segunda-feira, maio 19, 2008

197 - O Jardim Ampliado – artigo de Milton Botler - Infohabitar 197

 - Infohabitar 197
Tem sido uma alegria frequente a entrada de novos amigos nesta pequena mas excelente aventura da edição no Infohabitar, e é, portanto, com uma muito especial satisfação que editamos hoje um novo colega, o arquitecto Milton Botler, com um estimulante texto sobre a ampliação da ideia do jardim no contexto da nova cidade globalizada.

É muito interessante a forma como estes novos colegas de edição chegam ao nosso espaço, um espaço que nos seus melhores períodos de 24 horas de leitura chega já a cerca de 800 consultas de artigos; e aqui chegam, como foi o caso do arquitecto Milton Botler, através da simples leitura de um dado artigo, neste caso o último que saiu, sobre o jardim e a cidade, e, depois, há o simples contacto com a edição do nosso Infohabitar e a nossa esfera editorial se alarga com naturalidade, enriquecendo-se todos os que aqui se reúnem escrevendo, lendo e enviando mensagens em que, frequentemente, manifestam a sua satisfação para com este nosso fórum semanal de discussão e divulgação sobre o habitar e a cidade alaragada de hoje em dia.

A todos os amigos que cooperam com o Infohabitar das mais variadas formas envia-se, aqui, um abraço fraterno, numa altura em que os indicadores das nossas leituras estarão no limiar do número 100.000; e chama-se a atenção para uma funcionalidade que se encontra no final da listagem da margem direita e que é um pequeno motor de busca por assunto nas edições do Infohabitar.



Foto: um jardim ampliado e bem humanizado no Recife, imagem de ABCoelho.

Esta introdução já vai longa! Portanto fiquemos então com o “jardim ampliado” de Milton Botler, a quem agradecemos este artigo, que não será, com certeza, o seu único artigo no Infohabitar, até porque se entende, no teor do seu texto e no excelente leque bibliográfico que suporta este seu artigo, que estamos em presença de alguém cujas preocupações muito têm em comum com as daqueles que têm dado vida ao Infohabitar e ao Grupo Habitar, preocupações amplas, fundamentadas, estruturalmente multidisciplinares e claramente sensíveis a um objectivo central que é fazer um habitar e uma cidade humanizados e com valia cultural.

E fica aqui a promessa deste editor de vir a fazer um artigo em que divulguem algumas imagens de casos de “jardins ampliados” do lado de cá do Atlântico e onde fale também, um pouco, destas excelentes matérias que podem e devem fazer o jardim ultrapassar as suas margens tradicionais; e a única imagem que aqui se junta é apenas um exemplo a título de confirnação firme deste compromisso; conte com isso caro colega Milton Botler.

Milton Botler é Arquitecto e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco, foi coordenador do Programa de Reabilitação de Áreas Urbanas Centrais, Governo Federal e Ministério das Cidades e é actualmente assessor especial de urbanismo da Prefeitura do Recife, Brasil; e considerando o currículo e a simpatia do imediato envio deste excelente artigo, fica desde já aqui registado o evidente interesse de o Infohabitar poder vir a editar e divulgar outros artigos do autor em áreas temáticas cruciais para as cidades do século XXI e, designadamente, na área de uma reabilitação urbana humanamente sustentada.

E fica aqui o desafio para o envio de novos artigos sobre este fundamental tema duplo do “jardim e da cidade” e do “jardim ampliado”, quem sabe, talvez uma temática crucial neste tempo de mega-cidades.




Foto: o jardim e a mega-cidade, imagem de ABCoelho.

António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar




O Jardim Ampliado:Paisagismo e imaginário Urbano no Ambiente de Globalização


Milton Botler (*)


Nota introdutória sobre as imagens que ilustram o artigo: as imagens apresentam exemplos do caráter homogêneo do ambiente de globalização, e de sua paisagem, predominantemente determinado pelas demandas dos padrões de consumo internacionais. O patrimônio local convertido em Shopping centers e business districts que reproduzem, no interior dos edifícios, uma parcela do repertório urbano, repletos de ruas, praças e, sobretudo, grandes áreas de lazer e entretenimento. Locais que beiram o limiar de simulacro de espaço público, na forma de “jardins ampliados”.

Este texto faz uma breve abordagem sobre o sentido da paisagem urbana contemporânea e do paisagismo, na forma de ser interpretar a ordem e a organização dos elementos dessa paisagem.

Nos atuais processos de integração entre cidades são estabelecidos novos domínios e limites espaciais que conformam um “ambiente de globalização”. Genericamente, poderíamos entender esse ambiente como nos apresenta Castells (1999) (1), na forma de pontos nodais, os centros de comando para onde convergem os fluxos de uma sociedade organizada em rede.




Procuramos delimitar esse espaço na idéia de um “ambiente de globalização” que compreende, também, sua dimensão física, os usos, as atividades e as formas de sua apropriação. De um lado, ele é ordenado e organizado para representar o espaço de interação global das cidades e tende a se homogeneizar, também, enquanto ambiente e paisagem. De outro, ordenado e organizado para representar o espaço especifico, o lugar, tende a se diferenciar e a se diversificar. Trata-se aqui, evidentemente, de procurarmos situar a paisagem no campo das identidades locais (Cf, Hall, 1998) (2).



Foto 01 – Puerto Madero, Buenos Aires. Um dos grandes exemplos de requalificação de antigas áreas portuárias para criar um ambiente de globalização na América latina. Foto de Geraldo Marinho

O termo “paisagismo”, ou a atividade, conforme observou Gregotti (1975), está ligado à cultura arquitetônica, tomado da tradição do landscape: “para a arquitetura, a noção de paisagem como material operável, que supere a noção de “jardim”, nasce nos fins do século XVI e foi amplamente usado como elemento de estruturação da cidade barroca”. As origens modernas do “Landscape” estão associadas ao mito iluminista do bom selvagem, ao descobrimento cultural do mundo oriental chinês e japonês e à literatura de viagens; o próprio desenvolvimento do colonialismo recarrega de elementos sobrenaturais (a lembrança da floresta, do lugar selvagem) a natureza doméstica” (3).

Permitimo-nos retroceder nessa abordagem a alguns elementos semiológicos que julgamos pertinentes. De fato, a idéia de “jardim” foi colocada por Gregotti como uma contraposição entre a escala do espaço privado – sobretudo a do jardim oitocentista que recriava um microcosmo do espaço público para os interiores da burguesia francesa (Arantes, 1993) (4) – e a “escala geográfica” do paisagismo, estendida às cidades e às regiões. Assim, para a cultura urbanística, o jardim pode concentrar toda uma carga de significados referenciais da esfera privada, enquanto a praça, da esfera pública (Cf. Saldanha, 1993) (5). Embora a noção de praça seja demasiado restrita para representar toda a complexidade de recriação de um microcosmo, papel desempenhado, por exemplo, pelos jardins sagrados de determinados povos da antiguidade, conforme observou Mircea Eliade (1992) (6).




Foto 02 – Rua da Moeda. Área de entorno do Paço Alfândega. Convertida em área de entretenimento turístico. Foto Milton Botler.


Na ausência de uma imagem específica, a recriação, conceitual, de um “jardim ampliado” parece-nos, portanto, uma idéia mais apropriada para designar o papel do paisagismo no universo urbano: a ordenação e a organização de um microcosmo que agrega as mais variadas referências de representação da natureza e do artefato urbano para compor o lugar onde se vive.

No entanto, é do ponto de vista histórico que podemos percebe mais facilmente o processo de transformação da natureza e da busca por tentar representá-la para o interior do mundo urbanizado. Conforme observou Gregotti (Op. cit.1985), a crescente urbanização desencadeada a parir da revolução industrial tornou escassos os espaços e áreas verdes, sendo restringidos os elementos da natureza aos limites dos parques públicos – o autor estende a noção aos grandes parques nacionais.

