domingo, junho 08, 2008

Novas formas de habitar (II): Unidades residenciais - António Baptista Coelho - Infohabitar 200

 - Infohabitar 200

Vitalizar a cidade e oferecer novas formas de habitar (II) – desenvolvimento dos aspectos urbanos e arquitectónicos de enquadramento para pequenas unidades residenciais


Artigo de António Baptista Coelho

Continua-se neste artigo uma proposta informal de apresentação e de desejável discussão útil sobre o as características urbanas e arquitectónicas de enquadramento para pequenas unidades residenciais para pessoas sós ou para pequenos agregados, que se defende posam ser integradas em zonas urbanas vitalizadas e “centrais”. Sublinha-se que esses grupos sociais têm, cada vez mais, uma presença significativa na nossa sociedade e continuam a não ter uma oferta adequada em termos de condições residenciais, seja na perspectiva da sua constituição funcional e do seu carácter vivencial específicos, seja relativamente às suas condições de integração na cidade e de potencialidades para a respectiva animação local. Aborda-se, assim, o tema das unidades residenciais compostas por pequenos fogos ou estúdios e por um conjunto diversificado de serviços comuns, privativos dos respectivos residentes e/ou abertos para o serviço a toda a comunidade local, considerando-o nas suas urgências e potencialidades, cada vez mais evidentes, seja do ponto de vista dos seus principais utentes, seja na perspectiva do seu evidente e importante papel como elementos de vitalização da cidade.

Volta a salientar-se que a ordem de abordagem desta matéria, neste artigo tem e terá alguma flexibilidade, podendo voltar-se em textos futuros a aspectos de enquadramento julgados fundamentais e avançando-se, desde já, com algumas considerações mais objectivas.



Fig. 01: Alvalade, Lisboa

Fig. 02: Alvalade, Lisboa

Grande parte do segredo de uma cidade viva e sensível relativamente aos seus habitantes está num tecido urbano com continuidades afirmadas, atraentemente diferenciado, mas não especializado e que leve a cidade até à porta de muitas casas, enquanto também proporciona remansos “domésticos” bem dentro das zonas citadinas mais animadas; e esta é uma matéria muito importante para a criação de pequenas unidades residenciais urbanisticamente bem integradas, pois, desta forma, a cidade irá ao encontro delas em termos de acessibilidade e imagens e a cidade oferecerá, no seu seio, condições complementares de estadia, de convívio e mesmo de relativa privacidade, no meio da animação urbana, relativamente às condições afins que as próprias unidades residenciais possam disponibilizar.

E somos cada vez mais idosos com preparação e gostos diversificados, capazes de uma assinalável dinamização de múltiplas actividades urbanas e culturais e, por outro lado, mas confluindo numa perspectiva de dinamização citadina, cada vez mais é maior o número de pessoas ligadas a uma grande diversidade de nichos e sub-niclos de actividades que encontram num meio urbano física e socialmente denso o melhor conjunto de locais para a respectiva implantação; e neste segundo grupo de citadinos há, naturalmente, uma assinalável fatia de jovens que vivem a cidade com autonomia.

Fig. 03: Alfama


De certa forma poderemos voltar a pensar na “cidade central” como ela foi, uma espécie de grande casa, que associava as casas de habitar e as casas de trabalho dos cidadãos; embora esta recorrência tenha, naturalmente, muito a ver com um conjunto de actividades diversificadas, sim, mas razoavelmente unificadas em termos de uma cultura urbana que está com a cidade específica em que se situa e mesmo com um dado bairro específico dessa cidade, mas que está, também, naturalmente, com a nossa cultura global que hoje está bem presente um pouco por todo o lado e, designadamente, bem ao nosso lado, bem próxima, no sítio de trabalho e no sítio de residir.

Há, assim, que sublinhar que a animação e a vitalidade urbanas estrategicamente dinamizadas, reguladas e disseminadas constituem um elemento fundamental para o melhor habitar de todos nós e são aspectos determinantes para uma vivência estimulante da cidade por parte de pessoas sós e pequenos agregados familiares, constituindo estes grupos de habitantes, reciprocamente, uma faixa de utentes privilegiadamente protagonista de muitas das actividades animadas e desejavelmente criativas daquelas cidades que, hoje em dia, se desejam criativas.

