segunda-feira, dezembro 30, 2013

O PAPAMOSCAS NA CATEDRAL DE BURGOS - Infohabitar 466

Infohabitar, Ano IX, n.º 466

Reforçando os votos de Boas Festas e de um Feliz Novo Ano de 2014 aos colaboradores e leitores da Infohabitar, é com muito gosto de editamos, em seguida, mais um conto do nosso colaborador Adriano Rosa, intitulado " O PAPAMOSCAS NA CATEDRAL DE BURGOS".

Para iniciar o nosso 10.º ano de edições, a Infohabitar editará no dia 6 de janeiro de 2014 um artigo do economista e sociólogo catalão Jordi Estivill Pascual intitulado "Pontes entre a periferia: de Barcelona a Lisboa. Notas ao redor da gentrificação", para o qual chamamos desde já a vossa atenção, pelo grande interesse de que se reveste considerando as urgentes e sensíveis ações de reabilitação social e física dos nossos centros históricos.



António Baptista Coelho
editor da Infohabitar

Fig. 01: O Papamoscas na Catedral de Burgos (Espanha)



O PAPAMOSCAS NA CATEDRAL DE BURGOS


Na imponente Catedral de Burgos habita o único gnomo de comprovada existência, na Europa do Sul. Com efeito, o narrador desta história habituara-se a considerar os gnomos, seres minúsculos e com dons especiais, apenas aptos para povoarem as florestas europeias do Norte. Aí, julgava o narrador, os mistérios foram melhor preservados por entre árvores milenárias, reservas de azoto e refregas de taberna.

Mas na majestática Espanha de El Cid insinua-se um ser patético, que abre mecanicamente a boca a cada badalada, em cada hora que passa. Em cada hora que passa desde o século XV, repete o narrador desistindo de imaginar o número de vezes que o gnomo de Burgos, conhecido como papamoscas, abriu a boca. Agora mesmo, o narrador olha para o seu relógio e imagina em Burgos o papamoscas abrindo e cerrando a boca mecânica: são onze horas da manhã. Por onze vezes o papamoscas entra em ação, por entre turistas pasmados e algumas estátuas de apóstolos e santos:

El Papamoscas soy yo
y el Papamoscas me llamo;
este nombre me pusíeron
hace ya quinientos años.


Em tempos de peregrinação a Catedral devia saturar-se de camponeses suados, e outros infelizes sem sorte, a caminho de Santiago. Arrastavam invariavelmente um contingente de moscas atrás de si! Sem esse contingente de moscas e de peregrinos, de séculos passados, o papamoscas não existiria em Burgos. Desde o seu lugar altivo, ensina ainda ao bom observador uma lição sobre a natureza frugal do universo. Nada é Nada. E o Tudo é Nada.


O papamoscas é um filósofo, cínico a maior parte do tempo (como todos os filósofos que se julgam superiores, e todos os filósofos se julgam superiores!). Prescreve este filósofo postremo que o tempo é uma boca mecânica. Um saco roto: sem princípio nem fim. Isto é a lição moral do papamoscas de Burgos, e porque não tem princípio nem fim o tempo pode acumular toda a vileza humana. Sem que se interrompa o mecanismo supremo do Universo.
A cada vilania humana (como se fosse uma badalada) também Deus abre e cerra a boca… (Desconhece-se se o faz por enfado, se para afugentar os insetos que povoam os confins do Universo!). Observemos, pois, em cada hora que passa, e nos limpos céus sobre os campos em redor das nossas cidades, esse Deus, que ainda veneramos, abrindo e cerrando a boca:

Desde esta ojiva elevada
contemplo la gente loca
que corre apresurada
para verme abrir a boca.

Pero no es el Papamoscas
el que sólo hace la fiesta,
también los que estáis abajo
y tenéis la boca abierta.



Um conto de Adriano Rosa




Fig. 02: A posição do Papamoscas na Catedral de Burgos, perto do canto superior esquerdo





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