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domingo, dezembro 09, 2012

419 - Arquitectura da paisagem e imagens do final de Outono (artigo Infohabitar); novidades do 2.º CIHEL - Infohabitar 419

Infohabitar, Ano VIII, n.º 419



Sobre o 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono

Tema: "Habitação, Cidade, Território e Desenvolvimento", no âmbito da lusofonia: 2.º CIHEL, LNEC, Lisboa, 13 a 15 de março de 2013 - http://2cihel.lnec.pt/2cihel.html

Nota ao leitor: um pouco mais abaixo, no Artigo n.º 418, encontrará um texto ilustrado e desenvolvido sobre a temática do Congresso e as condições do Centro de Congressos do LNEC

Tema e objectivo principal: O 2.º CIHEL irá tratar a temática da “Habitação, Cidade, Território e Desenvolvimento”, e visar a fundação de um fórum socio-técnico de caráter transnacional falado em português, dirigido para a construção de laços fortes e duráveis de cooperação técnica e económica na referida grande área temática.

Conclui-se esta breve síntese salientando que são agora importantes todos os apoios organizativos ao 2.º CIHEL cujas modalidades poderão ser consideradas em pormenor, como, por exemplo, inscrições no congresso, documentação e divulgação associada ao congresso e participação na referida exposição - aspetos estes facilmente tratados através da inscrição no Congresso, facilmente realizada no site - http://2cihel.lnec.pt/2cihel.html - ou através de um contato com a respetiva organização, em organizacao2cihel@lnec.pt.

Como importantes novidades a salientar há que fazer uma referência especial para o apoio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) ao Congresso, que será presidido pelo respetivo Secretário Executivo.

O Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa (CIALP) também já integrou o 2.º CIHEL e haverá, em breve, notícias relativas a novas e importantes parcerias na área da construção, da sustentabilidade ambiental e da tecnologia, desenvolvidas com entidades académicas.

Salienta-se ainda que a Ordem dos Arquitectos (OA), no âmbito do seu Conselho Regional de Admissão Sul, decidiu que a participação no 2.º CIHEL e no seu Workshop prévio contarão para a formação obrigatória em temáticas opcionais dos estágios de ingresso na O.A. e com um nº significativo de créditos (8 créditos); esta última matéria será em breve objeto de maior divulgação no Infohabitar e no site do Congresso, mas sublinha-se que as respetivas condições de inscrição (175 € incluindo IVA) são idênticas e pouco superiores às já existentes para as inscrições de estudantes no Congresso.

Já na semana que vem termos mais novidades e iremos iniciar uma maior divulgação das temáticas previstas e já entregues para apresentação no Congresso; deram já entrada mais de 120 comunicações completas.

Artigo Infohabitar semanal

Arquitectura da paisagem e imagens do final de Outono

António Baptista Coelho


Fig. 1

“É fundamental, para fazer mexer a cidade, que nos instrumentos de planificação e de planeamento estratégico quer de escala menor, se inclua a noção de paisagem, que é cada vez mais importante... o arquitecto deveria ter na sua formação esta percepção, porque a paisagem é cada vez mais uma questão de arquitectura e uma questão de cidade. A noção de paisagem urbana é fundamental.”
Gonçalo Byrne (2004) (1)

Após esta citação que conclui com um treferência à paisagem urbana, e considerando-a numa perspectiva acertadamente ampla, associam-se neste artigo alguns textos retirados do estudo intitulado "Habitação Humanizada", editado pela Livraria do LNEC em 2007/2008, que acompanham um conjunto de imagens recolhidas num final de Outono em Olivais Norte e no jardim da Alameda Central da Encarnação em Lisboa.

Fig. 2

A ideia deste artigo é salientar a importância da paisagem natural no espaço urbano e designadamente o espetáculo sempre mutante e sempre diverso e estimulante das estações, do seu próprio reflexo na natureza e do próprio tempo atmosférico como elementos que são, sempre, de grande atratividade, designadamente, quando se desenvolve uma verdadeira “arte do lugar”; e a arte do lugar ganha-se em Arquitecturas de bons autores, concretizadas por exemplo, em pequenas ruas, troços de rua e em edifícios com uma arquitectura sólida, sóbria, radicada e atraente, como as imagens ilustram, ao percorrerem, num final de Outono e, vboa parte delas, numa manhã de nevoeiro, algumas das tervenções bem desenhadas de exteriores e de edifícios (de habitação de interesse social) em Olivais Norte/Encarnação, Lisboa (realizados cerca de 1960).


