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terça-feira, janeiro 19, 2021

Sobre a oferta de diversas propostas organizativas para as zonas domésticas – Infohabitar # 761

Importante: ligação direta (clicar) para:  760 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada em janeiro de 2021- 38 temas e mais de 100 autores

 

Infohabitar, Ano XVII, n.º 761

Edição: terça-feira, 19 de janeiro de 2021

 

 Caros leitores da Infohabitar,

A viagem pelos espaços do habitar e designadamente pelos espaços domésticos continua e continuará a ser feita na Infohabitar, integrando uma série editorial já com assinalável extensão na nossa revista.

Avisam-se, no entanto, os leitores que a edição desta série irá, provavelmente, ser interrompida durante algumas semanas, pois está, atualmente, em preparação uma nova série editorial muito focada nos aspetos mais desejáveis a desenvolver, especificamente, na promoção de habitação de interesse social .

Lembra-se, novamente, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com , ao meu cuidado).

Considerando a atual e muito crítica evolução da pandemia, sublinha-se a vital importância do máximo confinamento e do distanciamento social, conseguidos, designadamente, através do teletrabalho, bem como do respeito por todas as medidas de higiene e proteção amplamente divulgadas.

Não tenhamos dúvida de que boa parte do combate ao vírus passa pelos nossos esforços sistemáticos, pessoais e familiares, que terão de se enraizar nos nossos hábitos diários, mesmo quando temos já entre nós as vacinas, mas quando simultaneamente a pandemia está numa fase muito dura.

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de boa saúde para todos os caros leitores e seus familiares,    

 

Lisboa, Encarnação, em 18 de janeiro de 2021

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Sobre a oferta de diversas propostas organizativas para as zonas domésticas – Infohabitar # 761

António Baptista Coelho

(texto e imagem)

Resumo

No artigo desenvolve-se uma reflexão, de certa forma, introdutória sobre o interesse da exploração e do subsequente aprofundamento de uma razoável variedade de propostas organizativas para as zonas e subzonas  da habitação, numa perspetiva que encara criticamente uma, ainda preponderante, preocupação essencialmente funcional, e que visa a melhor adequação a necessidades e desejos habitacionais específicos num quadro de expressiva qualidade arquitectónica.


Sobre a oferta de diversas propostas organizativas para as zonas domésticas – Infohabitar # 761

1. Para lá das principais propostas domésticas organizativas e funcionalistas

Provavelmente, há alguns anos, esta temática, associada globalmente aos aspetos de organização funcional doméstica, seria das mais importantes em termos de um apoio prático ao desenvolvimento de melhores soluções habitacionais.

Tratava-se, então, afinal, de um relativo culminar de toda uma tradição de uma aplicação prática e afinada ao longo de decénios, de zonamentos funcionais ou funcionalistas, zonamentos estes que, infelizmente, ajudaram a destruir bairros de cidades e a uniformizar a globalidade dos “novos” espaços domésticos no sentido do serviço a uma pessoa “média” e a uma família “média”; provavelmente a tal que deseja a habitação do “Tipo 3” (com 3 quratos “de dormir”, o conhecido T3), mas que acaba por se contentar com uma habitação do Tipo 2, incluindo uma pequena cozinha, quartos dimensionados para “mobílias completas”, mas mínimas, e uma “sala-comum” – teoricamente integrando funções de estar e de refeições formais – mas onde, freqientemente, quase nem há espaço para encaixar um catálogo mínimo de mobiliário, quanto mais para aceitar toda uma vida doméstica que aí se deveria poder concentrar de uma forma, pelo menos, minimamente adequada a todos os respetivos intervenientes.

A culpa não foi apenas de quem promoveu estes espaços, mas também do encarar , frequentemente, a regulamentação mínima como regulamentação básica e corrente, e de um frequente manejar de tais mínimos regulamentares espaciais e funcionais por projetistas com reduzida capacidade para ultrapassar tais condições mínimas através de excelentes projetos de Arquitetura habitacional.

