terça-feira, julho 21, 2020

Notas sobre a importância do silêncio na Arquitectura – Infohabitar # 739

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.

Infohabitar, Ano XVI, n.º 739

Notas sobre a importância do silêncio na Arquitectura – Infohabitar # 739

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

 

Edição: terça-feira, 21 de julho de 2020

 

Editorial:

Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,

Ainda um pouco numa sequência genérica de últimos artigos, aqui editados, em que refletimos sobre paisagem urbana baseada em misturas diversificadas de tipologias edificadas e sobre aspetos de identidade, apropriação e escala humana, que devem estar bem presentes e marcar os espaços que habitamos interior e exteriormente,

dedicamo-nos no presente artigo a uma qualidade ambiental e urbana, até no sentido amplo do termo “urbana”, o silêncio, cuja presença, mais ou menos intensa, ou cuja ausência, parecem ser aspetos expressivamente qualificadores na experimentação do espaço arquitectónico e urbano; além do aspeto essencial associado à qualificação do silêncio como exigência/matéria básica na conceção arquitetónica e numa sua aprofundada e sentida fruição.

Continuando a "tradição" da Infohabitar referida à divulgação de iniciativas merecedoras de atenção, salienta-se a chamada de artigos para o novo número da revista Gestão & Tecnologia de projetos, que abordará o emprego de tecnologias digitais no campo do patrimônio, envolvendo ações nacionais ou cooperações internacionais; neste sentido, no final da presente edição anexa-se o respetivo conjunto de elementos de divulgação e informação enviados por um dos editores, o amigo e colega Prof. Eng.º Márcio Minto Fabrício do IAU-USP.

Lembrando que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito dos artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),

despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,

Lisboa, Encarnação, em 20 de julho de 2020

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

Notas sobre a importância do silêncio na Arquitectura – Infohabitar # 739

António Baptista Coelho

 

No presente artigo aborda-se, em primeiro lugar, o silêncio como matéria de base vital do espaço projetado e que, depois, se quer vivo; portanto base da conceção e objetivo essencial qualitativo, importante, entre outros, mas frequentemente esquecido.

Desenvolve-se, em seguida, uma natural reflexão sobre a relação entre o silêncio e o meio natural, sítio óbvio de potencial e “alimentador/apaziguador” silêncio, passando-se, depois, para uma menos óbvia natureza do silêncio como veículo de intimidade e de urbanidade; a relação com a intimidade é razoavelmente natural, enquanto o sentido de uma urbanidade calma, protetora e mesmo potencialmente introspetiva será sempre menos direta, mas considera-se que é de extrema relevância; importância esta que vai ganhando tanto maior relevo quanto mais urbana e densificada for a sociedade – como acontece com o atual habitat humano.  

Passa-se, em seguida, para uma pequena reflexão talvez mais disciplinar a propósito de se encarar e defender, mesmo, o silêncio como verdadeira matéria ou motivo da Arquitectura; naturalmente não única, mas, frequentemente, como ampla e amigável base habilitadora de outras matérias e motivos de conceção; para além de ser, sempre, matéria própria e motivo específico de conceção.           

E avançando-se nesta matéria específica de conceção associada ao silêncio, surge o “velho” e sempre pouco considerado tema das ruínas e do silêncio das/nas ruínas como estimulante motivo de perceção e criação arquitectónica.

O silêncio como base vital do espaço projetado e que, depois, se quer vivo

            Falar um pouco sobre o silêncio na arquitectura, considerando esta, naturalmente, como conjunto articulado de espaços interiores, exteriores e de transição, com presença doméstica e urbana e importantes ligações com o bem-estar que deve caraterizar os nossos cenários de vivência, será, talvez, falar de uma qualidade arquitectónica que acompanha e valoriza:

·        seja, numa primeira linha, os respetivos atos de conceção desses espaços e ambientes, que têm de se fazer sempre num relativo silêncio, de concentração e de diálogo íntimo com os diversos aspetos em que se fundamenta essa concepção, esse projeto;

·        seja, um silêncio que, numa segunda linha, embebe e caracteriza as primeiras vivências directas desses espaços logo que recém-concluídos, e atraentemente vazios e expectantes, produzindo-se, assim, imagens quase que estranha e eloquentemente silenciosas.

            Produzem-se, assim, imagens que acabam por ser projetos quase feitos realidade, e daí ainda tão calmas, numa primeira apresentação real da obra, que é sempre única e estimulante, em termos de uma fruição íntima do resultado real desse projeto de arquitectura; e talvez daqui resulte boa parte da importância que se dá à ilustração fotográfica dessa primeira fase de obra concluída e de certo modo vazia dos seus posteriores e essenciais conteúdos vivenciais, sociais e conviviais.


 

Fig. 01: Centro das Artes Casa das Mudas, na Calheta, Madeira., Arq.º Paulo David; e à direita, em silêncio, sentindo a obra, Raúl Hestnes Ferreira.

            Temos, assim, o silêncio como base de preparação do espaço que se quer vivo e como uma espécie de condição de prova de fogo, individualmente sentida, de como resulta esse espaço, quando construído, uma prova caraterizada por uma certa disponibilidade desse espaço ser entendido, globalmente, como algo que apresenta um certo potencial de acolhimento, que depois será, ou não, comprovado, quando habitarmos esse espaço; e sendo que tudo isto, da fase de projeto à fase final de vivência preliminar da obra acabada, obriga a um quadro básico de silêncio, ou de silêncio preenchido pela boa música, por exemplo, e será sempre impossível num quadro marcado pelo ruído e pela desordem que está frequentemente associada ao ruído.

            Talvez que por isso tantos amadores de fotografia, e tantos arquitectos, privilegiem os espaços vazios, desabitados e de certa forma silenciosos, não numa negação da sua essencial utilidade como quadros da vida humana nos seus mais variados aspetos, mas sim numa facilitação ou clarificação da leitura global e, depois, mais detalhada desses espaços, quase uma sua apresentação prévia, quase um cenário mesmo cenário ainda que provisoriamente cenário, e afinal quase um verdadeiro desenho em escala natural e volume, um desenho que sempre nos traz novidades relativamente ao desenho em papel que o antecedeu; mas um desenho real que, tal como o desenho-desenho, obriga a uma sua leitura silenciosa, e cuidadosamente vagarosa, num vagar que também se liga ao silêncio e que provavelmente tem clara expressão nas sempre tão apreciadas calmas e sóbrias imagens a preto, branco e cinzentos.

O silêncio e o meio natural

            Dito isto, que pretendia fazer, apenas, um enquadramento esquemático e global da matéria que aqui se propõe, mas que, tal como sempre acontece, foi tema que avançou por si próprio e que deixou outros caminhos de desenvolvimento, deve-se, talvez, agora voltar atrás, ao meio natural, que é aquele onde fundamentamos, quase sempre, direta ou indiretamente, os projectos de Arquitectura.

