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segunda-feira, outubro 09, 2017

613 - Interior da habitação: entrada, circulação e zonas mais sociais - Infohabitar 613

Infohabitar, Ano XIII, n.º 613

“Interior da habitação: entrada, circulação e zonas mais sociais” – sete artigos sobre o tema e um novo texto


por António Baptista Coelho

Há cerca de um mês a Infohabitar retomou as suas edições regulares, através da edição de um novo artigo em cada semana, logo à segunda-feira, aproveitando-se para, mais uma vez, enviar um amigável desafio aos leitores no sentido de poderem enviar para o editor (mail referido no final do artigo) propostas de artigos para edição.

Considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar tem editado artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos textos de síntese de comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Neste sentido e neste artigo apresentam-se, em seguida, os títulos interativos dos artigos da série “Habitar e Viver Melhor”, que abordam as temáticas do interior da habitação e, designadamente, dos seus espaços de entrada, circulação e zonas mais sociais, aproveitando-se para acrescentar, no final do artigo, uma nova nota de reflexão sobres estas apaixonantes e tão atuais matérias; e salienta-se que todos os artigos qui editados, desde início de Setembro de 2017, integram, logo a seguir à listagem interactiva dos artigos, novos textos de reflexão sobre a envolvente habitacional, as novas tipologias residenciais, a estrututação dos respectivos edifícios e a organização e estruturação habitacional.
Em próximos artigos iremos disponibilizar reflexões sobre os diversos tipos de espaços habitacionais e domésticos, mais comuns, ou mais privados e personalizados, que integram e caraterizam cada fogo/habitação.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respetivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caraterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sediado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

São os seguintes os sete (7) artigos disponibilizados sobre o tema “Interior da habitação: entrada, circulação e zonas mais sociais”:

Espaços domésticos comuns

Entrar na habitação, o vestíbulo de entrada

Circulações domésticas como espaços de vida - I

Circulações domésticas como espaços de vida - II

Lavabo, espaço funcional ou de “cerimónia”

Escadas domésticas

Corredores e zonas de passagem domésticas


Sobre as temáticas associadas e associáveis à matéria geral do interior da habitação e, designadamente, dos seus espaços de entrada, circulação e zonas mais sociais muito há a dizer e sublinha-se que o que a seguir se aponta, em alguns parágrafos temáticos, corresponde, apenas, a uma informal reflexão sobre estes estimulantes assuntos.

A “ditadura funcionalista” levou, frequentemente, a uma rígida estruturação hierárquica da habitação, produzindo-se, assim, quase sempre, vivências domésticas estereotipadas, pouco ricas, excessivamente compartimentadas e muitas vezes monótonas e desinteressantes, com zonas, por vezes, reservadas e pouco usadas e outras intensamente usadas, pouco espaçosas e até mal situadas.

Mas essa “ditadura funcionalista” também se caracterizou, muto frequentemente, ao nível do espaço doméstico, pelo apoio ao desenvolvimento de uma estrutura, mais ou menos radiculada, de espaços de entrada e de circulação expressivamente separados dos outros espaços da “casa” e, muitas, vezes funcionalmente usáveis apenas para a dita função da circulação doméstica; obtendo-se, por vezes, caricatas situações em que áreas de fogos muito limitadas, porque de habitação de interesse social, mas com um substancial número de quartos, integram extensos e conturbados corredores.

Não se trata, aqui, de negar os aspectos positivos de uma adequada privatização dos espaços domésticos e da possibilidade que eles devem oferecer para uma gradação de privacidade e de convivialidade, mas essencialmente de defender que tais condições deveriam poder ser assumidas de modo opcional pelos respectivos habitantes, proporcionando-se diversas formas de vivência de cada espaço doméstico.

A questão da privacidade, uma questão “de base” na concepção arquitectónica habitacional, poderá/deverá ter deversas formas de abordagem, seja no interior da habitação, seja na sua estruturada relação com o exterior público ou comum (do edifício multifamiliar); afirmação que apenas quer sublinhar situações sem sentido em que organizações domésticas extremamente hierarquizadas e sequencialmente privatizadas convivem com uma expressiva inexistência de privacidade na relação com o exterior, público ou comum.