Fig. 3

Salienta-se, assim, direta e indiretamente, o interesse de uma perspectiva de intervenção urbanística ecológica e humana ampla, que considere e articule a actual grande importância que tem – e deve recuperar – o lugar, como sítio “único”, com identidade específica, e a também actual grande importância da protecção e do protagonismo da natureza e do verde urbano. Matérias que, provavelmente, nunca tiveram a oportunidade que hoje têm neste século das cidades e das megacidades.
Estas matérias devem, naturalmente, muito a Christian Norberg-Schulz, e por isso se lembra aqui um dos seus fundamentais conceitos (1968): “No passado os bandidos viviam fora das muralhas, hoje estão dentro. A cidade respira brutalidade e sentimos o desejo de fugir-lhe para encontrar a paz. Por isso procuramos proteger e conservar a natureza;... com o passar do tempo não poderemos fugir mais; o arquitecto moderno deve contribuir para sanar esta situação, criando um novo ordenamento e uma nova e significativa unidade entre a paisagem e a obra do homem.” (2)

Trata-se assim de reconcilar a paisagem e a obra do homem, e a cidade com a paisagem feita pelo homem, objectivo este muito importante para a cidade de hoje e crucial para a grande cidade de hoje e, afinal, tal como disse Maria Celeste Ramos, no âmbito dos trabalhos do Júri do Prémio INH 2006, “a árvore acrescenta beleza e não a tira”, e a beleza e a “frescura” do verde urbano são altamente necessárias na cidade de hoje.


Fig. 4

O arquitecto moderno deve, assim, “contribuir para um novo ordenamento e uma nova e significativa unidade entre a paisagem e a obra do homem”, palavras sábias e antecipadoras de Norberg-Schulz, já em 1968, numa altura em que as novas grande cidades mundiais estavam, ainda, em início de “explosão”, e palavras que se julga poderem ser bem complementadas e reequacionadas, na actualidade e numa perspectiva prática e de capacidade de aplicação, que é a privilegiada neste trabalho, por uma opinião de Sidónio Pardal (2003): “No domínio do desenho urbano tudo depende do mérito do urbanista, da sua capacidade de conceber e projectar os espaços urbanos e também as paisagens agro-silvo-pastoris que constituem um desafio da maior relevância que tem sido desprezado. A educação nestes domínios deve alicerçar-se sobre os padrões de casos exemplares, o conhecimento científico, a erudição das artes e suas obras de referência, a memória histórica e o convívio com a tradição.”(3)


Fig. 5

Sobre o verde urbano importa ter presente que ele ajuda a uniformizar alguns aspectos de uma paisagem comum, concretizando envolventes acolhedoras e representativas da diversidade da natureza e do próprio mundo; e para além deste aspecto suavizador e humanizador o verde urbano também é habitualmente associado ao lazer, situação/solução que é também muito útil na suavização dos múltiplos aspectos menos humanos da sociedade actual.


Fig. 6

Provavelmente a identidade fortíssima que caracteriza cada elemento natural como único (presença marcante de uma natureza rica e sempre diferente e renovada) e, paralelamente, o agradável contraste entre esse elemento natural, ali humanizado, e a racionalidade da edificação citadina (por exemplo: fila de árvores ao longo das ruas, trepadeira sobre muro, vasos de plantas em janelas, etc.), produzem efeitos finais que muito contribuem para dar sentido e carácter aos lugares, verdadeiramente humanizando-os, ao mesmo tempo que se contribui para condições de estímulo e surpresa nos percursos e na paisagem urbana.

E para que não haja dúvidas, sublinha-se que não se está aqui a fazer uma qualquer defesa “cega” do chamado “verde urbano”, mas sim uma defesa, muito forte, de um urbanismo feito considerando a grande importância que tem, realmente, a cidade bem integrada no meio natural e os elementos da natureza bem integrados na cidade, que, desta forma, para além de ganhar em conforto, assim se humaniza e caracteriza.



