segunda-feira, janeiro 18, 2016

A renovada importância das zonas de refeições domésticas – Infohabitar n.º 566


(na imagem, parte da UBI, na Covilhã)

Infohabitar, Ano XII, n.º 566

A renovada importância das zonas de refeições domésticas – Infohabitar n.º 566

Artigo LXXXIV da Série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho

Depois de um significativo intervalo editorial retomamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor" (o último artigo da série foi o n.º 543), na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar.
Estamos agora a abordar, com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e passamos, agora, a uma reflexão sobre a importância das zonas de refeições domésticas, considerando matérias diversas que lhes estão associadas.

A renovada importância das zonas de refeições domésticas

Numa civilização urbana marcada pela falta de tempo e de convívio, tudo o que se faça para privilegiar o encontro familiar é muito positivo; e como todos temos a noção que as refeições estimulam o encontro e o convívio, então não deve haver quaisquer dúvidas sobre o interesse de se privilegiarem condições domésticas estimulantes para a prática de refeições familiares potencialmente alargadas e conviviais, importando pouco se tais condições são possíveis na sala-comum, na cozinha ou, eventualmente, num espaço específico próximo da cozinha; importa, sim, que em cada habitação sejas bem aparentes condições específicas de integração de um desafogado espaço de refeições e não que se consiga, apenas, uma tal integração, em condições espaciais, funcionais e ambientais exíguas.

Refeições domésticas: associações interessantes

As refeições especiais realizam-se num espaço específico ou numa zona da sala-comum, mas também podem ser desenvolvidas numa grande cozinha familiar, numa sala de família e, até, numa grande varanda protegida, ou numa zona específica de um pátio ou quintal privado.
A “tradicional” exigência de proximidade entre este espaço de refeições e a zona de preparação de refeições, poderá ser compensada por uma posição muito agradável do espaço de refeições, por exemplo junto a uma grande janela. Já a exigência associada à ausência de ruídos e cheiros incómodos deverá manter-se o mais possível.
Nesta perspectiva Claude Lamure considera que a proximidade entre zonas de refeições e de preparação é secundarizada devido às seguintes razões (1): necessidade de um quadro formal representativo para certas refeições e funções festivas/comemorativas; necessidade de separação, pelo menos visual, entre as funções de recepção e de preparação de refeições; e necessidade de uma protecção sensorial (vistas, ruídos, cheiros e vapores) relativamente às zonas de preparação de refeições e de depósito de louça e apetrechos sujos.
No caso de uma forte integração entre a principal zona de refeições e o espaço de preparação, haverá que cuidar com grande atenção dos aspectos de ventilação e de redução de ruídos.

Fig. 01: Zona de refeições informais das Habitações H21 – 24 da Exposição BO01 (ver notas abaixo); Arq.ºs Mario Campi, Arne Jönsson e Jan Telving. A informalidade das refeições e a sua funcional proximidade às diversas zonas da cozinha pode ser "equilibrada" por um aspeto muito digno e formalmente depurado (ou, por exemplo, afirmadamente rústico) da mesa/cadeiras de refeições.

Refeições domésticas: hábitos interessantes

Claude Lamure sublinha que ver televisão, durante as refeições, é uma situação real e frequente, de tal forma que é devidamente assinalada pela definição dos "horários nobres" da programação, precisamente durante as horas das refeições, e nomeadamente à hora do jantar. (2)
Embora não se aprecie a actual estratégia e qualidade televisiva, que provavelmente se manterá por muitos anos, considera-se que numa habitação com dimensões correntes será aceitável considerar a relação entre televisão e espaço de refeições …

Refeições domésticas: aspectos motivadores

O ambiente da zona de jantar deve ser aprazível e cómodo, produzindo um sentimento de união, sem nada a ver com um carácter de "comer rápido" para depois ir descansar para outro lado, deve, assim, caracterizar-se, segundo Alexander, por (3): mesa centrada, ampla e forte; luz sobre a mesa; recinto de instalação relativamente fechado por paredes ou diferentes tonalidades de sombras contrastantes; suficiente espaço para se poder puxar a cadeira para trás e ficar à vontade a conversar; bancadas/aparadores e prateleiras envolventes proporcionando objectos ao alcance da mão, enquanto se está à mesa, uso de tons de cor escuros e confortáveis, especialmente de noite; assentos cómodos instalados na proximidade da mesa.
Ainda nesta perspectiva de identificação de aspectos motivadores do uso, até multifuncional, do principal espaço e da respectiva mesa de refeições sublinha-se a importância de se poder ter uma grande proximidade a um amplo vão sobre o exterior, o que permitirá tomar refeições com abundante luz natural e alguma vista; aponta-se esta ideia porque há, frequentemente, dúvidas entre que zona da sala-comum deve ser mais beneficiada pela luz natural, numa opção que poderá assim conciliar mais luz na zona de refeições e menos no espaço de estar, onde se situará, frequentemente a televisão, o que parece ser uma condição adequada para a ausência de reflexos no respectivo monitor.