Neste sentido, observa Le Goff (1997) (7) que “tornando-se um continuum, o espaço urbano já não se distingue tanto do espaço rural. Diminuída a diferença na realidade, ela só vem ampliada na imaginação. É assim que os ecologistas, procurando em vão o campo que escorre entre nossos dedos, aproximam-se do ideal da floresta que, na Idade Média, era, ao contrário, o lugar de repulsa. A floresta lhes parece de repente mais natural. Ela se torna, com uma imagem perfeitamente invertida, encarnação sedutora da natureza”.

As respostas do urbanismo moderno foram variadas, mas sempre voltadas à recuperação ou à recriação de uma natureza perdida, numa espécie de referência aos arquétipos do paraíso, próximo à representação do jardim do éden para a mitologia ocidental judaico-cristã.

As cidades jardins inglesas, preconizadas por Ebnezer Howard, por exemplo, consistiam num interessante modelo que buscou compatibilizar o campo e a cidade industrial, na segunda metade do século XIX. No centro dessa estrutura urbana definiam-se, material e simbolicamente, o parque e o jardim. Este último, uma idéia ampliada do espaço doméstico, estendido à esfera pública, como representação de uma noção de intimidade disseminada na Inglaterra, na era vitoriana – e que se conserva, ainda hoje, como elemento característico da identidade britânica.

A cidade industrial preconizada por Tony Garnier anteciparia o modelo funcionalista desenvolvido pouco mais tarde por Le Corbusier, cujos princípios urbanísticos foram consolidados na Carta de Atenas, em 1933. Ali, a cidade modernista seria pautada por ideário que acreditava representar o progresso da sociedade através do avanço da ciência e da tecnologia. Esse ideário compreenderia, sobretudo, um amplo projeto social concebido para um determinado “homem moderno” e atenderia, funcionalmente, às suas necessidades básicas: trabalhar, circular, habitar e usufruir o lazer. O “jardim ampliado” aparece no modelo “corbusiano”, principalmente, através da concepção do “pilotis” que tem como finalidade a liberação do solo para que a paisagem possa ser percebida e apropriada de forma livre e contínua – Brasília, possivelmente, representa a mais plena realização desse ideário.

A paisagem da cidade contemporânea, no entanto, começa a ser esboçada a partir de outros referenciais. Não mais voltada para um homem moderno, homogêneo e socializado, mas para um sujeito dividido entre o local e o global. Suas cidades, por extensão, são também projetadas para essas duas esferas. Não mais a cidade industrial, mas uma rede de cidades articuladas em torno de um setor terciário moderno, tendo como suporte um avançado aparato tecnológico por onde se movimentam os fluxos da economia global. Uma espécie de “jardim ampliado” de representação do espaço das elites gerenciais que comandam a economia global. Conforme observa Castells (Op. Cit, 1999) esses grupos hegemônicos situam-se de forma ambígua, entre o caráter cosmopolita das elites e o caráter local das pessoas: “O espaço de poder e riqueza é projetado pelo mundo, enquanto a vida e a experiência das pessoas ficam enraizadas em lugares, em sua cultura, em sua história”.






Fotos 03 ­e 04 – Vista do exterior e Praça central do Paço Alfândega, no Recife. Antigo convento fundado no século XVII, convertido em depósito alfandegário e, hoje, em shopping Center. Foto de Fred Jordão/Imago

Uma certa dualidade entre a lógica da dominação, representada pela cultura global das elites, e uma lógica da resistência ou, da conservação (8), representada pela cultura local das pessoas. Assim, o caráter homogêneo do ambiente de globalização, e de sua paisagem, será predominantemente determinado pelas demandas dos padrões de consumo internacionais: shopping centers e business districts que reproduzem, no interior dos edifícios, uma parcela do repertório urbano, repletos de ruas e praças; resorts, parques temáticos e, sobretudo, grandes áreas de lazer e entretenimento. Locais que beiram o limiar de simulacro de espaço público, na forma de “jardins ampliados”, destinados à atender um determinado público consumidor e protegido por um tipo de fronteira sutilmente delimitada em “muralhas invisíveis”, como bem observou Sevcenko (1985) (9).


Num movimento complementar, são conservados os monumentos (cf. Rossi, 1982) (10), as referências urbanas de valor socialmente reconhecido que identificam e dão sentido à idéia de lugar. Contudo, é importante a percepção de que a recuperação do espaço referencial, tanto a arquitetura ou os fragmentos de uma “natureza original”, mantém aquela ambigüidade entre o local e o global: a rua do Bom Jesus, símbolo da recuperação do antigo bairro do Recife, serve de depósito de uma identidade histórica da cidade – das colonizações portuguesa e holandesa, da presença dos primeiros judeus nas Américas, do “afrancesamento” do centro urbano na primeira revitalização da região portuária, no início do século XX – mas seu sentido é semelhante, por exemplo, ao da Zona Rosa, na cidade do México, do Puerto Madero em Buenos em Buenos Aires, ou do Pelourinho, em Salvador. Consiste num sentido estratégico, de caráter global, da tradução do acervo cultural em “capital simbólico”.



Foto 05 – Rua do Bom Jesus, no Recife, Brasil. Antiga rua dos Judeus, do período da ocupação holandesa, onde está a primeira sinagoga das Américas. Convertida em área de entretenimento turístico. Foto de Fred Jordão/Imago

Num sentido mais geral, o patrimônio cultural, notadamente o patrimônio edificado, passa a integrar o acervo ambiental, a identificar e pontuar uma diversificação de paisagens entre as cidades. O mesmo ambiente e aparato tecnológico que dá suporte a esse processo de regeneração das cidades possibilitam, por sua vez, um movimento de articulação em torno da conservação do planeta. Referimo-nos, é claro, ao emergir do ambientalismo na pauta da política internacional, ante a perspectiva de esgotamento dos recursos naturais e da própria vida. Nesse contexto, os limites da urbanização são redefinidos em função dos discursos construídos em torno do desenvolvimento sustentável – da exploração racional dos recursos naturais, da conservação do meio ambiente e da qualidade de vida. Ao nosso ver, essas são algumas relações que permitem uma melhor aproximação sobre o sentido da paisagem urbana contemporânea.




Figuras 06 e 07 – maquetes eletrônicas para o “Projeto Recife-Olinda”. Uma estratégia de inserção do centro antigo do Recife no ambiente da globalização desenvolvido pela Parque Expo de Portugal; imagens da Parque Expo.

As respostas do urbanismo são novamente variadas e reinterpretadas através de “Planos Estratégicos” e do “Projeto Urbano” (Cf. Borja e Castells, 1997) (11). Neles são selecionados os elementos estratégicos, prioritários, num conjunto de intervenções que, colocadas sob os limites da conservação ambiental, do desenvolvimento sustentável, visam recuperar a vitalidade urbana e integrar as cidades no ambiente de globalização. Nessa dinâmica, a paisagem urbana do ambiente globalizado retorna como objeto de recomposição. De reunião de elementos representativos de “padrões de qualidade de vida” que resultam, novamente, pelo menos na imaginação, em sucessivos “jardins ampliados”.


(*) Arquiteto e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco. Foi coordenador do Programa de Reabilitação s de Áreas Urbanas Centrais, Governo Federal, Ministério das Cidades e atualmente é assessor especial de urbanismo da Prefeitura do Recife, Brasil.