Fig. 7

E de certa forma e se atentarmos nas imagens que acompanham este texto, a qualidade de uma dada intervenção paisagística proporciona-nos uma intensificação da forma como sentimos a natureza, o que é extremamente interessante para todos e designadamente para pessoas que vivam muito a cidade.

E assim se considera o verde urbano concebido por uma Arquitectura Paisagista bem qualificada uma ferramenta cuja importância em termos de caracterização e de humanização da paisagem urbana continua a ser descurada, ainda que, felizmente, exemplos históricos e alguns, talvez poucos, novos exemplos demonstrem a potência arquitectónica real que pode ter, por exemplo, uma árvore de arruamento, um alinhamento arbóreo, uma composição de árvores e de edifícios, um caminho pedonal que passa quase sob um maciço arbóreo e um muro ou uma fachada cobertos por uma trepadeira.



Fig. 8

Mas atenção, para se fazer isto bem, com respeito pela cultura que é a nossa e pelo sítio em que se actua, é necessário saber fazer arquitectura da edificação e da paisagem de uma forma simples, mas realmente sabedora, sem apêndices inúteis e sem excessos de conteúdo; com uma pormenorização muito rica, mas depurada e cuidadosa; afinal uma boa Arquitectura, tal com a dos edifícios, mas com as suas próprias regras, ferramentas e partes de técnica e de criatividade; uma matéria muito mais séria do que a de fazer simples e até dignos "espaços ajardinados".

E nestas matérias não se pode deixar de apontar, quer a necessidade desse aprofundamento de uma essencial criatividade na paisagem natural feita pelo homem, quer a igual necessidade de sobriedade e de radicação cultural, quer finalmente, a crítica necessidade de uma manutenção posterior dos espaços de jardim, que lhes respeite e desenvolva, cuidadosa e sensivelmente, formas, ambientes e pormenores e que não abastarde e, até, por vezes, destrua, essas mesmas formas e esses mesmos ambientes, tão criativamente criados por vezes há dezenas de anos e tão cuidadosamente desenvolvidos ao longo dessas dezenas de anos; e esta é uma matéria que deveria merecer o cuidado específico de técnicos, cidadãos e autarquias, não se deixando cometer verdadeiras barbaridades em nome de técnicas de jardinagem ditas normais e necessárias, e a culpa não é de quem maneja a radical serra mecânica, mas sim de quem não controla adequadamente estes trabalhadores.



Fig. 9

Apenas como breves notas finais de reflexão sobre o tema da Arquitectura da Paisagem podemos sublinhar: (i) que a arquitectura da paisagem tem uma importância essencial, que é frequente e diversamente referida por projectistas, como ligada ao carácter/identidade dos sítios, e lembremos que Christian Norberg-Schulz defende que a caracterização é a verdadeira matéria da arquitectura; (ii) que a arquitectura da paisagem tem, naturalmente, uma importante perspectiva ecológica, ambiental e paisagística, que é e que será, cada vez mais, verdadeiramente determinante no projecto urbano e residencial; (iii) e por fim podemos ainda sublinhar que a arquitectura da paisagem tem também uma efectiva e variada importância porque proporciona o contacto frequente com a natureza, seja no dia-a-dia, seja em situações potencialmente agrestes que caracterizam a vida urbana actual.

Afinal a paisagem é cada vez mais uma questão de arquitectura e uma questão de cidade.

Notas:

(1) Inês Moreira dos Santos e Rui Barreiros Duarte (entrevistadores), “Estruturas de mudança - entrevista com Gonçalo Byrne”, Arquitectura e Vida, n.º 49, 2004, p. 51.
(2) Christian Norberg-Schulz, “A paisagem e a obra do homem”, Arquitectura, n.º 102, 1968, pp.52-58.
(3) Rui Barreiros Duarte (entrevistador), “Por um urbanismo de princípios – entrevista com Sidónio Pardal”, Arquitectura e Vida, n.º 43, 2003, pp.40-47.