            Salienta-se que nos sítios naturais ou expressivamente naturalizados, o silêncio é base de quase tudo e nem é silêncio, pensa-se no silêncio natural e no silêncio na natureza, marcado por sons naturais e que acabamos por considerar como integrando o silêncio; e esta é matéria interessante pois, entre muitos outros aspetos, um dos objetivos de uma boa arquitetura é proteger e servir o homem em termos de um seu conforto amplo, em termos de um adequado equilíbrio com as condições naturais e não será por acaso que está provado que o meio natural, o seu quadro ambiental e o sossego que o marca são aspetos essenciais no bem-estar humano, sendo por exemplo usados, objetivamente, no tratamento de determinados problemas de saúde e na suavização do tão conhecido stress urbano.

            Temos então, assim, o silêncio como virtude natural que, conjuntamente com outras condições de conforto ambiental, procuramos proporcionar estrategicamente nas nossas casas, nas nossas vizinhanças urbanas e mesmo até, pontualmente, em determinados espaços urbanos mais intensos, onde é sempre possível e desejável que existam oportunidades de gozar um pouco de silêncio ou de significativa redução do ruído; e estas pequenas ilhas de calma, rodeadas de ruído e bulício urbano, serão tanto mais estimulantes, quanto mais associadas estiverem a condições naturais de estabelecimento dessa acalmia do ruído envolvente, sendo o contrário exemplificado por soluções muito condicionadas e associadas a instalações com essa finalidade específica.

 

        

Fig. 02: os meios naturais ou expressivamente naturalizados são como que "geradores de silêncio"

 

            E é interessante lembrar que os meios naturais ou expressivamente naturalizados são como que "geradores de silêncio", porque captam e amortecem os ruídos envolventes e próprios, porque produzem ruídos naturais de camuflagem, e porque associam condições de silêncio e conforto a vistas e quadros naturais, marcados pelo verde, pelas árvores e até pela água naturalizada.

            De certa forma tais quadros naturais diretamente indutores de condições mais silenciosas e indiretamente associados a memórias de ambientes silenciosos, são, depois, ferramentas que o projetista deve usar quando projeta ou reprojeta arquitetura; naturalmente não de uma forma solta e por vezes cega, mas sim integrada nos diversos aspetos de conforto ambiental que tantas pontes comuns apresentam – aspetos acústicos, higro-témicos e de conforto visual – uma integração que precisa, urgentemente, de avanços e de sínteses facilmente aplicáveis por não especialistas – e perdoem esta espécie de divagar técnico não muito adequado ao perfil da temática, ou será que é adequado e então estaremos numa reflexão extremamente sensível onde se tentam abordar, integradamente, aspetos mais objetivos e outros ainda considerados menos objetivos.

O silêncio como veículo de intimidade e de urbanidade

            Falou-se, um pouco, do enquadramento do silêncio como matéria da própria conceção arquitetónica básica e, em seguida, do mesmo silêncio como qualidade natural, ou da natureza, associada a múltiplos aspetos do conforto, e por sua vez matéria da referida conceção arquitetónica; e assim até parece que não nos conseguimos dele libertar; mas há ainda e naturalmente outras perspetivas a considerar no silêncio como quadro base de arquiteturas e pano de fundo do habitat humano, e nestas uma há cuja importância é basilar e que se refere ao silêncio como veículo de intimidade e de urbanidade.

            Nesta matéria é extremamente interessante, por um lado, encarar a possibilidade de viver o espaço doméstico com relativa autonomia em termos de vivência acústica, não prejudicando vizinhos e familiares com os nossos ruídos e música e não sendo muito prejudicados por eles pelas mesma razões, e diz-se relativamente, mas poderia dizer-se absolutamente, em termos de determinados espaços onde possa ser realmente possível ouvir música alto ou trabalhar sem limitações de ruído pela noite fora; e engana-se quem acha ser de pouca importância o fator do silêncio no quadro mais amplo da essencial privacidade doméstica e entre vizinhos do mesmo edifício ou de edifícios próximos; e está, por exemplo, provado que a falta de silêncio, que também se pode dizer falta de isolamento e conforto acústico, é aspeto que produz problemas graves e/ou frequentes entre vizinhos e habitantes das mesmas unidades de uso (por exemplo, habitações e escritórios) e dos mesmos edifícios, podendo chegar a más influências na respetiva saúde física e psíquica, e indiretamente no bem-estar social dos respetivos edifícios e vizinhanças.

         E será, aqui, estratégico referir que para o desenvolvimento, atualmente tão estimulante e necessário, de vizinhanças e edifícios funcionalmente mistos (ex., incluindo habitação, escritórios e lojas conviviais) é de grande importância o objetivo específico no sentido de se poderem gozar excelentes condições de isolamento sonoro nessas unidades, sejam quais forem as suas contiguidades e continuidades.

          Ainda nessa matéria da associação entre silêncio, intimidade e urbanidade, é, por outro lado, necessário referir que ao nível do espaço urbano também a quietude e o sossego são sinónimos de bem-estar, de proteção, de uma certa intimidade e apropriação positiva das vizinhanças que habitamos, e se referem ao desenvolvimento de espaços urbanos que articulam zonas animadas e até, eventual e razoavelmente ruidosas, com recintos urbanos estrategicamente localizados e marcados pelo sossego e pela acalmia do tráfego, recintos estes frequentemente caraterizados por uma expressiva componente verde e natural, ainda que muito urbana, e que entre outros aspetos nos proporciona viver mais intensa e prolongadamente o exterior e quase a natureza à porta de casa, de certa forma prolongando usos domésticos sobre partes desse exterior e permitindo que esse exterior calmo e envolvente, e mesmo esse silêncio que, de certa forma, "se ouve",  preencha os vãos das nossas habitações e nos entre agradavelmente casa dentro.

            Falou-se, assim, um pouco do silêncio como fator de projeto de arquitectura, algo óbvio mas raramente lembrado; depois do silêncio natural ou da natureza como elemento com importância própria e associada ao projeto de arquitetura; e, finalmente, do silêncio como veículo de intimidade e de urbanidade

 

Fig. 03: no Centro Histórico de Guimarães.

Sobre o silêncio como verdadeira matéria ou motivo de Arquitectura           

            Falta falar de muita coisa, nesta temática do silêncio como base de preparação e de vital experimentação do espaço que se projecta e que, depois, se quer vivo, falta sempre falar de muita coisa, quando começamos a aprofundar estas matérias da conceção arquitectónica, e, designadamente, falta falar do silêncio como verdadeira matéria ou motivo da Arquitectura, sem derivações, sem relações indirectas, pois parece haver obras que capturam um positivo silêncio local, ou que criam um positivo quadro local de acalmia e de sossego, um remanso e um quadro que propiciam, naturalmente, a contemplação e a reflexão sobre essas obras e as suas paisagens pormenorizadas ou amplas de integração e enquadramento; e, indiretamente, tal introspeção acaba por ser catalisadora das mais diversas atividades privadas (ex., leitura, escrita e trabalho online) e de um estimulante e prolongado convívio limitado, assegurando-se, assim, condições para longas e intensas permanências no exterior de uso público.

 

Fig. 04: Casa Pacheco de Melo, Arq.º Pedro Maurício Borges, Canada dos Barões, S. Miguel.