Notas:
(1) CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. Paz e Terra, São Paulo, 1999
(2) HALL, Stuart. Identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A, 1998.
(3) GREGOTTI, Vittorio. Território da Arquitetura. São Paulo, Perspectiva, 1975.
(4) ARANTES, Otília. O lugar da Arquitetura Depois dos Modernos. São Paulo, Edusp, 1993.
(5) SALDANHA, Nelson. O Jardim e a Praça. Edusp, São Paulo, 1993.
(6) ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno. São Paulo, Mercuryo, 1992. A obra original foi publicada em francês, em 1949.
(7) LE GOFF, Jacques, Por Amor às Cidades. UNESP, São Paulo, 1998.
(8) O termo conservação foi adotado como interpretação da idéia desenvolvida por Castells (1999) para abranger o sentido do termo no vocabulário urbanístico.
(9) SEVCENKO, Nikolau. As Muralhas Invisíveis da Babilônia Moderna. Oculom, Revista de Arquitetura, Arte e Cultura, nº1, anoo II, 1985.
(10) ROSSI, A. La Arquitectura de la Ciudad. Barcelona, Gustavo Gili,1982.
(11) BORJA, Jordi. e CASTELLS, Manuel. Local y global: La Gestión de las Ciudades en la Era de la Información. Taurus, Madrid, 1997.
Referências Bibliográficas


ARANTES, Otília. “O lugar da Arquitetura Depois dos Modernos”. São Paulo, Edusp, 1993

CASTELLS, Manuel. “A Sociedade em Rede”. Paz e Terra, São Paulo, 1999.

BORJA, Jordi. e CASTELLS, Manuel. “Local y global: La Gestión de las Ciudades en la Era de la Información”. Taurus, Madrid, 1997.

LE GOFF, Jacques, “Por Amor às Cidades”. UNESP, São Paulo, 1998.

ELIADE, Mircea. “O Mito do Eterno Retorno”. São Paulo, Mercuryo, 1992. A obra original foi publicada em francês, em 1949

GREGOTTI, Vittorio. “Território da Arquitetura”. São Paulo, Perspectiva, 1975.

HALL, Stuart. “Identidade Cultural na pós-modernidade”. Rio de Janeiro, DP&A, 1998.

ROSSI, A. “La Arquitectura de la Ciudad”. Barcelona, Gustavo Gili,1982.

SALDANHA, Nelson. “O Jardim e a Praça”. Edusp, São Paulo, 1993.

SEVCENKO, Nikolau. “As Muralhas Invisíveis da Babilônia Moderna”. Oculom, Revista de Arquitetura, Arte e Cultura, nº1, anoo II, 1985.

Nota complementar:
A edição do Infohabitar não quer deixar de registar a nota enviada pelo autor deste artigo no sentido de evidenciar o grande interesse da obra do jurista e fiósofo Nelson Saldanha, “O Jardim e a Praça”, acima referida e que é considerada como um trabalho fundamental na área do estudo sobre as esferas pública e privada.

Artigo preparado para edição em 2008-05-17, por António Baptista Coelho.
Artigo editado no Infohabitar em 2008-05-18, por José Baptista Coelho.
Infohabitar: Lisboa, Encarnação – Olivais Norte.

segunda-feira, maio 12, 2008

196 - SOBRE OS JARDINS E O HABITAR (I) – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 196

 - Infohabitar 196


SOBRE OS JARDINS E O HABITAR (I)NOTAS INICIAIS E UM PRIMEIRO ENQUADRAMENTO

António Baptista Coelho

Este constitui o primeiro de uma série de artigos sobre jardins, uma série que se deseja longa, embora, naturalmente, não contínua, na sua sequência editorial.
Importa referir que esta série já estava há muito tempo na mente de muitos daqueles que têm cooperado nesta excelente aventura editorial, que é o Infohabitar, e que se pretende que ela seja partilhada por vários autores e por diversas perspectivas de abordagem à essencial importância dos pequenos e grandes jardins urbanos nas cidades de sempre e, especialmente, nas cidades de hoje.



Fig. 01: uma alameda do grande jardim urbano no centro das Caldas da Rainha.

Vamos, então, começar por algumas notas genéricas sobre a natureza do jardim e a natureza no jardim, passando, depois, para uma pequeníssima referência à sua história, considerando o jardim que é feito pelo homem e terminando este primeiro artigo sobre “os jardins e o habitar” com uma primeira perspectiva de leque tipológico.

Desde já se sublinha que em próximos artigos e para além de um sequencial desenvolvimento temático noutras matérias associadas ao tema do jardim e do habitar, iremos, muito provavelmente, retomar alguns destes aspectos de “história”, de natureza/carácter e de proposta tipológica, seja na sequência de outros articulistas, seja pela opção pela apresentação de alguns casos concretos, seja pela descoberta de outras fontes igualmente interessantes e geradoras de comentários específicos.

Também se avisam os especialistas na matéria que este e outros artigos que irei aqui desenvolver nesta matéria são textos realizados apenas por um amador de jardins urbanos, textos estes que, como verão, utilizam, frequentemente, a citação de verdadeiros especialistas e de teóricos do urbano e do habitar.

Dito isto dá vontade de afirmar, claramente, essa minha posição de amador de jardins urbanos, desde sempre, desde que tenho lembranças sobre passear na cidade ou nas beiras da cidade, desde então, sempre me lembro dos jardins, ainda que pequenos, ainda que plenos de “rodriguinhos”, ainda que sintetizados em filas de árvores, ainda que lembrados em vasos sobre peitoris e soleiras. E é engraçado esta associação que faço, afinal, entre espaço urbano e “jardim”, uma união que, provavelmente, tem a virtude de fazer realçar em partes do edificado e do natural o que de melhor elas têm em termos de imagens, de relações entre imagens, de pormenores humanizadores e de elementos conjuntamente protagonistas na criação de espaços de vida.



Fig. 02: um “jardim” numa varanda da Av. da Igreja em Lisboa.

Diz Purini que “o jardim é um tema censurado, e por muitas razões, pela moderna cultura arquitectónica... lugar do imprevisível, do fantástico, do mistério, o jardim representa a instabilidade e a contínua metamorfose do mundo (1) ..."; tenho a noção que realmente o jardim tem sido um pouco um tema censurado, talvez por isso mesmo, por ser “lugar do imprevisível, do fantástico, do mistério” numa sociedade que, acima de tudo, dá importância à estabilidade, ao conhecido, ao previsível, ao normalizado e ao que é corrente e inteiramente partilhado por todos em contínuas vagas de consumo, e, além disto, o jardim é realmente o espaço nuclear que pode caracterizar os espaços urbanos do vagar, da introspecção, do diálogo calmo e da observação da natureza numa sociedade em que o tempo de cada dia não chega, frequentemente, nem só para aquelas actividades consideradas essenciais.

Tal como refere Sidónio Pardal (2), os jardins urbanos começaram por ser espaços de encontro social e elementos representativos da cidade, mas hoje em dia eles respondem também a outras necessidades, entre as quais se destaca o contacto com a natureza, que é proporcionado a citadinos bem enraizados e habitando, frequentemente, edifícios em altura (que são reinos de interioridade).

O jardim deve, assim, responder a essa ausência de contactos naturais, proporcionando frequentes possibilidades de uso (porque estando próximos das habitações), em condições básicas de sossego e quietude.



Fig. 03: o jardim e a quietude; simbolizado por um conjunto escultórico do grande jardim urbano no centro das Caldas da Rainha

E antes de fazer aqui uma primeira brevíssima incursão pela história dos jardins gostaria de salientar, exactamente, a importância que os jardins têm e podem ter – muito mais se forem adequadamente disponibilizados – na oferta dessas condições, verdadeiramente “básicas” de sossego e de quietude, considerando a nossa sociedade actual do desassossego e da inquietação, e ainda a partir do mesmo comentário de Sidónio Pardal, nesta caso sobre a importância do jardim como contacto com a natureza proporcionado aos citadinos, uma natureza que se caracteriza naturalmente por essa quietude, que praticamente nos envolve e nos protege de um tecido urbano que, por vezes, está ali a “rugir” a dois passos do sítio onde estamos, sob a copa das árvores, quero aqui contar uma pequeníssima história passada comigo há cerca de 45 anos, mais ano menos ano.

