sexta-feira, abril 20, 2007

135 - Sobre Alvalade, um comentário – de Pedro Taborda - Infohabitar 135

 - Infohabitar 135

Pedro Taborda



O Bairro de Alvalade, que tem por base o " Plano de Urbanização da Zona Sul da Avenida Alferes Malheiro", de autoria do arquitecto Faria da Costa ainda nos anos 40, é um verdadeiro laboratório de propostas habitacionais (mais de 25 anos de período de urbanização).

As várias unidades de urbanização constituem estrutura urbana de raiz projectada por vários arquitectos mas com o acompanhamento do autor do plano, permitindo por esse motivo uma forma de planear aberta, aferindo as diferentes fases, evoluindo de acordo com as exigências da arquitectura, pela forma nas unidades morfológicas projectadas tendo em conta os aspectos ambientais, culturais, lúdicos e desportivos.

Nesta oportunidade, seria então reivindicada a renovação dos conceitos arquitectónicos e urbanísticos, segundo os princípios racionais da arquitectura moderna internacional, ainda que nos anos posteriores à realização do “ 1ª Congresso Nacional de Arquitectos” em 1948 o desejo de afirmação entre nós de uma arquitectura moderna, fosse marcado ainda com as imposições de uma pretensa arquitectura nacionalista, há muito imposta pelo regime, à imagem das primeiras casas de renda económica de 45 no exemplo das células I e II pelo Arq. Miguel Jacobetty.

Em todo o caso, nas várias células e Planos de Detalhe apresentavam já na primeira fase, de influência francesa, uma clara visão de complementaridade social: habitação a custos controlados; espaços livres e zonas de equipamentos primários, serviços públicos e comércio, apresentando também projectos-tipo para blocos de habitação que nelas se integravam.

Patente estes fundamentos ainda na primeira proposta, abandonando a caracterização minuciosa do desenho urbano, em detrimento dos novos conceitos que estabeleciam claramente o esquema viário e o zonamento de preenchimento menos especificado; posteriormente o bloco de habitação colectiva em altura integra a manifestação de uma linguagem moderna apoiada nas novas técnicas, resolvendo os problemas da necessidade de habitação na ideia da “rua corredor”, ao sabor da Carta de Atenas e dos cinco postulados de Le Corbusier.

Em todos os casos o Bairro de Alvalade constitui-se como paradigma do urbanismo Português: demonstra-se o claro interesse expresso em fazer cidade, perceptível numa ideia de conjunto em criar motivação ao modo de vida consentâneos com os aspectos sociológicos ao tempo, a revisitar várias vezes como lição do desejo da arquitectura experimentar as novas soluções urbanísticas e assim fazer vivenciar a possibilidade da abertura do poder Público e das suas Instituições à defesa quer do interesse colectivo do espaço colectivo, quer da coesão social, visando a concepção de modelos para o planeamento das áreas de expansão das cidades.
Face ao crescimento que a cidade nos revela actualmente, o esquecimento a que foram votadas as experiências urbanas de grande qualidade como as do Bairro de Alvalade conduziram ao preterido e à falta de qualidade reveladas no primarismo de conceitos que traduz a fraca formação técnica daqueles que efectivamente construiriam as cidades: quer renegando a validade em assimilar o conceito de projecto-tipo, quer renegando os conceitos urbanísticos no desenvolvimento dos programas de planeamento dos destinos das cidades. E este esquecimento é de uma enorme gravidade para todos nós.

sexta-feira, abril 13, 2007

134 - Cidades desejadas e seguras (I): o problema da habitação tornou-se o problema da cidade – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 134

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( palavras chave: cidade, segurança urbana, urbanismo, cidade habitada, fazer cidade com habitação, arquitectura cívica, humanização, vitalização, periferia, bairros inseguros, bairros perigosos)


Cidades desejadas e seguras (I):

o problema da habitação tornou-se o problema da cidade

António Baptista Coelho

O subtítulo deste artigo é uma frase do Arq.º Luis Fernández-Galiano, retirada de um dos seus excelentes editoriais na revista espanhola “Arquitectura Viva” (n.º 97), expressivamente intitulado, “Habitação sem cidade” (“Vivienda sin ciudad”). Foi aí que ele sintetizou, e muito bem, que “ o problema da habitação se tornou o problema da cidade.”

Fernández-Galiano explicou esta ideia, ao referir que ”durante o século XX, a transformação urbana provocada pela mecanização da agricultura e os fluxos migratórios do campo para a cidade provocaram o chamado «problema da habitação»... No princípio do século XXI, e no contexto do mundo desenvolvido, o alojamento não é já uma preocupação quantitativa ou sanitária, mas sim qualitativa e ambiental: garantidas as dimensões mínimas, a ventilação eficaz e a saudável insolação, a habitação contemporânea padece de mediocridade visual, programas rotineiros e envolventes anorécticas.”



E concluiu salientando que. “A habitação não é hoje um problema que precise de experimentações estéticas ou inovações estilísticas; é um problema urbano, da civitas ou da polis, o que quer dizer, um problema de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas, acima de tudo, precisamos de mais cidade.”



Fig. 01

Aponta-se que o presente texto teve como motivação, mais directa, um excelente artigo saído em 7 de Abril de 2007, no semanário Expresso, sobre as condições de insegurança urbana num número significativo de “bairros sociais” e de outros bairros citadinos ou periféricos na Área Metropolitana de Lisboa; o artigo é de Valentina Marcelino e Jorge Simão e intitula-se “Alto risco na zona oriental - Número de bairros violentos sobe 50%”, e logo em destaque o artigo salienta: “Autoridades evitam a força face ao aumento do crime violento. Preferem estudar os bairros e criar vínculos”.