 

Mas podemos sempre colocar, paralelemente a tais reflexões, a “velha” e boa questão da possibilidade de tal condição, de certa forma, geradora de um sossego local, de uma certa acalmia local, grande aliada da boa caraterização de cada obra e de cada local ser (também?) caraterística própria de toda a boa arquitectura? Reflexão que nos levará/levaria muito longe e para a qual o autor confessa ter reduzida habilitação teórica.

            Questões bem estimulantes, que talvez tenham sido, ou venham a ser, aqui tratadas e que se espera poder, pelo menos, aflorar em outras oportunidades.

Sobre o silêncio das ruínas

            No entanto não se poderia terminar esta reflexão sobre a privilegiada relação entre arquitetura e silêncio, sem falar, ainda que apenas um pouco, e mais como apontamento final e prospetivo, do silêncio das ruínas: um silêncio bem ligado àquelas construções reduzidas, “apenas”, aos seus conteúdos formais e mesmo estes já “estilizados” pelo abandono e pelo tempo; um silêncio quase palpável, que todos sentimos e que ,de certa forma, corresponde ao sentido de um silêncio que parece ser libertado pelas ruínas de edifícios e construções, quando estes iniciam o seu retorno ao caos natural originário.

            Lembrando a sequência de reflexão aqui feita será como imaginarmos que o silêncio, que usámos como meio integrador e caracterizador de uma da obra, e um pouco como ponte de ligação à sua envolvente natural e urbana, é devolvido ao seu quadro prévio local e natural.  

            Sobre esta matéria, parece que as ruínas acabam por resgatar o silêncio, de que tínhamos, nós, embebido algumas construções e espaços, devolvendo-o à natureza, associando o silêncio das construções abandonadas ao silêncio do meio natural.

            Evidentemente que a nostalgia e até a cenografia são também importantes aspetos nesta sensibilidade que todos temos para com as ruínas, por vezes até simuladas estrategicamente em jardins e espaços cenicamente naturalizados, mas por alguma razão até assim acontece e realmente as ruínas são verdadeiramente silenciosas; uma matéria interessante e estimulante, mas que, evidentemente, tem contornos bem negativos quando as ruínas ou quase-ruínas se referem a espaços urbanos abandonados e sem vida.

 

Fig. 05: ruínas perto de Melgaço.         

O silêncio na Arquitetura

            Assim se conclui, sempre provisoriamente, uma pequena e sempre preliminar viagem iniciada pela reflexão sobre o silêncio como base de preparação da obra de arquitectura, continuada por apontamentos das relações entre silêncio e meio natural e entre sossego, intimidade e urbanidade, apontada, depois, no realçar do papel do silêncio como matéria ou motivo da Arquitectura e, finalmente, em alguns apontamentos sobre as ruínas como quadros privilegiados de um silêncio arquitectónico fortemente caraterizado.

            Tentou-se, assim, abordar, o mundo emotivo do silêncio, em alguns dos seus aspetos, salientando-se a importância da interiorização e da reflexão sobre estas verdadeiras bases de reflexão sobre uma arquitectura que tem de estar, sempre, muito para além de simples cascas visuais mudas e sem carácter; e o silêncio, na sua calma e no seu remanso, é sempre rica base de conceção e essencial quadro de perceção de edifícios e espaços urbanos.


O presente artigo corresponde a uma nova versão, revista e aumentada, dos artigos publicados nos números 485 e 486 da Infohabitar, repetivamente, em 25 de maio e em 1 de junho de 2014.

 


Chamada de artigos para o novo número da revista

Gestão & Tecnologia de projetos:  Tecnologias Digitais e Cooperações Internacionais na Gestão do Patrimônio Cultural, Arquitetônico e Urbanístico


Caro(a) Sr(a) pesquisador(a)/investigador(a),

Revista Gestão & Tecnologia de projetos:  Tecnologias Digitais e Cooperações Internacionais na Gestão do Patrimônio Cultural, Arquitetônico e Urbanístico

Editor Convidado: Prof. Dr. Giacomo Pirazzoli- Università degli Studi di Firenze. Scuola di Architettura.

Editor GTP: Prof. Dr. Márcio M. Fabricio – Universidade de São Paulo. Instituto de Arquiteto e Urbanismo.

Esta chamada especial aborda o emprego de tecnologias digitais no campo do patrimônio, envolvendo ações nacionais ou cooperações internacionais, dentro dos seguintes temas:

  • Casos de cooperação internacional no campo das tecnologias digitais empregadas à documentação e gestão do patrimônio arquitetônico e urbanístico;
  • Levantamento com uso de técnicas fotogramétricas digitais, varredura a laser, luz estruturada ou outras técnicas digitais;
  • Aprendizado de Máquina e Interpretação de dados digitais do patrimônio arquitetônico;
  • Bancos de dados aplicados à documentação arquitetônica ao patrimônio cultural;
  • Fabricação digital aplicada ao patrimônio cultural.
  • Integração de sistemas de captura de imagens terrestres e aéreas;
  • Internet das Coisas (IoT) aplicado ao patrimônio arquitetônico e urbanístico;
  • Métodos para processamento automatizado de fotografias;
  • Modelagem da Informação da Construção em edifícios históricos (HBIM);
  • Modelagem paramétrica aplicada ao patrimônio arquitetônico e aos centros históricos;
  • Plataformas Unificadas de Gestão da Manutenção de patrimônio arquitetônico e urbanístico;
  • Processamento e segmentação de nuvens de pontos;
  • Reconstruções digitais de edificações de interesse histórico-cultural.
  • Registros digitais de patologias construtivas;
  • Sistemas de Gestão de Legado do Patrimônio Cultural ou Heritage Information Systems (HIS);
  • Tecnologias imersivas, Realidade Aumentada e Realidade Virtual. 

CCaracterísticas dos Trabalhos:

Serão avaliados manuscritos originais redigidos em português ou inglês. As regras de submissão e formatação de manuscrito estão disponíveis pelo link: http://www.revistas.usp.br/gestaodeprojetos/information/authors

Cronograma:

  • Lançamento da Chamada: 25 fevereiro de 2020;
  • Prazo para submissão de trabalhos: até 10 de setembro de 2020;
  • Prazo máximo para avaliação preliminar pelos editores e distribuição para revisores: 30 de setembro de 2020;
  • Prazo para retorno aos autores com o resultado da primeira rodada de avaliação: 15 outubro de 2020;
  • Prazo máximo para os autores submeterem versão revisada, caso seja demandado pelos revisores: 15 novembro de 2020;
  • Prazo para retorno aos autores com o resultado da segunda rodada de avaliação: 15 dezembro de 2020;
  • Prazo par eventuais ajustes de formatação pelos autores: 20 de janeiro de 2021;
  • Publicação: fevereiro de 2021.

Muito Obrigado.