2. Notas sobre a importância de uma “regulamentação” essencial

Em primeiro lugar há que justificar o apontar, no título deste item, de regulamentação entre aspas, pois com esta designaçãoo pretende-se incluir não só a clássica prática regulamentar, mas também práticas recomendativas e de projeto e apreciação habitacional, privilegiando-se, aqui, naturalmente, a habitação de interesse social, por ser a mais condicionada e obrigar à aplicação de financiamentos públicos.

Nas áreas habitacionais, tal como em muitas outras áreas temáticas, há, evidentemente, matérias que têm de ser rigorosamente regulamentadas, destacando-se, evidentemente, os aspetos ligados à segurança e nestes, sublinhando-se, os associados à segurança no uso corrente da habitação, e tendo-se em conta, especificamente, o uso por pessoas com diversos condicionamentos – etários, de mobilidade, de perceção, em termos de hábitos socioculturais, etc.

E estes aspetos de segurança no uso normal deverão abranger cuidados de segurança em termos de saúde e bem-estar físico e psicológico; matérias estas de elevada exigência, complexidade e diversidade temática – integrando, designadamente, desde as conhecidas mas ainda pouco respeitadas exigências de múltiplo conforto ambiental, às matérias vitais da qualidade do ar, da ausência de produtos nocivos para a saúde, de redução de acidentes domésticos, e da vital ligação com as exigências de sustentabilidade ambiental.

Mas as preocupações regulamentares ainda atualmente mais praticadas são as “simplesmente dimensionais”, ainda por cima mal associadas a áreas mínimas consideradas como áreas a aplicar (tal como acima se referiu), pouco ou nada articuladas com as essenciais dimensões mais versáteis em termos de habitabilidade, que não são, evidentemente, as “mínimas regulamentares” e, muitas vezes, criticamente associadas a organizações funcionais domésticas rigidamente “monofuncionalistas”, criticamente hierarquizadas e, portanto, muito pouco adaptáveis a diversas necessidades domésticas e muito menos a diversos modos e desejo de habitar a casa de cada um e de cada agregado familiar.

Acresce, ainda, a esta situação a realidade de quanto menores as áreas disponíveis maior a complexidade projetual, evidentemente, no sentido de se obter uma adequadamente versátil solução doméstica; uma situação que deveria obrigar a elevadas exigências na escolha dos projetistas de habitação de interesse social, e que deveria passar por um exigente e amplo crivo de apreciação dos respetivos projetos, numa análise muito mais elaborada e qualificada do que a que é simplesmente baseada nos referidos critérios de áreas mínimas/razoáveis e de mais alguns aspetos já constantes de alguns corpos recomendativos, como é o caso das Recomendações Técnicas para Habitação Social (RTHS), que marcaram a sua época e tiveram excelente influência na melhoria da qualidade da Habitação de Interesse Social.

Parece haver, portanto, aqui uma quádrupla frente de intervenção:

·      na melhoria regulamentar do que é essencial, designadamente, em termos de ampla segurança no uso corrente;

·      de melhoria recomendativa em termos de um habitar mais versátil, mais adaptável e mais apropriável;

·      de um privilegiar de projetos com assinalável qualidade arquitectónica – incluindo variadas facetas, entre as quais a da racionalidade construtiva e económica e a da adequada e valorizadora integração local –, designadamente, quando estejam “em jogo” fundos públicos e assinaláveis condicionalismos projetuais;

·      e do desenvolvimento de uma melhorada capacidade de apreciação e validação da referida adequação e qualidade arquitetónica residencial, designadamente, quando estejam “em jogo” fundos públicos e assinaláveis condicionalismos projetuais.

3. Do funcional ao pessoal e familiar na habitação

O título deste item também poderia ser: “há mais habitação para lá do espaço e da função!”, sempre houve, designadamente, naquelas habitações onde dá realmente gosto habitar

Se considerarmos que os amplos aspetos de segurança e de adequação em termos de versatilidade e  adaptabilidade estão garantidos, então parece que  à matéria da qualidade arquitectónica, nas suas variadas facetas, poderia/deveria ser dada  ampla liberdade criativa, designadamente, numa sensível conformação dos espaços interiores habitacionais.

