domingo, novembro 30, 2014

Circulações domésticas II - Infohabitar 511

Infohabitar, Ano X, n.º 511

Artigo LXV da Série habitar e viver melhor

   Circulações domésticas como espaços de vida - II

António Baptista Coelho


Continuando a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns, vamos, agora, falar com algum detalhe sobre os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam.

Primeiro viajaremos pelos espaços domésticos comuns, isto é aqueles que são usados por todos os habitantes de uma dada casa ou apartamento numa base geral de uso partilhado e de alguma comunidade; depois iremos até aos espaços domésticos privativos, portanto aqueles mais amigos de um uso individual, ou muito ligado ao casal. São os seguintes os espaços domésticos comuns a abordar, sequencialmente, em artigos desta série: vestíbulo de entrada, lavabo, corredor e zonas de passagem, sala ou zona de estar, cozinha, áreas de serviço para arrumações, verdadeiras pequenas áreas de serviço - lavandaria e rouparia, zona de refeições ou sala de jantar, casa de banho, varanda e outras zonas exteriores privadas elevadas como pátios e pequenos quintais, virtualidades domésticas do estacionamento em garagem.

No presente artigo serão abordados diversos aspetos a ter em conta no projeto de espaços de circulação domésticos bem habitados; este artigo conclui uma temática iniciada na última semana.

 (Nota geral: porque boa parte dos textos que servem de base a esta série editorial estão elaborados desde há algum tempo, eles não cumprem as regras do Acordo  Ortográfico).


Índice dos dois artigos sobre Circulações domésticas como espaços de vida (I e II); a bold as matérias tratadas na presente semana.

·        Os espaços de circulação e as várias dimensões domésticas

·        Associações interessantes dos espaços de circulação com outras áreas domésticas

·        Hábitos interessantes nos espaços de circulação domésticos

·        Aspectos motivadores ligados aos espaços de circulação domésticos

·        Problemas correntes nos espaços de circulação domésticos

·        Questões e ideias levantadas (dimensionais e outras) nos espaços de circulação domésticos

 

Aspectos motivadores ligados aos espaços de circulação domésticos

O corredor deve ser um sítio de relação e de coesão entre os espaços domésticos a que dá acesso,e  além desta qualidade que tem a ver com aspectos de dimensionamento, de conforto (luz natural e ventilação) e de situação estratégica na habitação, pode ser também, ele próprio um espaço com utilidades específicas e interessantemente diversificadas – desde sequência de arrumações diversas, a biblioteca, a pequena galeria de arte e a sítio de integração de peças de mobiliário a que gostamos de dar uma evidência especial e que marcam, realmente, a nossa identidade .

Naturalmente, e tal como já se referiu, os corredores e as zonas de circulação podem integrar espaços funcionais específicos, designadamente, quando associados a actividades que se possam desenvolver num horário desfasado das restantes actividades domésticas, e aqui pensa-se, especialmente, em actividades de estudo e de trabalho não doméstico que se possam realizar, designadamente, durante a noite e desde que não estejam associadas à produção de ruídos.

Um dos aspectos mais motivadores do uso de corredores e outros espaços de circulação doméstica é que eles sejam iluminados naturalmente, ainda que de forma indirecta, através de envidraçados nas portas de compartimentos e de bandeiras envidraçadas comunicando com a sala e a cozinha, uma solução que é fácil de assegurar, mas que infelizmente está longe de ser regra na nossa realidade habitacional.


Problemas correntes nos espaços de circulação domésticos

Talvez um dos problemas mais correntes nos corredores e outras zonas de circulação doméstica seja a frequente falta de condições de conforto ambiental que aí se fazem sentir, desde a falta de luz natural à falta de ventilação, situações que, depois, geram, frequentemente, outras nefastas consequências por exemplo através de cheiros desagradáveis, acabando por se criar uma zona doméstica de que não se gosta; e ainda menos dela se gostará se nela apenas for possível circular, não sendo útil para mais nada.

Face a estas ideias podemos concluir que, em condições de áreas condicionadas e reduzidas, será muito mais certa a opção por uma solução que reduza ao máximo as áreas de circulação e as associe a outras funções domésticas (desde o estar às arrumações), do que uma outra solução com espaços específicos de circulação mínimos e alongados; e a ideia que se quer deixar é que nestas situações os problemas de privacidade no interior doméstico podem ser passados para um segundo plano, sendo essencial que não haja “desperdício” de espaço com circulações que para mais nada servem e que, depois, levam a compartimentos mínimos. 