Os espaços domésticos/privados com características de uso mais comuns, e designadamente, os espaços de entrada e de circulação são elementos de estruturação da organização doméstica que devem ser responsáveis não só pela respectiva funcionalidade, mas por uma funcionalidade devidamente submetida a um sentido “doméstico” (não “maquinal”), e por uma adequada caracterização da habitação em termos de solução de arquitectura, caracterização esta que importa ligara a aspectos de clareza de leitura/uso, de sentido de percepção mais global ou mais gradual dos respectivos espaços e, naturalmente, a um essencial potencial de adaptabilidade e apropriação da habitação a diversos modos e gostos de habitar.



Em tudo isto julga-se importante caldear as bem conhecidas e expressivamente aplicadas necessidades domésticas de privacidade com as talvez menos conhecidas e muito menos aplicadas necessidades domésticas de uma convivialidade naturalmente mitigada mas potencialmente muito expressiva; e estas são necessidades muito pouco servidas por espaços domésticos rigidamente hierarquizados e compartimentados, e servidos por alongados, estreitos e conturbados corredores.

Que soluções então? Não as desenvolveremos aqui, para já, de modo pormenorizado, pois será melhor que elas possam ficar à discrição dos leitores; mas que elas existem é um facto.
Importa naturalmente fazer aqui uma espécie de parêntese referindo que tudo isto, todos estes potenciais de caracterização e adaptabilidade domésticas, que se jogam nas zonas de entrada e de circulação e, naturalmente, também nos espaços dos próprios compartimentos, ganha com um sentido de espaciosidade, sendo que um espaço doméstico mais espaçoso e com dimensões mais folgadas é, evidentemente, um espaço com maior potencial de adaptabilidade, tal como temos vindo aqui a reflectir; mas há que apontar que é possível e existem excelentes exemplos de soluções habitacionais espacialmente pouco folgadas em termos de áreas que conseguem proporcionar as qualidades equilibradas de privacidade e de convivialidade, aqui defendidas, e isto em estruturações domésticas agradavelmente articuladas, pouco rígidas e pouco hierarquizadas.

E em tudo isto há que lembrar e reforçar a importância dos espaços antes da entrada na habitação, que nos “preparam” para nela entrar (vão de entrada) e dos elementos e espaços de contacto do mundo doméstico com o exterior (vãos de peito e de sacada das janelas); trata-se, afinal, de considerar a habitação realmente “fundida” e na continuidade com os espaços comuns e públicos que a envolvem; uma opção que faz realmente arquitectura, a tal grande Arquitectura feita nos espaços de passagem, de transição e de contacto, como defende Siza Vieira; e ao articular desta forma a habitação com a sua envolvente proporciona que os espaços de circulação e de entrada não sejam elementos de “impasse”, mas sim de relacionamento numa estutura com verdadeira continuidade – trata-se de entrar e circular na habitação para depois, olhar pelas janelas, ou sair para a varanda ou para o pátio ou jardim, fechando-se, de certa forma um “círculo” de relações exterior/interior/exterior e público/comum/privado/público no qual pouco sentido parecem fazer circulações extremamente rígidas e hierarquizadas.

Passando, agora para algumas notas sobre espaços domésticos mais “comuns” e expressivamente de circulação ou recepção; aos quais voltaremos, mais pormenorizadamente, em próximos artigosfuturos, pode-se referir que quase tudo numa habitação “começa” na entrada, ou talvez antes dela, no patim ou galeria comum, mas a ação de entrar na habitação, e o respectivo espaço ou vestíbulo de entrada deverá sempre ser assunto marcante no desenho de uma habitação, ainda que tal espaço seja, eventualmente, pouco destrinçável de um outro com o qual se conjugue.

A possibilidade de existirem acessos/entradas alternativas (mais de serviço e principal) é interessante, mas tem, naturalmente a ver com a espaciosidade global da solução doméstica.
Globalmente, a entrada na habitação deve proporcionar privacidade interior e capacidade de recepção, sendo que outros aspectos de maior ou menor compartimentação da mesma entrada poderão ser considerados menos importantes.

As questões regulamentares associáveis à segurança contra risco de incêndio deverão ser naturalmente consideradas e respeitadas, no entanto julga-se que é bastante discutível que elas possam obrigar a uma dada compartimentação habitacional que estaria, afinal, associada a uma obrigatória situação de portas fechadas, o que no interior da habitação é algo extremamente discutível.