Refeições domésticas: problemas correntes

Os problemas correntes em zonas de refeições têm a ver, frequentemente, com a falta de espaço próprio e na sua envolvente, obrigando a condições pouco motivadoras, quer do convívio à mesa, quer do respectivo serviço, que, nas actuais condições de ausência de pessoal de serviço doméstico, deve ser facilitado e agilizado ao máximo; e este é um problema que tem de ser resolvido na própria concepção do espaço doméstico, aproveitando-se, eventualmente, a contiguidade com espaços de circulação para se desafogar a envolvente da mesa. Tal como referi há alguns anos, num trabalho do LNEC, tem de se garantir grande funcionalidade nas actividades de pôr e levantar a mesa e de servir as várias pessoas à mesa, devendo ser possível aceder a boa parte da mesa com as pessoas sentadas e ser razoavelmente cómodo o sentar e o levantar-se da mesa nessas condições, e há que proporcionar um espaço de refeições adequado às potenciais necessidades da família com uma folga de ocupação – espaço à mesa e número de cadeiras para os habitantes da casa (considerando o número de quartos) mais alguns convidados.
Fig. 02: Zona de refeições formais/informais das Habitações H21 – 24 da Exposição BO01 (ver notas abaixo); Arq.ºs Mario Campi, Arne Jönsson e Jan Telving. Uma zona de refeições muito cuidada pode constituir como que um elemento de transição formal/informal entre uma bancada de cozinha e a zona de estar (na imagem em primeiro plano).

Refeições domésticas: questões levantadas (dimensionais e outras)

Numa habitação mínima as questões levantadas pela principal zona de refeições domésticas têm a ver com a sua eventual, mas provável, exiguidade para um grupo convivial alargado; uma questão que poderá ter uma solução razoável concentrando-se espaço para uma mesa razoavelmente espaçosa, alternativamente, na sala-comum ou na cozinha – por exemplo a cozinha poderá ser tornada mais ampla de forma a aceitar uma mesa de refeições corrente, enquanto na sala-comum poderá ser arrumada, estrategicamente, num canto, uma mesa de abas fechada, que em situações festivas será aberta, centrada na sala, após uma re-arrumação provisória dos restantes elementos de mobiliário. Fig
As questões levantadas, numa habitação corrente, são, essencialmente, de natureza dimensional e “ambiental”, e geradas pela situação de poder existir uma mesa ampla, apenas periodicamente usada, por exemplo, ao jantar e no final da semana. Situação que não parece ser negativa desde que a mesa esteja estrategicamente situada de modo a permitir que nela se desenrolem outras variadas actividades domésticas. Numa habitação corrente pode colocar-se a questão do posicionamento único ou múltiplo da(s) zona(s) de refeições domésticas, uma questão que se resolve na ideia de que uma mesa é sempre um pólo potencial de convívio e um local de múltiplas actividades e, portanto, nunca está a mais – por exemplo na cozinha uma pequena mesa central será útil para refeições rápidas e também oferece um plano de trabalho suplementar para a preparação de refeições e o apoio diversificado às refeições.

Refeições domésticas: novidades, dúvidas e tendências (ex., trabalho em casa; idosos, etc.)

Claude Lamure (4) estudou as vantagens e desvantagens de diversos tipos de posicionamentos, únicos ou múltiplos, das zonas de refeições domésticas e concluiu que as disposições mais interessantes articulam cozinha e zona de estar em torno de um espaço de refeições bem aberto tanto sobre a sala, como sobre a cozinha; e aponta que a distinção entre diversos tipos de refeições poderá realizar-se, simplesmente, pelo cuidado posto no seu arranjo e desenvolvimento (ex., toalhas e louças especiais), pelo uso específico de elementos de “cenário” e encerramento (ex., cortinas, portas de correr) e/ou pela variada disposição e extensão da mesa (chegada mais à parede e à cozinha ou mais centrada e integrada com a sala).

Notas
(1) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 201.
(2) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 200.
(3) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 741 e 742.
(4) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 202.


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XI, n.º 566
Artigo LXXXIV da Série habitar e viver melhor

A renovada importância das zonas de refeições domésticas - Infohabitar n.º 566

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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