Atenciosamente,

Márcio Minto FABRICIO

Professor

Instituto de Arquitetura e Urbanismo

Universidade de Sao Paulo

 Editor da Revista:

Gestão & Tecnologia de Projetos
http://www.revistas.usp.br/gestaodeprojetos


Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 739

 

Notas sobre a importância do silêncio na Arquitectura – Infohabitar # 739

 

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).


terça-feira, julho 14, 2020

Requalificar a cidade: imagem urbana e habitação – Infohabitar # 738

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 738

Requalificar a cidade: imagem urbana e habitação – Infohabitar # 738

por António Baptista Coelho (texto e imagens)

 

Edição: terça-feira, 14 de julho de 2020


Editorial

Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,

Na sequência dos últimos artigos, aqui editados, em que refletimos sobre uma paisagem urbana bem pormenorizada com base em misturas diversificadas de tipologias edificadas e respetivas estratégias de acessibilidade,

abordamos neste artigo as áreas da imagem urbana de proximidade e os seus essenciais contornos relativos aos aspetos de identidade, apropriação e escala humana, que devem estar bem presentes e marcar os espaços que habitamos interior e exteriormente.

Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),

despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,

Lisboa, Encarnação, em 6 de julho de 2020

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

Requalificar a cidade: imagem urbana e habitação – Infohabitar # 738

 António Baptista Coelho


Cidade reabitada e requalificada

As intervenções na cidade central e na cidade periférica são, evidentemente, distintas na respetiva natureza, mas podem e devem estar unificadas por um objetivo geral que concilie o reabitar e o reimaginar dos espaços urbanos.

Num tempo em que obrigatoriamente descobrimos as virtudes de um uso mais intenso dos nossos espaços domésticos, e que, de tal forma, também pusemos a nu muitas das suas deficiências, deveremos, também, aproveitar para repensar como tudo fazer para podermos viver a cidade mais intensa e prolongadamente, e assim reconquistaremos as três dimensões do habitar – do espaço doméstico ao espaço bem urbano e de permeio o espaço da vizinhança de proximidade.

Uma tal perspetiva faz realçar, entre tantos outros aspetos, a ideia de que “a cidade”, no sentido do espaço urbano global, ter de ser, cada vez mais, de pequena escala, isto é um espaço urbano feito de continuidades e sequências, bem cadenciadas, de outros mais pequenos espaços urbanos; e assim, sucessivamente, até às soleiras e aos peitoris das janelas e das portas domésticas ou para-domésticas.

Tal perspetiva vive, evidentemente, de uma excelente pormenorização, muito bem qualificada no seu desenho de arquitectura e muito sensível aos respectivos habitantes/utentes e aos próprios sítios que são habitados, preenchendo-se e reconstruindo-se continuidades urbanas, densificando-se estrategicamente para melhor vitalizar, mas também abrindo-se espaço público quando tal é aconselhável, e resgatando-se e recuperando-se uma atraente e motivadora imagem urbana, que passa por uma bem fundamentada escolha tipológica de conjuntos de edifícios e espaços públicos.

E desta forma, cumprindo-se um tal processo, que, repete-se, só é possível com excelente e humanamente empenhada Arquitectura, poderemos (re)construir um espaço urbano tão útil e tão globalmente sustentável, como visualmente estimulante e lúdico, pois de tal sorte as ferramentas de criação formais e funcionais terão enorme variedade em si mesmas e nas múltiplas possíveis e inesperadas combinações possíveis. 

E em tudo isto fica evidenciado o grande interesse e a oportunidade do refazer cidade, reabitando-a e reimaginando-a nas suas imagens e funções.

 

 

Fig. 01: os variados, estimulantes e sempre excelentes ambientes urbanos e residenciais de Alvalade, em Lisboa – urbanismo (verdadeira Arquitectura urbana) de Faria da Costa; uma malha tão citadina quanto residencial e que se reinventa, continuamente, com novos habitantes/utentes e até novas atividades.

Passear numa cidade de proximidades e vizinhanças

Fazer cidade ou refazer cidade tem tudo a ver com a “tentação de andar só mais cem metros, e depois mais outros cem”, devido ao encanto inesperado de edifícios históricos, mas também de simples lojas em esquinas e pracetas acolhedoras; escreveu-o Edmund White sobre Paris (1), mas podia tê-lo feito sobre qualquer cidade viva e à escala do homem, pois uma cidade deve proporcionar um complemento funcional mas também um verdadeiro suplemento de alma ao habitante.

Para além de ser funcional, no respeito de variados processos urbanísticos essenciais e muito ligados aos fluxos urbanos e de transportes públicos, a cidade deve estimular o passeio, a pé, pausado e agradável por sequências urbanas amigáveis, vivas, estimulantes e culturalmente enriquecedoras, e para tal há que saber fazer ou, frequentemente, refazer tais qualidades urbanas; e evidentemente tais aspectos dependem de uma verdadeira qualidade arquitectónica e urbanística, uma qualidade que vá além do desenho e que toque as pessoas, o que não é fácil, mas é hoje em dia essencial, neste século das cidades.

Interessa, já agora, referir aqui que uma tal aliança entre funcionalidade global urbana e uma respetiva, profunda  e global humanização pedonal não é mais do que harmonizar duas faces de uma mesma moeda, que têm estado, por sistema, apartadas: a funcionalidade urbana, tantas vezes mal servida por um planeamento muito pouco ligado a uma verdadeira satisfação dos habitantes/utentes, em que os equipamentos são previstos em termos de m2/habitante, sem se considerarem, quase por regra, vitais aspetos de continuidade e densidade urbanas; e uma visualidade limitada e apenas “turística”, onde se reconhecem e sobrevivem, à conta essencialmente dos chamados bairros históricos, aspetos de verdadeiro desenho urbano ou de arquitetura urbana considerados e tantas vezes criticados como “pitorescos”.

Mas não tenhamos dúvida de que uma boa cidade é tão funcional como visual, tão eficaz como estimulante e tão prática como passeável; e isto desde o centro às vizinhanças residenciais mais ou menos “secretas”, porque estrategicamente aproximadas dos pólos urbanos.

E é importante sublinhar que esta ampla e fundamental perspectiva de qualidade arquitectónica urbana e residencial – funcional e visual, funcional e formal – é frequentemente encontrada em muitos dos nossos bairros históricos e patrimoniais, mais coerentes e estimulantes.

Na prática, não tenhamos qualquer dúvida de que necessitamos de uma cidade, de bairros, de vizinhanças e de ruas mais passeáveis, mais amigáveis, mais habitáveis; e tudo isto tem a ver com a possibilidade que o habitante a pé tenha de viver intensa e prolongadamente esses espaços urbanos, usando e gozando a cidade em paz e com tempo, a pé, num quadro de base que promove, entre outros aspetos, uma fundamental calma no viver, a relação com a natureza e ocasiões e cenários mais conviviais e mais positivos em termos de segurança pública.

Uma cidade cujos remansos habilitem uma sua fruição prática e fluída, ou gostosa e vagarosa, ficando a opção para o habitante; e uma cidade que se ofereça ao seu habitante/utente com variadas opções de uso de proximidades e de sequências, proporcionando variados “estares” perto de casa, a uma escala quase doméstica ou pré-urbana, que serão extremamente úteis no equilibrar tanto do uso doméstico como do urbano.

E esta sempre libertadora opção pela cidade do vagar, evidentemente, não é inimiga, mas sim aliada de uma adequada estrutura de transportes públicos e de pólos de estacionamento, encontra bons modelos na cidade histórica e bem planeada (Alvalade/Areeiro está sempre presente) e liga-se a uma fundamental cidade diferenciada e de usos mistos, pontuada por bairros e pequenas vizinhanças que apetece habitar e que, para além desse prazer de habitar são verdadeiras fontes de vitalidade urbana.