Afinal a função tem de se harmonizar com a forma e vice-versa, mas a “forma” pode inovar, pode variar e deve induzir interesse e atratividade, mas também apropriação e afinidade; e por isso acima se referiu o desenvolvimento de uma “sensível” conformação dos espaços interiores habitacionais; sensibilidade esta que, evidentemente, depende da qualidade arquitectónica do respetivo projeto, necessariamente validada pela sua respetiva apreciação (pois “de boas intençoes ...”)

Tudo isto tem a ver com estarmos, agora, em pleno “mundo” privado, um mundo onde o que há a regulamentar pode/deve estar “automaticamente” embebido na respetiva pormenorização de divisórias, instalações, vãos, equipamentos e acabamentos, proporcionando-se, para lá de todo esse pequeno/grande mundo do detalhe, variadas espacialidades formais, diversas relações entre variados espaços/ambientes e uma afirmada potencialidade evolutiva e/ou natural versatilidade dos espaços e seus mútuos relacionamentos.

E, assim, a ideia que se perfilha, aqui, no interior doméstico é a de um muito amplo leque de soluções espaciais, funcionais e formais, verdadeiramente versáteis e positivamente caraterizadoras de cada solução, para lá de todo um necessário conjunto de soluções “embebidas”, ligadas a aspectos essenciais de funcionalidade, acessibilidade, segurança, saúde e higiene, aspectos estes muito concentrados em “zonas de água” (bancadas de cozinha, espaços de tratamento de roupa e casas de banho) e nas zonas de relação entre diversos ambientes (ex., interior/exterior, comum/privado, etc.).

Quanto aos “velhos” aspectos de organização dita “funcional” da casa, tal como ainda são considerados, designadamente, no “mercado habitacional”, como por exemplo as “clássicas” “zonas íntimas” e outras zonas mais ou menos funcionais, julga-se que a estruturação doméstica será tanto mais negativa, no que se refere à sua assimilação por diversas famílias, quanto mais “hierarquizada”, "rígida" e “em árvore” for a respectiva organização.

O resto, e o resto que é quase tudo no espaço doméstico, deveria ser deixado a uma ampla liberdade de concepção, embora tal liberdade seja, como sabemos, uma condição gémea de uma muito apertada exigência de qualidade de Arquitectura.

Fig. 1: entre preocupações de funcionalidade, segurança, versatilidade, apropriação e até alguma domesticidade se vão construindo os ambientes habitacionais  positivamente mais marcantes.

4. Ideias de organização da habitação

Dito isto, que será um tema geral orientador desta reflexão sobre habitações que possam influenciar, realmente, uma vida doméstica mais feliz, apontam-se e comentam-se, brevemente, em seguida, algumas ideias de organização da habitação que podem informar as diversas soluções de organização domésticas, mesmo quando consideradas apenas a título de quadros organizativos genéricos – e regista-se que boa parte destas referências estão apontadas no meu estudo intitulado “Do bairro e da vizinhança à habitação”, editado pelo LNEC (ITA 2), e foram baseadas, frequentemente, nas opiniões de de um amplo leque de autores.

·      Espaços tipologicamente distintos em termos de socialização, privacidade e funcionalidade geral.

Matéria que, interessantemente ,conjuga aspetos que por vezes são considerados de forma desagregada, provocando “organizações” domésticas muito discutíveis ou mesmo muito negativas; de certa forma há que tê-los em conta, mas, subsequentemente, reinterpretá-los, fundi-los, quase apagar (aparentemente) um ou outro, recriar “novos” espaços a partir de elementos bem conhecidos, reinterpretar velhas tipologias, etc., etc.

·      Habitações “divididas” pela barreira entre usos essencialmente noturnos ou diurnos.