Importa referir, desde já, que a ideia que baseou o presente texto foi desenvolver, a partir de algumas ideias presentes naquele artigo, uma aproximação muito global e eficazmente informal aos aspectos de segurança e insegurança urbana. No entanto há que confessar que, à medida da elaboração foi este mesmo texto “fugindo” das matérias mais específicas da segurança urbana, às quais havemos de voltar em breve e de forma atenta e o mais possível completa, para uma perspectiva que encara a cidade como sítio que desejavelmente proporciona o espaço mais adequado e mais naturalmente protector das actividades humanas e designadamente daquelas que mais exigem em termos de adequadas condições de exercício; como será a possibilidade da fácil escolha entre o convívio e a privacidade e entre a animação e o sossego.

E diria mesmo que é este livre e agradável arbítrio, caldeado com a riqueza cultural, a diversidade da imagem urbana e a existência de empatia entre espaços urbanos habitados e os seus habitantes, que constituem um conjunto de condições de vida diária fortemente propiciadas por partes de cidades naturalmente seguras, porque agradavelmente envolventes, conviviais, vivas e apropriadas.



Fig. 02

Não é, no entanto, possível deixar de sublinhar, que, infelizmente, em Portugal, os aspectos quantitativos associáveis à qualidade do habitar e à qualidade da cidade não estão ainda resolvidos, seja porque os velhos problemas, como os “bairros de barracas” ainda persistem pontualmente, seja porque outros problemas estão aí bem presentes; alguns deles velhos, como a sobre-ocupação e a vetustez de partes do parque habitacional e outros novos e associados, por exemplo, seja à imigração, seja à “nova” pobreza urbana, que tem muitas facetas, mas onde se salientam os sem-abrigo. E como se verá, ainda que sinteticamente, muitos destes aspectos têm ligações fortes com as questões da cidade bem, ou mal, habitada, bem, ou mal, desenhada.

E talvez que a questão fundamental da cidade de hoje esteja aqui nestas questões do melhor ou pior habitar, portanto da maior ou menor vitalidade urbana – e atente-se que se fala de vida urbana não de bairros-dormitório –, e do melhor ou pior desenho do habitar – e sublinha-se que aqui desenho se refere à concepção arquitectónica num sentido verdadeiro, portanto amplo e bem fundamentado.

Um outro aspecto a ter em conta como base de todas estas reflexões é a questão de para quem se faz cidade e habitação. Uma questão que parece evidente, mas que perde essa evidência quando visitamos conjuntos ditos residenciais onde o automóvel é rei e onde, por vezes, existe um quase total divórcio entre o interior do conjunto e a sua envolvente “dita” urbana. São questões fundamentais estas e que devem ter resposta, pois assim como não se fazem habitações com as características de arquivos e arrumações industriais, porque aí vivem pessoas, com as suas necessidades e os seus hábitos; também o espaço público não pode ser feito para o veículo e para a simples passagem de infraestruturas, tem de ser feito com, pelo menos, dois objectivos fundamentais:

(i) O espaço público tem de ser feito para a pessoa a pé, para a pessoa a pé que precisa de ser devidamente apoiada em termos funcionais, acompanhada e motivada em termos urbanos, estrategicamente abrigada do sol a mais e da chuva, estrategicamente relacionada com as outras pessoas e com as actividades urbanas, e estrategicamente orientada e dotada de condições de visibilidade de segurança e de auto-controlo espacial – e atenção que o perfil do cidadão tem de ser pensado e realizado à escala da criança e do velho; caso contrário para quem é que se está a fazer cidade?



Fig. 03

(ii) E o espaço público tem também de ser feito para a cidade, para a cidade como construção comum e representativa da nossa cultura e aqui se irá exigir mais, mais desenho, mais qualidade, mais trabalho, mais imaginação, mais cuidado, pois a cidade é memória e será memória e ninguém pode viver sem memória ou com uma memória corrompida ou deturpada.



Fig. 04

Dito isto, afirma-se que construir um espaço público como esse, um espaço de vivência de uma cidade que seja como que uma grande casa, da qual gradualmente vamos conhecendo os mais pequenos recantos e os aspectos mais sugestivos e os pormenores mais subtis e marcantes, uma grande casa feita para uma grande diversidade de habitantes e de usos, é uma construção que exige uma elevada qualidade de concepção; e tal como referiu Charles Moore, em um dos seus textos, estamos ainda a procurar garantir a esta escala urbana habitada a qualidade que já atingimos no edifício isolado.; são, realmente, em muito maior número os “grandes” edifícios do que os “grandes” conjuntos urbanos, e são estes os grandes protagonistas da cena urbana, não tenhamos dúvidas.

Mas dá vontade de dizer e mesmo de repetir e de sublinhar que uma tal procura da qualidade à escala urbana habitada tem de começar a chegar, obrigatoriamente, hoje em dia, e de forma sistemática, a resultados claramente positivos, pois não é mais possível continuar a destruir tanto do que outrora foi bem feito e a construir tanto e tão mal feito, e designadamente a esta fundamental escala urbana vitalizadora de relações coesas de proximidade e de relações estruturantes de uma cidade viva.

Para tal é muito urgente e necessário que a arquitectura seja feita por arquitectos, mas tal condição não chega para o referido objectivo; há que exigir, também aos arquitectos, que a qualidade da sua arquitectura tenha verdadeira valia urbana e humana, há que exigir uma verdadeira qualidade de desenho pois queremos voltar a fazer cidade culturalmente fundamentada, humanizada e atraente, uma cidade que nos orgulhe e onde gostemos realmente de viver e conviver.



FIg. 05

Lembremos, agora, que o fazer cidade viva que apoie funcionalmente, estimule e proteja o peão é fazer cidade mais segura, seja nas questões ligadas à urgente negação das vias que são pistas de automóveis – e depois de o serem, então, marcam-se com sinais de controlo da velocidade e outras medidas de redução da mesma -, seja na criação de partes de cidade com continuidade urbana e de actividades, estruturadas por percursos agradáveis, memorizáveis, acompanhados por actividades e funções que vão polarizando as suas sequências de espaços.