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar


Infohabitar, Ano VIII, n.º 419

Arquitectura da paisagem e imagens do final de Outono (artigo Infohabitar); novidades do 2.º CIHEL

Editor: António Baptista Coelho

Edição de José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte







quarta-feira, setembro 12, 2012

407 - A natureza num jogo urbano humanizado (artigo); e notícias do 2.º CIHEL - Infohabitar 407


Infohabitar Ano VIII, N.º 407

Notícias do 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono – 2.º CIHEL - http://2cihel.lnec.pt/2cihel.html

Esta pequena notícia marca o final da informação aos autores relativamente à submissão de artigos ao 2.º CIHEL; todas as respostas já seguiram endereçadas aos e-mails remetentes dos respectivos resumos de artigos.

O próximo prazo corresponde à entrega das comunicações completas e elementos complementares e é 22 de Outubro de 2012.

Agradece-se a contribuição já proporcionada e solicita-se o máximo respeito deste prazo e das indicações/instruções enviadas integradas no template que acompanhou a apreciação das comunicações.

Salienta-se que, em breve, serão abertas as inscrições no Congresso, e devidamente divulgadas: seja pelo site do Congresso; seja aqui no Infohabitar; seja por e-mails aos autores de comunicações e aos muitos outros potenciais interessados em participar nos trabalhos.

Aproxima-se, assim, a data de envio das comunicações completas, EXCLUSIVAMENTE, para o seguinte endereço eletrónico, Email: comunicacoes2cihel@lnec.pt
Próximas datas a reter:
  • Abertura das inscrições no Congresso: a divulgar brevemente.
  • Inscrição dos comunicantes, e envio do texto das comunicações e dos dados complementares até 22 de outubro de 2012.
  • Eventual solicitação de revisões de algumas comunicações até 30 novembro de 2012.
  • Entrega da revisão final (quando aplicável): até 15 dezembro de 2012.

ARTIGO DA SEMANA - ARTIGO DA SEMANA - ARTIGO DA SEMANA
Na presente edição do Infohabitar continua-se a publicação corrente da série habitar e viver melhor; com o artigo n.º XVIII desta série, intitulado:
A NATUREZA NUM JOGO URBANO HUMANIZADO
António Baptista Coelho

Sidónio Pardal escreveu que "a vegetação é elemento amenizador do meio urbano, unificador, suporte de continuidades"; e a presença ou a ausência evidenciadas de "verde urbano" são situações que caracterizam verdadeiramente os lugares.

Há, assim portanto duas facetas fundamentais na integração do verde urbano, uma delas directamente associada a uma melhoria das condições de conforto ambiental no exterior e nos próprios edifícios, e uma outra faceta mais de desenho ou concepção e que tem a ver com opções de projecto.


Fig. 01

Realmente o verde urbano é fundamental e incontornável numa perspectiva de amenização do meio urbano, de melhoria das condições de conforto ambiental na cidade (temperatura, humidade) e é responsável por uma significativa parcela da fixação do CO2 – Al Gore, no âmbito do seu filme, recentemente exibido, “An Inconvenient Truth”, refere que uma árvore consome, em média, ao longo da sua vida, uma tonelada de CO2; e só não se entende é a razão de não haver uma política sistemática de plantação de árvores nos espaços urbanos, pois para além do referido é impressionante o conjunto das suas vantagens, tal como fica evidente com a longa citação de um exemplar documento da London Tree Officers Association (LTOA), cujo site se recomenda (http://www.ltoa.org.uk/ ).

Apontam-se, assim, em seguida, as múltiplas vantagens da introdução de árvores na cidade (entre aspas citações da LTOA).

Nas áreas da saúde e do bem-estar: as árvores reduzem o risco de cancro na pele através do sombreamento; “os níveis de stress e de doença são, frequentemente, mais baixos na presença de árvores”; “as árvores contribuem para níveis reduzidos de ruído e de poeiras”; e “à medida que as árvores se desenvolvem e envelhecem elas proporcionam carácter e sentido de lugar e de permanência, enquanto libertam cheiros e aromas que provocam uma resposta emocional positiva”.