(fig. 02) Um exterior de uso público para todos e bem vivo, que estimule a permanência e o vagar no seu uso e bem adequado aos habitantes mais sensíveis às condições de conforto – tão adequada como urbanamente sóbria reabilitação de uma rua do Porto; uma base “cinza” sobre a qual se evidenciam variados exemplares de simples e boa Arquitectura urbana.

Cidade do pormenor e da imagem urbana

Por variadas razões, a cidade tem de se reconciliar com a escala humana e com os usos pedonais, seja porque precisamos de reduzir as emissões de CO2, seja porque é urgente reconquistarmos o uso individual e convivial de ruas e pracetas. Não por qualquer razão nostálgica e eventualmente turística de se recuperar e eventualmente reinterpretar um espaço urbano marcado pelo arranjo espacial das portas de entrada e dos outros vãos e dos estimulantes espaços de transição entre interior e exterior; mas sim por ser desejável que a cidade volte “a ter como medidas de planeamento o peão e o utente do transporte público. Tal corresponderia, segundo penso, a uma ligação mais epidérmica com o espaço, à possibilidade de se instalar durabilidade” (e talvez verdadeira sustentabilidade) “no tempo de gozo da cidade” – escreveu-o António Pinto Ribeiro. (2)

Isto é possível em cidades e em espaços urbanos que associem nos mesmos espaços de proximidade diversas atividades compatíveis, que se ativem mutuamente – habitação, comércio, serviços e lazer – e cujos espaços urbanos se caraterizem por imagens estimulantes e que sirvam uma cidade do vagar e do pormenor, para além de cumprirem, naturalmente, os respetivos aspetos de funcionalidade e acessibilidade.

Misturas funcionais estas que atualmente serão cada vez mais possíveis e estimulantes com os mundos da virtualidade e da comunicação, com a livre e estimulante dimensão do trabalho em casa ou fora do escritório, com a variada disponibilidade de novos meios e plataformas de transporte urbano “individualizados”, com a libertação das entregas dos mais variados bens ao domicílio, com as mais variadas e imaginativas misturas funcionais em termos de pequenos equipamentos conviviais e, afinal, com o desenvolvimento da sociedade do lazer e da cultura. Tudo isto harmonizando-se muito bem com uma cidade da imagem urbana e, potencialmente (opcionalmente) do vagar e muito mal com a crua megacidade das zonas funcionais quase estanques e descaraterizadas.

Esta é uma das ideias-base defendidas neste texto: há critérios básicos de funcionalidade, acessibilidade e segurança que têm de ser cumpridos nas intervenções de construção e reabilitação de espaços públicos urbanos, mas a qualidade de uso global destes espaços depende não só destes aspetos mas de todo um outro conjunto de matérias de projeto, ligadas à humanização e qualificação dos respetivos usos e imagens urbanas, que são verdadeiramente vitais para o êxito destas intervenções; num verdadeiro “resgate” da importância vital que tem a boa “imagem urbana”, ou a verdadeira Arquitectura Urbana – e nesta matéria nunca será de mais lembrar o incontornável Gordon Cullen e o seu essencial livro “A Paisagem Urbana - Tratado de Estética Urbanística” (tradução do título, bem adequado, da edição espanhola de 1974, pela Editorial Blume).

E chegamos assim ao que se julga ser o atual interesse estratégico no desenvolvimento de uma boa imagem urbana, matéria que passa pela boa prática do desenho urbano ou de uma verdadeira Arquitectura Urbana, sensível, bem qualificada/dirigida e adequadamente pormenorizada; uma Arquitectura Urbana que, julga-se, obrigaria a uma adequada revisão curricular de algumas escolas de Arquitectura.

 

(Fig. 03) Uma boa intervenção numa vizinhança residencial bem viva no Centro Histórico de Tavira; e até nem parece difícil desenhar ou redesenhar um espaço público verdadeiramente habitável; que apetece habitar tanto quanto fotografar. E valeria a pena elaborar um pouco sobre esta imagem, por exemplo, onde se pressente um exterior abrigado e quase ao mesmo nível dos interiores contíguos, exteriores estes que, em conjunto com o teto arbóreo, definem um verdadeiro e grande, mas não “enorme”, “compartimento” exterior de vizinhança.

Imagem urbana, paisagem urbana

No entanto, e tal como escreveu Dina De Paoli, “o desenho urbano é pouco valorizado no cotidiano das pessoas, que apenas o valorizam quando percebem a sua ausência, uma vez que já tenham vivenciado espaços de qualidade. [e] Até mesmo os profissionais responsáveis por projetar e construir espaços, por vezes, o ignoram, sem reconhecer que o desenho urbano, além de agregar valor financeiro, agrega sustentabilidade e valores sociais, culturais e ambientais.” (3)

As matérias associadas ao desenho urbanos são múltiplas - espaciais, temporais, sociais, funcionais, estéticas e perceptivas – e, temos de o reconhecer, são de difícil aplicação, porque não é possível reduzi-las a regras e a regulamentos, e isso é difícil pois obriga a que as intervenções sejam fortemente baseadas em termos culturais e sociais, para além de dependerem de uma sensibilidade e qualidade projectuais que não estão ao alcance de todos e que se melhora claramente com uma prática continuada de intervenções.

E voltamos a citar Dina De Paoli, quando esta arquiteta salienta que Gordon Cullen (1961) não tinha a intenção de ditar regras para as cidades, mas sim manipulá-la dentro de certo grau de tolerância e, para isso, buscou novos valores e novos padrões. Propôs três maneiras de trazer vida ao ambiente construído. A primeira é o movimento através dos espaços (visão serial); a segunda, a percepção do lugar; e por fim, a terceira diz respeito à morfologia e ao conteúdo da cidade”, desenvolvendo-se “a constante atenção do ser humano sobre sua posição no espaço, seu sentimento de pertencimento ao lugar e a sua identidade, junto com a percepção de outros lugares.” (4)

E a mesma autora salienta que assim se evidencia “o objetivo de manipular, jogar com os elementos da cidade para que exerçam sobre as pessoas um impacto de ordem emocional, uma vez que o cérebro humano reage ao contraste, à diferença entre coisas, e, ao ser estimulado por duas imagens, ele percebe a existência desse contraste. Assim, a cidade torna-se visível num sentido mais profundo, animada de vida pelo vigor e drama dos seus contrastes, quando isso não acontece, ela passa despercebida, é uma cidade amorfa. Ao se desenhar a cidade segundo a ótica da pessoa que se desloca (pedestre ou de carro), a cidade passará a ser uma experiência eminentemente plástica.” (5)

Afinal, como escreveu Kevin Lynch, “a paisagem urbana é, para além de outras coisas, algo para ser apreciado, lembrando e contemplado” (LYNCH, 1960, p.09); e, podemos juntar: algo para nos emocionar, que dinamize a identidade e a apropriação em relação aos espaços urbanos que mais usamos ou que visitamos.