E só assim teremos cidades que, física, funcional e ambientalmente, propiciem segurança urbana; uma segurança que mais do que sentida directamente, estará, naturalmente embebida num meio urbano que nos satisfaz e nos atrai e que, consequentemente, é factor de uso mais intenso do espaço público, sendo assim factor de convívio e de potencial de ajuda mútua – condições estas também fundamentais para a segurança urbana, mas antes disso, e na base disso, para a construção de uma verdadeira cidade do encontro e da comunidade.

Afinal, e tal como referiu Jane Jacobs (“Morte e vida das grandes cidades”, 1961), há que ter em conta que “a ordem pública não é mantida basicamente pela polícia... É mantida fundamentalmente pela rede intrincada de controlos e padrões de comportamento espontâneos… e o problema da insegurança não pode ser solucionado pela dispersão das pessoas... Numa rua movimentada consegue-se garantir segurança; numa rua deserta não…”

Que isto não seja entendido como a negação da importância dos serviços de segurança, mas estes mesmos serviços têm de avançar e têm avançado no sentido da acção de proximidade e do apoio específico e diário à qualidade de vida; temas a que voltaremos em próximos artigos e a propósito lembremos que já no referido artigo no Expresso se indicava que as “autoridades evitam a força ... Preferem estudar os bairros e criar vínculos.”



Fig. 06

É, sim, fundamental que as sábias e pioneiras palavras de Jane Jacobs sejam literalmente entendidas, como relevadoras da vital importância de uma cidade com continuidades urbanas e com regularidades urbanas “correntes”, como são (por exemplo) os enfiamentos e as sequências de ruas, as esquinas habitadas, as correntezas de edifícios com entradas bem ligadas à rua e bem assinaladas e apropriadas, as montras de lojas atraentes e regularmente distribuídas, as pracetas acolhedoras que integram pequenas esplanadas, as excelentes galerias comerciais que tornam os troços citadinos mais coesos, e, naturalmente, uma escala urbana que privilegie edifícios não muito altos nem muito grandes, capazes de proporcionarem muitos desses acontecimentos urbanos vitalizadores e muitas janelas de habitações não muito longe do que se passa na rua.



Fig. 07

Pelo contrário, se pensarmos na negação de muitos desses aspectos de forma e função urbana, deixamos de ter cidade com continuidades públicas, e até por vezes deixamos de ter ruas minimamente coesas, e deixamos de ter esquinas que marquem ritmos e funções de percursos, e assim, o pouco comércio que aí tentará sobreviver, pode ir morrendo, instalando-se uma espiral de desvitalização e de abandono do espaço de uso público; e aí, em “ruas” desertas, não é possível garantir segurança, e, mesmo antes disso, não é possível proporcionar conforto e gosto de habitar, porque antes da insegurança e em parte da sua génese está o desamor pelo espaço público e pelo sítio que se habita, afinal defendemos muito mais, ou só defendemos, aquilo de que gostamos, aquilo de que nos apropriamos.

Assim voltamos ao tema “nuclear” deste artigo: “o problema da habitação tornou-se o problema da cidade” e, muito provavelmente, o problema da insegurança no habitar tornou-se no problema da insegurança na cidade. Uma insegurança no habitar que radica também em condições de habitar e de vida urbana pouco humanizadas, pouco ligadas ao que a cidade pode e deve proporcionar de positivo e de diversidade funcional e cultural. E acresce, hoje em dia, a esta problemática que os principais problemas da cidade de hoje são os das megacidades, matéria pertinente que também fica para outros artigos, mas, sobre a qual, desde já, se sublinham as virtualidades das vizinhanças de proximidade e dos pequenos conjuntos urbanos como elementos de manutenção da escala humana e de dinamização estratégica e reforço da coesão, também, nas grandes urbes.



Fig. 08

Em toda esta matéria não devemos nunca considerar de forma menos atenta e adequada a questão real da insegurança, tal como ela é sentida, “na pele”, infelizmente, em tantos casos que, depois, surgem na comunicação social, por exemplo em artigos como o de Henrique Machado, no Correio da Manhã de 6 de Março de 2005, onde sob as palavras “Bairros de crime”, o jornalista refere que eles “fazem lembrar territórios sem lei, onde mandam os senhores do crime que trazem em pânico moradores que ainda resistem à marginalidade.”

E há, também, que reflectir sobre os parâmetros que baseiam a construção das listagens dos bairros “perigosos”, onde se conjugam, por exemplo (caso do estudo referido pelo artigo que saiu no Expresso), “condicionantes arquitectónicas e densidade populacional”, com “número de residentes com antecedentes criminais, número de casos de desordem pública, número de agressões a elementos policiais e número de casos de crimes praticados por residentes fora do bairro”. E há que reflcetir sobre estas matérias, porque se considera que, na base de tudo está, evidentemente, o desenho urbano e habitacional ou, frequentemente, o não-desenho – no sentido de concepção urbana integrada (neste caso desintegrada) – que marca tantos dormitórios suburbanos. E um não-desenho ao qual se associa uma não-cidade em termos sociais, porque socioculturalmente homogénea e desintegrada.

E aqui é já possível afirmar que seria muito acertado realizar um estudo prático deste universo da nossa vergonha urbana e para ele tentar e aplicar, de forma expedita, as melhores receitas para lhes aumentar urgentemente a qualidade de vida e naturalmente lhes reduzir a insegurança e a intolerância; e um tal estudo também ajudaria a não repetir e, provavelmente, a remediar os erros urbanísticos, como ainda vai acontecendo, embora menos frequentemente do que aconteceu, entre nós, designadamente, no período entre o início dos anos 70 e meados dos anos 80.

