os intervenientes numa Estratégia Integrada de Desenvolvimento Sustentável, têm lugar:

. Reuniões semanais com representantes do Projecto, da empresa construtora e da Cooperativa de Habitação (a Cooperativa desenvolve, neste contexto, um trabalho imprescindível de coordenação de projectos para a concretização dos princípios de construção sustentável, adoptando sempre a postura de defesa e melhoria desses princípios quando eles não estão devidamente acautelados no projecto ou quando existem modificações no mercado);

. Sessões abertas de apresentação e discussão do Projecto do Empreendimento;

. Dossiers de Apoio aos principais momentos de disseminação e acompanhamento do Empreendimento;

. Manual do Cooperador Proprietário de Uso e Manutenção do Imóvel;

. Edição de um Boletim trimestral que actualiza os desenvolvimentos da actividade da Cooperativa promotora;

. Actualização periódica das informações constantes no site da Cooperativa.

No caso da Segunda Fase do Empreendimento da Ponte da Pedra, temos ainda de considerar a activa e intensa prática de divulgação e de disseminação do Projecto, impulsionada pelo vanguardismo das características do mesmo. Esta prática inclui a participação em Seminários, Workshops, Conferências, Entrevistas e Visitas de Estudo. Quase todas estas acções tiveram lugar por solicitação da sociedade, que reclamou a nossa participação no debate do tema da Construção Sustentável, vista como um todo ou a análise específica de um determinado capítulo.

A este nível, crê-se que a Cooperativa já dispõe de suficientes instrumentos e práticas promotoras do processo de participação.




Fig. 03: vista da fábrica, antes da intervenção cooperativa no local

1.1.2. Valorização do local de implantação
Tendo em conta que a implantação do Empreendimento deve considerar as características do local e da envolvente, deve ser feito um levantamento do clima local, identificação de infraestruturas existentes, identificação de fontes de poluição, possibilidade de inclusão de fontes de energia renovável, existência de campos electromagnéticos, condições de iluminação natural e condições acústicas.
Para que a integração seja feita de forma harmoniosa, valorizando o espaço, no caso da Ponte da Pedra, dispomos de importantes indicadores a este nível:

. O Conjunto Habitacional de Ponte da Pedra substitui uma área degradada ocupada por uma fábrica de curtumes insolvente;

. Foi considerada a optimização do potencial solar passivo, através de uma adequada orientação solar;

. A localização do Empreendimento tira partido da linha de água existente no local, armazenando-a e utilizando-a para abastecimento dos depósitos das sanitas das habitações e para a rega da totalidade dos jardins da urbanização;

.A proximidade do Edifício a transportes públicos desincentiva a utilização de transporte próprio, diminuindo assim, potencialmente, o impacte da mobilidade dos moradores.

Identificamos como oportunidade de melhoria o estudo, com mais pormenor, da orientação solar do Edifício, não ignorando as exigências regulamentares e o disposto nos PDM’s locais que, muitas vezes, condicionam a escolha de uma orientação do Edifício mais favorável do ponto de vista energético.


1.1.3. Selecção de Materiais
Este será, talvez, o capítulo em que a Ponte da Pedra e os Empreendimentos posteriores têm uma performance mais baixa.

Ditam as regras da sustentabilidade que a escolha dos materiais para a construção civil deve procurar maximizar a aplicação de materiais duráveis, recicláveis e / ou reciclados, com um baixo nível de energia incorporado, provenientes de fontes locais e / ou regionais e com análise de ciclo de vida e etiqueta ecológica.

No entanto, o nosso país ainda não tem estes conceitos implementados no mercado, pelo que a aposta feita na 2ª Fase da Ponte da Pedra foi a de tentar encontrar fornecedores quase locais, reduzindo, assim, o impacte ambiental do transporte da “fonte” até ao local da construção. Houve ainda alguma preocupação ao nível da escolha de materiais duráveis e com reduzidas necessidades de manutenção, como se comprova pelo material utilizado na fachada do Edifício.

Portanto, há ainda um longo caminho a percorrer no que diz respeito à escolha de materiais amigos do ambiente, mas o trilho desse caminho depende grandemente dos desenvolvimentos que o país conseguir registar a este nível.