Matéria que parece que não deve ser considerada “à letra”, em termos da referida “divisão”, mas sim numa aproximação a estruturações domésticas que salvaguardem aspetos essenciais de conforto e de privacidade, assim como alguma estimulante diversidade de arranjos e de ambientes gerais, que são proporcionados – contrariamente a quadros domésticos monótonos, repetitivos e sem capacidade de atração e de apropriação.

·      Zonas mais formais e mais informais da habitação – ou domínios das crianças, domínios dos adultos e domínios comuns.

Esta matéria é muito ampla e proporciona inúmeros desenvolvimentos específicos e combinações entre eles; a  questão da boa aceitação doméstica, em termos de estruturação e pormenorização, a modos de vida mais formais ou mais informais poderá ser  essencial quando se pretende dotar a habitação de uma boa capacidade em termos de adaptabilidade e de apropriação.

·      Habitação que se vai adaptando à evolução etária e da composição da família e dos respetivos usos e desejos domésticos.

Uma habitação que se possa ir razoavelmente adaptando, em termos de processos mais passivos ou mais ativos, à evolução etária e da composição da família e dos respetivos usos e desejos domésticos, é uma qualidade essencial, seja na máxima valia de cada habitação relativamente a diversos grupos de utentes e de agregados familiares que a usem ao longo de gerações, seja na sua versatilidade de resposta ao uso pela mesma família ao longo dos anos e designadamente por pessoas que vão envelhecendo, mas que devem poder continuar a contar com a “sua” habitação.

·      Influência da ocupação habitacional no dimensionamento doméstico.

As questões ligadas à ocupação tendencial específica de um dado espaço doméstico, por exemplo, por uma família com crianças, por um jovem sozinho, ou por um casal de idosos, pode/deve influenciar a “tipologia” do respetivo dimensionamento (ex., maior ou menor espaciosidade) e, naturalmente, a sua estruturação e os seus conteúdos funcionais.

·      Hierarquização espacial e funcional.

Embora a bem conhecida hierarquização espacial e funcional seja criticável, designadamente, quando aplicada de forma rígida e pouco sensível a aspetos de adaptabilidade e multifuncionalidade domésticos, ela pode continuar a ter aspetos positivos muito associados a exigências e desejos de privacidade e/ou sossego e mesmo algum isolamento, pelo que será sempre uma ideia de organizaç\ão habitacional a considerar e aplicar. 

·      Microzonamento doméstico.

De certa forma numa recuperação parcial, particularizada e muito diversificada da criticada ideia de expressivo zonamento doméstico em diversas áreas de atividade, podemos avançar no que se poderá designar de microzonamento doméstico, numa perspetiva que passa para espaço/compartimento a possibilidade/capacidade de integrar umconjunto de pequenas, diversificadas, interpenetráveis e temporalmente mutantes “micro” áreas funcionais ou de atividade(s).

·      Importância da socialização na estruturação e na espaciosidade domésticas.

Finalmente, nesta pequena súmula de aspetos que influenciam as propostas organizativas para as zonas domésticas, salienta-se a importância que sempre deverá ter o apoio ao convívio/socialização na respetiva estruturação e espaciosidade domésticas; uma matéria, frequentemente, esquecida ou criticamente menorizada por estarmos a tratar do designado “espaço privado”.

 

Nota final:

Num próximo texto serão um pouco mais desenvolvidas estas matérias, mas desde já se aponta a sua importância, designadamente, quando aplicadas a soluções habitacionais espacialmente muito condicionadas, como é o caso das soluções de habitação de interesse social.


O presente artigo corresponde a uma edição ampliada, modificada e revista do artigo que foi editado na Infohabitar, em 21/07/2014, com o n.º 492.

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVII, n.º 761

 

Sobre a oferta de diversas propostas organizativas para as zonas domésticas – Infohabitar # 761

 

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

 

terça-feira, junho 18, 2019

691 - Notas suplementares sobre a inovação no espaço doméstico – Infohabitar 691

Infohabitar, Ano XV, n.º 691                      

Notas suplementares sobre a inovação no espaço doméstico – Infohabitar 691


Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagem)

Sequem-se algumas notas suplementares sobre a relação entre a inovação no interior doméstico e as respectivas pormenorização habitacional e qualidade arquitectónica interior

Introdução

Em seguida, serão brevemente abordados alguns aspectos de relação entre a satisfação habitacional e o desenvolvimento de soluções domésticas que podem ser consideradas inovadoras ou menos correntes e que, habitualmente, estão ligadas a uma perspectiva que favorece uma assinalável e dupla/dual condição de adaptação e de apropriação desses espaços e ambientes domésticos. 