Há que dizer, de uma vez, que muitos conjuntos de edifícios onde muitas famílias e pessoas isoladas vivem, em periferias citadinas sem vida, não são mais do que “edificação habitacional”, não são nem cidades, nem partes de cidade, nem casas, nem partes de casas. São elementos humana, citadina e ambientalmente negativos com dimensão excessiva, são tipos de edifícios por vezes inteiramente inadequados a quem lá habita – quando são “tipos” de edifícios e não apenas construções com uso habitacional –, são espaços exteriores pouco acabados, mal acabados ou mesmo quase inexistentes em termos de funções e de forma pública, e são afinal sítios, que não são sítios, sem identidade e sem cidade, seja por falta de continuidade urbana, seja por falta de transportes públicos, seja por falta de desenho (concepção); seja, finalmente, por vezes, por falta de tudo isto, e, tantas vezes, numa má mistura física tornada realmente patológica, quando contém uma mistura social que nada tem da normal e rica diversidade sociocultural da cidade.

Lembram-se as impossíveis misturas habitacionais que só integram grupos socioculturais com diversos tipos de carências e de problemas de integração, como se uma verdadeira parte de cidade pudesse viver assim, truncada de parte do seu sangue. E se tudo aquilo que aqui não há é essencial para que a cidade se faça com habitantes e habitação, aqui não se faz cidade, e na ausência de cidade quem lá mora fecha-se em casa, o último reduto, enquanto as ruas “fazem lembrar territórios sem lei”.

Conclui-se, como se começou, com palavras de Luís Fernandez-Galiano: “A habitação ... é um problema urbano, da civitas ou da polis, isto quer dizer, de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas acima de tudo precisamos de mais cidade.”



Fig. 09

Em próximos artigos desta série, estruturada pelo tema “o problema da habitação tornou-se o problema da cidade”, serão considerados, entre outros, os aspectos de urgência e de complexidade imbricados nestas matérias da negação social da “não-cidade” e da insegurança de que essa não-cidade é sítio próprio; e desde já se afirma que, evidentemente, o ambiente físico e arquitectónico é apenas um dos factores aqui em jogo, mas, no entanto, é em casas com paredes de “pedra e cal” e em ruas com correntezas de edifícios com janelas reais que se vive e se trabalha, e, portanto, será sempre do quadro físico que se terá de partir e ao quadro físico que se terá de chegar nesta urgente e pacífica batalha.

Ao contrário do que é já um hábito que se acarinha no Infohabitar, as imagens que ilustram o corpo deste artigo não foram especificamente identificadas, quer relativamente aos sítios “visitados”, quer relativamente aos respectivos autores projectistas. Pretendeu-se desta forma chamar mais a atenção para o fio de pensamentos no texto e menos para tais referências. No entanto escolheram-se, premeditadamente, apenas bons exemplos de habitação que faz cidade e de cidade viva e qualificada, portanto amada e tendencialmente segura, exemplos estes apurados em diversos bairros de Lisboa, entre os quais se destacam os sempre incontornáveis Alvalade e Campo de Ourique e os também sempre incontornáveis e mais recentes Tellheiras e o “velho” excelente Alto do Restelo da EPUL.



Fig. 10

Como se verá, em próximos artigos desta série sobre os tão imbricados problemas da habitação e da cidade, mais do que de uma tipologia habitacional e urbana específica, a qualidade do habitar uma cidade viva depende, numa primeira linha, da verdadeira e bem fundamentada qualificação do seu desenho, numa segunda linha, de preocupações específicas com aspectos de definição e responsabilização territorial e, em linhas paralelas, depende de se visar uma verdadeira parte de cidade convivial e com diversidade sociocultural, aspectos estes que, por sua vez, tem de interagir com a concepção da forma-função. Mas estes são aspectos que terão de ficar para próximos artigos.
Lisboa, Encarnação, 11 de Abril de 2006


Edição: José Baptista Coelho

sexta-feira, abril 06, 2007

133 - Análise arquitectónica residencial do Bairro de Alvalade e designadamente das suas “células sociais” – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 133

 - Infohabitar 133

Análise arquitectónica residencial do Bairro de Alvalade e designadamente das suas “células sociais”


Tal como tinha sido referido no último artigo editado no Infohabitar e intitulado “Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial”, faz-se, em seguida, uma análise arquitectónica residencial sistemática bastante dirigida para as suas “células sociais”.

A análise é realizada cumprindo-se uma grelha de ponderação desenvolvida no estudo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e tese de doutoramento do autor, pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), intitulado “Qualidade Arquitectónica Residencial: Rumos e factores de análise”, editado no LNEC em 2000 (disponível na Livraria do LNEC com o n.8 da Série Informação Técnica Arquitectura, ITA).




Fig. 0

A referida grelha de análise aponta os seguintes conjuntos de rumos qualitativos da qualidade arquitectónica residencial:

  • acessibilidade e comunicabilidade;
  • espaciosidade, capacidade e funcionalidade;
  • agradabilidade, durabilidade e segurança;
  • convivialidade e privacidade;
  • adaptabilidade e apropriação;
  • atractividade, domesticidade e integração.
E, assim, em seguida, e praticamente sem comentários faz-se a análise referida ao Bairro de Alvalade, em Lisboa, projectado por Faria da Costa. Sublinha-se, apenas, que os diversos níveis físicos (Área Residencial, Vizinhança Próxima, Edifício, Habitação) são registados de forma evidenciada e que esta análise foi realizada no âmbito do referido estudo do LNEC.

Factores de relação e de contacto entre espaços e ambientes – Acessibilidade e Comunicabilidade.



Fig. 01

Acessibilidade


- Área Residencial compartimentada por arruamentos principais ligados à Cidade.

- Desde o início da ocupação a Área Residencial foi servida por autocarros, comboios e carros eléctricos; mais tarde estes últimos foram eliminados, mas entretanto o "Metro" foi abrindo várias estações na zona.

- Acessibilidade favorecida por percursos cómodos, cuidadosamente distribuídos, pouco numerosos e pouco extensos (grandes extensões ritmadas por pólos e acidentes de percurso positivos), sendo os principais apenas cruzados no indispensável.

- Vias de acesso local com redução da faixa de rodagem, mas sem redução de largura entre edifícios.