Naturalmente que todo este leque de potencialidades da imagem urbana, em termos da sua capacidade de moldar a paisagem da cidade tem aplicações diretas e muito efetivas nas intervenções de reabilitação de velhos espaços públicos mal-usados e arruinados, mas que integram em si excelentes qualidades de Arquitetura Urbana, por vezes realizada com relativa espontaneidade, mas sempre numa estreita relação com a cultura e a cidade, ao longo de séculos, e de outros espaços urbanos recentes e descaraterizados, que foram concebidos, praticamente, na ignorância desta disciplina urbanística, sem pontes de ligação quer com a cidade, quer com as suas próprias habitações e os seus próprios equipamentos – feitos estes no respeito de regras estritamente funcionalistas.

  

(fig. 04): A excelente intervenção de reabilitação urbana e de espaços públicos, integrada no Programa POLIS, no centro de Castelo Branco; este Programa tem, sem dúvida, interessantes intervenções ao nível dos espaços públicos disseminadas por Portugal e que se julga nunca terem sido devidamente “avaliadas” no sentido de bem percebidas e divulgadas nos seus diversos aspetos; e importa sublinhar que fazer intervenções como estas, em que o espaço público é verdadeiramente o “sujeito” evidenciado, é ainda matéria a salientar em Portugal.

Melhorar a urbanidade de espaços atualmente ditos “urbanos”

Atuar de tal forma correponde ao desenvolvimento de uma reabilitação urbana com influência direta na qualificação da cidade, designadamente, se uma tal intervenção em termos de imagem urbana estiver aliada a ações sustentadas de re-habitação e revitalização das zonas intervencionadas.

Visando-se uma cidade mais estimulante e habitada, uma cidade integrada por vizinhanças cuja imagem urbana seja requalificada ao serviço de uma melhor habitabilidade local e relacional, em espaços públicos que sejam, naturalmente, mais: defensáveis; conviviais e privatizados; eficazmente geridos; apropriáveis e verdadeiramente humanizados ou amistosos.

 

 

Fig. 05: Um bom exemplo de introdução de um moderno pequeno edifício de habitação de interesse social de promoção municipal num velho bairro de Lisboa, junto ao Largo do Conde Barão, edifício com projeto de Eugénio Castro caldas e Nuno Távora (2005).

Cidade e Habitação Apoiadas

Um aspeto que importa sublinhar é que recuperar a cidade para o cidadão a pé é assegurar boa parte do re-habitar da cidade; a outra parte refere-se à re-introdução estratégica, ao longo dessas desejáveis continuidades de espaços urbanos, de unidades residenciais diversificadas e de pequenos equipamentos conviviais.

De certa forma é uma opção por viver em habitação apoiada pela cidade e em habitação que apoia a cidade, e esta é, também e complementarmente, uma forma de desmistificar a “habitação social que é (a mais) apoiada”, abrindo lugar para a sua total integração com a restante habitação e com a cidade.

Nesta perspectiva e para além dos grupos sociais economicamente desfavorecidos há que pensar, especificamente, nos idosos, favorecendo-lhes a continuidade da boa vivência da sua cidade, mas também em novos habitantes especialmente disponíveis para participar na vitalização urbana local, como é o caso de jovens adultos e pequenos agregados familiares; e há que pensar seja nos apoios funcionais destas pessoas em termos de acessibilidades e equipamentos, seja no estímulo da sua vivência direta do exterior contíguo às suas habitações.

E as escolhas tipológicas dos novos e renovados edifícios pode privilegiar a mistura cuidadosa de vários tipos de níveis etários e de agregados familiares e pessoas sós, de vários tipos de soluções de acessibilidade, de vários tipos de fogos, de vários tipos de conjuntos de fogos e mesmo de vários tipos de pequenos quarteirões; e sempre numa adequada e dupla perspectiva de espaços edificados e exteriores.

Pois, afinal, será, em boa parte, nos espaços de transição entre habitação e cidade que se irão encontrar soluções estimulantes marcadas pela escala humana e que atuam, duplamente, seja no edificado que fica mais próximo e caraterizado pela vida da cidade, seja nos espaços públicos de proximidade, que se tornam mais sensíveis a um conteúdo que para além de urbano é residencial.

E aqui encontramos outro nível de intervenção da reabilitação urbana, que integra a intervenção nos espaços exteriores públicos com a melhoria, mais ou menos radical, dos respetivos edifícios envolventes, em ações integradas que maximizem as vantagens do mundo doméstico e urbano, do interior e exterior, estendendo o sentido de habitar para além da porta de entrada de cada habitação, mas garantindo, no exterior, segurança, conforto, legibilidade e identidade; afinal caraterísticas muito associadas ao interior e que assim se prolongam pelo exterior.

 

(Fig. 06) A ainda relativamente recente e excelente intervenção de pedonalização e reabilitação dos espaços públicos urbanos promovida pela Câmara Municipal de Lisboa no eixo da Av.ª Duque de Ávila, em Lisboa; agora estrategicamente estendida por outras microzonas contíguas da cidade de Lisboa.

Muito breves e sempre relativas conclusões

Conclui-se então esta reflexão com duas “préideias” básicas:

As ações de reabilitação dos espaços citadinos devem privilegiar boas soluções de imagem urbana, marcadas por continuidades afirmadas, atraentemente diferenciadas, funcionalmente mistas, que levem a cidade até à porta de muitas casas; e nestas continuidades urbanas há que integrar uma estimulante diversidade de oferta habitacional e de equipamentos conviviais.


Notas:

(1) Edmund White – “O Flâneur – Um passeio pelos Paradoxos de Paris. São Paulo, Companhia das Letras, Colecção “O Escritor e a Cidade”, 2001. O excerto foi retirado do artigo de Andréia Azevedo Soares, intitulado “O Flâneur – Um passeio pelos Paradoxos de Paris – Passear por uma Paris menos óbvia”, saído no suplemento “Fugas” do jornal “ Público” de 2002/09/28. Este mesmo livro foi, entretanto, editado entre nós pela editora ASA na Colecção “O Escritor e a Cidade.”

(2) António Pinto Ribeiro, “Abrigos: condições das cidades e energia das culturas”, 2004, p. 18.

(3) Dina De Paoli, “O Valor do desenho urbano na construção de bairros habitacionais e comunidades”, Tese de Doutoramento em Arquitetura, apresentada e discutida/aprovada na Universidade Estadual de Campinas- Unicamp, Campinas, SP, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, 2014, pp. 22 e 23.

(4) Ibid. p. 27.

(5) Ibid. p. 28.

Nota final: a versão inicial deste artigo correspondeu a uma das intervenções do autor no âmbito da Semana da Reabilitação Urbana Lisboa 2014, e designadamente nos Workshops Reabilitação e Conservação do Espaço Construído, que tiveram lugar no Cntro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil - LNEC - em 26 de março de 2014. Em 30 de março de 2014 esta versão foi publicada no n.º 478 da Infohabitar.

O presente artigo corresponde a uma versão profundamente revista e aumentada do referido

 

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 738 


Requalificar a cidade: imagem urbana e habitação – Infohabitar # 738

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).


terça-feira, julho 07, 2020

Apresentação do Volume 15, n.º 2 da Gestão & Tecnologia de Projetos – Infohabitar # 737

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.

