domingo, março 09, 2014

Viver ao nível térreo - I - Infohabitar 475


Infohabitar, Ano X, n.º 475

Viver ao nível térreo - I

Habitações térreas e opções domésticas e urbanas

Artigo XLIX da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Habitação ligada ao espaço público          

            Uma das grandes opções de viver o habitar – habitação e vizinhança e vice-versa – joga-se, sempre que tal é possível (e assim foi, frequentemente, ao longo de milénios), na escolha de habitações que tenham relação direta com o espaço público ou de uso público, ou indireta através de espaços exteriores de uso privado (quintais e pátios privativos); uma opção que se sintetiza com a ideia de poder “viver ao nível térreo”, ou bem perto dele e um viver ao nível térreo que é, também, viver mais intensamente a natureza e o exterior de vizinhança.
            Uma tal opção é determinante da adaptabilidade do habitar assim escolhido e vivido, seja numa perspetiva de adequação prévia a determinados modos de vida, eventualmente, mais ruralizados, seja  na perspetiva de resposta a determinados desejos habitacionais e de vivência da respetiva vizinhança de proximidade e do seu eventual potencial de convívio e de contato mais “livre” com o exterior, o “ar-livre”, a natureza e o espaço urbano localmente disponíveis.
            Trata-se, afinal, de um importante fator de adequação e de “liberdade” nas soluções de habitar que se escolhem, e um fator que, infelizmente, tem sido muito desprezado em favor das, tantas vezes “estafadas”, soluções-tipo de edifícios "tipo esquerdo-direito."


Fig. 01

Imagem urbana estimulante

            E sublinha-se o também  muito importante papel que estas soluções cumprem na modelação pormenorizada de uma imagem urbana estimulante, porque diversificada e por vezes orgânica e até lúdica, no acompanhamento visual e físico que proporciona aos percursos pedonais contíguos, fazendo, de certo modo, sentir, mais fortemente, nesses percursos o ambiente residencial envolvente e caraterizador, seja pela quase-contiguidade dos vãos domésticos, seja pela presença evidenciada de zonas de limiar e de proteção ou enquadramento da essencial privacidade doméstica - ex., sebes naturais, muros bem promenorizados, diferenças de nível estratégicas, sequências de vistas bem estruturadas e marcadas pelo verde urbano, que nesta solução de evidenciação de um nível térreo residencial e com exteriores privados, pode ser um verde privado, mas com fruição pública, aspeto este de grande importância na gestão do exterior.

Ligação habitação-rua

            Sobre a ligação habitação-rua importa aprofundar as possibilidades vivenciais e arquitetónicas que uma diversidade de relacionamento entre esses dois mundos de privacidade e convivialidade pode e deve proporcionar com o duplo objectivo de uma cidade mais variada, atraente e mesmo equilibradamente surpreendente, e de uma habitação marcada pela identidade – das características formais da solução (exemplo: volumes, cores e desníveis dos acessos privados, e diferentes agregações dos mesmos).


Fig. 02

Tipologias com acessos diretos ao exterior 

            E a ideia que se quer aqui deixar é ser plenamente possível e social e economicamente bem sustentável apostar em soluções deste tipo, que aplicam média/alta densidade habitacional com edifícios de baixa altura (até eventualmente sem elevadores), em que boa parte das respetivas habitações têm acessos diretos a exteriores privados (exemplo: três pisos em que as habitações térreas têm acesso direto ao exterior e as em 1.º andar também têm acessos por escada a pequenos talhões privativos).

Ligação entre edifício e rua

            Sobre a ligação edifício-rua já desenvolvemos, em outros artigos desta série, um conjunto de ideias que se considera básico, mas falta talvez imaginar o que poderia ser uma entrada comum, provavelmente de um conjunto de habitações não excessivamente dimensionado em termos sociais e físicos, e onde nos sentíssemos tão individualizados e identificados com a proximidade “imediata” da nossa “concha” doméstica, como verdadeiramente estimulados, tanto pela proximidade e uso intensos: (i) dos nossos pequenos espaços exteriores privados, (ii) do espaço público que os contorna e serve, (iii) e da própria vizinhança marcada por um sentido agradável e protegido de um conjunto de vizinhos em que o convívio é claramente apoiado, mas sempre de forma “não imposta”, havendo alternativas de acesso que o garantam.

Identidade e habitação

           Sobre a ligação habitação-edifício e igualmente numa perspectiva do que poderia ser uma tal relação, julga-se que são importantes os aspectos de marcação da identidade da habitação, de segurança maximizada na aproximação à porta da habitação e de vigilância, a partir do interior, quando se acede à habitação, de privacidade dos espaços domésticos relativamente a vistas das vizinhanças envolventes e com uso público (e naturalmente a partir de vãos domésticos alheios), e mesmo de uma equilibrada antecipação dos ambientes exteriores e interiores domésticos, em aspectos que não podem fazer arriscar a dignidade do ambiente comum do edifício e da sua presença na respetiva vizinhança urbana.


Fig. 03

Vantagens do viver ao nível térreo

            Esta matéria do “viver ao nível térreo” e, consequentemente, do habitar de uma forma que, potencialmente, pode estar intimamente ligada ao “exterior”, ao “ar-livre”, “à rua” e, portanto à natureza, à cidade e mesmo à paisagem de proximidade, é matéria que merece aprofundamento e desenvolvimento posteriores e cuidadosos, que serão, apenas minimamente explorados em próximo artigo desta série, mas desde já se sublinham algumas relações a privilegiar no desenvolvimento deste “filão” de reflexão projetual (sobre o “viver ao nível térreo”):
(i)           com a diversificação e adequação tipológica habitacional;
(ii)          com os importantes aspetos de harmonização a necessidades específicas de acessibilidade;
(iii)         com as “novas” preocupações de densificação urbana;
(iv)         com a sustentabilidade ambiental e social urbanas;
(v)          com um urbanismo renovado e mais humano;
(vi)         e com uma oferta habitacional mais caraterizada e potencialmente apropriável  pelos seus habitantes (fisicamente e em termos de identidade).

Editor: António Baptista Coelho
INFOHABITAR Ano X, nº475
Artigo XLIX da Série habitar e viver melhor
Viver ao nível térreo - I
Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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