- Acessibilidade estruturada por células residenciais em torno de Escolas Primárias, com raio de influência máximo de 500m; dá vontade de dizer que há ainda aspectos urbanos, que, como este, são fundamentais em termos de um privilegiar, naturalmente, a “apresentação” da cidade aos mais jovens.

- Rede de veredas pedonais através de logradouros, possibilitando o “sentir” profundo do sítio que se habita.

- Impasses rodoviários, mas prolongados e inter-ligados por veredas pedonais.

- Boa parte dos Edifícios com acessos alternativos.

- Fogos com um mínimo de espaços desaproveitados, por rentabilização de Área útil e nomeadamente por ordenação das comunicações e redução de percursos no interior da Habitação.

- Na estruturação da Habitação realizou-se uma concentração de superfície livre (desimpedida após a instalação de mobiliário padrão) de modo a atingir-se cada recanto com o mínimo gasto de energia, para além de se obter um melhor ordenamento geral.



Fig. 02

Comunicabilidade


- Comunicabilidade com a cidade por 4 fronteiras bem definidas e assinaladas por pólos de comunicabilidade/acessibilidade bem identificáveis.

- Comunicabilidade com o comércio interno (vida interior do Bairro) em vias comerciais, conjugadas entre si e com o exterior, fortemente caracterizadas e agradavelmente usáveis pela pessoa a pé..

- Comunicabilidade entre ruas muito animadas e ambientalmente diferenciadas (diversos espectáculos urbanos), através de interiores de quarteirões residenciais sossegados e ao longo de impasses rodoviários inter-ligados por veredas pedonais; é a lógica pura do "caminho secreto", mas seguro, aplicada e provada na prática.

- Comunicabilidade do edifício com sua respectiva envolvente (Vizinhança Próxima/Edifício) por zonas frontais e de traseiras, adequadamente ocupadas e usáveis para actividades determinadas.

- Comunicabilidade no interior da Habitação por zona social evidenciada e central.

- Comunicabilidade entre interior da Habitação e exterior por janelas de sacada e varandas com guardas "transparentes".

Factores de caracterização e de adequação de espaços e ambientes – espaciosidade, capacidade e funcionalidade.




Fig. 03

Espaciosidade


- Basta dizer que ainda hoje a malha urbana funciona bem depois de várias adaptações viárias, aspecto este bem associável a uma adequada e equilibrada espaciosidade, que sem ser excessiva e sem quaisquer riscos de redução de uma agradável continuidade urbana, tem proporcionado profundas conversões funcionais ao nível viário, mas sem se arriscar a fundamental predominância pedonal.

- Espaciosidade perfeitamente hierarquizada, ao nível exterior, desde os largos passeios comerciais até aos estreitos passeios dos impasses residenciais contíguos a quintais privados e às largas veredas pedonais nas traseiras dos edifícios.

- Espaciosidade mínima ao nível dos espaços comuns dos edifícios habitacionais.

- Espaciosidade mínima mas bem equilibrada nas habitações, onde se destacam os quartos de casal espaçosos e quadrangulares e uma assinalável adaptabilidade dos compartimentos a diversos usos (o que implica uma espaciosidade multifuncional).




Fig. 04

Capacidade


- Em termos globais o Bairro tem cerca de 230 Ha, com uma densidade global ("bruta") de cerca de 200 habitantes/Habitação (cerca de 45000 habitantes na totalidade), alojados em edifícios uni e multifamiliares, sendo grande parte destes de baixa altura.

- Em termos gerais o Bairro tem uma evidente e forte capacidade residencial, mas nesta funde-se, com naturalidade, uma importante capacidade comercial, bem como uma significativa capacidade em termos de grandes equipamentos colectivos, e ainda uma interessante capacidade ligada à pequena indústria e ao artesanato; e tudo foi adequadamente desenhado, para além de previsto em termos globais, e, assim, por que foi bem pensado e “desenhado”, todas estas capacidades se associam fazendo cidade, e portanto, sem criar habitação “sozinha” nem funções, edifícios e espaços mutuamente desagregados; trata-se, portanto, de uma capacidade coesa e urbana.

- Em termos viários continua a funcionar com fluidez, ainda que com um número actual muito elevado de veículos (circulando e estacionando).

- Quanto à Habitação foram considerados os posicionamentos dos móveis fundamentais e integrados armários na construção, sempre que possível.




Fig. 05: Alvalade, Planta de apresentação, 1945, Arquivo Municipal de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa.


Funcionalidade


- Várias zonas bem evidenciadas e com serviços diferenciados muito próximas das habitações.

- Zonas pedonais úteis e com variadas atribuições funcionais, estrategicamente coordenadas com as zonas de veículos.

- Soluções práticas de harmonização do tráfego de veículos com o estacionamento de longa e curta duração. Naturalmente, hoje em dia há dificuldade de estacionamento, mas julga-se que um maior controlo dos veículos dos não-residentes poderá melhorar muito as condições de funcionalidade de quem reside e a agradabilidade no uso pedonal de Alvalade.

- Ao nível da Habitação há um máximo de aproveitamento da Área Útil (cozinha, sala e quartos), com um máximo de comodidade da vida doméstica, mediante características de boa afinidade geométrica e correlação entre os compartimentos do fogo.

- O reduzido número e a semelhança entre as soluções de fogo utilizadas em boa parte dos edifícios multifamiliares (12 soluções muito idênticas, entre si) permitiu a sua optimização funcional (e em termos de custos). E, no entanto, mercê de uma razoável diversificação tipológica nas “avenidas”, da introdução estratégica de “novas arquitecturas” e mesmo da variação da pormenorização das células sociais (implantação de edifícios e cuidadoso desenho das fachadas), não se sente uma repetição excessiva das soluções.

Factores de conforto espacial e ambiental – Agradabilidade, Durabilidade e Segurança



Fig. 06

Agradabilidade


- Sossego e abrigo (sombreamento, protecção eólica) das ruas e impasses residenciais; é interessante anotar que a simples possibilidade de opção entre os dois lados da mesma rua, com idênticas condições de espaciosidade e equipamento, é um excelente factor de agradabilidade no exterior público.