Infohabitar, Ano XVI, n.º 737

Apresentação do Volume 15, n.º 2 da Gestão & Tecnologia de Projetos – Infohabitar # 737

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

 

Edição: terça-feira, 7 de julho de 2020

 

Editorial # 737

Caros leitores da Infohabitar,

Este número da nossa Infohabitar é especialmente dedicado à apresentação pormenorizada de uma recente e excelente revista científica e técnica, o Volume 15, n. 2 (2020) da revista Gestão & Tecnologia de Projetos, do IAU-USP, aproveitando-se, ainda, a oportunidade para se divulgar um próximo Webinar da FAU Mack sobre temáticas bem atuais.

É, assim, com todo o gosto que divulgamos, com algum pormenor, neste número da Infohabitar, o Volume 15, n. 2 (2020) da revista Gestão & Tecnologia de Projetos, que “oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento” (citação de texto da própria revista).

A excelente Gestão e Tecnologia de Projetos tem periodicidade é editada pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo [IAU-USP] de São Carlos - SP, Brasil, e tem como editores os professores da USP, Sheila W. Ornstein e Márcio M. Fabricio, que aqui saudamos.

Neste número da nossa Infohabitar divulga-se o sumário deste número da Gestão & Tecnologia de Projetos, e, sequencialmente, o respetivo editorial, no qual os respetivos editores desenvolvem uma apresentação comentada do conteúdo dos diversos artigos.

No entanto não podemos deixar de sublinhar, desde já, o interesse deste importante meio de divulgação técnica e científica, que proporciona, sob o objetivo comum da investigação sobre a melhoria do habitat humano, num sentido amplo, teórico e aplicado (a Gestão & Tecnologia de Projetos), a apresentação de pesquisas temáticas distintas ou específicas nas sua bases disciplinares, numa partilha de conhecimentos entre diversas disciplinas científicas e técnicas que é sempre de louvar e sublinhar no importante papel que tem esta perspetiva para um expressivo e aplicado  avanço do conhecimento em termos da satisfação humana com o seu habitat.

O link para o Volume 15, n. 2 (2020) da revista Gestão & Tecnologia de Projetos é o seguinte:

http://www.revistas.usp.br/gestaodeprojetos/issue/view/11522/V15%20N2

Aproveitando-se, ainda, esta oportunidade de divulgação leva-se ao conhecimento dos interessados a realização do 3º Webinar FAU+ D Mackenzie, com o Projeto em Debate: “Enfrentamentos da COVID-19 em territórios vulneráveis”, data 09/07/2020 (quinta-feira próxima) pelas 18h00 (naturalmente horário do Brasil) .

Do que se irá tratar neste webinar: Debate sobre distintas experiências de enfrentamento da COVID-19 em territórios vulneráveis, compostas por atividades de monitoramento, análises, prototipagem de ações piloto, construção de arranjos institucionais e formas de governança. Essas experiências partem da interpretação das especificidades de cada contexto socioterritorial com foco ao subsídio à formulação de ações efetivas de forma colaborativa entre comunidades, universidades, instituições do terceiro setor e governo; Expositoras: Renata Maria Pinto Moreira (UFABC); Danielle Cavalcanti Klintowitz(Instituto Pólis); Mariana Neubern de Souza Almeida (Fundação Tide Setubal); Debate: Fernando de Mello Franco (Fau Mackenzie); Moderadora: Ana Paula Calvo ( Fau Mackenzie).

Canal: YouTube FAU Mackenzie 

https://bit.ly/2VjJQoR ( acesso livre)

Com as melhores saudações,

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

Lisboa, Encarnação, em 6 de julho de 2020

 

SUMÁRIO do Volume 15, n. 2 (2020) da revista Gestão & Tecnologia de Projetos

 

Editorial

Sheila W. Ornstein, Márcio M. Fabricio


Alta Tecnologia e Reúso de materiais descartados: desenvolvimento de um painel decorativo para a melhoria do desempenho térmico em edificações

HIGH TECHNOLOGY AND REUSE OF WASTE MATERIALS: DEVELOPING ADECORATIVE PANEL FOR IMPROVEMENT OF THERMAL PERFORMANCE

Maikol Yoshie Yabuki, Caio Gomide Otoni, Maria Gabriela Caffarena Celani

 

Operacionalização da aplicação de parâmetros de projeto através do Enriquecimento Semântico de Modelagem de Informação de Construção no estágio de concepção social

OPERATIONALIZATION OF DESIGN PARAMETERS THROUGH SEMANTICENRICHMENT IN BIM MODELS OF SOCIAL HOUSING

Giovanna Tomczinski Novellini Brígitte, Regina Coeli Ruschel

 

Como você mora: sistema interativo de avaliação pós-ocupação em meios digitais

HOW DO YOU LIVE: POST-OCCUPANCY EVALUATIONINTERACTIVE SYSTEM IN DIGITAL MEDIA

Simone Barbosa Villa, Dominique Cunha Bruno, Ana Luísa Trevisan dos Santos, Camila Ribeiro Leão

 

Tecnologias assistivas destinadas a orientação espacial, identificação de obstáculos e guiamento de pessoas com deficiência visual

ASSISTIVE TECHNOLOGIES FOR PERCEPTION AND SPACE ORIENTATION OF PEOPLE WITH VISUAL DISABILITY

Bianca Maria Vasconcelos, Bruno de Sousa Teti, Amanda de Morais AlvesFigueira, Lorena Maria da Silva Gonçalves

 

Integrando simulações de iluminação natural no processo de projeto: análises comparativas entre duas plataformas computacionais

INTEGRATING DAYLIGHT SIMULATION ON DESIGN PROCESS: COMPARATIVE ANALYSIS BETWEEN TWO COMPUTATIONAL PLATFORMS

Marina da Silva Garcia, Roberta Vieira Gonçalves de Souza, Maíra Louise Martins, Ana Carolina de Oliveira Veloso

 

Lógica algorítmica-paramétrica e urbanismo: uma revisão teórica e de modelos computacionais para projetos urbanos

ALGORITHMIC-PARAMETRIC LOGIC AND URBANISM: A THEORETICAL AND A COMPUTATIONAL MODEL REVIEW FOR URBAN DESIGN

Fernando Lima, Frederico Ribeiro Costa, Ashiley Rosa

 

Diretrizes para projeto de ambiente construído inclusivo (pessoas com deficiência auditiva) : revisão sistemática

DESIGN GUIDELINES FOR INCLUSIVE BUILT ENVIRONMENT (HEARING IMPAIRED PEOPLE): SYSTEMATIC REVIEW

Bianca Maria Vasconcelos, Vanessa Santana Oliveira


Fig. 01: Capa da Gestão & Tecnologia de Projetos, Volume 15 N.º 2 (2020)


Editorial da Gestão & Tecnologia de Projetos, Volume 15 Número 2 (2020)

É com satisfação que os editores da Gestão & Tecnologia de Projetos apre sentam a segunda edição de 2020. Esta edição da GTP, contempla um conjunto de artigos com destaque para as interfaces entre arquitetura, urbanismo, engenharia e design, os procedimentos das Revisões Sistemáticas de Literatura, as simulações e modelagens computacionais e os ensaios tecnológicos, com diversos desdobramentos atuais e futuros possíveis em termos de pesquisa e inovação.

Esta cobertura de temas de largo espectro é próprio das linhas de pesquisa abrangidas pela Revista e evidenciam, cada vez, mais a relevância das temáticas interdisciplinares.

 

O artigo, “Alta Tecnologia e Reúso de materiais descartados: desenvolvimento de um painel decorativo para a melhoria do desempenho térmico em edificações”, de M.Y.Yabuki, C. Otoni, M.G. C. Celani, é destacada a expressiva  geração de resíduos sólidos que são devolvidos a natureza, sem tratamento ou reutilização. E nesta mesma direção, destaca também a importância das cooperativas de reciclagem para a seleção de materiais reciclados e sua reinserção no ciclo produtivo da construção civil. Para tanto, os autores adotam as premissas do Design Science Research, com características interdisciplinares para a criação de um artefato produzido com materiais descartados, na forma de um componente arquitetônico e ornamental de acabamento.

Neste experimento, adotou-se o polietireno para o desenvolvimento de placas de acabamento especificadas para forros. Na modulação do painel foram utilizados modelos paramétricos digitais mediante o uso de impressora 3D.

Como resultado, o plástico mostrou-se útil para a reciclagem e o artefato decorrente com potencial para redução de consumo energético associados a incrementos de conforto térmico, atributos esses que poderão agregar valor na sua fabricação.

 

Em sequência, o artigo “Operacionalização da aplicação de parâmetros de projeto através do Enriquecimento Semântico de Modelagem de Informação de Construção no estágio de concepção social”, de G.T.N. Brígitte, R. C. Ruschel destacam a importância da utilização do BIM na concepção de projetos através do Enriquecimento Semântico para o caso da Habitação Social.

Para tanto, as autoras partem da linguagem de padrões definidas há décadas atrás por Alexander et al. (1977) e desenvolvem algoritmos de parâmetros de projeto por meio de programação visual em BIM. São adotados 74 parâmetros de projeto (baseados em Barros, 2008) nas escalas da urbanidade e da habitabilidade. Para a chamada algoritmização de cada um desses parâmetros, são identificadas as variáveis como atributos para se atingir a modelagem BIM e explicadas as rotinas de automação. As autoras constataram a relevância do Enriquecimento Semântico de BIM para a avaliação de projeto em suas etapas iniciais (concepção), particularmente no caso do programa de necessidades das Habitações Sociais, otimizando, desta feita, as tomadas de decisão nas etapas preliminares de projeto.

 

O terceiro artigo desta edição, “Tecnologias assistivas destinadas a orientação espacial, identificação de obstáculos e guiamento de pessoas com deficiência visual”, de B. M. Vasconcelos, B. de S. Teti, A. de M. A. Figueira e L.M. das S. Gonçalves, tem como objetivo central a Revisão Sistemática da Literatura a partir de procedimentos metodológicos do PRISMA, utilizando, com muita acuracidade, palavras-chave e descritores booleanos para a seleção de artigos nacionais e internacionais, especialmente a partir de 2009 e explora o uso de tecnologias assistivas com vistas a ambientes externos e internos aos edifícios. O estudo abrange também tecnologias apoiadas em dispositivos como smart phones, tablets e computadores. A pesquisa aponta, ao final o potencial das tecnologias assistivas para a redução, de modo seguro, de percursos realizados por pessoas com deficiência visual, no caso de ambientes externos. Porém enfatiza que as limitações impostas pelo sinal de GPS e de GIS em ambientes internos, impede, até o momento, a integração plena dessas tecnologias assistivas, reduzindo, deste modo, a sua eficácia.

 

O trabalho, “Integrando simulações de iluminação natural no processo de projeto: análises comparativas entre duas plataformas computacionais”, de M. S. Garcia, R.V.G. de Souza, M.L.M. de Freitas e A.C. de O. Veloso, parte de consistente Revisão Sistemática da Literatura sobre plataformas computacionais (simulações) existentes que visam integrar a iluminação natural com o projeto, especialmente com o uso do BIM. Nesta perspectiva, foram comparadas as plataformas computacionais Insight 360 e DIVA, tendo Belo Horizonte como estudo de caso. Na comparação foram adotados critérios de modelagem como geometria, localização, propriedades óticas dos materiais e outros. O artigo conclui pela importância da predição da iluminação natural para as áreas de conforto e de eficiência energética, buscando sempre a integração com o BIM. Por outro lado, expõe as vantagens e as desvantagens das duas plataformas no caso do processo de projeto de arquitetura e a necessidade de realização de medições in situ, para validação dos resultados apresentados.

 

O artigo, “Lógica algorítmica-paramétrica e urbanismo: uma revisão teórica e de modelos computacionais para projetos urbanos”, F. Lima, F.R.Costa e A. Rosa exploram, a partir de uma ampla revisão bibliográfica, as potencialidades e as limitações sobre o uso de modelos computacionais para a definição de cenários relativos a projetos urbanos. Para tanto, apresentam diversas ferramentas e finalizam com uma análise comparativa entre modelos e concluem pela necessidade de ampliação dos estudos científicos sobre essas modelagens com vistas a apoiar as decisões dos planejadores urbanos.

 

O sétimo artigo desta edição, “Como você mora: sistema interativo de avaliação pós-ocupação em meios digitais” de autoria de S. B. Villa, D. C. Bruno, A. L. Trevisan e C. R. Leão utilizam a avaliação pós-ocupação para  discutir e aprimorar a qualidade da moradia. O trabalho faz parte de uma ampla: “[COMO VOCÊ MORA] Sistema interativo de APO da qualidade do habitar em meios digitais” e a artigo avalia o desempenho do aplicativo CVM em testes realizados na cidade de Uberlândia, MG e utiliza como método a “Verbalização de Procedimentos”.

 

No oitavo artigo, “Diretrizes para projeto de ambiente construído inclusivo (pessoas com deficiência auditiva) : revisão sistemática”, B.M. Vasconcelos e V.S.Oliveira, são adotados os procedimentos do PRISMA para a revisão sistemática da literatura. Foi possível evidenciar que no contexto do Desenho Universal, existem poucos estudos voltados a diretrizes de projeto com vistas a autonomia de pessoas com deficiência auditiva. Assim, as autoras buscaram definir, a partir dos preceitos do DeafSpace, diretrizes de acessibilidade específicas para pessoas com deficiência auditiva, tais como alcance sensorial, acústica e interferências eletromagnéticas, luz e cor, espaço e proximidade, mobilidade e proximidade e outras. Ao fim, as autoras indicam a necessidade de validação futura das diretrizes elencadas por meio de um experimento num ambiente construído adaptado.

 

Desejamos a todos uma ótima leitura!

Sheila W. Ornstein

Márcio M. Fabricio

Editores da Revista Gestão & Tecnologia de Projetos

 

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 737

Apresentação do Volume 15, n.º 2 da Gestão & Tecnologia de Projetos – Infohabitar # 737

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).