Fig. 04: Cooperativa Coobital, Alto de Santo António, Faro, 1991, Arq. José Lopes da Costa, Arq. Pais. José Brito


De certa forma o que podemos aqui ir concretizando é o interesse que terá um reconformar de partes da nossa cidade num sentido de uma maior humanização, uma humanização que não desfaça o sentido urbano e, até, eventual e pontualmente, cosmopolita da cidade, mas que a aproxime de um sentido de “casa comum”, onde cada pessoa, cada peão, use a rua e praça num natural e relativo prolongamento das suas condições domésticas. Uma condição que terá, sempre, excelentes consequências em termos da hoje tão necessária reconviviliazação entre quem habita a cidade e uma condição que hoje encontra naturais alianças em múltiplos aspectos que vão até ao privilegiar de meios de deslocação amigos do ambiente e ao apoio coerente a um turismo com qualidade e verdadeiramente amigo dos locais e da sua caracterização e vivência.

E tenhamos presente que tudo isto tem tudo a ver com os grupos socioculturais que, como aqueles de que acima se falou, têm mais tempo para a cidade e/ou mais fazem da cidade o seu sítio de habitar integrado (trabalho e residência); e a esta matéria do habitar integrado voltaremos mais à frente e em outros artigos da série, pois ela muito tem a ver com o motivo prático que aqui nos concentra, que é a integração de pequenas unidades residenciais em meios urbanos vitalizados.
Um outro aspecto que merece uma atenção específica nesta matéria, que no primeiro artigo foi apenas abordada de forma ligeira e cujo adequado desenvolvimento terá ainda de ficar para futuros textos, é a questão das essenciais acessibilidades urbanas diversificadas e bem qualificadas, que devem caracterizar qualquer zona residencial, mas que devem ser altamente eficazes e desejavelmente melhoradas em termos de conforto no uso em zonas que sirvam unidades residenciais e especificamente quando estas unidades residenciais tenham uma vocação especial para estudantes e especificamente para idosos; é que se tal não acontecer estão a criar-se verdadeiros guetos, ainda que, eventualmente, luxuosos em termos de condições residenciais específicas.

Um outro aspecto importa ter em conta, de forma específica, quando nos dedicamos a estas matérias das unidades residenciais, é que para habitar a cidade com relativa intensidade é evidente que temos de facilitar, ao máximo, e mesmo de nos “libertar”, um pouco, de muitas tarefas domésticas mais “mecânicas” ou repetitivas e, ao fazê-lo, acabamos por estar a disponibilizar actividades para outras pessoas encontrarem os seus nichos de actividade e de trabalho, o que é também uma consequência positiva em termos sociais, até porque tais actividades podem, assim, adquirir uma perspectiva cada vez mais profissional e dignificada – pensa-se em todas as actividades de apoio ao funcionamento de uma habitação e que possam ser prestadas, num regime de “menu” de oferta e em opção de total liberdade de escolha, nas unidades residenciais. E é evidente o interesse que tais ofertas poderão ter quando dirigidas para jovens e idosos vivendo sós.

Fig. 05: Residência de estudantes, Universidade de Aveiro, Arq. Adalberto Dias.


Ainda um outro aspecto que nunca será excessivo salientar é a oportunidade, que não pode ser perdida, por parte destas “novas” estruturas de residencialidade, que agregam um número significativo de pequenos fogos e estúdios mínimos, e que, portanto, congregam um número significativo de moradores, de associarem ao habitar – considerado numa perspectiva limitada de abrigo em condições funcionais positivas, quer domésticas, quer urbanas, como atrás se defendeu – outras valências que realmente qualifiquem o habitar como algo que possa enriquecer os seus habitantes, designadamente, em termos conviviais e culturais.

Já no passado artigo se falou, um pouco destas matérias, que se julgam muito importantes, e que têm, simplesmente, a ver: quer com uma oferta de condições disponibilizadoras de oportunidades de convívio comum, entre os moradores de cada unidade, e alargado, considerando a já defendida e afirmada integração da unidade na sua parte de cidade respectiva; quer com o aproveitamento da gestão comum da unidade para, além da disponibilização de um menu de serviços funcionais e de apoio doméstico, poder-se disponibilizar um menu de actividades de cariz cultural, actividades estas naturalmente alargadas a muitas outras pessoas que não apenas os residentes, mas que poderão nestes encontrar um interessante núcleo-base de dinamização.