- O peão encontra abrigo ao longo da rua, seja por prolongamentos do edificado, seja por árvores de arruamento; e não sofre descontinuidades nesse abrigo.

- O verde urbano encontra-se agradavelmente disseminado pelo Bairro e em grande proximidade com as Habitações.

- A agradabilidade joga-se numa constante mistura de aspectos físicos e psicológicos e nesta matéria a ligação directa com a escala humana, bem marcada em entradas, passagens, perfis de ruas e formas gerais de outros espaços urbanos, é um elemento importante de expressão de abrigo e de protecção.

- Um aspecto fundamental da agradabilidade residencial é o apoio directo à movimentação e aos usos pedonais, que aqui em Alvalade é evidente nos largos passeios de calçada e nas longas continuidades de “passeio” que eles permitem.

- Habitações rectangulares proporcionando, quase sempre, luz e ventilação natural e cruzada a todos os compartimentos, sem recantos sombrios e húmidos.




Fig. 07

Durabilidade:


- Caminhos pedonais (veredas) bordejando quintais privados, assegurando-se, assim, o seu bom estado de manutenção; nos poucos casos em que estes caminhos não foram concretizados é bem evidente a deterioração do aspecto.

- Usufruto público de boa parte do "verde" privado, sem custos de manutenção pública; nas condições referidas na anterior característica.

- Edifícios não parecem exigir cuidados especiais de manutenção; e como a estrutura urbana define quarteirões, a boa aparência pública refere-se, na maioria dos casos, essencialmente, aos conjuntos de fachadas principais, constituindo ruas e impasses residenciais.

- Pequenos edifícios, pouco altos, pouco recortados, com espaços comuns reduzidos ao mínimo e com um número mínimo de vizinhos, configuram também soluções fáceis de gerir em termos de uso corrente e de acções de manutenção.

- Dá vontade de comentar que há determinados processos de construção e de acabamento que oferecem excelentes e prolongadas condições de uso sem necessidade de cuidados especiais de manutenção.




Fig. 08

Segurança


- A segurança urbana baseia-se num forte e natural controlo das actividades desenvolvidas nas ruas e interiores de quarteirão, proporcionado por uma estrutura urbana contínua, sem espaços "mortos" e com longos troços acompanhados ("vigiados") por estabelecimentos comerciais. De certa forma a referida continuidade urbana, bastante pontuada por actividades térreas (comércio e serviços) é o primeiro elemento da segurança urbana.

- Um outro aspecto fundamental na segurança que se prepara pelo desenho que se aplica a um dado tecido urbano e residencial é estruturar este tecido seja a partir de afirmados núcleos habitados, seja a partir de afirmados pólos residenciais e comerciais, num contínuo urbano profundamente marcado pelas proximidades, entre casa e rua, entre “café” e rua, entre rua animada e rua sossegada, entre transportes e espaços para andar a pé. “Fabricam-se, assim, relações urbanas mais até do que elementos físicos urbanos e ao se actuar-mos assim estamos a garantir a normalidade e agradabilidade da vida diária, que é o melhor factor de segurança.

- Um aspecto que se liga à “teia” de relações urbanas que se acabou de referir, mas que tem aspectos específicos a salientar é que a cidade não deve ter quebras nas continuidades dos seus percursos e sequências de vida, mas, pelo contrário, também não pode ser feita de um excesso de liberdade de relações e de possibilidades de percursos. Há que recintar espaços, há que definir e pontuar um conjunto limitado e cuidado de percursos e ao assim actuar evita-se uma negativa e insegura anarquia de movimentação no espaço dito urbano, pois ruas relativamente estreitas, marcadas por esquinas habitadas e quase sempre acompanhadas por janelas e montras, são garantes de segurança urbana – e evidentemente tudo isto pode ser visto em Alvalade.

- No que se refere à segurança pedonal relativamente ao tráfego automóvel, os abundantes cruzamentos e entroncamentos viários ortogonais, e o associado ritmo intenso de passadeiras pedonais, obrigam a um trânsito de veículos lento e atento. Hoje em dia percebe-se um crescendo da naturalidade na acção de se dar prioridade aos peões e assim se vai construindo uma cidade realmente mais amiga de quem anda a pé, dos seus ritmos e das suas sequências de usos funcionais e de lazer; mas uma tal naturalidade só é real em cenários urbanos como estes, em que o automobilista sabe que após uma dada passagem de peões, e a poucos metros outra passagem existe, desta forma para ele não faz sentido acelerar, mas sim continuar atento e prepara-se para parar novamente, pois está em território do peão, e ao ritmo do peão.

Factores de interacção social e de expressão individual – Convivialidade e Privacidade




Fig. 09

Convivialidade


- Cerca de 3/4 de fogos sociais e os restantes "de renda não limitada".

- Rejeição de segregações por fomento da coexistência de diferentes grupos sociais no interior de cada "célula" para cerca de 5000 habitantes.

- Manutenção de características de homogeneidade social em sub-células com cerca de 500 fogos.

- Foram aplicados diversas tipologias de “habitação social”, caracterizadas por uma ampla diversidade de número de compartimentos.

- Os fogos “não sociais” e as lojas financiaram, em parte, as “habitações sociais” e acompanham os principais eixos de tráfego e comércio do bairro.

- Simultaneidade entre conclusão de “fogos sociais”, habitações de renda livre e faixas comerciais (integradas nos edifícios residenciais com fogos de renda livre).

- Principais pontos de ligação à cidade realizados "à cabeça" (exº Praça do Arieiro, e conjunto residencial contíguo ao Campo Grande).

- Variados tipos de Transportes Públicos.

- Equipamentos e zonas para equipamentos perfeitamente integrados com a habitação e assegurando a continuidade urbana.

- Veredas pedonais contíguas a quintais privados e com excelentes relações visuais mútuas.

- Vizinhança Próxima(s) claramente configuradas e limitadas, em ruas e impasses residenciais.