Não se irá fazer, aqui, qualquer tipo de “revisão da matéria dada” ao longo dos numerosos textos já divulgados e “multilateralmente” associáveis a esta perspectiva muito interessante e dual de melhor adaptabilidade e apropriação doméstica, mas tão somente reflectir um pouco sobre alguns dos seus aspectos mais estimulantes e que, por isso, estarão, sem dúvida, ligados a posteriores e futuros desenvolvimentos desta temática.


Sobre (as) características de originalidade doméstica

Apontam-se, em seguida, e como base que fica para esta reflexão, algumas das características, ditas, “de originalidade” no habitar – um atributo aqui associado à inovação doméstica – estudadas e propostas num estudo de Jacqueline Palmade e Manuel Perianez, dirigido para um amplo leque de compartimentos habitacionais – a indicação, destes autores, refere-se a aspectos considerados como «duplamente» [ou reforçadamente] originais (1) ( e salienta-se que o pequeno desenvolvimento que segue e comenta cada “título”, apresentado a “itálico”, é da exclusiva responsabilidade do autor deste artigo, mas mantendo-se a sua ordenação original):

- Compartimento muito espaçoso (área superior ou igual a 25m²) – apenas quando esse espaço "a mais" corresponder a usos considerados como "a mais", portanto distintos daqueles funcionalmente ligados ao respectivo compartimento.
É interessante esta noção de uma espaciosidade a relevar, que pode estar associada, por exemplo,  à possibilidade de exercício de outras funções, associáveis ou mesmo bem distintas das consideradas como mais ligadas ao respectivo compartimento; e pode haver uma ligação bem aparente ou uma mais camuflada, por exemplo, através de mobiliário com usos versáteis/flexíveis.

- Cozinha do tipo "montra", integrada na sala.
Pode estar aqui a ser considerado o espaço de cozinha como elemento de atractividade e de identidade específica da sala onde se integra, para além dos respectivos conteúdos funcionais associáveis; e é interessante considerar que este sentido de “montra”não restringe a “linguagem”formal/funcional aplicada nesse espaço ou subespaço de cozinha.

- Cozinha aberta sobre a sala.
Esta condição pode associar-se, designadamente, a duas condições distintas: uma de relação franca entre os dois espaços de sala e de cozinha, mas mantendo-se a “identidade” e espaciosidade de cada um deles; e outra em que a zona de cozinha e designadamente a sua bancada abre francamente sobre a sala, numa perspectiva de grande integração entre os dois espaços – eventualmente, numa formalização de um grande espaço do tipo “sala de família”.

- Cozinha-bancada de preparação.
Trata-se de uma “simples” redução da cozinha a uma caracterização/presença mínima e minimizada de bancada de preparação de refeições, elas próprias “mínimas”, provavelmente, ao serviço de um uso da habitação em que raramente se preparam, realmente, refeições; reduzindo-se o “serviço de cozinha”, quase apenas a operações de aquecimento de pratos pré-cozinhados – e mesmo assim fica por “resolver” a questão da louça suja e da sua “presença” em termos de cheiros,por exemplo.

- Cozinha muito grande (>12m²).
A existência de uma grande cozinha, mais tradicional ou mais moderna, é uma opção que pode marcar uma habitação, até na respectiva estruturação de entradas e acessibilidades entre os diversos compartimentos; na prática é uma solução que se aproxima da “sala de família”, mas marcando-se expressivamente a presença e o protagonismo da cozinha e dos seus diversos subespaços, incluindo, deignadamente, o de refeições, que podem ser formais e informais e o de arrumação de alimentos.