Uma boa entrada doméstica é um espaço que deve ter luz natural e ventilação e neste sentido obrigará, frequentemente, a uma conjugação afirmada com outros espaços e compartimentos contíguos.

Que outros usos poderão ser acolhidos numa entrada doméstica para além dos mais conhecidos aspectos de recepção, apoio ao vestir, despir e guardar de alguns agasalhos? Talvez a apresentação de algum mobiliário “representativo” e, no limite, talvez a própria extensão de algumas actividades possíveis na sala-comum; isto considerando-a nas suas diversas valências (jantar formal e estar) e condionando-se esta opção a vontades expressas de maior ou menor abertura de tais actividades a quem chega/entra na “casa” –  no limite e lembrando muito do que se passa na habitação popular/tradicional, poderemos ter uma entrada que dá para uma zona de jantar formal, quase convidando quem chega a sentar e partilhar uma refeição de boas-vindas.

E temos assim já o tema desta pequena reflexão que corresponde à assunção das circulações domésticas como espaços de vida, matéria que iremos desenvolver em próximos textos, mas que, essencialmente, tem a ver com a sua consideração e variada leitura, seja como elementos de clarificação da estruturação doméstica – e simultaneamente de sua caracterização – , seja como elementos de circulação, seja como elementos/espaços domésticos com outras utilidades complementares e potencialmente muito diversas – desde zonas expressivamente mobiláveis a verdadeiras pequenas “galerias” de arte domésticas.

Caso a habitação tenha um razoável desenvolvimento, será interessante que ela possa integrar um pequeno compartimento que se pode designar de lavabo, e que possua característica funcionais adequadas, mas também de alguma “cerimónia”; caso a habitação tenha pequena dimensão a situação da respectiva casa de banho deverá poder cumprir estas funções ainda que de forma mitigada, não devendo obrigar a uma expressiva intrusão na privacidade do morador, que é duplamente negativa para o morador e para o visitante.

Quando existem escadas domésticas importa, basicamente, que elas sejam funcionais e expressivamente confortáveis e seguras no seu uso, mas também importa que elas sejam importantes elementos de atractividade e eventualmente de caracterização doméstica, uma condição que pode ser conseguida aliando-se as escadas a outros espaços e elementos domésticos e tirando-se partido destas alianças e posições privilegiadas. Uma coisa importa, portanto, sublinhar: uma escada doméstica pode e deve ser muito mais do que um simples elemento funcional na globalidade da respectiva habitação.

De certa forma e globalmente há que “resgatar” as zonas de entrada, os corredores e as zonas de passagem domésticas de uma sua “velha” e muito exclusiva caracterização funcional, tratando estes elementos de uma forma positivamente inovadora e caracterizadora da respectiva solução habitacional, tendo-se em conta quer a a sua história em termos de formas e funções, quer os novos usos e desejos habitacionais e visando-se, sempre, uma positiva adaptabilidade das organizações e pormenorizações domésticas.

e a estas matérias voltaremos …


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 613
Interior da habitação: entrada, circulação e zonas mais sociais” – sete artigos sobre o tema e um novo texto
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, outubro 05, 2014

503 - Entrar na habitação, o vestíbulo de entrada (artigo). Seminário em Almada - Infohabitar 503


INFOHABITAR, ANO X, N.º 503

Antes do artigo da semana a Infohabitar tem todo o gosto de divulgar o




Seminário Internacional Planeamento Cultural Urbano em Áreas Metropolitanas

Revitalização dos Espaços Pós-Suburbanos
6 e 7 de Novembro 2014

Acessível em:

http://sipcuam-almada2014.fa.ulisboa.pt/openconf.php


Trata-se de uma temática extremamente atual e interessante, como fica claro no seguinte texto de apresentação e nos respetivos temas a tratar:


As cidades contemporâneas, que transformaram a sua imagem e economia, pensaram o seu renascimento na perspetiva de um desenvolvimento cultural, em resposta às mudanças económicas e sociais em curso. A arte e a cultura, entendidas em termos gerais, passaram a ser consideradas um requisito direto da qualidade de vida e um direito social.