- Ruas comerciais vivas, ainda em progresso, quase meio século depois de construídas, irrigando, em grande proximidade, um máximo de ruas residenciais e muito associadas a importantes eixos urbanos não excessivamente longos e pedonalmente muito agradáveis.




Fig. 10

Privacidade

- Tão importante como a vida urbana ainda hoje bem pujante nas avenidas de Alvalade, é que logo ali, atrás delas, há sossego e intimidade, seja em logradouros de condomínio, que têm diversos usos, seja em intimistas vizinhanças próximas, espaços públicos com carácter reservado e recintado, seja em muitos quintais e pátios privados.

- Desenvolve-se um apoio específico à privacidade no edifício e em casa, através da existência de pequenas jardinetas interpostas entre a rua e a fachada, e pelo abundante desenvolvimento de pequenos quintais privados. O dizer-se que muitos deles estão semi-abandonados é só uma meia-verdade, pois há que lembrar que a população está envelhecida e que mesmo assim esses espaços continuam a proporcionar uma essencial dimensão de privacidade.

- Privacidade relativa ("comum"/condominial) ao nível da Vizinhança Próxima; ruas e impasses residenciais sossegados e intimistas. Este é, provavelmente um dos grandes “pequenos” segredos de Alavalade, uma dimensão de “privacidade comum”, alargada às pequenas comunidades de vizinhos que habitam as agradáveis pracetas e impasses residenciais, que são os verdadeiros pólos de vida do Bairro.

- São importantes os contrastes fortes e próximos entre vida urbana animada e calma intimidade residencial; e sublinha-se que esta rica proximidade é muito bem tratada em termos de limiares de transição e de comunicabilidade.

- Um outro aspecto estruturador nestes elementos de privacidade é que espaços urbanos intimistas, veredas pedonais, jardinetas de transição entre passeio público e edifício e quintais privados são, todos, elementos que favorecem muito as condições de privacidade dos fogos térreos, dando-lhes também outras interessantes condições de habitabilidade (ex, relação directa com a terra e com o verde urbano); e tudo isto resulta numa forte densidade térrea habitada ou, por outras palavras, numa forte humanização do Bairro – sente-se que é um sítio habitado, quem lá passeia sente-o, mas isso passa-se sem intrusões graves na privacidade de quem habita próximo de quem passa. Este aspecto que se considera ser de grande interesse deverá merecer tratamento específico, hoje em dia, em relação com as exigências de acessibilidade.

Factores de participação, identificação e regulação – Adaptabilidade e Apropriação




Fig. 11: Exemplo dos estudos habitacionais desenvolvidos para Alvalade na Federação de Caixas de Previdência - Habitações Económicas, e apresentados pelo Arq. Miguel Jacobetty no 1.º Congresso Nacional de Arquitectura, em Maio/Junho de 1948

Adaptabilidade


- Adaptabilidade urbana extrema, tanto aos modos de vida, como à fortíssima pressão da evolução das exigências funcionais urbanas, ao longo do tempo. É interessante ponderar que a estrutura do Bairro e os seus principais elementos e troços urbanos parecem estar hoje em dia mais vivos do que nunca e muito funcionais, trata-se de uma solução ou de um conjunto de soluções que foi feito realmente para a escala temporal que uma cidade tem de ter, e uma cidade habitada. Nas suas “células sociais” os edifícios e as habitações de Alvalade já acolheram uma geração e preparam-se para acolher outra, é assim uma cidade habitada e viva.

- Adaptabilidade na Vizinhança Próxima, proporcionando a junção de garagens individuais e de equipamentos colectivos no interior dos quarteirões (exº, campo de jogos iluminado e vedado).

- Adaptabilidade ao nível da Vizinhança Próxima/Edifício permitindo desde extensões de estabelecimentos comerciais sobre os passeios contíguos, até às conversões de fogos térreos em lojas.

- Adaptabilidade das habitações, por existência de 3 categorias de espaciosidade, cada uma delas com 3 tipos gerais, conforme o número de quartos, mais algumas variantes (resultado de indecisões dos projectistas sobre quais as soluções a escolher); às várias categorias correspondem, não só, áreas diferentes, mas também diversos tipos de compartimentos (ex., escritórios e "quartos de criada").




Fig. 12

Apropriação


- Limites do Bairro suficientemente definidos e fundidos com a envolvente.

- Imagem geral forte e "una".

- Estrutura urbana clara, constituída por duas vias fundamentais, mais outras complementares e uma grelha residencial pedonal que acompanha, mas extravasa a rede para veículos; tudo isto rodeado por uma arquitectura com imagens perfeitamente integradas, mas continuamente variadas (diversidade na unidade).

- Continuidade urbana encaminhando principais percursos.

- Remates da estrutura urbana por praças e edifícios públicos assinaláveis.

- Vizinhança(s) Próxima(s) "personalizadas" em impasses, praças e pracetas residenciais equipados e marcados (exº, Torres de Relógio das Escolas).

- Quintais privados, mas com vista pública (basta ver o cuidado que é, ainda hoje (com a população muito envelhecida), investido no arranjo das sebes que delimitam os quintais.

- Floreiras integradas nos edifícios.

- Portas principais dos edifícios, sempre, evidenciadas e tratadas com especial atenção (mesmo nos casos de edifícios mais modestos).

- Elementos artísticos marcando algumas entradas e outras partes de edifícios.

Factores de aspecto e coerência espacial e ambiental – Atractividade, Domesticidade e Integração



Fig. 13

Atractividade

- Como comentário global e fundamental há que sublinhar que o que atrai em Alvalade não é tanto um dado edifício ou tipo de edifício, mas sim o “corpo” do Bairro, a forma como ele nos acolhe e se deixa percorrer e nos vai “divertindo” com o que nos mostra e nos dá; e neste corpo de Bairro há depois conjuntos de edifícios, espaços e verde urbano que também nos atraem, uns mais por certas razões e outros mais por outras, e até uns mais a umas horas e outros mais a outras. E também há, sem dúvida, edifícios e espaços que marcam, edifícios e espaços distintos e estruturantes. Mas o que mais atrai em Alvalade é, talvez, a pequena e coesa cidade que é Alvalade. Em seguida e com alguma informalidade apontam-se alguns aspectos mais particulares da atractividade de Alvalade.