Fig. 04: vista da cisterna

1.1.4. Gestão do Ciclo de Água
Uma gestão eficiente do Ciclo de Água deverá limitar, o mais possível, a interferência no ciclo natural de água, reduzindo o consumo em 25%. A introdução de novas tecnologias permitirá, por um lado, poupar o consumo de água potável e, por outro lado, armazenar água

A redução do consumo de água pode ser propiciada pela instalação de equipamentos no Edifício que permitam reduzir o consumo, optando por diferentes fluxos. Temos como exemplo a dupla descarga nos depósitos sanitários, permitindo ao utilizador escolher qual a opção mais adequada, em cada utilização.

Existem ainda as torneiras de válvulas termostáticas, instaladas em banheiras e bases de chuveiro, que permitem poupar a água que normalmente se desperdiça entre o momento de abertura da torneira e o aquecimento da água à temperatura desejada. A possibilidade de regular a temperatura e de a manter fixa para futuras utilizações faz com que a água saia, assim que a torneira for aberta, à temperatura que o utilizador pretende.

Para além destas duas medidas, não podemos ignorar a construção de uma cisterna subterrânea destinada a recolher água das chuvas, a água proveniente do veio freático e a água residual que se forma ao nível dos pisos das garagens da 1ª Fase da Urbanização. A água aqui recuperada destina-se ao abastecimento dos depósitos das sanitas das habitações da 2ª Fase e à rega da totalidade dos jardins da Urbanização.

Neste âmbito, identificamos como oportunidade de melhoria a instalação de mecanismos de fitodepuração que permitam reutilizar as águas cinzentas geradas pelo Edifício. Esta tecnologia está, no presente, condicionada pelo elevado custo de investimento.
Foi também instalado nos jardins um sensor de humidade que evitará a rega desnecessária dos jardins, especialmente quando estes se encontrem com adequados níveis de humidade.

No caso da existência de jardins, é necessário considerar uma escolha adequada de plantas com reduzidas ou quase nulas necessidades de rega.

Não obstante todas estas medidas, é imprescindível a colaboração dos moradores para um adequado desempenho do Edifício a este nível. Daí a importância do envolvimento dos moradores em todo o processo e da sensibilização directa dos utilizadores, através de conselhos práticos, de fácil implementação no dia-a-dia. Estas dicas, a par do fornecimento de alguns dados estatísticos integram o Manual de Uso e Manutenção do Imóvel distribuído a todos os moradores.





Fig. 05: recipientes de separação de resíduos dentro da habitação

1.1.5. Gestão de Resíduos

Podemos afirmar, a respeito deste Capítulo, que o desempenho do Edifício depende grandemente do comportamento de entidades externas à promoção habitacional, seja durante a construção, seja durante a fase de utilização do edifício.

Se, por um lado, foi propiciada, no Empreendimento da Ponte da Pedra 2ª Fase, uma adequada separação de resíduos da construção para posterior reciclagem, designadamente madeiras e óleos, temos consciência, por outro lado, que muito se pode ainda fazer, estendendo a separação a outros componentes da Construção.

Esta atitude depende, ainda assim, largamente, do apoio dado pelo Município na recolha e encaminhamento dos contentores de resíduos. Por esta e outras razões, se justifica o envolvimento do Município no tema e na promoção da sustentabilidade construtiva.

Por outro lado, na fase de operação, quando o Edifício já se encontra em funcionamento, o volume de resíduos que é encaminhado para a reciclagem depende da triagem que os moradores fazem, logo no interior das suas habitações (colocando as diferentes categorias de resíduos nos respectivos baldes de lixo diferenciado) e posterior depósito nos Ecopontos colocados no exterior das Urbanizações.

Portanto, as infraestruturas são instaladas no Edifício e cabe posteriormente aos utilizadores a rentabilização desses equipamentos. Sublinha-se aqui uma vez mais a importância da sensibilização dos utilizadores.




Fig. 06: painéis solares




Fig. 07: grelhas de ventilação

1.1.6. Gestão Energética

Este capítulo exige a adopção de várias medidas para atingir um elevado nível de desempenho energético, nomeadamente:

. Aumento na exigência dos ISOLAMENTOS TÉRMICOS (respeitando os recém aprovados Regulamentos sobre Eficiência Energética);

. Introdução de ENERGIAS RENOVÁVEIS;

. POUPANÇA ENERGÉTICA em iluminação artificial, aquecimento de águas sanitárias e aquecimento do ambiente.

Este é o capítulo onde a 2ª Fase da Ponte da Pedra atingiu um melhor desempenho, comprovado com a Classe A do Certificado Energético, classificação esta calculada pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (parceiro do Projecto SHE).

Concorreram para uma adequada eficiência energética:

. Reforço dos isolamentos térmicos e a eliminação de pontes térmicas, incluindo o isolamento das caixilharias e a aplicação de vidros duplos (o vidro duplo isola o ar frio exterior e reflecte o ar quente para o interior da habitação, para além de ser um bom isolante sonoro);

. Aproveitamento da energia solar para o aquecimento de águas sanitárias, através da instalação de colectores solares, eventualmente apoiados por equipamentos de queima individuais, como esquentadores solares que trabalham em consonância com os painéis, compensando a diferença de temperatura, se necessário;

. Adequada ventilação dos espaços interiores, através da instalação de grelhas de ventilação nas caixilharias de quartos e salas. Há aqui ainda a referir a importância da ventilação cruzada nas habitações, facto que pode ser conseguido por uma adequada disposição das plantas das tipologias no Edifício, de forma a assegurar que elas terão duas frentes;

. Soluções de arrefecimento passivo, com a existência de palas solares ou de sombreamento situadas acima das caixilharias dos apartamentos;

. Aplicação de soluções de iluminação de baixo consumo, tanto em zonas comuns, como no interior das próprias habitações. Em articulação com estas armaduras, temos os sensores de movimento que propiciam poupanças de energia significativas, eliminando os desperdícios.

Não obstante todas estas medidas, há que ter em conta a optimização da orientação solar do Edifício, dados os enormes ganhos passivos daí derivados. O envolvimento do projectista na promoção habitacional é, por isso, determinante, de forma a sensibilizá-lo para a escolha da melhor orientação solar do Edifício.

Para além destas medidas, existem ainda francas possibilidades de desenvolvimento e de optimização do desempenho energético. Exemplo: o aproveitamento da temperatura do ar através da Geotermia; a aplicação de painéis fotovoltaicos, a instalação de ventoinhas, para produção de energia eólica, no caso de Empreendimentos com um elevado número de fogos e a gestão técnica da iluminação e do aquecimento. Esta é especialmente praticável no caso de Edifícios com Equipamentos como por exemplo Lar de Terceira Idade.




Fig. 08: isolamento acústico

1.1.7. Conforto Acústico
Para além da introdução de adequados isolamentos nos elementos construtivos horizontais e verticais do Edifício, entre fogos e entre estes e zonas comuns, é importante apostar também nas medidas que podem ser tomadas no exterior dos Edifícios, criando barreiras acústicas à propagação do ruído.

A plantação de uma cortina arbórea suficientemente densa poderá servir perfeitamente este propósito.

Identificamos como oportunidade de melhoria a elaboração de um estudo paisagístico que privilegie a plantação de cortinas arbóreas que sirvam a função de barreiras à propagação do som.


1.1.8. Simulação e Monitorização

A importância o desenvolvimento de estudos adequados e transversais antes e após a construção é determinante para a verificação da eficácia das soluções de construção sustentável implementadas, podendo ser um forte instrumento de detecção de falhas, mas também de planeamento de medidas alternativas de melhoria contínua. No entanto, os promotores, só por si, não dispõem de conhecimentos, capacidades, software e equipamentos para levar a cabo esta tarefa. Daí a importância de formar parcerias estratégicas com o mundo universitário, estabelecendo uma imprescindível ponte entre o académico e o profissional, geradora de mútuo benefício.






Fig. 09: avaliação e monitorização


2. Custo Real e Valor Acrescido

O acréscimo de custo na construção resultante da incorporação de todas as características explanadas aproxima-se dos 9%.

No entanto, é expectável que o período de payback (período do retorno do investimento) não seja superior a 5 anos. A partir deste tempo de vida do Empreendimento, todos os ganhos resultantes da diminuição do valor das facturas de gás, electricidade e água serão ganhos líquidos, o que significa que o utilizador desfrutará do benefício total da construção sustentável.


No que toca à ponderação de custos da construção sustentável, há que considerar que contrapõem os 5% de acréscimo no custo do Edifício, a redução do custo de manutenção e de operação do edifício, mas também a melhor qualidade de vida que um Empreendimento com estas características proporciona aos seus moradores.

Ainda a respeito de custo, sublinhe-se que a valorização de uma construção sustentável ao longo do tempo será muito mais significativa do que a valorização de uma construção convencional.




Fig. 10: Certificado Ambiental do Empreendimento


3. O Empreendimento âncora de novos projectos sustentáveis
As vantagens deste tipo de construção são óbvias a vários níveis, de tal forma que os futuros empreendimentos cooperativos levados a cabo pelas Cooperativas Promotoras continuarão a respeitar e a considerar todos os princípios aprendidos com a nossa participação no Projecto SHE e os resultados do desempenho do Empreendimento da 2ª fase certamente que serão motivadores e encorajadores para adoptar a nova postura construtiva.

A saber, existem já 6 Programas de Habitação Cooperativa que respeitam os mesmos princípios de sustentabilidade construtiva do projecto SHE e que contemplam, na totalidade, 531 habitações sustentáveis:



Fig. 11

Na actividade da FENACHE, o Empreendimento da Ponte da Pedra desencadeou também uma activa política de disseminação, quer ao nível de publicações, quer ao nível da participação em seminários e congressos nacionais e internacionais sobre o tema, quer ainda no acolhimento e orientação de visitas de estudo ao local. De realçar ainda que esta experiência piloto de construção sustentável no ambiente cooperativo foi assumida como orientação estratégica no documento aprovado, em sede de Assembleia-geral da FENACHE, a 26 de Novembro de 2005 – a Carta da Qualidade da Habitação Cooperativa.

O impacto desta iniciativa foi além das fronteiras do mundo cooperativo. O Município de Matosinhos que acompanhou, de perto, a promoção do Empreendimento Sustentável, declarou publicamente, no Seminário “Por um Território Sustentável”, que teve lugar no dia 28 de Novembro de 2006 (o dia da Inauguração da 2ª Fase do Empreendimento), que o Município estimulará a prática de construções sustentáveis, através da redução de taxas e da prioridade de tratamento camarário dada a estes projectos. A Empresa Municipal de Habitação de Matosinhos deverá também seguir os passos da prática Cooperativa.

Do ponto de vista da legislação no sector da Habitação, tiveram lugar importantes mudanças no PROHABITA (Programa de Financiamento para acesso à Habitação), sendo claramente incentivada a incorporação de soluções de construção sustentável, quer no processo construtivo, quer no da reabilitação, com especial incidência na prossecução de objectivos de eficiência energética, de diminuição do consumo de água e de reciclagem dos resíduos.

Consideramos que este impacto transversal, sentido nos vários níveis da sociedade, é o melhor resultado que uma experiência piloto deste género pode trazer, sendo perfeitamente praticável e de fácil incorporação nas práticas quotidianas.
Conclusões

O facto de uma União de Cooperativas de Habitação ter conseguido promover um Empreendimento com todos os “inputs” construtivos respeitando as condicionantes do Estatuto Fiscal Cooperativo é, só por si, uma grande vitória.

O impacto que esta experiência teve ao nível dos promotores, da empresa construtora, da Federação Nacional que, desde sempre, apoiou esta arrojada iniciativa, do Município e a da própria legislação nacional que também sofreu ajustamentos é também um grande passo e uma grande prova do envolvimento conjunto de várias entidades com vista ao desenvolvimento sustentável.

Mas, de todos os resultados, destacamos aquele que demonstra um empenho profundo das Cooperativas de Habitação em assumir a mudança e a inovação como orientação estratégica permanente. Todos os Empreendimento promovidos passam agora a incorporar, não apenas os requisitos de sustentabilidade implementados na 2ª Fase da Ponte da Pedra, respeitando igualmente o Estatuto Fiscal Cooperativo, mas procuram, sobretudo, inová-los e ousar incorporar técnicas mais avançadas que potenciem a sustentabilidade do Empreendimento. Num momento em que o apoio à inovação das empresas é uma das principais matrizes da nova edição dos Fundos Comunitários, congratulamo-nos por esta política de inovação ser já parte integrante da gestão quotidiana da promoção habitacional cooperativa.

Manifestamos, ainda neste capítulo de encerramento, o nosso empenho em conciliar os métodos de trabalho já adquiridos nas Cooperativas de Habitação com os parâmetros de avaliação e o Know How da equipa do LiderA, numa estratégia de colaboração de mútua aprendizagem e certamente geradora de mútuo benefício.

Preparado para ediçãoi po António Baptista Coelho em 22 de Maio de 2008
Editado em 25 de Maio de 2008 por José Baptista Coelho
Infohabitar, Lisboa, Encarnação – Olivais Norte

quinta-feira, julho 05, 2007

147 - O livro “Criar Cidades Sustentáveis”, de Herbert Girardet – apresentação de António Baptista Coelho - Infohabitar 147

  - Infohabitar 147

Nota explicativa: após algumas breves palavras de introdução a esta nova série de publicações divulga-se a apresentação do recém-editado livro de Herbert Girardet, intitulado “Criar Cidades Sustentáveis”, das Edições Sempre-em-Pé. Desde já se salienta que a ideia, mais do que divulgar uma obra que se considera verdadeiramente interessante, é partilhar a opinião de Girardet sobre uma essencial perspectiva ampla e bem fundamentada da, recentemente, tão falada sustentabilidade.

Na segunda-feira, 25 de Junho, pelas 18:00, na sede da Associação Nacional de Direito ao Crédito, na Praça José Fontana, 4-4.º andar, às Picoas foram realizas as apresentações-debate dos dois primeiros livros da série Cadernos Schumacher para a Sustentabilidade, sob o tema geral:
“Pensar o nosso futuro comum: a sustentabilidade das nossas sociedades”.

São os seguintes os dois primeiros Cadernos Schumacher para a Sustentabilidade, que se encontram disponíveis nas livrarias:

- “Transformar a Economia - Desafio para o terceiro milénio”, de James Robertson – apresentação feita pelo professor Adelino Torres, do ISEG.

- “Criar Cidades Sustentáveis”, de Herbert Girardet – apresentação feita por António Baptista Coelho, investigador do LNEC e presidente do Grupo Habitar.

As Edições Sempre-em-Pé tiveram neste lançamento o apoio do projecto Cidades Sustentaveis http://www.cidadessustentaveis.info/ e do Grupo Habitar – Associação para a Promoção da Qualidade Habitacional.

Contactos das Edições Sempre-em-Pé:

http://www.sempreempe.pt/ , email: contacto@sempreempe.pt , fax 229 759 592
correio em papel: J. C. Costa Marques, Editor (Edições Sempre-em-Pé) Rua Camilo Castelo Branco, 70/52, 4425-037 – Águas Santas



Fig. 01
Capa do “caderno” : “Criar Cidades Sustentáveis”, de Herbert Girardet.


Sobre como “criar cidades sustentáveis” e a propósito do livro, com o mesmo título, de Herbert Girardet



Mais do que fazer uma apresentação pormenorizada do caderno Criar Cidades Sustentáveis, de Herbert Girardet, que naturalmente falará com cada um dos seus leitores, deixam-se aqui algumas palavras sobre esta matéria, hoje vital, da sustentabilidade ou da verdadeira durabilidade urbana, palavras estas que, julgo, em tudo se ligam com o conteúdo do trabalho de Girardet e dos objectivos definidos pela Sociedade Schumacher.

Nestas matérias há que salientar que a sustentabilidade de uma cidade viva não é apenas ambiental e económica, é igualmente social, urbana e cultural, pois também se joga no aprofundar dos aspectos ligados à humanização do habitar, na substituição de espaços degradados por partes de cidade revitalizadas, no privilegiar funcional do peão, numa bem evidenciada integração paisagística e numa afirmada integração do verde urbano, e, finalmente, também se joga no aplicar e no evidenciar de uma afirmada qualidade de um bom desenho de arquitectura urbana.

Apontam-se, em seguida, algumas linhas fundamentais para uma sustentabilidade urbana e habitacional o mais possível completa e sensível aos valores humanos, e devo sublinhar que, em muitos aspectos específicos, o livro que aqui apresento, aborda extensamente muitas destas linhas.

Sobre uma urgente faceta urbana da sustentabilidade

e tal como foi referido pelo Prof. Oliveira Fernandes num encontro no Laboratório Nacional de Engenharia Civil – o Encontro Nacional sobre Qualidade e Inovação na Construção, QIC 2006 –, as cidades não são, por natureza, sustentáveis, designadamente, em termos ambientais. Mas se quisermos avançar nesta matéria há que tentar tudo fazer para se reduzirem as influências ambientalmente negativas das cidades.

Sobre algumas dúvidas e ideias práticas cruciais e oportunas sobre aspectos de sustentabilidade

há que sublinhar que muitos desses aspectos carecem de esclarecimento e de acção consequente. E importa nestas matérias esclarecer cabalmente sobre o custo-benefício de um amplo leque de soluções, para que se possa daí partir para uma sua aplicação bem fundamentada e ordenada.

Sobre a grande importância da integração e do preenchimento urbano

associado ao privilegiar da pequena escala e ao “construir no construído”, há que sublinhar que estes objectivos são fundamentais para se anularem os espaços residuais e marginais, para se rentabilizarem as infraestruturas já instaladas, para se avançar na anulação de zonas social e por vezes ambientalmente problemáticas, e, para se favorecerem intervenções urbanas com dimensão reduzida –, expressivamente humanizadas, bem pormenorizadas e potencialmente conviviais, afinal aspectos todos eles associados à ideia lançada, na área económica, por Ernest Friedrich Schumacher, com a bem conhecida frase “Small Is Beautiful” (e o título continua com Economics As If People Mattered).

E para a obtenção de tais objectivos Girardet, neste caderno, salienta a importância da criação de cidades compactas, seguindo o modelo do que ele designa como a maravilhosa herança das velhas cidades mediterrânicas; e nesta matéria dá vontade de comentar que nós, aqui no sul da Europa, acabamos por ter uma abundância de energia solar, que é excelente em termos do respectivo aproveitamento energético e especificamente do conforto no Inverno, e também a abundância de excelentes modelos urbanos tradicionais pormenorizados bem adequados a essa convivência solar, designadamente, durante o Verão.

Passando agora a uma ideia verdadeiramente mais completa de sustentabilidade

apetece dizer que a sustentabilidade na área ambiental tem sido aprofundada em termos de aspectos a desenvolver, enquanto a sustentabilidade económica da cidade e das suas diversas partes tem ainda muito a aprofundar, situação que se repete com a sustentabilidade social e funcional urbana . E não seria possível deixar de sublinhar a importância de uma verdadeira sustentabilidade cultural numa cidade viva e humanizada, afinal, até também porque o património cultural é já hoje e será, cada vez mais, um dos principais recursos da Europa.

Sobre a fundamental estabilização de ideias fortes e integradoras

e considerando tantas das listagens, já existentes, de aspectos de sustentabilidade começa a ser urgente definir prioridades, objectivos e opções fundamentais numa linha que favoreça o desenvolvimento de projectos assim direccionados, e em tudo isto é crucial ter em conta que cada sítio é um sítio e que a sua respectiva e adequada capacidade de caracterização específica é um elemento muito importante da sua sustentabilidade económica, ambiental, social e cultural, numa perspectiva de identificação de cada sítio na sua cidade.

Afinal, e tal como se diz no texto de apresentação deste caderno, nestas temáticas “necessitamos efectivamente de uma base de valores a partir da qual trabalhar, e de um conjunto de objectivos.”


Fig. 02
Contracapa do “caderno” : “Criar Cidades Sustentáveis”, de Herbert Girardet.

Sobre a vital importância dos exemplos

salienta-se que nada resulta melhor em termos de apoio à concepção e à promoção do que a visita a obras feitas e do que o diálogo com os seus responsáveis e com quem lá vive, para se poderem entender vantagens e desvantagens das soluções aí desenvolvidas, e sublinha-se que o trabalhar com exemplos é também uma forma sustentada de avançar no conhecimento das respectivas matérias. Como conclui Girardet talvez o mais importante seja a recolha e a disseminação das melhores práticas, dando às pessoas a informação acerca de novas opções e designadamente acerca de projectos reais que ajudem a fazer das cidades lugares mais agradáveis.

Sobre a sabedoria de saber aprender com os especialistas e de procurar integrar os seus ensinamentos

apenas se sublinha que tal aprendizagem é fundamental, e tem de ser marcada por um essencial respeito para com as diversas especializações técnicas, mas desde que estas também se articulem e se integrem de forma positiva e sem fundamentalismos e autismos disciplinares.

E, finalmente, neste apontamento, informalmente aleatório, de uma série de linhas fundamentais para uma sustentabilidade urbana e habitacional, sublinha-se

 a enorme importância do conceito das cidades amigas, habitadas, humanizadas e vitalizadas

que são as únicas potencialmente redentoras deste nosso novo século das cidades; e neste novelo de ideias apenas se sublinha que em toda a batalha pela sustentabilidade tem de haver lugar cativo para uma verdadeira qualidade cultural que possa ir devolvendo a cidade a uma estima pública activa, amigável e convivial; pois, afinal, pouco ganharemos em ter novas partes da cidade, por exemplo, energeticamente eficientes se elas forem culturalmente empobrecedoras e socialmente desvitalizadas.
E é importante ter em conta, tal como nos diz Girardet, que estas cidades amigáveis, e agradáveis, são, também, cidades naturalmente mais seguras e apropriáveis; mas para isso elas têm de ser cidades cuidadosamente adensadas, diversificadas, vicinais e conviviais; num caminho que Girardet aponta como sendo a única opção possível face ao insustentável crescimento urbano caótico em mancha de óleo. Mas atenção que em tudo isto é urgente e vital a opção por arquitecturas urbanas muito bem qualificadas.


Fig. 03
Índice do “caderno” : “Criar Cidades Sustentáveis”, de Herbert Girardet.

Desenvolve-se, agora, um pequeno conjunto de notas,um pouco mais específicas,sobre o trabalho de Girardet aqui apresentado.

O caderno “Criar Cidades Sustentáveis” trata, em 10 pequenos capítulos, de leitura muito estimulante, os aspectos que são desejavelmente associados ao desenvolvimento de cidades sustentáveis, ou, no mínimo, significativamente mais sustentáveis do que as actuais.

O autor inicia ao seu estudo com considerações sobre a eventual contradição que existe na noção de sustentabilidade urbana, a tal questão que também aqui já apontei, logo de início, quando referi que as cidades não são, por natureza, sustentáveis, designadamente, em termos ambientais. Depois, o autor apresenta o tema da urbanização e dos seus impactos, e os super-organismos urbanos, considerando e sublinhando uma perspectiva ampla sobre um século das cidades, o nosso novo século, que será marcado pelo fortíssimo aumento dos consumos ligados à actual e próxima explosão urbana de todo o mundo e designadamente da Índia e da China.

Depois, e sequencialmente, Girardet aborda a pegada ecológica das cidades, algo que impressiona, quando aponta, por exemplo, que cada europeu tem actualmente uma pegada de cerca de três hectares, sendo este o espaço terrestre necessário para o abastecer dos mais variados produtos e para absorver os gases residuais como o CO2, que são por ele directa e indirectamente produzidos.

E nestas matérias o autor acaba por abordar os aspectos associados de caracterização da própria vida urbana ocidental, isto antes de se dedicar a algumas indicações sobre eventuais respostas para o novelo de problemas associado a todas estas realidades, que são, afinal, em boa parte novas, neste século das cidades, concluindo que para reduzir significativamente a pegada ecológica urbana e, simultaneamente tornar as cidades mais amigáveis, há que modificar o metabolismo urbano; e nesta mudança há que actuar ao nível das questões da água e dos esgotos, dos resíduos sólidos e da energia, assuntos estes especificamente tratados neste caderno.

Importa ter bem presente nesse novelo de questões que a referida mega-urbanização é um fenómeno que acabou de acontecer, praticamente há instantes, na história do homem, e que, por isso, ao lidarmos com os problemas da grande cidade, que é afinal talvez o principal agente da insustentabilidade ambiental, estamos a tratar de uma questão viva, e “em cima da hora”, um fenómeno arquitectónico e social que está em pleno desenvolvimento e que não é possível fazer parar para se corrigir, tem de se corrigir enquanto se desenvolve e tem de se corrigir urgentemente e procurando, acima de tudo, recuperar e reabilitar tantos dos valores humanos e cívicos que têm vindo a ser gradualmente postos em causa, quando não liminarmente negados, como o convívio e um certo sentido de cidade coesa, protectora e atraente.

E assim, hoje em dia, há que tentar ir encontrando os melhores caminhos para cidades que sejam ambiental, física e socialmente mais sustentáveis, isto numa primeira linha de se tentar reinventar e reabilitar cidades que sejam absolutamente satisfatórias e estimulantes em termos funcionais e culturais; pois não basta que a cidade se sustente é necessário que a cidade nos motive e que nós próprios vitalizemos a cidade, do seu centro aos seus bairros e às suas e nossas vizinhanças residenciais.

Nestas matérias de sustentabilidade urbana é importante considerar que a cidade apoia a habitação e a habitação apoia a cidade, que são, afinal, cidade e habitação mutuamente apoiadas, e que neste mútuo apoio se encontrará a forma mais adequada de sustentabilidade, pois cidade sem habitação que nos acolha e nos motive, não é verdadeira cidade, e habitação sem cidade cívica, convivial e verdadeiramente estimada, não é verdadeira habitação.

E nesses melhores caminhos para cidades que sejam ambiental, física e socioculturalmente sustentáveis, e , mais do que sustentáveis, estimulantes; não é possível encontrar e seguir soluções ”feitas”, mas podemos e devemos estar constantemente abertos ao diálogo técnico e social informado e à contínua aprendizagem com os exemplos de boas práticas, que felizmente já existem, e que nos irão apoiando num processo de actuação que passe por subdividir o grande problema em problemas mais pequenos e controláveis, como acontece, designadamente, nestas matérias ao nível de se privilegiar o desenvolvimento e a qualidade de pequenas vizinhanças residenciais de proximidade naturalmente conviviais e apropriáveis, mas atraente e intensamente integradas numa positiva continuidade urbana.

Ainda um outro aspecto a sublinhar é a concordância de pontos de vista pormenorizados sobre estas matérias do habitar e da sustentabilidade urbana que caracterizam especialistas oriundos de áreas técnicas tão distintas como são, por exemplo, a pediatria e a arquitectura residencial, entre tantas outras.

Uma preocupação verdadeiramente transversal e que tem de ser cada vez mais marcada pela cultura da sustentabilidade, a que Girardet se refere no seu último capítulo, uma cultura urbana e do habitar, que seja, cada vez mais, ponto de encontro disciplinar e quase obrigatório para muitas profissões e numa perspectiva que se tem de reger por verdadeiros objectivos multidisciplinares que, acima de tudo, têm de visar a múltipla qualidade do habitar urbano e a verdadeira, crescente e específica valia cultural de cada cidade e de cada bairro citadino.

Afinal aquilo que é sintetizado nos últimos capítulos destas Cidades Sustentáveis de Herbet Girardet, em que o autor se refere a conceitos tão importantes como os que estão associados, designadamente, a “cidades conviviais” e à harmonização e à utilidade da agricultura urbana no retomar da fundamental aliança entre campo e cidade, numa perspectiva que como tão bem, defende, entre nós, Gonçalo Ribeiro Telles, terá sem dúvida múltiplas utilidades sociais, económicas, recreativas, paisagísticas e ambientais; e nesta matéria Girardet aponta números impressionantes como por exemplo aquele de 30% do valor monetário dos produtos agrícolas dos EUA corresponder à produção em áreas urbanas metropolitanas.

Finalmente, o autor refere-se ao crucial desígnio da criação de “cidades agradáveis graças às melhores práticas urbanas”, citei; e aqui lembramos que Josep Muntañola, citando o filósofo Derrida, disse que “a arquitectura se faz para acolher, não para castigar” – e como bem sabemos este acolhimento habitacional e urbano tem de ser muito mais do que uma plataforma funcional, tem de proporcionar agradabilidade e motivação.

Termino salientando que quem pretenda encontrar neste livro de Girardet uma perspectiva parcial, e tenho de o dizer basicamente falsa, da hoje tão divulgada sustentabilidade não o deverá ler. Mas se quiser dispor de uma entrada ampla e fundamentada para a verdadeira importância e para a verdadeira natureza da sustentabilidade urbana e humana, então deve ler este pequeno livro, que se lê com muito gosto e que considera os fundamentais objectivos de sustentabilidade ambiental, não “avulso”, ou de maneira desintegrada e pouco coerente, mas sim num quadro de uma verdadeira sustentabilidade urbana geral, que tem de ser ampla e culturalmente baseada. Uma amplitude cultural que é essencial para a vital humanização, vitalização, caracterização e, diria mesmo, para a redenção das cidades do século XXI.

Pois, como refere Girardet, “as cidades são locais humanos únicos”, “celebradas como modelos de desenvolvimento cultural” e que, por isso, têm de ser urgentemente muito bem desenhadas; construídas, como refere o autor, “com uma escala de tempo longa” e no respeito de uma escala de desenho adequada, de uma natureza íntegra e numa perspectiva de relacionamento social e de verdadeira vizinhança. Um processo que tem de ser informado tal como defende Girardet, citando Lewis Mumford, pela compreensão da natureza da cidade histórica, isto se o objectivo for o desenvolvimento “de um novo (verdadeiro) alicerce para a vida urbana.”

Defende ainda o autor, de forma evidenciada, que o objectivo básico da reconciliação da urbanização e do desenvolvimento sustentável, tema central deste caderno, pode ser muito favorecido pela cuidadosa e intensa discussão e disseminação de exemplos de boas práticas locais, ao serviço, e cito, de “uma visão mais calma e serena das cidades para as ajudarmos a cumprir o seu potencial como lugares não apenas do corpo mas também do espírito.”

Lisboa, Encarnação/Olivais-norte
Editado por José Baptista Coelho em 5 de Julho de 2007