Vivi, então, no Barreiro durante talvez um par de anos, quando muito, trata-se de uma das minhas primeiras colecções de memórias, e portanto não poderei precisar melhor a duração dessa vivência, no entanto, sei que vivia numa rua urbana com forte continuidade no centro mais antigo do Barreiro, num rés-do-chão que ele próprio tinha um pequeno jardim, isto é um estreito canteiro de sardinheiras, julgo, que rodeava um pequeno espaço cimentado, talvez com 4x3m: mas era um jardim óptimo para brincar sempre que não chovia ou estava frio demais.

Mas este jardim quase nada era comparado com o “parque” que existia talvez a 100 metros da porta do prédio e que era “o jardim” do Barreiro de então. Digo “o parque” porque se tratava de um sítio que sempre que lá ia me espantava e me deliciava pela sua dimensão, diversidade de arbustos e árvores e outros efeitos fantásticos como uma ponte sobre um lago onde julgo que havia peixes. Não quero aqui alargar-me nestas considerações para ser o mais possível fiel a uma memória já muito longínqua, mas quero aqui afiançar que a ideia que tenho daquele sítio, é que era um sítio maravilhoso e que parecia não ter fim, até porque de cada vez que lá ia via coisas novas.

Dá para lembrar o que disse Purini sobre o jardim como lugar do imprevisível, do fantástico, do mistério e da contínua metamorfose do mundo. E já agora vos digo que, quando voltei ao Barreiro passados talvez vinte anos e fui até ao “parque” não quis realmente acreditar que ele pudesse ser tão pequeno, como era; mas afinal, para mim e para todas as outras crianças que nele andaram e andam, ele foi, realmente, um grande e estimulante mundo do fantástico, da descoberta e também da tal quietude, que serve bem o soltar da imaginação bem no interior de um meio urbano.



Fig. 04: o Jardim da Gulbenkian, em Lisboa, também parece sempre muito maior do que é, verdadeiramente, e a recente intervenção de Gonçalo Ribeiro Telles ainda o tornou “maior”.

E Purini oferece-nos uma excelente síntese sobre a importância e a caracterização/natureza da relação entre o jardim e o habitar ou o habitar e o jardim, julgo ser a ordem arbitrária: "Uma casa não é uma casa se um jardim, verdadeiro ou imaginário, não a rodeia ou a penetra. Sempre a casa e a terra: a casa como terra. Na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira. Os mesmos elementos formam o pó e a pedra. O jardim é, então, a paisagem de qualquer casa: paisagem interior, no miolo cerrado dos tecidos urbanos, paisagem verdadeira na vastidão do campo" (3).

Aproveitando um excelente e incontornável grande livro do paisagista Michael Laurie (4) façamos, agora, um pequeníssimo passeio pelo conceito amplo do jardim ao longo da história; passeio este feito com base na referida obra de Laurie, que, vivamente, se recomenda para todos aqueles que se interessam pelos modos de fazer uma cidade mais humana e culturalmente mais válida.

Comecemos pelavra inglesa para jardim: "garden" = gar (proteger/defender) + eden (prazer/deleite) = recinto para prazer e deleite.

Na origem do jardim esteve o talhão agrícola com os seus canais de rega, pequenos bosques a intervalos regulares, muros de vedação, plantas com sentidos simbólicos e aromas característicos.

Já no Egipto se usavam "latadas" e tanques em jardins murados, mais tarde o ordenamento do jardim passou a estilizar o ordenamento agrícola segundo esquemas simbólicos, relacionando-se ainda mais fortemente jardim e edifício.

Esta evolução tem um expoente no "Éden" + átrio romano = pátio ajardinado e refrescado por brisas passando sobre superfícies de água.

O jardim medieval, fechado e escondido, liga-se muito aos segredos da ervanária com fins medicinais, mas também ao horto com árvores de fruto, flores, fontes, zonas calcetadas, arbustos podados e tanques com peixes, numa amálgama privada que é fonte de prazeres sensuais (íntima, bela e com um forte sentido artesanal).



Fig. 5: O jardim medieval, fechado e escondido, liga-se muito aos segredos da ervanária com fins medicinais, mas também ao horto com árvores de fruto, flores, fontes … (o claustro de Alcobaça).

O Renascimento liga a casa ao jardim por espaços intermédios, que são prolongamentos arquitectónicos na paisagem, desde balcões e arcadas a extensões de escadarias e terraços que constroem um desenho global e humanizam a natureza exterior.

Mais tarde o jardim romântico vai imitar a paisagem, baseando-se na observação da natureza e "dramatizando-a" pelo recurso a princípios pictóricos (é o "pitoresco"); é a regularidade do edifício contrastando, harmoniosamente, com a irregularidade estudada do exterior povoado por "episódios" e "objectos".

Hoje em dia, a falta de espaço bem localizado e o custo implicado pela construção e manutenção de um jardim poderá levar ao desenvolvimento de espaços que recuperam características passadas, como é o caso do sentido de encerramento exterior e de profusão de dados sensoriais naturais que tanta falta fazem a pessoas muito desenraizadas da natureza.



Fig. 6: o Jardim das Amoreiras, onde se sente um estimulante equilíbrio e mesmo uma estimulante fusão entre a forma edificada e a forma natural, proporcionando-se o contacto com a natureza em plena zona urbana densificada.

Realmente, trata-se de produzir o máximo efeito num espaço limitado e para isso já existem caminhos abertos e exemplos concretos, como é o caso dos jardins desenhados, no Brasil, por Burle Marx, inspirados na pintura e na botânica moderna, desenvolvidos considerando vários pontos de vista, a clarificação de planos simples e linhas sóbrias e a diluição dos limites (aparentando um espaço sem fim, numa zona restrita), sendo os usos definidos para cada reduzida porção de espaço, escultoricamente organizada.

Termina-se aqui esta primeira e muito sumária viagem pela história do jardim, realizada, como se salientou, com base num excelente livro de Michael Laurie.

Quando iniciei esta série sobre os jardins pensei em avançar, desde já, com algumas notas sobre tipologias de espaços ajardinados urbanos, no entanto, julgo que será melhor, para já, ficarmos por aqui e será então num próximo artigo da série que avançaremos nesse sentido.

Notas:

(1) Franco Purini, "La Arquitectura Didactica", p. 231.
(2) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol. II", p. 117.
(3) Franco Purini, "La Arquitectura Didactica" p. 151.
(4) Michael Laurie, "Introducción a la Arquitectura del Paisaje".

Editado por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
11 de Maio de 2008

domingo, maio 04, 2008

195 - Sobre o debate multidisciplinar do habitar I – texto de João Lutas Craveiro - Infohabitar 195

 - Infohabitar 195


Sobre o debate multidisciplinar do habitar I – debate entre a Arquitectura e as (outras) Ciências Sociais e Humanas na construção do Habitar

João Lutas Craveiro

3ª Conferência Alargada do Grupo Habitar


31 de Março de 2008 na Universidade Nova de Lisboa (Av. de Berna, 26-C, Auditório 2, Torre B, Lisboa)

Breve nota explicativa e divulgação de uma próxima conferência de António Pedro Dores no LNEC (início da tarde, 14h 30, de 19 de Maio de 2008):

O texto que se segue não pretende ser um relato das matérias tratadas nesta 3ª Conferência Alargada do Grupo Habitar (GH), mas apenas um passar a limpo de algumas notas retiradas pelo autor no decurso deste encontro, bem na tradição das realizações do GH, portanto, tentando-se, sempre deixar algum registo do trabalho efectuado. Deseja-se, igualmente, que este final de tarde tenha sido a primeira de muitas outras ocasiões de fazer dialogar as várias disciplinas humanas e sociais que têm a ver com a qualidade do habitar.


