terça-feira, agosto 19, 2014

“Libertar” a habitação das instalações - Infohabitar 496

Artigo LVIII da Série habitar e viver melhor

Infohabitar, Ano X, n.º 496

Nota prévia do editor da Infohabitar:

Há algumas semanas foi editado um primeiro artigo sobre a “Formação em Arquitetura na Universidade da Beira Interior (UBI)”, na Covilhã, uma escola de Arquitetura que ajudei a criar, há cerca de 10 anos, e à qual estou atualmente ligado, como professor, coordenador do respetivo Mestrado Integrado em Arquitetura, e para ajudar a estruturar um novo Centro de Investigação, que abranja as áreas da Arquitetura, Urbanismo e Habitat Humano, e apoiar no desenvolvimento de um renovado Doutoramento em Arquitetura.

Outros artigos serão aqui editados, visando a divulgação da formação em arquitetura da UBI, brevemente associada a um novo Departamento de Arquitetura, capaz de dinamizar excelentes relações com as Engenharias da UBI, com outras faculdades da mesma UBI e com outras Universidades, Laboratórios, Centros de Investigação e, também em primeira linha, com as  mais diversas entidades sociais e autárquicas, seja no âmbito formativo, seja no quadro do futuro novo Centro de Investigação.

Em toda esta reforçada e renovada dinâmica estão previstas parcerias com a sociedade e a academia, no quadro dos mais diversos projetos e iniciativas, como é, por exemplo, o caso do Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono - CIHEL, cuja terceira edição será, em breve, devidamente anunciada, mas desde já prevista para São Paulo em 2015 -, numa dinâmica que estimule um amplo conjunto de ações e eventos formativos, informativos, técnicos e científicos, que tirem todo o partido das excelentes condições humanas e de instalações existentes na UBI, na Covilhã, bem como do agradável e estimulante ambiente académico, urbano e social que ali se vive.

O Editor da Infohabitar, António Baptista Coelho
Professor catedrático convidado (UBI), investigador principal com habilitação (LNEC), doutor em Arquitectura (FAUP), arquitecto (ESBAL)

“Libertar” a habitação das instalações

António Baptista Coelho

Em primeiro lugar há que sublinhar que o que aqui se quer definir por “instalações” se refere a todo um conjunto de "aparatos" técnicos, associados a redes técnicas diversas, com especial enfoque nas águas, esgotos, electricidade, e redes de telecomunicações por cabo, que são fundamentais para o habitar doméstico e cujas ligações ou “pontos” de serviço estão disseminados pelos vários espaços da habitação, proporcionando padrões de uso das respectivas instalações que devem ser eficazes no sentido das respectivas utilidades, mas assegurando, simultaneamente:

  • quer um tipo de serviço caraterizadamente residencial – há, por exemplo, soluções de “calhas técnicas” que para serem bem aceites num ambiente doméstico devem ser objecto de adequada integração e mesmo intervenção formal/de aspecto;

  • quer uma máxima capacidade de adaptabilidade dos espaços do habitar doméstico a um significativo leque de usos e a uma ampla diversidade de arranjos de mobiliário.


A ideia que quer aqui evidenciar é que tudo o que se faça com o objetivo de uma maior adaptabilidade no arranjo e na ocupação dos espaços domésticos – adaptabilidade esta de extrema importância seja numa perspectiva de adequação aos usos e desejos, seja numa outra perspectiva de continuada e periódica adaptação de uma dada habitação  à evolução global e pormenorizada das necessidades e dos desejos dos seus ocupantes – , e, naturalmente, também tudo o que se faça em prol de uma maior capacidade de apropriação destes espaços pelos seus habitantes, pode ser extremamente afectado, por redes e padrões de serviço de instalações rígidos e pouco adaptáveis.

Uma opção que tem vindo a ser utilizada na concepção residencial refere-se à concentração maximizada de instalações e serviços em determinadas zonas “técnicas”, estrategicamente localizadas e, portanto, muito funcionais, libertando-se o máximo de espaço doméstico restante para uma ampla diversidade de ocupações por usos e conjuntos de mobiliário diversificados.

Uma outra forma de garantir estes tipo de objectivos é proporcionar uma grande flexibilidade de escolha dos pontos de ligações a redes, mediante intervenções simples e pouco dispendiosas que possam disponibilizar praticamente um serviço “a la carte” , que se vá adaptando, muito facilmente seja à evolução de determinada redes – designadamente de telecomunicações – seja à evolução da ocupação e dos arranjos de mobiliário domésticos.
E nesta linha de reflexão há, ainda, naturalmente que ter em conta as atuais redes sem fios; matéria que por si só merece tratamento específico e especializado.