- Soluções arquitectónicas muito dignas, simples e sóbrias.

- Doze tipos de edifícios com elementos de composição diferentes mas unificados, em termos de alturas e linguagens formais.

- Por vezes edifícios semelhantes, mas com pormenorizações diferenciadas.

- Uma agradável “convivência” de escalas e de texturas entre edifícios e verde urbano.

- Coexistência de edifícios uni e multifamiliares.

- Edifícios com distinção forte entre frente e traseiras.

- Edifícios com remates ao solo e superiores bem marcados.

- Edifícios com acessos claramente evidenciados.

- Faixas de lojas marcando os pisos térreos.



Fig. 14

Domesticidade


- Vizinhança(s) Próxima(s) com escala humana, baixa, protegida e sossegada.

- Ruas comerciais largas, mas com escala humana marcada por faixas de lojas, socos e entradas marcadas e protectoras.

- Continuidade urbana protectora.

- Dominância de edifícios baixos; edifícios altos marcando zonas mais animadas ou de relação com o exterior do bairro.

- Chaminés acentuadas, vãos habitacionais muito tratados, coberturas em telhado evidenciadas, fachadas bem rematadas.

- Tons de cor naturais ou quentes.

- Presença protagonista das árvores de arruamento, criando verdadeiros "tectos" rebaixadores da escala urbana e amenizadores das zonas construídas.



Fig. 15

Integração

- Integração forte, do conjunto do Bairro na cidade.

- Integração forte, das diversas Células residenciais no conjunto do Bairro.

- Zonas comerciais constituindo como que a "espinha dorsal" estruturadora do Bairro e em total integração com a habitação; proporcionando zonas de comércio com características diversificadas e complementares em condições de grande proximidade mútua.

- Zonas industriais/artesanais em articulação cuidadosa com as zonas residenciais, mas totalmente integradas no conjunto do Bairro.

- Integração do peão e do veículo, gerais e seguras, dominando o peão, tanto porque são muito numerosas as passadeiras de atravessamento de vias para veículos, como porque existem troços pedonais complementares e em grande conjugação com o restante sistema de percursos; e no entanto o tráfego de veículos é habitualmente fluído.

- Integração dos grandes equipamentos na continuidade urbana "normal" do Bairro, sem quaisquer descontinuidades.

- Integração dos principais pólos urbanos, evidenciados ainda mais, porque basicamente integrados.

- Integração do verde urbano (essencialmente protagonizado pelas árvores de arruamento), na continuidade ambiental do Bairro, onde se pode dizer que não existe um Parque ou um grande Jardim, nem se sente essa falta; há um parque recentemente melhorado, mas que é bastante periférico.

Breves notas conclusivas sobre a qualidade em Alvalade

Este artigo integra uma análise que foi feita para exemplificar um estudo feito e editado no LNEC, há poucos anos, sobre o que se pode entender pela qualificação arquitectónica residencial. No entanto e tal como sempre acontece, quando se mexe em “velhos” textos, aliás em parte não publicados, o resultado foi uma releitura e uma reinterpretação, menos dos textos em si, e muito mais do seu objecto, que era e é a análise da grande qualidade residencial e urbana bem evidente na malha de Alvalade em Lisboa. No entanto o resultado não quis ser uma alteração radical do trabalho então feito, mas sim um seu complemento relativamente informal e, quem sabe, daqui a mais alguns anos haja lugar a uma outra reinterpretação e a um outro complemento.

No entanto não seria possível deixar de salientar aqui que se julga de enorme importância, hoje em dia, este tipo de análises comentadas da qualidade arquitectónica residencial. Não é mais possível deixarmos que as nossas cidades e os nossos bairros continuem a crescer sem qualidade arquitectónica. Como inverter a tendência? Não sei, em pormenor! Mas é essencial que tudo seja feito, com o máximo cuidado, mas muito urgentemente com o objectivo de se impossibilitar ou de dificultar, ao máximo, que novas partes de cidade surjam sem qualidade de desenho e de uso. Para tal é muito urgente e necessário que a arquitectura seja feita por arquitectos, mas tal condição não chega para o referido objectivo; há que exigir, também aos arquitectos, que a qualidade da sua arquitectura tenha verdadeira valia urbana e humana, há que exigir uma verdadeira qualidade de desenho pois queremos voltar a fazer cidade culturalmente fundamentada, humanizada e atraente, uma cidade que nos orgulhe e onde gostemos realmente de viver e conviver.



Fig. 16

Alvalade, em Lisboa, como outros bairros e partes de cidade em Lisboa e em outras cidades de Portugal tem essa qualidade e por isso vale a pena falar e voltar a falar dos “mistérios” de Alvalade e dos “mistérios” dessas outras boas práticas de arquitectura residencial e urbana; não para voltar atrás no tempo, mas para lembrar que há processos colectivos de assegurar essa qualidade arquitectónica residencial e urbana, e se os há, eles são o exemplo vivo do que, como cidadãos, temos de exigir ao perfil qualitativo da nova cidade e da cidade que hoje se renova.

Com este artigo pretende-se contribuir para o conhecimento desse fundamental perfil qualitativo, nos seus diversos aspectos urbanos, habitacionais e sociais, desenvolvendo-se, assim, no Infohabitar, uma linha editorial de sistemática divulgação técnica das melhores práticas urbanas e habitacionais. E é bem provável que daqui a algum tempo aqui se reincida numa abordagem, então, provavelmente, mais “fina” e/ou mais específica dos excelentes “mistérios” deste e de outros conjuntos urbanos e habitacionais que honram, realmente, os seus habitantes e as suas cidades.