Neste sentido, desde já se anuncia a próxima realização, no "Salão Nobre" do Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), na Av. do Brasil 101, Lisboa, no princípio da tarde (14h 30) da segunda-feira dia 19 de Maio, de uma conferência do doutor António Pedro Dores sobre estas matérias que têm a ver com uma fundamental e verdadeira multidisciplinaridade na abordagem de uma qualidade residencial e urbana que harmonize qualidade arquitectónica e satisfação dos habitantes; de certa forma a continuação do que ficou por dizer, e foi muito, na 3.ª Conferência do GH.

Esta próxima iniciativa é do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC, tem o apoio do Núcleo de Ecologia Social (NESO), também do DED do LNEC, e, tem também, naturalmente, todo o apoio, enquadramento e divulgação do nosso Grupo Habitar.




A conferência do doutor António Pedro Dores tem entrada livre, não sendo necessária marcação prévia; chama-se no entanto a atenção para a lotação limitada do auditório e regista-se que serão entregues certificados de presença.


A Direcção do Grupo Habitar


Figura 1: três imagens da 3ª Conferência Alargada do Grupo Habitar; na primeira uma vista geral do auditório; na segunda uma parte da mesa com Reis Cabrita, A. Pedro Dores, Bruno Marques e João Lutas Craveiro; na terceira Guilherme Vilaverde e Hermano Vicente

Sobre o debate multidisciplinar do habitar I – debate entre a Arquitectura e as (outras) Ciências Sociais e Humanas na construção do Habitar
João Lutas Craveiro

No dia 31 de Março de 2008 realizou-se na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (UNL), na Av. de Berna, 26-C, em Lisboa, a 3ª Conferência Alargada do Grupo Habitar.

Representando o Grupo Habitar, o Arquitecto António Baptista Coelho, fundador e Presidente do Grupo Habitar, Investigador Principal do LNEC e Chefe do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo daquele Laboratório Nacional, agradeceu a presença de todos os presentes, membros do Grupo Habitar e oradores convidados, como à audiência de cerca de trinta pessoas que preenchiam aquele Auditório. Agradeceu ainda a amabilidade da Comissão Científica do Departamento de Sociologia da UNL a cedência do auditório e das condições logísticas necessárias para a realização da Conferência.

Referiu, na sua breve introdução, a pertinência de um debate entre a Arquitectura e as (outras) Ciências Sociais e Humanas acentuando um campo interdisciplinar de análise que abrange não apenas as condições da edificação, ou o edifício propriamente dito, mas também as relações de vizinhança e a envolvente dos edifícios e, numa outra dimensão de escala, a própria cidade.

Este campo interdisciplinar de análise, que vai do edifício à cidade, representa um aspecto essencial para o debate entre a Arquitectura e as (outras) Ciências Sociais e Humanas. Frisou ainda outros aspectos a ter em consideração, desde logo a compreensão dos espaços urbanos como espaços apropriados por múltiplos actores e interventores, impondo a questão da Qualidade do Habitar. A Qualidade do Habitar solicita pertinentemente a dimensão interdisciplinar das abordagens científicas e técnicas, dando o exemplo da necessidade de se desenvolverem análises retrospectivas e pós-ocupacionais sobre as áreas de residência, de modo a integrar a história dos lugares e a compreender a sua evolução.

Salientou ainda a importância dos aspectos subjectivos, para além dos parâmetros objectivos da Qualidade do Habitar. Os aspectos subjectivos devem ser considerados atendendo que uma área urbana não é apenas o produto de quem a decide e planeia, mas também de quem a vive e frequenta. Em seguida, o Arquitecto António Baptista Coelho convidou um dos oradores presentes, o Sociólogo António Pedro Dores a apresentar uma breve reflexão sobre o tema da Conferência.

O Sociólogo António Pedro Dores, a propósito da relação entre a Arquitectura e as (outras) Ciências Sociais e Humanas, focalizou a atenção para o papel ardiloso das teorias, em Sociologia, considerando existirem expectativas demasiado empolgadas sobre as capacidades explicativas das teorias sociológicas. Mais adiantou o exemplo dos «efeitos de ilusão», considerando que o sociólogo munido de vigorosas ferramentas explicativas acaba por adaptar a realidade ao crivo das suas interpretações teoricamente pré-estabelecidas. Referiu esta circunstância não como uma fatalidade, mas como uma possibilidade comum sacrificando o sociólogo a realidade à congruência entre a teoria e a (sua) observação.

Referiu que só um sociólogo atento para o imprevisto da realidade é capaz de pôr em questão todo o investimento teórico inicial reestruturando, por isso, o seu campo de pesquisa. Lembrou, assim, o síndrome da serendipidade (a capacidade fazer descobertas por acaso) que contagiou um caso de investigação, quando numa pesquisa sobre a tradição do fado, no Bairro Alto, os investigadores foram confrontados com uma população residente oriunda do Norte do Continente português.

Acentuou o sentido do reordenamento teórico que deve orientar a investigação em Ciências Sociais e Humanas, nomeadamente sobre as marcas tradicionais que vinculam os bairros ou as zonas de residência a uma identidade alienada. Consequentemente, criticou o facto de se designarem certos bairros como «bairros problemáticos», tendo referido a necessidade de estudos que cruzem os espaços urbanizados com a mentalidade colectiva e os «estados de espírito». Recupera, assim, temáticas que, de algum modo, a Sociologia moderna abandonou julgando necessário que a Sociologia atinja o nível das classificações tipológicas, mas sem que esse exercício dispense a crítica dos processos metodológicos responsáveis pelas classificações.

O orador seguinte, o Arquitecto António Reis Cabrita, Especialista do LNEC e Professor Catedrático, lembrou os seus primeiros estudos no campo dos inquéritos, na zona de Benfica, em Lisboa, e o modo como as Ciências Sociais e Humanas contribuíram, através de colaborações abertas às áreas da Psicologia, Antropologia Urbana, Cultural e do Espaço, para enriquecer a sua visão sobre a cidade habitada e apropriada.

Devido à complexidade das áreas urbanas e à intensidade dos problemas, sociais, económicos ou ambientais, defendeu que não há soluções fáceis para os modos de intervenção urbana, mas a complexidade deve solicitar soluções simples. As soluções simples, como referiu, não implicam renunciar ao comprometimento com o rigor técnico.

Sobre a cidade, enquanto pretexto de abordagem interdisciplinar, sublinhou o conflito entre a cidadania e o individualismo, a qualidade do ambiente urbano e a compulsão para o consumo. As cidades contemporâneas e multiculturais levantam ainda o problema da integração ou coesão social, tendo distinguido as formas de apropriação (que podem ser segregativas) das formas de participação.

As Ciências Sociais e Humanas devem estar, enfim, preparadas para assumirem o seu papel interventor, no que designou como «ciência-acção», sendo oportuno desmistificar a neutralidade axiomática de qualquer intervenção em meio urbano. Sublinhou, ainda, a essencialidade de um compromisso ético entre a ciência e a acção, argumentando a favor de uma ciência «com leveza» (sem grandes densidades teóricas), mas não levada «com ligeireza».

O Arquitecto Bruno Marques, Mestre em Planeamento e Projecto do Ambiente Urbano e doutorando, autor de diversos projectos de realojamento, associando a Arquitectura a uma capacidade de intervenção directa na vida das pessoas, discriminou experiências de apoio à auto-construção (Figura 1), destacando o exemplo de Santa Maria da Feira (projecto destinado a aproximadamente quinhentas pessoas, adjudicado pela Câmara Municipal de Matosinhos).


Figura 2: Exemplos de auto-construção apoiada – retirados da exposição de Bruno Marques

Frisou a propósito que esse projecto de intervenção destinou-se a uma população de extracção rural e, por isso, sintonizada com o gosto de mexer na terra e hostil a ser vista como uma população subsidiada ou apoiada pelo Estado. Nas populações rurais a identidade conferida pelo trabalho e a noção da autonomia individual fazem parte de um património cultural que urge respeitar.