Pode o Planeamento Cultural ser entendido como instrumento da política de ordenamento do território e do urbanismo, ao lado de outras figuras do planeamento e da construção das cidades?

Nas áreas metropolitanas, onde o património construído não possui tradição, pode o património cultural imaterial ser tomado como referência para uma estratégia de formação da identidade do território e das comunidades urbanas?


Sobre estas questões o Seminário "Planeamento Cultural Urbano em Áreas Metropolitanas", pretende ser uma oportunidade de debate técnico e científico na perspetiva da criação de uma engenharia da cultura que usando uma análise contemporânea, examine como e porque as culturas têm sido planeadas e de que forma tem sido considerada a inclusão das condições culturais no planeamento das cidades, visando o desenvolvimento sustentado e a qualificação dos espaços de crescimento rápido e não programado das áreas pós-suburbanas.


A economia cultural das cidades, associada ao turismo, à tecnologia e à mudança social, tende a suportar a produção de uma indústria cultural, a qual cria por sua vez uma poderosa vantagem competitiva que ajuda a reforçar o sentido de identidade entre as comunidades urbanas.


Temas a tratar no Seminário:

Espaço pós-suburbano, património imaterial e movimento associativo / Post-suburban space, intangible heritage and associative movement.


Arte e cultura, factores de identidade urbana e ativação da economia / Art and culture, factors of urban identity and economy activation.


Engenharia da cultura e planeamento urbano / Culture engineering and urban planning.


Processos de inovação e criatividade na revitalização do espaço pós-suburbano / Inovation and creativity process in post-suburban space revitalization.


Artigo da semana da Infohabitar

Artigo LXII da Série habitar e viver melhor
Entrar na habitação, o vestíbulo de entrada
António Baptista Coelho

Continuando a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns, vamos, agora, falar com algum detalhe sobre os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam.

Primeiro viajaremos pelos espaços domésticos comuns, isto é aqueles que são usados por todos os habitantes de uma dada casa ou apartamento numa base geral de uso partilhado e de alguma comunidade; depois iremos até aos espaços domésticos privativos, portanto aqueles mais amigos de um uso individual, ou muito ligado ao casal.

São os seguintes os espaços domésticos comuns a abordar, sequencialmente, em artigos desta série: vestíbulo de entrada, lavabo, corredor e zonas de passagem, sala ou zona de estar, cozinha, áreas de serviço para arrumações, verdadeiras pequenas áreas de serviço - lavandaria e rouparia, zona de refeições ou sala de jantar, casa de banho, varanda e outras zonas exteriores privadas elevadas como pátios e pequenos quintais, virtualidades domésticas do estacionamento em garagem.

No presente artigo serão abordados diversos aspetos a ter em conta no projeto de espaços de entrada habitacionais - vestíbulos.

(Nota geral: porque boa parte dos textos que servem de base a esta série editorial estão elaborados desde há algum tempo, eles não cumprem as regras do Acordo  Ortográfico).

Opções de vestíbulo

A definição de vestíbulo refere-se ao “espaço entre a via pública e a entrada dum edifício”, ao “espaço entre a porta dum edifício e a principal escadaria interior” e a “uma cavidade orgânica que serve de entrada a outra” (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Francisco Torrinha, Porto, Domingos Barreira Editor, 1945).

Uma ideia que pode ficar é que o vestíbulo, ou espaço de entrada numa habitação, corresponde a um espaço de limiar e de transição entre o espaço público ou comum (no caso de se tratar de um edifício multifamiliar) e o espaço doméstico privado, embora este considerado também numa perspetiva de espaço doméstico comum.

Seja qual for a forma, a dimensão e as características de maior ou menor encerramento ou de maior ou menor autonomia vivencial de um vestíbulo doméstico é essencial, para que haja satisfação no seu uso, que ele cumpra tais condições; condições que têm a ver, essencialmente, com algum desafogo espacial próprio e com uma relação visual controlada com os restantes espaços da habitação.

É, assim, importante que num vestíbulo doméstico seja possível receber alguém estranho à casa numa situação de porta aberta ou, até, eventualmente, entreaberta, sem haver a tendência natural a convidar essa pessoa a entrar, o que obrigará a condições adequadas nos próprios patins comuns. E será interessante que seja possível convidar o visitante a entrar, mas recebendo-o, estritamente, no próprio vestíbulo, uma situação que obrigará quer a um dimensionamento razoavelmente folgado deste espaço, quer a uma sua situação na habitação que, num caso destes, não provoque uma desagradável intrusão no espaço doméstico.

Associado a estes aspectos podemos concluir que o vestíbulo é um espaço onde devemos poder mostrar o que queremos mostrar da nossa casa, e, especificamente, os elementos de arranjo interior que mais apreciamos e que mais revelam a identidade que queremos revelar a quem nos visita; e para tal há que ter um mínimo de condições de espaciosidade e de autonomia de arranjo deste espaço relativamente ao resto da casa.

Havendo espaço e ambiente para tais condições existirão, sem dúvida, condições de funcionalidade para apoio a diversas actividades associadas com o acesso ao nosso mundo doméstico e com a saída, deste mundo, para a rua, que poderá, passar pelo espaço intermédio e comum do patim, da galeria e dos restantes espaços de uso comum de um dado edifício.

E é muito interessante este papel de intermediação, essencialmente doméstica, associado a um outro papel de intermediação comum ou colectiva.

O espaço de entrada pode ser também um espaço integrado com outro espaço da casa claramente afirmado, e é possível criarem-se conjugações extremamente interessantes, seja, mais facilmente em edifícios unifamiliares – em que o limite está na própria imaginação -, seja em apartamentos de multifamiliares onde é, realmente, possível desenvolver associações eficazes e estimulantes, por exemplo entre um espaço de cozinha convivial e a única entrada na habitação, ou entre uma entrada mais “de cerimónia” e um espaço de refeições mais cuidado, mas sempre desde que as condições de conforto ambiental fundamentais estejam garantidas, por exemplo em termos de luz natural e de ventilação.

Vestíbulo: associações interessantes

A existência de luz natural é uma das associações pouco frequentes, nos casos de edifícios multifamiliares, mas muito estimulantes na entrada de uma habitação.
Uma outra associação refere-se a uma equilibrada continuidade ambiental entre os átrios privados e os espaços públicos, comuns ou privados que lhes dão acesso.

Quando a relação é feita, directamente, com o espaço exterior a entrada poderá ser decomposta numa zona de passagem que funciona como “quebra-vento”, conseguindo-se, tanto um melhor isolamento térmico e acústico do interior do fogo e a sua acrescida privatização, como uma maior funcionalidade/limpeza do interior doméstico; nesse espaço as pessoas limpam-se da sujidade que arrastam da rua, preparando-se para entrar num espaço mais protegido e íntimo.

Vestíbulo: hábitos interessantes

Em termos de situações que eram habituais e que faziam algum ou muito sentido, deseignadamente, num habitar tradicional salienta-se a possibilidade de se entrar quase directamente para uma zona de referições mais formal, um pouco numa ideia de se ser recebido e de se passar, com naturalidade, para uma recepção à mesa, bem acompanhada e calorosa; e esta é uma possibilidade que pode ter interessantes aproveitamentos seja quando há áreas reduzidas, seja quando há um espaço exterior privativo na continuidade do vestíbulo.

Ainda uma outra associação refere-se, naturalmente, a uma relativa continuidade entre o entrar em casa e o espaço de estar, situação que pode ter aproveitamentos espaciais estimulantes, mas que, no entanto, estará sempre associada à existência de um outro acesso à habitação, um acesso alternativo que propicie relações mais discretas e íntimas.

Vestíbulo: aspectos motivadores

Segundo Sven Thiberg, a entrada pode subdividir-se em duas zonas, sendo uma delas um vestíbulo de entrada apenas integrando a porta de entrada e equipamentos de apoio à entrada e à saída na habitação (não existindo outras portas nesta zona), e sendo a outra um espaço em continuidade com o primeiro, mas servindo já, e fortemente, a circulação interior no fogo (1); desta forma desenvolve-se como que uma relação estratégica e simultânea de separação e de ligação.

Vestíbulo: problemas correntes

Os problemas mais frequentes estão ligados, naturalmente, à falta de espaço, e não se assumindo uma clara ausência de vestíbulo, obrigando-se as pessoas a manobras, quase "ridículas", quando entram e saem, aspectos estes que se tornam ainda mais críticos quando há visitas.

Associada a esta matéria temos os problemas, frequentemente graves, da falta de privacidade que podem gerar a quase inutilização do uso de uma sala-comum para a qual abra, sem qualquer protecção visual, a porta da habitação.

E há que considerar que esta questão da privacidade é fundamental, no sentido de se procurar uma verdadeira satisfação doméstica, num bom equilíbrio entre privacidade e sociabilidade, pois quando não existe um vestíbulo que bloqueie vistas indesejadas sobre o interior doméstico não é só o “à vontade” da vivência na habitação que fica em risco, mas também a possibilidade do convívio, nunca bem-vindo, porque sempre “obrigatório”.

Finalmente, os problemas também se ligam ao desenvolvimento de amplos espaços de entrada sem condições para poderem ser usados como espaços úteis (por exemplo, sem luz natural e sem uma configuração adequada), mas dispondo de um amplo dimensionamento e que acabam, assim, por constituir verdadeiras zonas "mortas" no “centro estratégico” da habitação.

Vestíbulo: questões levantadas (dimensionais e outras)

A questão do dimensionamento da entrada tem muito a ver com as condições de espaciosidade disponíveis nos espaços comuns do edifício, pois são muito diferentes as condições proporcionadas por um pequeno “hall” privado servido por um grande patim comum com uma zona semi-privatizada contígua à porta do fogo, ou aquelas condições permitidas por um pequeno “hall” de entrada privado e contíguo a um espaço comum apertado e basicamente de passagem.

Considera-se interessante que num vestíbulo se possa conversar guardando distâncias convenientes, entre os interlocutores, e que se possa abrir e fechar a porta, a partir do interior da habitação, facilitando a entrada a outra pessoa que transporte, por exemplo, um objecto volumoso.

Considera-se, assim, que o vestíbulo deve proporcionar um desafogo espacial equilibrado no apoio a um conjunto de acções de recepção e de passagem entre a habitação e o seu exterior, afectando-se ao mínimo a vida doméstica; havendo desafogo espacial o vestíbulo pode assumir funções específicas como mais um compartimento da habitação, mas para tal deve ter adequadas condições ambientais e de configuração, caso contrário acaba por ser um espaço quase “perdido”.

Vestíbulo: novidades, dúvidas e tendências (ex., trabalho em casa; idosos, etc.)

Uma questão importante é que o vestíbulo proporcione a melhor visibilidade e o melhor controlo possível relativamente ao acesso à habitação, uma matéria que deverá ser aprofundada de modo a poder-se ter um máximo de visibilidade desde o interior da habitação, com a porta fechada, sobre a zona contígua e exterior à habitação, com um mínimo de espaços onde seja possível a alguém esconder-se.

Considerando-se o desenvolvimento, cada vez mais frequente, do trabalho profissional em casa, será de privilegiar a existência de vestíbulos bem separados do restante espaço doméstico com excepção de um compartimento ou de parte de um compartimento onde se possa desenrolar essa actividade; zonas estas que poderão ser, eventualmente, ainda mais autonomizadas da restante habitação, gozando, por exemplo, de um acesso autónomo e da relação directa com uma pequena casa de banho. E é interessante que uma tal possibilidade poderá permitir, em alternativa ou cumulativamente, o apoio ao desdobramento familiar (por exemplo, jovens ou idosos vivendo junto da restante família, mas com autonomia).

E é interessante lembra que na era das tecnologias de informação pode ser que o vestíbulo doméstico possa ser ainda caracterizado por outros aspectos que façam sobressair a relação estimulante com a vizinhança e, indirectamente, com a cidade.
Finalmente, importa sublinhar que o vestíbulo doméstico deve ser um espaço de algumas funcionalidades e de um máximo de identidade(s), e deve ser também, verdadeiramente, um limiar, que nos privatize em nossa casa e que nos relacione estrategicamente com o seu exterior.

Notas:

 (1) Sven Thiberg(Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 164.


Notas editoriais:
·       (i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
·       (ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

INFOHABITAR Ano X, nº 503
Artigo LXII da Série habitar e viver melhor
Entrar na habitação, o vestíbulo de entrada
Editor: António Baptista Coelho – abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.