- Compartimento com janela dando sobre a sala.
Trata-se de uma situação que pode assumir, designadamente, duas condições bastantes distintas: ou referindo-se a um “simples” e relativamente reduzido espaço de alcova, ou até a mais do que um espaço deste tipo; ou tratando-se de um “verdadeiro” compartimento com maior dimensão e funcionalmente mais flexível (do que uma alcova), constituindo-se, assim, uma situação do tipo compartimento em dois espaços (sendo um deles o principal).

- Pequena sala de estar ("saleta").
Trata-se de uma opção que foi relativamente frequente no espaço doméstico até que a “revolução funcionalista” erradicou a “saleta”, considerando-a, provavelmente, funcionalmente repetidora das funções da sala de estar, o que não é verdade e empobrece, expressivamente, as funções e actividades associáveis, globalmente, ao estar, ao lazer e à recepção domésticas; e neste caso da “saleta” a espaciosidade nem é o aspecto mais determinante, sendo essencial a sua boa localização e o seu potencial de apropriação e de identidade.

(Fig. 01) Uma saleta pode "resumir-se" a um cuidadoso e bem colocado alargamento de um corredor doméstico.

- Sala com dupla exposição - não será inovação, mas é sem dúvida condição de qualidade bem acrescida.
Uma qualidade bem acrescida em termos não apenas ambientais (conforto ambiental), mas de espaciosidade (ou sentido aparente de espaciosidade), de comunicabilidade, por relação com diversos ambientes e condições ambientais e, ainda, por melhor adequação a diversas “partições” funcionais do espaço da sala. 

- Sala com duplo pé-direito.
Uma situação com alguma semelhança da referida, atrás, para a sala com dupla exposição e uma condição que se liga, frequentemente, à marcação de um sentidop doméstico e de “fogo” expressivo: o “coração da casa”, que, simultaneamente se eleva e a unifica.

- Sala com duplo pé-direito e galerias evidenciadas.
Trata-se de uma quase especificação da condição anterior e que, naturalmente, exige que a habitação possua condições de espaciosidade significativas.

- Panos de parede envidraçados, frequentemente entre cozinha e sala.
A existência de “panos envidraçados”, por exemplo, através de planos em tijolo de vidro, “fenestração” interior e outras situações semelhantes nos seus resultados em termos de iluminação natural e comunicabilidade, relaciona-se com questões de conforto ambiental interior, designadamente, proporcionando-se a maior penetração da luz natural e, também, com questões de representatividade doméstica e de flexibilização funcional do interior da habitação.

- Bipartição da planta, com duas partes do fogo quase independentes.
Esta é uma solução bem interessante, designadamente, no que proporciona em termos de condições de intergeracionalidade na habitação, apoiando-se a vivência em comum, opcional, de pessoas da mesma família e d diversas gerações, mas respeitando-se e servindo-se, simultaneamente, a sua vivência doméstica autónoma.

- Casa (sala) de banho muito grande (>12m²) com destino multifuncional.
Esta é uma daquelas situações que foi mais anulada pela “revolução doméstica funcionalista”, que reduziu a casa/sala de banho ao mero exercício das funções sanitárias, designando-as, mesmo, de “instalações sanitárias”.

- Circulações indirectas e apertadas.
Esta interessante ideia liga-se, julgo, ao proporcionar alternativas de circulação domésticas entre as principais zonas da habitação, sendo umas mais directas, espaçosas e representativas e outras, eventualmente, menos directas, mais de serviço e, quem sabe, até mais “secretas”.

Caberá aqui o comentário de que poderíamos ampliar esta "colecção" de aspectos ditos inovadores, designadamente, numa sua dupla relação seja com a fundamental matéria de uma adaptabilidade doméstica activa, seja com os aspectos de apropriação, que, aliás, são, em seguida, abordados.