É interessante reflectir, nesta matéria, sobre o interesse que ainda marca os “velhos” cuidados de concentração de “zonas de água”, que nasceram essencialmente de objectivos de economia por encurtamento das respectivas redes de águas e esgotos, mas que têm também excelentes resultados no sentido de proporcionarem um excelente “capital” de adptabilidade ao restante espaço doméstico.

As novas e as futuras “redes de instalações e de equipamentos” associadas a aspectos de sustentabilidade ambiental na habitação, e, por exemplo, ligadas à gestão dos lixos domésticos, ao máximo aproveitamento da energia solar por estratégias passivas e activas, à poupança de energia eléctrica e ao adequado isolamento acústico deverão ser objecto de uma aplicação estratégica no espaço doméstico, marcada pela maximização da sua eficácia técnica e pela compatibilização desta eficácia com o adequado desenvolvimento da estruturação e mesmo de uma adequada caraterização doméstica.

É, assim, fundamental uma clarificação e “simplificação” das características técnicas destas instalações e equipamentos ao nível doméstico, “reduzindo-os”, de certa forma, ao seu papel técnico específico e harmonizando este papel no âmbito de um qualificado desenho do espaço habitacional, em que estas novas facetas técnicas deixem de assumir uma presença protagonista, assumindo, sim, a sua presença necessária e adequada em termos da criação de um ambiente doméstico agradável, envolvente e "pacífico", pois, não tenhamos qualquer dúvida, uma habitação adequada não é, nem nunca será realmente comparável a uma máquina e, por exemplo, a um automóvel com visores recheados de gadgets técnicos, mas é fundamental que, hoje em dia, a habitação possa acolher, funcional e integradamente, as novas redes e instalações, proporcionando-se ligações a redes nos mais diversos sítios, e ampliando-se, assim, ao máximo a ampla utilidade do mundo doméstico.


De certa forma o que aqui se aponta está definitivamente contra uma descaracterização como espaço “frio”, “maquinal” do ambiente e da pormenorização de uma cozinha e de uma casa de banho doméstica, recheando-as, sim, de sinais de conforto e de escala e mesmo “calor” humanos; e também se refere, aqui, uma estratégica organização/distribuição e “camuflagem” de instalações domésticas, não as afectando funcionalmente, mas reduzindo, ao máximo, a sua presença e protagonismo visual no interior da habitação, proporcionando-se os melhores e mais completos serviços com a maior sobriedade e racionalidade, numa acção que tudo tem a ganhar com contribuições multidisciplinares, designadamente, nas áreas da Arquitectura, das Engenharias, do Design e das Ciências Sociais e Humanas.


Finalmente, a ideia da libertação do espaço de habitar relativamente às instalações é que:
  • por um lado possamos ter uma máxima capacidade de apropriação dos espaços mais habitáveis sem nos preocuparmos com aspectos ditos funcionais ou maximizando mesmo tais aspectos no apoio directo à referida apropriação e adaptabilidade – teremos assim, por exemplo, salas e quartos extremamente versáteis no que se refere ao funcionamento, à ligação e à instalação dos mais variados tipos de equipamentos domésticos (exemplo, elementos de iluminação);
  • e que, por outro lado, haja como que uma recuperação ou mesmo um redimir, como espaços fortemente habitáveis e dignos, de compartimentos da habitação cujas instalações e associados aspectos de funcionalidade os relegaram, de certa forma, para uma caracterização fria, impessoal e quase não doméstica, como acontece por exemplo em tantas cozinhas e casas de banho.

E aqui há que ter a noção de que acabámos por gastar mais de um século para integrar as instalações clássicas da água, dos esgotos e , afinal da electricidade nos espaços domésticos, que antes não as tinham, mas que é já tempo de elas assumirem o seu papel de serviços prestados a um espaço doméstico cuja caracterização se irá deles servir e nunca o contrário – teremos assim, novamente, espaços domésticos verdadeiramente redimidos no seu fundamental papel de espaços do habitar, com sentido muito amplo, e bem servidos pelas instalações; e não espaços domésticos feitos para evidenciarem a chegada da água, dos esgotos e da própria electricidade .

E atenção para que, quando estamos a começar a voltar a preencher as nossas casas com novas instalações, ligadas, por exemplo, às casas inteligentes e às tecnologias da sustentabilidade ambiental, não cometamos os mesmos erros de colocar as casas ao serviço e como montras dessas novas tecnologias esquecendo as suas funções essenciais ligadas à domesticidade e à integração urbana.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
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INFOHABITAR Ano X, nº 496
Artigo LVIII da Série habitar e viver melhor
“Libertar” a habitação das instalações
Editor: António Baptista Coelho – abc.infohabitar@gmail.com

GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura da Universidade da Beira Interior.

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