Em termos de influência no clima local: “as árvores, para além de absorverem dióxido de carbono (o principal gás gerador do efeito de estufa), e de produzirem oxigénio, filtram, absorvem e reduzem os gases poluidores” (alguns deles produzidos pelos veículos), “incluindo o ozono, dióxido de enxofre, monóxido de carbono e dióxido de nitrogénio”; “suavizam, localmente, picos extremos de temperaturas, refrescando no Verão e aquecendo no Inverno”; “árvores com copas grandes e de grandes folhas acolhem a chuva, amortecendo a progressão da água entre o céu e o solo, ajudando a reduzir o risco de enxurradas”.

Em termos aspectos sociais e ambientais: as árvores constituem “pontos focais comunitários que incluam árvores proporcionam amenidade, valia estética e continuidade histórica”; “as árvores proporcionam … um apreciável acréscimo de amenidades às famílias e às comunidades”; “as árvores marcam a mudança das estações do ano com alterações nas folhas e mudanças na floração” – e é fundamental que o ciclo das estações seja sentido por todos e especialmente pelos urbanitas - ; “As árvores oferecem habitats para um amplo leque de espécies de vida bravia ao longo de todo o ano” – as árvores são, assim, elementos fundamentais no apoio à biodiversidade, com uma utilidade que alia aspectos intrínsecos de manutenção das espécies, com aspectos igualmente importantes de espectáculo biológico oferecido aos urbanitas.

E no que se refere a vantagens económicas: “a presença de árvores pode fazer aumentar o valor de propriedades residenciais e comerciais entre 5% e 18%, enquanto o valor do terreno não infraestruturado, que integre árvores adultas, pode aumentar até cerca de 27%” (valores londrinos); “quando as árvores são plantadas estrategicamente podem reduzir emissões de combustível fóssil, através da redução dos custos de combustível para aquecimento e arrefecimento dos edifícios”; “as árvores proporcionam a criação de emprego nos mais variados ramos de actividade (ex., jardinagem)”; “as árvores proporcionam uma fonte sustentada de “composto”, feito de folhas, assim como biocombustível produzido de aparas de madeira”.

E como importante suplemento a todas estas vantagens regista-se que o verde urbano tem uma importância tão vital como impossível de quantificar, pois, como nos diz Daniel Filipe, se refere a uma fundamental dimensão afectiva: o jardim “é um pequeno mundo a três dimensões sentimentais.” (1)

A pergunta que aqui se deixa é que se está provado o tão grande interesse da arborização urbana não se entende a razão de uma tal medida não avançar e com carácter de urgência. E, provavelmente, a melhor resposta nesta matéria estará na aplicação de espécies arbóreas muito duradouras, pouco exigentes em manutenção e que suportem bem a poluição urbana, aliás, como tem sido feito, nos últimos anos, em grandes cidades nipónicas e norte-americanas.

Na temática de um habitar gerador de satisfação e agrado, o verde urbano pode ser elemento fulcral. Julga-se que isto terá ficado bem justificado com as longas citações da LTOA, e fica, também, evidenciado em frequentes acções de reabilitação urbana e habitacional em que ao nível citadino a acção preponderante corresponde a uma profunda renaturalização da zona intervencionada; e estes casos, que foram frequentes em França, são, frequentemente, designados de acções de “residencialização”, o que faz pensar: Naturalizar para residencializar, não é?

  

Fig. 02

Considerando que os benefícios ambientais do verde urbano ficaram aqui já razoavelmente apontados, circunscrevemo-nos, agora, às matérias da contribuição do verde urbano para as questões de desenho e a propósito lembra-se uma frase de Purini:"O jardim é um tema censurado, e por muitas razões, pela moderna cultura arquitectónica,... lugar do imprevisível, do fantástico, do mistério, o jardim representa a instabilidade e a contínua metamorfose do mundo (2)..."

Uma ideia que é reforçada pela seguinte afirmação de Sidónio Pardal e Costa Lobo:"As alamedas, os passeios arborizados, os jardins e os parques, enquanto espaços arquitectónicos, trazem uma carga simbólica do «natural» para o espaço construído" (3).