Neste mesmo problema há que falar das chamadas zonas de circulação obrigatória, que são faixas onde praticamente apenas se fará a circulação no interior de um dado compartimento de uma habitação, uma espécie de corredores sem paredes.

Nesta situação e tal como se refere no estudo já amplamente citado (ITA2), há que ter cuidado na organização da habitação, de forma a que, quando existam circulações obrigatórias, estas não produzam, nos compartimentos atravessados, espaços sobrantes com formas e dimensões pouco utilizáveis (ex., pequenos espaços triangulares); os espaços contíguos às circulações obrigatórias devem ser suficientemente grandes e regularmente configurados de modo a  que neles possam decorrer actividades domésticas específicas – por exemplo, refeições ou estar no caso de uma sala-comum atravessada por uma circulação obrigatória.
As zonas de circulação obrigatória não convivem bem com dimensões abaixo de mínimos razoáveis, pois o resultado será um espaço doméstico retalhado e muito pouco útil, uma situação grave quando estamos a tratar de habitações mínimas.

Mas se os atravessamentos se fizerem entre zonas de actividade bem configuradas e com adequadas condições de conforto (e isto é muito importante pois de pouca utilidade será, por exemplo, uma zona sem luz natural), a solução será muito interessante, designadamente, para pessoas sós, casais jovens e famílias com filhos pequenos, porque não haverá, nestes casos, grandes exigências de privacidade entre as zonas no interior da casa. Salienta-se, no entanto, que soluções estruturadas por relações directas entre compartimentos pouco se compadecem com áreas mínimas nos mesmos, pois, por exemplo, uma sala pequena não permite a criação de zonas "especializadas" no seu interior, situação que, como é evidente, já não acontece em compartimentos amplos.


Questões e ideias levantadas (dimensionais e outras) nos espaços de circulação domésticos

Tal como fica evidente do que se acabou de referir a circulação doméstica, um aspecto que é frequentemente desconsiderado na concepção residencial, acaba por ser uma faceta estruturante e determinante na satisfação e na apropriação proporcionadas por uma dada solução doméstica, pois é da circulação que decorre boa parte do “à-vontade” no uso da casa, condição esta que tem tanto a ver com a possibilidade de nela cada um de nós fazer aquilo de que mais gosta nas melhores condições, mas também fazê-lo na melhor harmonia com as actividades e os comportamentos das outras pessoas que connosco vivem, diária ou ocasionalmente.

Por esta razão a boa arquitectura habitacional fica evidente numa saudável e bem relacionada dicotomia entre sequências de compartimentos e estruturas organizativas dos mesmos, enquanto a má arquitectura residencial fica logo bem evidente em problemas e desequilíbrios nestas duas dimensões da concepção doméstica; por exemplo excelentes compartimentos muito mal conjugados ou excelentes organizações domésticas que levam a compartimentos mal concebidos.

Se avançarmos ainda um pouco mais nesta matéria encontramos, do lado das áreas mínimas, as soluções que fazem lembrar as organizações das caravanas e outras casas móveis, soluções marcadas por uma pormenorização extremamente elaborada, que sintetiza as funções domésticas em espaços super-mínimos e super-funcionais que podem acontecer num mais amplo e integrador espaço-concha, enquanto, do lado das áreas bem desafogadas, acabamos por encontrar uma situação marcada por alguma identidade, que caracteriza, por exemplo, os amplos espaços indiferenciados de lofts e outras soluções do mesmo tipo, onde as áreas funcionais específicas, por exemplo cozinhar e dormir, ganham desafogo e separação mútua pela existência de muito espaço entre elas, espaço este que pode até ter um mínimo de compartimentação ou mesmo quase nenhuma compartimentação (a separação é feita pelo espaço interior que há aqui em grande quantidade), e o resultado pode também acabar por ser, curiosamente, do tipo espaço-concha, embora agora uma grande concha que mais parecerá um verdadeiro mundo interior.

E, assim, neste artigo, da circulação doméstica se chegou, praticamente, à habitação em geral.

Notas editoriais:
·       (i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
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INFOHABITAR Ano X, nº 511
Artigo LXIV da Série habitar e viver melhor

   Circulações domésticas: espaços de vida - II

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura da Universidade da Beira Interior


Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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