Evidenciou, no projecto apresentado, o privilégio de uma zona de cozinha grande e com lareira, facilitando a permanência e o convívio familiar num local da casa geralmente desprestigiado nos modos de habitar urbanos. A Arquitectura, no seu entender, não deve impor soluções, mas compreender os modos de apropriação dos espaços.

Nos processos de realojamento defende que as pessoas não devem ser realojadas muito longe do seu local de origem, mas para além dos aspectos vinculadores entre a identidade e os territórios destacou a oportunidade de conceder às pessoas a gestão corrente das pequenas reparações da sua habitação. Com este fim, defendeu o emprego de materiais de construção acessíveis à população.

Arguiu ainda em favor de um alojamento de baixa densidade (Figura 2) favorecendo a integração social e as relações de vizinhança, privilegiando o controlo social dos conflitos e reduzindo, por isso, os custos das redes sociais activas de carácter institucionalizado (Figura 3).




Figura 3: Realojamento de baixa densidade em Travanca – exemplo retirado da exposição de Bruno Marques




Figura 4: Realojamento de baixa densidade em Travanca, uma imagem real que complementa a imagem retirada da exposição de Bruno Marques: o pequeno conjunto em Travanca, Lugar de Barrela (16 fogos em edifícios unifamiliares em banda), promovidos pela C. M. de Santa Maria da Feira, Prémio INH 2000 de promoção municipal, com projecto coordenado pelo Arq. Bruno Marques.




Figura 5: Principais diferenças entre três tipos de intervenção – exemplo retirado da exposição de Bruno Marques

Por fim, referiu alguns maus exemplos de habitação social ou de destino de populações realojadas, criticando a densidade demográfica excessiva de algumas áreas e a tipologia das habitações. A sua intervenção mais reforçou a necessidade de uma relação interdisciplinar entre a Arquitectura e as outras Ciências Socais e Humanas.

O sociólogo João Craveiro, do Núcleo de Ecologia Social do Departamento de Edifícios do LNEC, esquematizou alguns dos contributos essenciais produzidos por esse Núcleo do LNEC para o esclarecimento da relação interdisciplinar entre a Arquitectura e as outras Ciências Sociais e Humanas.

Outras intervenções representaram um conhecimento apurado sobre a realidade urbana concreta em resultado de uma larga experiência de intervenção no âmbito das políticas da habitação. Destaque-se, assim, a intervenção do Engenheiro Hermano Vicente que sintetizou a experiência adquirida na direcção do Instituto Nacional da Habitação (hoje Instituto Nacional da Habitação e da Reabilitação Urbana) convocando a Qualidade Habitacional, conceito em permanente actualização e conquistando novas exigências ambientais. A intervenção do Dirigente e Gestor Cooperativo Guilherme Vilaverde acentuou a referência aos aspectos ambientais, tendo abordado o problema da densidade humana e das formas de apropriação urbana. Defende uma relação mais estreita, com ganhos de cidadania, entre os factores da habitação e da participação pública, tendo sublinhado a importância dos novos instrumentos de ordenamento do território e, essencialmente, a possibilidade de uma participação cívica nas figuras de planeamento local.

Ressaltou do debate que se seguiu às intervenções a necessidade da Arquitectura, nos seus curricula académicos, reforçar a componente da avaliação da Qualidade Habitacional, da paisagem e do ordenamento do território, valências técnicas que a propósito das intervenções em meio urbano interpelam também as outras Ciências Sociais e Humanas. A cidade, como o ambiente e o território solicitam, pois, a emergência de um conjunto de práticas relativas a problemas cuja determinação é irredutível à rigidez dos quadros disciplinares.

A interdisciplinaridade deve, assim, ser exercida num clima científico plural, onde nenhuma disciplina se assume como dominante, configurando novas parcerias entre as ciências vocacionadas para o estudo da sociedade e da ecologia. Questões como a coesão territorial e a exposição das comunidades urbanas a situações disruptivas de origem ambiental ou social acentuam o carácter interdisciplinar das intervenções, requerendo também uma perspectiva crítica das relações entre a ciência e o poder político.

A 3ª Conferência Alargada do Grupo Habitar sustentou uma aproximação estratégica, na sequência de outras iniciativas anteriores, entre a Arquitectura e as outras Ciências Sociais e Humanas. Contudo, os problemas suscitados pela densidade urbana, os riscos ambientais e o ordenamento do território devem interpelar a participação de outros domínios científicos, como a Biologia ou a Geologia (entre outras ciências não-sociais), apelando para a emergência das ciências da complexidade. Requer-se a constituição de parcerias de investigação que enriqueçam o conhecimento produzido sobre os territórios humanizados, contribuindo para vencer as diversas lógicas disciplinares que tradicionalmente compartimentam as soluções a um domínio de análise.

João Lutas Craveiro




Figura 6:

Nota de conclusão:
O Grupo Habitar sublinha, aqui, um agradecimento público à Comissão Científica do Departamento de Sociologia da FCSH da Universidade Nova de Lisboa pelo apoio disponibilizado ao desenrolar desta Conferência.

A Direcção do Grupo Habitar


Texto de João Lutas Craveiro.
Imagens de Bruno Marques e António Baptista Coelho.
Preparação da edição: António Baptista Coelho, 4 de Maio de 2008.
Edição: José Baptista Coelho, 4 de Maio de 2008.
Lisboa, Encarnação, Olivais-norte

domingo, abril 27, 2008

194 - Reabilitação de edifícios habitacionais com valor patrimonial – artigo de Mariana Morgado Pedroso - Infohabitar 194

 - Infohabitar 194


Reabilitação de edifícios habitacionais com valor patrimonial - A importância da aplicação de uma metodologia de boas práticas de intervenção. O caso da Casa Rodrigues de Matos




Mariana Morgado Pedroso

marianamorgadopedroso@gmail.com


Este artigo defende a importância da aplicação de uma metodologia de boas práticas de intervenção na reabilitação de edifícios com valor patrimonial (1),neste caso ensaiada numa habitação palaciana do século XVIII em Lisboa – a Casa Rodrigues de Matos - e fundamentada pela actual dinâmica registada no mercado residencial indiciando uma procura emergente deste tipo de edifício no mercado imobiliário pelos segmentos mais elevados (Barata Salgueiro, 1997).

Pela Convenção para a Salvaguarda do Património Arquitectónico da Europa (Granada, 1985; art.º11) considera-se que a reposição da eficácia física e funcional de edifícios com valor patrimonial reconhecido, implica a definição de uma metodologia de boas práticas de intervenção. Trata-se de uma estratégia que visa a sistematização e aplicação dos conhecimentos sobre reabilitação, de uma forma eficaz, coerente e justificada focalizada no cumprimento das exigências de compatibilidade, durabilidade, reversibilidade e economia. Simultaneamente permite acautelar situações negligentes de intervenções no património construído, que devem ser tidas em conta em intervenções de reabilitação.

Nestes edifícios o programa decorativo é habitualmente rico, o que justifica a integração no projecto global de reabilitação de um projecto específico de restauro. Elaborado à semelhança do projecto de outras especialidades e designado por projecto de reabilitação com projecto de restauro integrado (2), tal como preconizado pela Carta de Cracóvia (2000; art.7º), que permite acautelar e melhorar a capacidade de resposta a imponderáveis verificados em fase de obra, bastante comuns em intervenções deste tipo.

Este artigo foi organizado em três partes: justificação, metodologia e caso de estudo, onde se aborda de forma sintetizada a temática em questão. De tal decorrem as conclusões, onde se sintetizam os princípios para as boas práticas de reabilitação e o resultado da intervenção no caso de estudo.

JUSTIFICAÇÃO

O estado actual do parque edificado em Lisboa e a actual pressão sobre os edifícios com valor patrimonial por parte do sector imobiliário legitima o ensaio de uma metodologia, que permita a sistematização e aplicação de conhecimentos, de forma eficaz, coerente e justificada de modo a combater o estado de degradação do património construído e a inverter as tendências actuais que privilegiam a construção nova face à reabilitação.