Sobre as características de apropriação inovação domésticas


Os mesmos autores, Jacqueline Palmade e Manuel Perianez, apontaram, ainda, alguns aspectos que se consideram muito interessantes numa dupla perspectiva de apropriação e inovação na habitação – e neste caso deixa-se ao leitor a opinião destes autores livre de comentários suplementares, embora qualquer questão de menor clareza nos textos que se seguem seja, apenas, da responsabilidade de quem fez a respectiva tradução com o máximo de cuidado, mas sempre  com alguma liberdade (portanto a responsabilidade é do autor deste artigo):

 - Acentuação do características estéticas e arquitectónicas, valorizando-se espaços, volumes e características de luminosidade mediante a definição de subespaços e de iluminações indirectas.

- Atenuação do carácter de modernidade e austeridade, nomeadamente, através de "forros" e revestimentos naturais, especialmente em madeira ou têxteis, e da aplicação de tons cromáticos "quentes", animando ambientes basicamente definidos a "preto e branco".

- Recuperação/criação de sítios específicos, pela divisão em duas partes dos compartimentos considerados inutilmente grandes, porque para muitos o espaço com uso concreto é mais importante do que o espaço do olhar; o aspecto positivo é a criação de espaços privados para cada criança, ou zonas para pernoita de visitas, ou zonas de serviço doméstico ou para prática de passatempos e para o trabalho não doméstico. Desenvolvem-se, assim, concreta ou imaginariamente, como referem os citados autores, espaços de reserva, reorientando-se e imprimindo-se a marca pessoal nos espaços da habitação.

- Transformação das cozinhas, tendo como objectivo último aproximá-las das características das cozinhas tradicionais, "com janelas, e onde se podem tomar refeições".

- Criação de espaços de arrumação, fundidos nos espaços arquitectónicos e, consequentemente, evitando um excesso de móveis e em ressonância positiva com os ambientes e elementos de base; esta estratégia parece também permitir uma certa neutralidade/simplicidade das arrumações, com vantagens financeiras e no campo da integração de diversos tipos de mobiliário.

- Criação de uma entrada interior e exterior; estar do lado de fora da porta da habitação sem possibilidade de abrigo e ser obrigado a penetrar no interior do fogo com os sapatos sujos, porque não há espaço para os limpar ou mudar, são situações muito pouco apreciadas. Por outro lado, é muito forte a vontade de ter uma zona tampão entre exterior e interior privado, marcando a entrada e servindo para o atendimento de pessoas estranhas ao fogo.

Lendo-se estes aspectos alguns anos depois de os mesmos terem sido adequadamente aproveitados num livro editado pelo LNEC, importa registar, aqui, que algumas destas últimas matérias são, com alguma naturalidade, susceptíveis de debate; e ainda bem! No entanto e usando, aqui, uma “costela” de projectista habitacional, não podemos deixar de sublinhar que, em boa parte ou quase globalmente, partilhamos e expressivamente estas ideias.


Notas:
(1) PALMADE, Jacqueline ; PERIANEZ, Manuel –  "Des HLM à la Conquete de l'Espace", Plan Urbanisme Construction et Architecture (PUCA), Programme Conception et Usage de l’Habitat (CUH), CSTB, Paris, 1986.
Os mesmos autores, Jacqueline Palmade e Manuel Perianez, tê outros trabalhos sobre este mesmo importante e interessante tema: por exemplo, « Des HLM à la conquête de l'espace : la REX de Saint-Ouen, de Jean Nouvel et Pierre Soria » , 1988.
Salienta-se que se procurou fazer, neste artigo, uma citação o mais possível rigorosa dos textos dos referidos autores, Jacqueline Palmade e Manuel Perianez, mas algumas deficiências no arquivo de referência podem ter prejudicado essas citações, designadamente, no que se refere à designação da fonte original; circunstância esta pela qual se apresentam, desde já, as devidas desculpas aos referidos autores e aos leitores. Caso algum leitor possa assegurar a melhoria da respectiva citação, solicita-se o e agradece-se o respectivo contacto (para abc.infohabitar@gmail.com).



Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 691

Notas suplementares sobre a inovação no espaço doméstico – Infohabitar 691


Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no LNEC –
Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).