Já se referiu e volta a indicar-se que nada disto tem a ver com qualquer tipo de tendência para qualquer tipo de indicações relativas a participações com carácter “obrigatório”, mas apenas a disponibilização de condições e de serviços que podem vir a estimular relações de convívio entre residentes e entre residentes e outras pessoas (ex., um ginásio com gestão autonomizada, uma biblioteca municipal com uma zona de estar/”café”e , mesmo, um simples “café de esquina” que poderá ter uma esplanada) e oportunidades de vivência cultural, que, por vezes, não sucedem por falta de informação e/ou de estímulo humano (ex., oferta regular de guias/agendas culturais e de actividades e eventuais serviços que periodicamente disponibilizem visitas diversificadas e minimamente organizadas, serviços estes que poderão aproveitar e mesmo ajudar a rentabilizar a respectiva estrutura de gestão local).

Naturalmente, se entre os habitantes de uma dada unidade residencial houver interesse no desenvolvimento de outros serviços comuns, mais activos, deverá haver alguma flexibilidade espacial e funcional para o respectivo apoio, e não deverá acontecer que não se possam aprofundar tais possibilidades, apenas, por manifesta impossibilidade física.

Fig. 06: uma intervenção da C. M do Funchal, no Caminho da Penteada, 2001, com projecto coordenado pela Arq.ª Susana Fernandes, em que uma antiga moradia com reconvertida e equipada, em termos de acessibilidades, para uma unidade residencial com oito pequenos fogos/estúdios T0, cada um deles com um único grande compartimento para estar, dormir e cozinhar, e, naturalmente, com casa de banho privativa, tendo havido ainda cuidados específicos com a mobilidade/funcionalidade no interior de cada fogo.

Fig. 07: vista de um T0 da intervenção na Penteada.

Em outros artigos desta série se falará, um pouco mais, sobre a articulação destas “novas” formas de habitar com as formas de habitar mais correntes e com a cidade, que desejamos, equilibradamente densificada e atraente em termos de imagens e de actividades; e se falará, também, do eventual protagonismo que estas “novas” formas de habitar poderão começar a ter nas nossas mega-cidades e, também, mesmo, sobre a “novidade” destas formas de habitar, mas, para já, e tal como prometido, vamos apenas avançar, um pouco mais, nos aspectos arquitectónicos que as caracterizam conjuntos integrados de pequenas unidades residenciais em zonas urbanas centrais, e que, de algum modo, são responsáveis por boa parte dessa “novidade” (a ordem de apresentação é, ainda, um pouco arbitrária):

. No que se refere à caracterização dos respectivos habitantes, já se referiu julgar-se que estes poderão ser juniores e seniores, nos mesmos conjuntos ou em conjuntos distintos ou em zonas distintas dos mesmos conjuntos; há, nesta matéria, uma tendência para uma relativa especialização, no entanto tudo o que faça estas unidades distintas de uma normal mistura social citadina tem riscos, embora também haja riscos nesta integração. Portanto, talvez uma opção por uma integração “graduada” e muito bem gerida seja a opção, e, naturalmente, quanto menor for cada unidade, quanto mais simples será a sua normal integração urbana “ao longo da rua”.

. A importância de uma positiva integração que contribua para a continuidade e caracterização urbana da vizinhança em que se situa; integração esta que se deverá articular, sempre que possível, com a associação de equipamentos colectivos que sirvam toda a comunidade local/vizinhança urbana, sendo importante que estes se abram, claramente, à cidade/vizinhança, articulando-se com os respectivos espaços públicos.
. O interesse de se poderem associar em cada programa, e de acordo com as características de cada local, valências de uso de espaços exteriores contíguos ao edificado; de certa forma esta é uma condição que vale por si, naturalmente, pois podermos habitar o exterior residencial é algo de positivo (ex., pequeno jardim, esplanada, etc.), mas vale também numa perspectiva de maior animação urbana local e de maior visibilidade dessa mesma animação, associada seja à entrada da unidade, seja aos seus eventuais equipamentos associados.

. No que se refere à imagem urbana que caracterize a unidade, ela tem de se caracterizar por total integração, dignidade, alguma representatividade e sentido residencial/doméstico. E havendo equipamentos que interessem à “cidade” eles têm de ser devidamente mostrados à “cidade” e não parecerem como que escondidos e com uma caracterização ambígua em termos do seu uso. Nestas matérias a questão da aparência da escala da nova intervenção poderá mesmo levar a uma sua partição aparente de modo a conjugar-se melhor com a envolvente.

. No que se refere a uma opção por mínimos de habitabilidade na concepção das células residenciais, a ideia é que essa deve ser uma preocupação, desde que confluente com outras e designadamente ligadas a funcionalidade, conforto ambiental (ex., luz natural, ausência de ruído, ausência de humidade) e capacidade de apropriação. A ideia é que uma célula de unidade residencial poderá ser espacialmente mínima se for funcional, agradável e apropriável; e, por vezes, até em espaços desafogados não há essas outras qualidades.
Fig. 08: espaços comuns com agradável luz natural num conjunto habitacional cooperativo da Caselcoop, Caselas, Lisboa, Arq. Justino Morais.


Fig. 09: apropriação nas entradas dos fogos do mesmo conjunto em Caselas.

. No que tem a ver com o desenvolvimento dos espaços comuns, chama-se a atenção para a importância da agradabilidade ambiental e de redução, ao máximo, de quaisquer aspectos de constrangimento entre vizinhos. Nestas matérias a disponibilização de luz natural e de adequada ventilação, a equilibrada espaciosidade e a possibilidade de uma relativa apropriação ou marcação das zonas contíguas às portas privadas, são aspectos a salientar.

. Ainda no que se refere aos espaços comuns importa sublinhar o interesse e a sensibilidade que deverão revestir o seu tratamento, designadamente, em termos de carácter residencial, dignidade e consenso relativamente aos diversos gostos dos habitantes.

. Nestas matérias de caracterização dos espaços comuns há que tratar muito bem a zona de recepção e entrada, conciliando o interesse de uma centralização de serviços e de uma eventual presença de serviços de recepção e gestão com um máximo de privatização e autonomia das entradas/saídas na unidade residencial, com excelentes condições de dignidade e agradabilidade e com a disponibilidade de opções conviviais expressivamente facultativas.

. Globalmente, salienta-se o que se poderá referir como uma equilibrada capacidade de naturalização, seja por relação com espaços e elementos “verdes” (vegetação), previstos em termos globais, seja com a capacidade de integração de elementos “verdes” (vegetação), pelos habitantes, constitui um importante factor de identidade, apropriação e mesmo de atractividade e satisfação.

. Interesse na disponibilização e disseminação estratégica de alguns espaços comuns minimamente equipados, capazes de apoiarem o convívio informal, mas não intrusivos da circulação corrente no edifício e da privacidade no acesso aos fogos/estúdios. Está a pensar-se, não em salas de convívio, mas em recantos de paragem e estadia eventual, por exemplo, num alargamento de um patim de escada.. Consideração de equipamentos comuns exclusivos dos residentes numa base que privilegie os mais desejados pela maioria e os menos intrusivos da vivência privada de cada célula habitacional; esta previsão poderá ser realizada, seja com recurso a espaços e equipamentos próprios da unidade residencial, seja por centralização, na unidade, de serviços exteriores à unidade (ex., lavandaria e engomadoria).. Desenvolvimento de condições que apoiem uma máxima flexibilidade na afectação de um amplo leque de potenciais serviços comuns à sua utilização privada.. Deve visar-se um sentido de apropriação e de identidade de cada célula/habitação no conjunto da intervenção.

. Deve ser privilegiada a diversidade de células habitacionais, seja em termos dimensionais, seja em termos de funcionalidade, seja em termos de capacidade de apropriação interior e de disposição de mobiliário.

. A entrada de cada fogo/estúdio deve caracterizar-se, quer por condições de identificação, no uso dos espaços comuns, quer por condições de privacidade interior na relação com esses espaços comuns.

. Cada célula/habitação deve caracterizar-se, interiormente, por uma máxima capacidade funcional, propiciando diversidade e facilidade de tarefas domésticas, bem como a disponibilidade de algum espaço expressivamente livre.

. Considerando as frequentes características organizativas e dimensionais (ex., um único espaço habitável) das pequenas células residenciais é fundamental que elas sejam concebidas considerando-se condições muito exigentes em termos de conforto ambiental e designadamente: condições especiais de isolamento acústico entre células habitacionais e no interior de cada célula habitacional; condições de luz natural, insolação e sombreamento; condições higrotérmicas e de ventilação contínua.

. Considerando as frequentes características organizativas e dimensionais (ex., um único espaço habitável) das pequenas células residenciais é fundamental que elas sejam concebidas considerando-se condições muito exigentes em termos de uso e designadamente: a máxima capacidade de apropriação de cada célula/habitação por cada habitante ou agregado familiar; o equilíbrio entre a referida capacidade de apropriação e existência de um número significativo de equipamentos e elementos fixos de mobiliário pré-instalados; a consideração objectiva de boas condições para o trabalho em casa (não doméstico); e a existência de condições adequadas de arrumação (diversificada e estratégica), no interior do fogo (que poderá ser articulada com condições de arrumação fora do fogo).

Fig. 10: o “arrumar” de uma zona de trabalho “aos pés” da cama.

Fig. 11: o “arrumar” de uma zona de quarto.


. Importa dirigir uma atenção específica a um desenho arquitectónico da célula residencial de tal forma cuidado que harmonize áreas reduzidas, com adequada disponibilidade de áreas livres, capacidade/flexibilidade de mobilar/decorar e diversidade de usos dos espaços criados. A ideia é que a solução ofereça, simultaneamente, três capacidades: uma apropriação adequada com um mínimo de “móveis” introduzidos pelos habitantes; a possibilidade da introdução de alguns elementos de mobiliário e outros elementos de decoração fortemente apropriadores e em locais estratégicos do fogo; e uma boa possibilidade de mutação de tipos de arranjos de mobiliário. Com este tipo de objectivos será conseguida uma maior adequação e apropriação de cada arranjo doméstico.

Fig. 12: uma pequena mas cuidada cozinha.

. Um outro aspecto que é de grande importância é a capacidade da solução em termos da oferta ou do acolhimento de opções de arranjo interior muito cuidadas e atraentes, que, de certa forma, amenizem ou compensem a “falta de espaço” com o desenvolvimento de um muito agradável, “envolvente” e caracterizado ambiente doméstico; e aqui há um problema potencial a considerar que é a eventual falta de capacidade económica dos moradores para contribuírem para uma solução deste tipo, e aqui haverá caminhos a fazer em termos de pré-equipamento e de enquadramento de formas simples de arrano pelos moradores (ex., algum equipamento fixo e paredes onde seja simples realizar uma composição “dinâmica” com cartazes que se vão colocando e periodicamente substituindo).

. Pode ser ainda considerado o interesse no desenvolvimento de uma estrutura de projecto que possibilite a associação ou separação de células habitacionais, conforme a evolução das necessidades habitacionais; proporcionando-se a maior fragmentação com unidades mais pequenas ou a sua associação em unidades maiores.

. Quanto aos espaços com uso alargado eles deverão cumprir as respectivas exigências de programa, embora possa desenvolver-se uma atenção específica na sua relação com a unidade residencial.

. Quanto aos espaços comuns da unidade residencial que sejam desenvolvidos com valências específicas (ex., estar, reunir, jogar, trabalho não doméstico, apoio a trabalhos domésticos, gestão local, etc.), eles dependerão muito do programa que se adopte em cada solução, no entanto há aspectos fundamentais a considerar que têm a ver com a existência de condições dimensionais, visuais, de equipamento e de acesso adequadas a essas actividades:
- seja na relação autonomizada, mas bem articulada, com a estrutura dos acessos aos fogos/estúdios;
- seja na compatibilização das actividades previstas entre si; seja na possibilidade, que se julga positiva, de tais actividades poderem acolher pessoas exteriores à unidade;
- seja, finalmente, na possibilidade desse leque de actividades poder ser escolhido em interacção com os próprios habitantes, uma condição que implicará flexibilidade e adaptabilidade espacial.

Poderemos ter, assim, portanto, um amplo leque de possibilidades, mas há três aspectos que, desde já, se salientam nesta matéria, sendo um deles a certeza que terá de haver grande realismo financeiro e de gestão nestas previsões, sendo o outro que não haverá qualquer actividade comum se não existirem espaços e equipamentos adequados, e o último aspecto tem muito a ver com isto e refere-se à certeza de que os habitantes só tenderão a frequentar espaços comuns muito bem posicionados, dimensionados e equipados, caso contrário irão sempre preferir a privacidade da sua célula, mais ou menos, à frente do seu televisor ou monitor.

Muitas outras matérias decorrerão do programa específico de cada intervenção (ex., maior ou menor desenvolvimento dos serviços comuns e dos serviços abertos à comunidade), ou serão tratadas de forma idêntica a qualquer intervenção residencial (ex., garagem colectiva).Para concluir este artigo sublinha-se, novamente, o verdadeiro potencial que as cooperativas de habitação proporcionam na programação e na gestão corrente de unidades deste tipo, associando, suplementarmente, aos serviços do habitar, mais específicos, todo um outro conjunto de aspectos muito diversificados e ligados ao convívio natural e à dinamização de iniciativas culturais.
8 de Junho de 2008, Encarnação – Olivais Norte, LisboaEditado no Infohabitar, em 8 de Junho de 2008, por José Baptista Coelho

1 comentário :

popelina disse...

Boa tarde,
Gostei imenso de tudo o que li. Vou voltar com tempo e várias vezes. Até breve.