E os mesmos autores (4) apontam que, os jardins urbanos começaram por ser espaços de encontro social e elementos representativos da cidade, mas hoje em dia eles respondem também a outras necessidades, entre as quais se destaca o contacto com a natureza, que é proporcionado a citadinos bem enraizados e habitando edifícios em altura (que são reinos de interioridade); e numa tal perspectiva os jardins de hoje têm de suprir ou compensar essa crítica ausência da natureza no meio urbano, chegando-se ao habitar e podendo associar, estrategicamente, valências ambientais específicas de sossego e quietude, pois "as alamedas, os passeios arborizados, os jardins e os parques, enquanto espaços arquitectónicos, trazem uma carga simbólica do «natural» para o espaço construído".(5)

Tudo isto se liga a uma matéria de estruturação urbana de pequena escala, ou de pormenor, que tem muito a ver com os jogos urbanos e de entradas de habitações. Realmente quando nos aproximamos de casa, quando saímos de casa e quando circulamos perto da nossa habitação, estamos naturalmente mais predispostos para apreciar o pormenor e a razão de ser desse pormenor, e nesta perspectiva a razão de ser de muitos elementos do verde urbano ficará bem evidenciada, designadamente, em termos de interesse e diversidade visual, afectividade em relação a elementos naturais, suporte de uma estimulante biodiversidade, relação com o equilíbrio ambiental, acção em termos de filtro da poluição atmosférica e acústica e protagonismo efectivo na suavização e na integração dos edifícios e outros elementos construídos.


Fig. 03

Se aliarmos a todo este potencial, uma outra fundamental perspectiva, que vê o verde urbano a partir do interior de cada habitação, poderemos ainda juntar a esses aspectos, outros ligados à melhoria da privacidade do interior doméstico e ao importante exercício da apropriação e da identidade de cada pátio ou quintal privados, mas também de cada terraço, de cada varanda e, mesmo, naturalmente, de cada vão de janela ou de porta; assim tais apropriações sejam facilitadas pela concepção de Arquitectura.

E nesta estreita, e por vezes íntima, relação entre verde e edifício, não podemos deixar de voltar a sublinhar o papel da natureza na amenização ambiental dos espaços interiores que lhe são contíguos; e ninguém tem dúvida que, por exemplo, a significativa redução de temperatura que caracteriza os espaços sombreados pelas árvores é uma benesse que vai poder ser aproveitada pelos quartos e outros compartimentos contíguos, bastando, quase sempre, um simples abrir de janela.

A ideia que fica, para já, pois a estas matérias voltaremos, noutras perspectivas, nesta série editorial, é que para um agradável jogo urbano do pormenor é fundamental a participação, extremamente diversificada, das relações com a natureza e, especificamente, dos variadíssimos elementos de verde urbano; naturalmente que nestas matérias as árvores são verdadeiros protagonistas, pela sua escala e pelo seu potencial como verdadeiros jardins verticais, mas há uma riquíssima disponibilidade de soluções, opções e elementos capazes de participar, muito activamente, na criação de uma habitação mais agradável e estimulante, porque amenizada pela natureza, habitada pela natureza e por ela humanamente caracterizada.


Fig. 04

E fiquemos com uma imagem escrita: "Além dos parques, são de extrema utilidade as pequenas jardinetas, refúgios de tranquilidade e de convívio espalhados pela cidade; mas melhor ainda é os edifícios no meio do verde (6)..."; e assim rematamos este tema com uma estratégica nostalgia de um verdadeiro racionalismo, aliás numa perspectiva em parte recuperada com as actuais preocupações de sustentabilidade ambiental.

Notas:

(1) Daniel Filipe, “Discurso sobre a cidade”, Lisboa, Editorial Presença, Colecção Forma n.º 8, 1977, p. 77 (1ªed. 1956).
(2) Franco Purini, "La Arquitectura Didactica", p. 231.
(3) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol. II", p. 113.
(4) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol. II", p. 117.
(5) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol. II", p. 113.
(6) Francisco Keil Amaral, "Lisboa uma Cidade em Transformação", p. 57.


Notas editoriais:

 (i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.

 (ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.

 (iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Infohabitar, Ano VIII, n.º 407

Editor: António Baptista Coelho

Edição de José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte