domingo, setembro 26, 2010

HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL NO BAIRRO DE ALVALADE - Infohabitar 313

Artigo de António Carvalho
Infohabitar, Ano VI, n.º 313

Nota inicial:


O 1.º Congresso Habitação no Espaço Lusófono, o 1.º CIHEL, decorreu com pleno êxito, nos passados dias 22 e 24 de Setembro, no Grande Auditório do ISCTE-IUL, em Lisboa, nas próximas semanas e logo que tenhamos oportunidade, iremos dedicar alguns artigos a este grande evento, no entanto e desde já gostaríamos de sublinhar que estiveram presentes, praticamente, todos os países de língua portuguesa e que foi já anunciado que o 2.º CIHEL terá lugar, também, em Lisboa, no sentido de se reforçar e alargar a base de enquadramento e estruturação do Congresso, e que decorrerá num período de cerca de dois anos, portanto no final de 2012, no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.Os organizadores do 1.º CIHEL querem, desde já, fazer e deixar, aqui, um agradecimento público a todos os participantes no 1.º CIHEL, conferencistas, palestrantes, membros de mesas, alunos que apoiaram a organização e todos os inscritos, assim como às entidades que apoiaram o 1.º CIHEL, com um destaque muito especial para o ISCTE-IUL, a Câmara Municipal de Lisboa, o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana e a Fundação para a Ciência e Tecnologia.
As Actas do 1.º CIHEL poderão ser adquiridas em diversas livrarias, estando desde já disponíveis na Livraria A+A junto à Ordem dos Arquitectos em Lisboa http://www.livrariaamaisa.pt/
Segue-se o artigo da semana do Infohabitar.
HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL NO BAIRRO DE ALVALADE
Artigo de António Carvalho
O Bairro de Alvalade constitui em Lisboa e no país um verdadeiro estudo de caso enquanto exemplo do sucesso de um plano de urbanização que de modo raro soube de facto propor, construir e consolidar cidade no século XX, numa área territorial de dimensão muito significativa.





Fig. 01: Plano de Alvalade – vista geral com as diversas células de intervenção

O sucesso de um plano de urbanização não se pode porém avaliar de modo rápido e muito menos no instante pós-projecto: como tudo o que é cidade, necessita de tempo. Nas cidades os ciclos de vida sucedem-se, geração após geração — na verdade, a população muda (por vezes dentro de uma mesma geração) enquanto a maioria dos edifícios permanece e é nesse confronto de novas ou diferentes pessoas habitando ou usando os mesmos edifícios que a qualidade de um plano é também posta à prova.

Isto é válido para qualquer tipo de plano, desenho urbano, edifício ou população e o Bairro de Alvalade contém na sua génese a correcta mistura de ingredientes, oferecendo a Lisboa soluções diferenciadas para problemas diversos, entendidos de modo global e integrado no projecto, na obra e no tempo.

Estou convicto que foi esta visão global integrada e integradora que permitiu o sucesso urbanístico e social desta vasta área de Lisboa, ao ponto de, seis décadas após a sua construção, os “edifícios de rendas económicas” se terem fundido perfeitamente no tecido urbano e social do bairro.

Bairro: eis uma palavra que caiu em desuso no léxico dos urbanistas e planeadores da segunda metade do século XX, mais preocupados com questões de inovação funcional, formal e tipológica, para quem este conceito de “bairro” teria eventualmente demasiadas reminiscências tradicionalistas. E no entanto o conceito de bairro é altamente complexo e integrador para quem o habita. Pertencer a um bairro é, desde logo, uma âncora de identidade, de pertença a um lugar, a uma comunidade, a uma rede complexa e rica de relações sociais e espaciais que extravasam claramente o simples edifício ou apartamento que se habita. Penso que em grande parte é isto que acontece no Bairro de Alvalade desde a sua origem.

Habitar ou trabalhar em Alvalade é pertencer e apropriar-se deste bairro modernista de Lisboa, onde a cidade soube oferecer à sua população — em simultâneo! — espaços novos, modernos, higienizados e funcionais, de acordo com os melhores padrões técnicos e teóricos, quer em termos de edifícios quer de espaços públicos totalmente infraestruturados e ajardinados, conjugados com diferentes estratos sociais e económicos sabiamente distribuídos no tecido urbano.




Fig. 02: Av. da Igreja – zona poente; Av. da Igreja – zona nascente

A sensibilidade e sabedoria de implantar os edifícios de habitação económica de modo subtilmente diferenciado ao longo de uma nova artéria estruturante do bairro, a Avenida da Igreja, equivaleu a uma visão integradora da sociedade (por muito estranho e polémico que tal possa parecer atendendo à época e regime político). A opção urbanística de oferecer “frente de rua” às habitações económicas no troço poente da Av. da Igreja, entre o Campo Grande e a Av. de Roma, recuando-as apenas ligeiramente no troço Nascente, entre a Av. de Roma e a Av. Rio de Janeiro (para dar lugar a comércio térreo e habitações maiores nos pisos superiores), promoveu desde a origem um equilibrado convívio entre classes sociais. Ao ponto de actualmente tal distinção social já não ser perceptível — ou pura e simplesmente não existir.




Fig. 03: Zona Poente - os edifícios de habitação social formam gaveto com a Av. da Igreja; Zona Nascente - a habitação social recua e o gaveto com a Av. da Igreja é formado por habitação média-alta.

Todo o enquadramento urbanístico feito até este ponto do texto reside na minha convicção pessoal e profissional de que a habitação (dita social ou não) não pode ser projectada de modo isolado, abstracto, como “belas peças arquitectónicas” pousadas sobre carpetes relvadas ou empedradas. Se esses edifícios se destinam a ser habitados por pessoas reais, os seus moradores não viverão exclusivamente dentro das belas paredes do seu apartamento — a não ser que nada mais que isso lhes seja oferecido em termos de qualidade espacial e vivencial. Pessoas reais têm necessidades normais de sair do seu edifício e poder caminhar com conforto e segurança, fazer as pequenas compras do quotidiano ou as “compras de montra” (o “window-shopping” dos americanos que faz o sucesso de qualquer centro comercial...), levar os filhos à escola ou permitir que o façam sozinhos, na segurança do habitat natural do seu bairro.




Fig. 04: Zona poente da Av. da Igreja: exclusivamente habitacional — os edifícios de habitação social fazem a frente urbana; Zona nascente da Av. da Igreja: intensamente comercial — a calçada ocupa a totalidade dos passeios até às montras.

Tudo isto foi oferecido no Bairro de Alvalade desde a sua origem, a todos os seus moradores sem excepção: desde as avenidas comerciais (mas fortemente habitacionais!) como a Av. de Roma, a Av. da Igreja ou a Av. do Brasil, até às escolas primárias, preparatórias e secundárias equilibradamente distribuídas pelos diferentes sectores residenciais do bairro e perfeitamente integradas no coração da malha urbana, até aos equipamentos públicos de outro tipo (bombeiros, centro cultural, mercado, cinemas, piscinas), por regra integrados nos quarteirões numa lógica de continuidade, afirmando-se no entanto como edifícios públicos de referência — os edifícios urbanos marcantes, de “auxílio à navegação” urbana.




Fig. 05: Transversal da Av. da Igreja na zona poente, com equipamento público ao fundo da rua; Rua Marquesa de Alorna na zona nascente da Av. da Igreja, com Liceu Rainha D. Leonor ao fundo

Sou um morador do Bairro de Alvalade, mais propriamente da Av. Estados Unidos da América e habitei provisoriamente durante seis meses num apartamento de habitação social ou de “rendas económicas” na Rua Marquesa de Alorna, enquanto fazia obras no meu apartamento. Foram seis meses agradáveis. Pese embora a dimensão reduzida dos compartimentos (o que não permitiu encaixar a totalidade do meu mobiliário...), revelou-se muito confortável habitar aquela zona do bairro.

Em vários aspectos da qualidade de vida urbana quotidiana, tinha até mais conforto que a Av. EUA: o privilégio de poder sair à rua e comprar pão quente na padaria da esquina para o pequeno-almoço diário, poder atravessar a Av. da Igreja e de imediato alugar um filme no clube de video quando apetecia, poder comprar o frango na churrasqueira da Av. da Igreja (que ali existe há décadas e onde ainda hoje vou) ou as “faltas de mercearia” na charcutaria do lado, poder ir a pé à missa na igreja de S. João de Brito, poder ir a pé ao cinema Alvalade (agora felizmente renascido como Citycine Alvalade) — tudo isto ao alcance do peão! Aliás a total ausência de estacionamento (resolvida através da integral ocupação selvagem dos passeios das ruas pelos residentes...) era o pesadelo do fim de dia, no regresso a casa. Mas até esse problema poderia (poderá?) ser minimizado através de estudos equivalentes ao plano do Arq. Paisagista Ribeiro Teles, que propôs em 1999 uma inteligente ocupação de certos interiores de quarteirão semi-abandonados cujos logradouros poderiam ser transformados em parques de estacionamento para os moradores do bairro.




Fig. 06: Logradouro das habitações sociais na zona poente; Logradouro na R. Marquesa de Alorna

Viver naquele apartamento T3 de rés-do-chão equivaleu a conhecer melhor e explorar intensamente aqueles quarteirões do bairro. Descobrir os percursos de peões que criam uma sub-malha de atalhos entre ruas e quarteirões — que só quem vive (ou consegue projectar) a rua nas suas diversas valências aprecia pela sua utilidade para o peão —, sentir o pulsar da vida comercial da Av. da Igreja e de todos os quarteirões a ela adjacentes no lado Norte (ainda hoje um verdadeiro “centro comercial ao ar livre” com um curioso e equilibrado ecossistema de estacionamento em segunda fila...), caminhar até ao parque desportivo do Inatel, ter um logradouro fechado e exclusivo do prédio para as crianças brincarem em segurança, tudo isto habitando um edifício de “habitação social”!?

Na verdade poucas pessoas restam (por razões de longevidade) das que originalmente inauguraram estes quarteirões destinados a população com menores recursos económicos. Todas estas dezenas de edifícios, albergando várias centenas de apartamentos, permitiram uma equilibrada assimilação e ascenção social dos seus residentes, cujos filhos frequentaram os mesmos estabelecimentos escolares que os vizinhos das “classes sociais superiores” residentes na Av. da Igreja, Av. de Roma, moradias das ruas dos escritores, etc, enquanto os pais frequentavam os mesmos cafés e pastelarias, lojas, ou simplesmente os mesmos transportes públicos, passeios e praças, formando ao longo do tempo uma verdadeira comunidade social heterogénea, complementar e integrada. As diferentes classes sociais co-habitavam o espaço urbano, co-utilizavam os equipamentos, reconheciam-se, aprenderam a respeitar-se, construíram um verdadeiro tecido social.

Estas casas de rendas económicas do Bairro de Alvalade são pequenas e apertadas, sobretudo para os padrões de conforto actuais (tal como já demonstrado pelos estudos de João Branco Pedro, no LNEC). No entanto elas são actualmente disputadas no mercado imobiliário e facilmente vendidas a um estrato socio-cultural claramente médio, médio-alto. Porquê? Porque na minha opinião, elas possuem uma mais-valia que excede as paredes do edifício: a sua localização na cidade. E elas oferecem aos moradores todo um bairro de elevados standards urbanos, com quase tudo o que a vida contemporânea privilegia, ao alcance do caminhar!
Suspeito que seja esse o segredo da “fórmula mágica” das habitações sociais do Bairro de Alvalade — daí que, contrariamente a muitos outros bairros sociais que se degradam e desvalorizam, aqui se tenha verificado uma permanente valorização e prestígio.

Breves notas do editor:O autor do artigo, António Carvalho, é Arquitecto e Professor, membro fundador do Grupo Habitar, está a cooperar em matérias de investigação do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), e frequenta, actualmente, o Programa de Doutoramento em Arquitectura e Desenho Urbano do DECA do IST.

Este programa de doutoramento em Arquitectura é participado pelo LNEC e específicamente e sistematicamente pelos doutorados do seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU), com participações do seu Núcleo de Ecologia Social (NESO).




Advertência ao leitor
Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.

Infohabitar, Ano VI, n.º 313
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 26 de Setembro de 2010





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