O desenvolvimento urbano da cidade de Lisboa seguiu até hoje um padrão de configuração radio-concêntrica, desenvolvida a partir do seu núcleo tradicional, inicialmente dentro dos limites administrativos do concelho e posteriormente por alastramento à periferia. De acordo com Barata Salgueiro (1997) a actual dinâmica espaço-funcional da cidade é marcada por uma acentuada terciarização do centro da cidade e consequente expulsão da função habitacional das áreas de maior centralidade.

Actualmente verifica-se uma mutação da estrutura metropolitana de Lisboa, associada à perda de importância do centro tradicional histórico e à mudança para uma situação de cidade policêntrica e dispersa pelo território. Segundo Barata Salgueiro (1997), estas novas centralidades surgem ligadas ao aparecimento de centros industriais, parques de escritórios e centros comerciais que crescem na periferia de forma aleatória e fruto da especulação imobiliária. As dinâmicas urbanas contemporâneas evidenciam, contudo uma procura de habitações em áreas centrais das cidades por segmentos da população com maior poder económico, contrariando a tendência ocorrida nas décadas anteriores de preferência por zonas periféricas (3). Esta tendência reflecte-se na procura, por parte do sector imobiliário destinado ao segmento médio-alto, de edifícios com valor patrimonial em zonas centrais para reabilitação.

A habitação em edifícios reabilitados no centro da cidade, enquadra-se no tema central deste estudo, e está relacionada com as crescentes vantagens destas áreas, enquanto lugar de residência devido às condições de centralidade conferidas e facilidade de acesso a serviços variados. Segundo Barata Salgueiro (1997) “A habitação nova ou reabilitada em áreas prestigiadas e revalorizadas da cidade suporta o processo de nobilitação correspondente à revalorização da centralidade para residência de grupos sociais abastados.” Daí o crescente interesse pelas habitações palacianas e aumento da procura e oferta deste género de tipologias residenciais (4).

O processo de mutação da estrutura funcional da cidade de Lisboa reflecte-se no estado de conservação do parque edificado, já que a principal premissa para a manutenção dos edifícios é o seu uso efectivo. Nas últimas décadas a cidade perdeu cerca de 210 mil habitantes, encontrando-se devolutos cerca de 40 mil fogos, i.e. perto de 14% dos 288 431 alojamentos clássicos que compõem o parque habitacional de Lisboa (Censos, 2001). A partir dos Censos de 2001, calcula-se que pelo menos 61% do parque edificado (56 178 edifícios), necessite de reparações. Destes, cerca de 9% necessitam de obras profundas de recuperação, sendo que 5% se encontram num estado próximo da ruína. Os dados disponíveis apontam uma forte relação entre o estado de degradação e a idade dos edifícios. A maioria destes fogos encontra-se localizado no centro histórico da cidade.



Figura 1: Estado de conservação dos edifícios em Lisboa. Fonte: Seixas (2004, pág. 157).


Num estudo desenvolvido em 2004 (Seixas, 2004) sobre o mercado da habitação na área metropolitana de Lisboa, é evidenciada a clara preferência da classe média-alta em habitar as área centrais de Lisboa. Embora o processo de crescimento da cidade tenha levado ao despovoamento da área central da cidade, com acentuada diminuição do número de moradores, é notória a procura de habitação de qualidade nestas área. Torna-se portanto fundamental responder a esta tendência, através da reabilitação informada do parque habitacional antigo (5).


METODOLOGIA

A metodologia de reabilitação proposta foi desenvolvida com base nos estudos de Garcia (Cabrita et al, 1993, pág.130), Paiva et al (2006, pág.295), Cóias (2006, pág.11) e Feilden (2003) e compreende seis fases:
estudos prévios de reconhecimento > análise > diagnóstico > projecto reabilitação > obra e acompanhamento > monitorização, organizadas conforme esquema apresentado na Figura 1:




Figura 2: Esquema proposto para uma metodologia de boas práticas de intervenção.

Defende-se que as boas práticas de intervenção definidas privilegiam as acções das fases de Análise e Diagnóstico. Destinadas a identificar e caracterizar as anomalias e o estado de conservação do edifício, contribuem decisivamente para se atingir a execução adequada dos trabalhos e o controlo dos custos. Na fase de Análise e Levantamentos, faz-se a aproximação ao caso de estudo, relativamente aos aspectos históricos, arquitectónicos, morfológicos e construtivos do edifício, procedendo à caracterização histórica e documental (que inclui a análise à envolvente urbana e origem do edifício e proprietários), caracterização tipo-morfológica e construtiva (que inclui fichas de levantamento dos compartimentos) e levantamento das anomalias.




Figura 3: Exemplo de uma ficha de levantamento dos compartimentos.

Na fase de Diagnóstico far-se-á um relatório sobre o estado geral do edifício, configurando as necessárias recomendações para corrigir as anomalias detectadas. Estas anomalias deverão ser avaliadas em fichas especificas, com distinção de elementos funcionais e estéticos para posterior avaliação.

Na fase de Projecto deve enquadrar-se um projecto de restauro integrado no projecto global de reabilitação, onde se modelam as medidas correctivas recomendadas de forma a adapta-las às exigências do programa do projecto propriamente dito, tendo em conta os aspectos de ordem metodológica e conceptual, de ordem jurídico/administrativos e de ordem económica.

Na fase de Obra e Acompanhamento, a escolha de uma equipa especializada em intervenções no património (quer para a elaboração do projecto, quer para a execução da obra) complementada por uma comissão técnica de acompanhamento, possibilitam a salvaguarda de valores patrimoniais denunciados durante a obra, contribuindo para o sucesso da intervenção.

Por último, após a conclusão da obra, é importante garantir a Monitorização e Manutenção, já que garantindo um bom plano de manutenção, com intervenções cíclicas de inspecção/intervenção, a maioria das degradações mais comuns podem ser evitadas, evitando-se operações de reabilitação profundas ou a perda de património arquitectónico.


CASO DE ESTUDO
A intervenção na Casa Rodrigues de Matos traduz a aplicação dos conceitos propostos. Tratou-se da reabilitação para fins residenciais de uma antiga habitação palaciana, não classificada, cuja morfologia remete para o segundo quartel do século XVIII, embora as suas raízes remontem ao início do século XVII.

A operação de reabilitação desenvolveu-se de forma pouco intrusiva e atenta à salvaguarda das preexistências e à conservação dos valores acumulados ao longo de várias épocas. Permitiu ensaiar as práticas de intervenção previstas na metodologia apresentada demonstrando a sua mais valia. A colaboração entre os vários especialistas e o constante acompanhamento de obra, permitiram reduzir as intervenções ao mínimo e salvaguardar o património arquitectónico presente (6).

O caso de estudo situa-se na Rua de São José (7).Trata-se do troço inicial do antigo Caminho para Benfica, identificado desde o século XVI e que começava nas Portas de Santo Antão da muralha Fernandina, prolongando-se até Carnide. A partir do final do século XIX, após a construção do eixo da Avenida da Liberdade e das Avenidas Novas, a Rua de São José perde a condição de “estrada de saída da cidade” passando a assumir uma dimensão local de suporte ao bairro. O bairro de São José mantém-se até hoje pouco alterado, suportado em ruas estreitas e tortuosas, condicionadas à topografia e cadastro local. A Rua (direita) de São José não é excepção, sendo que o seu traçado não foi alvo de correcção até à actualidade. Os edifícios que a conformam apresentam uso misto – comércio e serviços no piso térreo e habitação nos restantes pisos. O comércio reflecte alguma especialização constituindo um pólo de venda de antiguidades e restauração.

Através da identificação das anomalias e suas causas, caracterização e diagnóstico, foi possível identificar os problemas existentes, e lançar a ponte para as intervenções necessárias.




Figura 4: janelas de ensaio – fundamentais para a identificação do programa decorativo original.

Com um projecto atento possibilitou-se a resolução de problemas físicos, ambientais e espaciais, assim como a introdução de melhorias através da modernização das instalações e equipamentos existentes, sem adulteração dos valores preexistentes e reduzindo as intervenções efectuadas, em conformidade com a Convenção para a Salvaguarda do Património Arquitectónico da Europa (Granada, 1985, art.º11).

O recurso a materiais e técnicas compatíveis com as originais permitiram adaptar o novo ao antigo, respeitando as principais exigências de compatibilidade, durabilidade e reversibilidade que devem ser tidas em conta numa reabilitação.




Figura 5: Durante a obra –as melhores soluções partem da discussão entre vários técnicos-restauradores.


Figura 6: Durante a obra - intervenção de técnicos-restauradores– Sala dos Pássaros.

No que se refere à integração de um projecto especifico de restauro no projecto de reabilitação geral, seguiram-se as recomendações da Carta de Cracóvia (2000, art.7º). Neste edifício, identificaram-se valores estéticos que justificaram a presença de técnicos-restauradores e uma empreitada de restauro integrada na obra geral, nomeadamente na identificação dos conjuntos decorativos dos tectos das salas da frente do andar nobre e da capela em estuque decorativo relevado policromático (atribuídos à Escola de Lisboa (possivelmente de autoria de João Grossi (1718-1781), embora não assinados) (8).




Figura 7: exemplo do antes e do depois, numa sala nobre do edifício – Sala dos Camafeus antes.




Figura 8: exemplo do antes e do depois, numa sala nobre do edifício – Sala dos Camafeus depois.


CONCLUSÕES
Relativamente à metodologia de boas práticas de intervenção apresentada neste artigo, concluiu-se que as acções da fase de análise e diagnóstico, destinadas a identificar e caracterizar as anomalias e o estado de conservação do edifício, contribuem decisivamente para se atingir a execução adequada dos trabalhos, nomeadamente no controlo de custos. Associando ainda, o enquadramento dado por um projecto de restauro, melhora-se a capacidade de responder às situações mais usuais numa obra desta natureza. Assim, numa acção de reabilitação, dever-se-á sempre partir do princípio de que o novo é que se adapta ao antigo, e não o contrário.

Por último, conclui-se que as linhas orientadoras da presente intervenção, deverão ser um exemplo a seguir na reabilitações de edifícios desta natureza, ficando garantida a salvaguarda, para as gerações vindouras, de um edifício com valor patrimonial indiscutível. O critério de preservar o mais possível permitiu reduzir as intervenções ao mínimo. Recorrendo a materiais e técnicas originais (ou compatíveis) foi possível adaptar o novo ao antigo. Identificando as anomalias e suas causas foi possível solucionar os problemas existentes, considerando sempre uma possível reversibilidade futura.


O artigo baseia-se no trabalho desenvolvido em:
PEDROSO, Mariana Morgado, Reabilitação da Casa Rodrigues de Matos. Um ensaio de aplicação de uma metodologia de boas práticas de intervenção, Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Recuperação e Conservação do Património Construído, IST, UTL, Lisboa, 2007

Notas:

(1) A definição de edifício com valor patrimonial, remete para o conceito de património arquitectónico. Para edifício com valor patrimonial adopta-se a definição apontada na Convenção para a Salvaguarda do Património Arquitectónico (Granada, 1985, art. 1.º) “(…) a expressão ‘património arquitectónico’ é considerada como integrando os seguintes bens imóveis: (…) todas as construções particularmente notáveis pelo seu interesse histórico, arqueológico, artístico, cientifico, social ou técnico, incluindo as instalações ou os elementos decorativos que fazem parte integrante de tais construções; (…)”, reiterando a definição anterior da Carta Europeia do património arquitectónico (1975, ponto 1) onde o conceito de património arquitectónico tinha alargado o seu domínio tradicional, para ser “constituído não só pelos nossos monumentos mais importantes, mas também pelos conjuntos de construções mais modestas das nossas cidades antigas e aldeias tradicionais inseridas nas suas envolventes naturais ou construídas pelo homem.”

(2) Derivado da descrição do ponto 7 da Carta de Cracóvia, “a decoração arquitectónica, as esculturas e os elementos artísticos, que fazem parte integrante do património construído, devem ser preservados mediante um projecto específico vinculado ao projecto geral de restauro.”

(3) A escolha de áreas residenciais destinadas às classes média-alta também está associada ao processo de transformação urbana em curso. De acordo com esta autora (Barata Salgueiro, 1997), está associada ao o desenvolvimento de três produtos distintos, sobretudo a partir do final do século XX: os condomínios fechados, os apartamentos reabilitados no centro da cidade e as moradias unifamiliares na coroa suburbana ou periurbana.

(4) Como por exemplo o Palácio da Flor da Murta (agora Palácio Studio Residence), o Palácio Alagoas, o Palácio da Junqueira, o Palácio do Prior do Crato são todos reabilitações de habitações palacianas para condomínios residenciais de luxo.

(5) Analisando os Censos 2001, dos 288 431 alojamentos clássicos existentes em Lisboa, só 86% se encontravam ocupados, e dos que se encontravam devolutos 67% (26 634) não tinham qualquer tipo de destino previsto, sendo primordial colocá-los no mercado.

(6) A obra esteve a cargo da firma Ludgero de Castro, Lda.

(7) Esta via surge identificada desde o período romano como um eixo de saída da cidade em direcção a Norte.

(8) Tal como refere Silva (2007, pág.50-52) “Como já referimos, existe uma semelhança formal nos vários programas decorativos efectuados por Giovanni Grossi e os membros da sua oficina, analogia que permitiu confirmar algumas atribuições por afinidades estilísticas.” (…) “O mais fascinante neste tecto (Palácio dos Machadinhos) é a sua semelhança formal com o tecto da Casa de Fresco do Palácio da Vila, em Sintra, o tecto da Sala dos Troféus do Palácio do Correio-Mor, em Loures, ou ainda com um outro tecto de um edifício na Rua de São José, em Lisboa.”

Bibliografia referida no artigo:

BARATA SALGUEIRO, Teresa, Lisboa, metrópole policêntrica e fragmentada, in Finisterra XXXII – revista portuguesa de geografia, Nº63, 1997, pp.179-190.

CABRITA, A. Reis, AGUIAR, J. e APPLETON, J., Manual de Apoio à Reabilitação dos Edifícios do Bairro Alto, CML/LNEC, Lisboa, 1993.

FEILDEN, Bernard, Conservation of historic buildings, Architectural Press, (1ª ed. 1982), Oxford, 2003.

CÓIAS, Vítor, Inspecção e Ensaios na Reabilitação de Edifícios, IST Press, Lisboa, 2006.

PAIVA, J. Vasconcelos, AGUIAR J. e PINHO, A. Guia Técnico de Reabilitação Habitacional, 2 vol., ed. INH e LNEC, Lisboa, 2006.

SEIXAS, João, Habitação e mercado imobiliário na Área Metropolitana de Lisboa, CML - Departamento Licenciamento Urbanístico e Planeamento Urbano, Lisboa, 2004.

SILVA, Hélia Tomás da, Giovanni Grossi e a evolução dos estuques decorativos no Portugal setecentista, Dissertação para obtenção do grau de Mestre em Arte, Património e Restauro, texto policopiado, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Lisboa, 2005.

Relativamente às Cartas e Convenções Internacionais:

LOPES, Flávio e CORREIA, Manuel Brito,Património Arquitectónico e Arqueológico.Cartas, Recomendações e Convenções Internacionais, Horizonte, Lisboa, 2004.

Preparado para edição no Infohabitar em 2008-04-25, por António Baptista Coelho
Editado no Infohabitar em 2008-04-27, por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte