segunda-feira, maio 19, 2008

O Jardim Ampliado – artigo de Milton Botler - Infohabitar 197

 - Infohabitar 197
Tem sido uma alegria frequente a entrada de novos amigos nesta pequena mas excelente aventura da edição no Infohabitar, e é, portanto, com uma muito especial satisfação que editamos hoje um novo colega, o arquitecto Milton Botler, com um estimulante texto sobre a ampliação da ideia do jardim no contexto da nova cidade globalizada.

É muito interessante a forma como estes novos colegas de edição chegam ao nosso espaço, um espaço que nos seus melhores períodos de 24 horas de leitura chega já a cerca de 800 consultas de artigos; e aqui chegam, como foi o caso do arquitecto Milton Botler, através da simples leitura de um dado artigo, neste caso o último que saiu, sobre o jardim e a cidade, e, depois, há o simples contacto com a edição do nosso Infohabitar e a nossa esfera editorial se alarga com naturalidade, enriquecendo-se todos os que aqui se reúnem escrevendo, lendo e enviando mensagens em que, frequentemente, manifestam a sua satisfação para com este nosso fórum semanal de discussão e divulgação sobre o habitar e a cidade alaragada de hoje em dia.

A todos os amigos que cooperam com o Infohabitar das mais variadas formas envia-se, aqui, um abraço fraterno, numa altura em que os indicadores das nossas leituras estarão no limiar do número 100.000; e chama-se a atenção para uma funcionalidade que se encontra no final da listagem da margem direita e que é um pequeno motor de busca por assunto nas edições do Infohabitar.




Foto: um jardim ampliado e bem humanizado no Recife, imagem de ABCoelho.

Esta introdução já vai longa! Portanto fiquemos então com o “jardim ampliado” de Milton Botler, a quem agradecemos este artigo, que não será, com certeza, o seu único artigo no Infohabitar, até porque se entende, no teor do seu texto e no excelente leque bibliográfico que suporta este seu artigo, que estamos em presença de alguém cujas preocupações muito têm em comum com as daqueles que têm dado vida ao Infohabitar e ao Grupo Habitar, preocupações amplas, fundamentadas, estruturalmente multidisciplinares e claramente sensíveis a um objectivo central que é fazer um habitar e uma cidade humanizados e com valia cultural.

E fica aqui a promessa deste editor de vir a fazer um artigo em que divulguem algumas imagens de casos de “jardins ampliados” do lado de cá do Atlântico e onde fale também, um pouco, destas excelentes matérias que podem e devem fazer o jardim ultrapassar as suas margens tradicionais; e a única imagem que aqui se junta é apenas um exemplo a título de confirnação firme deste compromisso; conte com isso caro colega Milton Botler.

Milton Botler é Arquitecto e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco, foi coordenador do Programa de Reabilitação de Áreas Urbanas Centrais, Governo Federal e Ministério das Cidades e é actualmente assessor especial de urbanismo da Prefeitura do Recife, Brasil; e considerando o currículo e a simpatia do imediato envio deste excelente artigo, fica desde já aqui registado o evidente interesse de o Infohabitar poder vir a editar e divulgar outros artigos do autor em áreas temáticas cruciais para as cidades do século XXI e, designadamente, na área de uma reabilitação urbana humanamente sustentada.

E fica aqui o desafio para o envio de novos artigos sobre este fundamental tema duplo do “jardim e da cidade” e do “jardim ampliado”, quem sabe, talvez uma temática crucial neste tempo de mega-cidades.



Foto: o jardim e a mega-cidade, imagem de ABCoelho.

António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar




O Jardim Ampliado:Paisagismo e imaginário Urbano no Ambiente de Globalização


Milton Botler (*)


Nota introdutória sobre as imagens que ilustram o artigo: as imagens apresentam exemplos do caráter homogêneo do ambiente de globalização, e de sua paisagem, predominantemente determinado pelas demandas dos padrões de consumo internacionais. O patrimônio local convertido em Shopping centers e business districts que reproduzem, no interior dos edifícios, uma parcela do repertório urbano, repletos de ruas, praças e, sobretudo, grandes áreas de lazer e entretenimento. Locais que beiram o limiar de simulacro de espaço público, na forma de “jardins ampliados”.

Este texto faz uma breve abordagem sobre o sentido da paisagem urbana contemporânea e do paisagismo, na forma de ser interpretar a ordem e a organização dos elementos dessa paisagem.

Nos atuais processos de integração entre cidades são estabelecidos novos domínios e limites espaciais que conformam um “ambiente de globalização”. Genericamente, poderíamos entender esse ambiente como nos apresenta Castells (1999) (1), na forma de pontos nodais, os centros de comando para onde convergem os fluxos de uma sociedade organizada em rede.




Procuramos delimitar esse espaço na idéia de um “ambiente de globalização” que compreende, também, sua dimensão física, os usos, as atividades e as formas de sua apropriação. De um lado, ele é ordenado e organizado para representar o espaço de interação global das cidades e tende a se homogeneizar, também, enquanto ambiente e paisagem. De outro, ordenado e organizado para representar o espaço especifico, o lugar, tende a se diferenciar e a se diversificar. Trata-se aqui, evidentemente, de procurarmos situar a paisagem no campo das identidades locais (Cf, Hall, 1998) (2).



Foto 01 – Puerto Madero, Buenos Aires. Um dos grandes exemplos de requalificação de antigas áreas portuárias para criar um ambiente de globalização na América latina. Foto de Geraldo Marinho

O termo “paisagismo”, ou a atividade, conforme observou Gregotti (1975), está ligado à cultura arquitetônica, tomado da tradição do landscape: “para a arquitetura, a noção de paisagem como material operável, que supere a noção de “jardim”, nasce nos fins do século XVI e foi amplamente usado como elemento de estruturação da cidade barroca”. As origens modernas do “Landscape” estão associadas ao mito iluminista do bom selvagem, ao descobrimento cultural do mundo oriental chinês e japonês e à literatura de viagens; o próprio desenvolvimento do colonialismo recarrega de elementos sobrenaturais (a lembrança da floresta, do lugar selvagem) a natureza doméstica” (3).

Permitimo-nos retroceder nessa abordagem a alguns elementos semiológicos que julgamos pertinentes. De fato, a idéia de “jardim” foi colocada por Gregotti como uma contraposição entre a escala do espaço privado – sobretudo a do jardim oitocentista que recriava um microcosmo do espaço público para os interiores da burguesia francesa (Arantes, 1993) (4) – e a “escala geográfica” do paisagismo, estendida às cidades e às regiões. Assim, para a cultura urbanística, o jardim pode concentrar toda uma carga de significados referenciais da esfera privada, enquanto a praça, da esfera pública (Cf. Saldanha, 1993) (5). Embora a noção de praça seja demasiado restrita para representar toda a complexidade de recriação de um microcosmo, papel desempenhado, por exemplo, pelos jardins sagrados de determinados povos da antiguidade, conforme observou Mircea Eliade (1992) (6).




Foto 02 – Rua da Moeda. Área de entorno do Paço Alfândega. Convertida em área de entretenimento turístico. Foto Milton Botler.


Na ausência de uma imagem específica, a recriação, conceitual, de um “jardim ampliado” parece-nos, portanto, uma idéia mais apropriada para designar o papel do paisagismo no universo urbano: a ordenação e a organização de um microcosmo que agrega as mais variadas referências de representação da natureza e do artefato urbano para compor o lugar onde se vive.

No entanto, é do ponto de vista histórico que podemos percebe mais facilmente o processo de transformação da natureza e da busca por tentar representá-la para o interior do mundo urbanizado. Conforme observou Gregotti (Op. cit.1985), a crescente urbanização desencadeada a parir da revolução industrial tornou escassos os espaços e áreas verdes, sendo restringidos os elementos da natureza aos limites dos parques públicos – o autor estende a noção aos grandes parques nacionais.

Neste sentido, observa Le Goff (1997) (7) que “tornando-se um continuum, o espaço urbano já não se distingue tanto do espaço rural. Diminuída a diferença na realidade, ela só vem ampliada na imaginação. É assim que os ecologistas, procurando em vão o campo que escorre entre nossos dedos, aproximam-se do ideal da floresta que, na Idade Média, era, ao contrário, o lugar de repulsa. A floresta lhes parece de repente mais natural. Ela se torna, com uma imagem perfeitamente invertida, encarnação sedutora da natureza”.

As respostas do urbanismo moderno foram variadas, mas sempre voltadas à recuperação ou à recriação de uma natureza perdida, numa espécie de referência aos arquétipos do paraíso, próximo à representação do jardim do éden para a mitologia ocidental judaico-cristã.

As cidades jardins inglesas, preconizadas por Ebnezer Howard, por exemplo, consistiam num interessante modelo que buscou compatibilizar o campo e a cidade industrial, na segunda metade do século XIX. No centro dessa estrutura urbana definiam-se, material e simbolicamente, o parque e o jardim. Este último, uma idéia ampliada do espaço doméstico, estendido à esfera pública, como representação de uma noção de intimidade disseminada na Inglaterra, na era vitoriana – e que se conserva, ainda hoje, como elemento característico da identidade britânica.

A cidade industrial preconizada por Tony Garnier anteciparia o modelo funcionalista desenvolvido pouco mais tarde por Le Corbusier, cujos princípios urbanísticos foram consolidados na Carta de Atenas, em 1933. Ali, a cidade modernista seria pautada por ideário que acreditava representar o progresso da sociedade através do avanço da ciência e da tecnologia. Esse ideário compreenderia, sobretudo, um amplo projeto social concebido para um determinado “homem moderno” e atenderia, funcionalmente, às suas necessidades básicas: trabalhar, circular, habitar e usufruir o lazer. O “jardim ampliado” aparece no modelo “corbusiano”, principalmente, através da concepção do “pilotis” que tem como finalidade a liberação do solo para que a paisagem possa ser percebida e apropriada de forma livre e contínua – Brasília, possivelmente, representa a mais plena realização desse ideário.

A paisagem da cidade contemporânea, no entanto, começa a ser esboçada a partir de outros referenciais. Não mais voltada para um homem moderno, homogêneo e socializado, mas para um sujeito dividido entre o local e o global. Suas cidades, por extensão, são também projetadas para essas duas esferas. Não mais a cidade industrial, mas uma rede de cidades articuladas em torno de um setor terciário moderno, tendo como suporte um avançado aparato tecnológico por onde se movimentam os fluxos da economia global. Uma espécie de “jardim ampliado” de representação do espaço das elites gerenciais que comandam a economia global. Conforme observa Castells (Op. Cit, 1999) esses grupos hegemônicos situam-se de forma ambígua, entre o caráter cosmopolita das elites e o caráter local das pessoas: “O espaço de poder e riqueza é projetado pelo mundo, enquanto a vida e a experiência das pessoas ficam enraizadas em lugares, em sua cultura, em sua história”.






Fotos 03 ­e 04 – Vista do exterior e Praça central do Paço Alfândega, no Recife. Antigo convento fundado no século XVII, convertido em depósito alfandegário e, hoje, em shopping Center. Foto de Fred Jordão/Imago

Uma certa dualidade entre a lógica da dominação, representada pela cultura global das elites, e uma lógica da resistência ou, da conservação (8), representada pela cultura local das pessoas. Assim, o caráter homogêneo do ambiente de globalização, e de sua paisagem, será predominantemente determinado pelas demandas dos padrões de consumo internacionais: shopping centers e business districts que reproduzem, no interior dos edifícios, uma parcela do repertório urbano, repletos de ruas e praças; resorts, parques temáticos e, sobretudo, grandes áreas de lazer e entretenimento. Locais que beiram o limiar de simulacro de espaço público, na forma de “jardins ampliados”, destinados à atender um determinado público consumidor e protegido por um tipo de fronteira sutilmente delimitada em “muralhas invisíveis”, como bem observou Sevcenko (1985) (9).


Num movimento complementar, são conservados os monumentos (cf. Rossi, 1982) (10), as referências urbanas de valor socialmente reconhecido que identificam e dão sentido à idéia de lugar. Contudo, é importante a percepção de que a recuperação do espaço referencial, tanto a arquitetura ou os fragmentos de uma “natureza original”, mantém aquela ambigüidade entre o local e o global: a rua do Bom Jesus, símbolo da recuperação do antigo bairro do Recife, serve de depósito de uma identidade histórica da cidade – das colonizações portuguesa e holandesa, da presença dos primeiros judeus nas Américas, do “afrancesamento” do centro urbano na primeira revitalização da região portuária, no início do século XX – mas seu sentido é semelhante, por exemplo, ao da Zona Rosa, na cidade do México, do Puerto Madero em Buenos em Buenos Aires, ou do Pelourinho, em Salvador. Consiste num sentido estratégico, de caráter global, da tradução do acervo cultural em “capital simbólico”.



Foto 05 – Rua do Bom Jesus, no Recife, Brasil. Antiga rua dos Judeus, do período da ocupação holandesa, onde está a primeira sinagoga das Américas. Convertida em área de entretenimento turístico. Foto de Fred Jordão/Imago

Num sentido mais geral, o patrimônio cultural, notadamente o patrimônio edificado, passa a integrar o acervo ambiental, a identificar e pontuar uma diversificação de paisagens entre as cidades. O mesmo ambiente e aparato tecnológico que dá suporte a esse processo de regeneração das cidades possibilitam, por sua vez, um movimento de articulação em torno da conservação do planeta. Referimo-nos, é claro, ao emergir do ambientalismo na pauta da política internacional, ante a perspectiva de esgotamento dos recursos naturais e da própria vida. Nesse contexto, os limites da urbanização são redefinidos em função dos discursos construídos em torno do desenvolvimento sustentável – da exploração racional dos recursos naturais, da conservação do meio ambiente e da qualidade de vida. Ao nosso ver, essas são algumas relações que permitem uma melhor aproximação sobre o sentido da paisagem urbana contemporânea.






Figuras 06 e 07 – maquetes eletrônicas para o “Projeto Recife-Olinda”. Uma estratégia de inserção do centro antigo do Recife no ambiente da globalização desenvolvido pela Parque Expo de Portugal; imagens da Parque Expo.

As respostas do urbanismo são novamente variadas e reinterpretadas através de “Planos Estratégicos” e do “Projeto Urbano” (Cf. Borja e Castells, 1997) (11). Neles são selecionados os elementos estratégicos, prioritários, num conjunto de intervenções que, colocadas sob os limites da conservação ambiental, do desenvolvimento sustentável, visam recuperar a vitalidade urbana e integrar as cidades no ambiente de globalização. Nessa dinâmica, a paisagem urbana do ambiente globalizado retorna como objeto de recomposição. De reunião de elementos representativos de “padrões de qualidade de vida” que resultam, novamente, pelo menos na imaginação, em sucessivos “jardins ampliados”.


(*) Arquiteto e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco. Foi coordenador do Programa de Reabilitação s de Áreas Urbanas Centrais, Governo Federal, Ministério das Cidades e atualmente é assessor especial de urbanismo da Prefeitura do Recife, Brasil.

Notas:
(1) CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. Paz e Terra, São Paulo, 1999
(2) HALL, Stuart. Identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A, 1998.
(3) GREGOTTI, Vittorio. Território da Arquitetura. São Paulo, Perspectiva, 1975.
(4) ARANTES, Otília. O lugar da Arquitetura Depois dos Modernos. São Paulo, Edusp, 1993.
(5) SALDANHA, Nelson. O Jardim e a Praça. Edusp, São Paulo, 1993.
(6) ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno. São Paulo, Mercuryo, 1992. A obra original foi publicada em francês, em 1949.
(7) LE GOFF, Jacques, Por Amor às Cidades. UNESP, São Paulo, 1998.
(8) O termo conservação foi adotado como interpretação da idéia desenvolvida por Castells (1999) para abranger o sentido do termo no vocabulário urbanístico.
(9) SEVCENKO, Nikolau. As Muralhas Invisíveis da Babilônia Moderna. Oculom, Revista de Arquitetura, Arte e Cultura, nº1, anoo II, 1985.
(10) ROSSI, A. La Arquitectura de la Ciudad. Barcelona, Gustavo Gili,1982.
(11) BORJA, Jordi. e CASTELLS, Manuel. Local y global: La Gestión de las Ciudades en la Era de la Información. Taurus, Madrid, 1997.
Referências Bibliográficas


ARANTES, Otília. “O lugar da Arquitetura Depois dos Modernos”. São Paulo, Edusp, 1993

CASTELLS, Manuel. “A Sociedade em Rede”. Paz e Terra, São Paulo, 1999.

BORJA, Jordi. e CASTELLS, Manuel. “Local y global: La Gestión de las Ciudades en la Era de la Información”. Taurus, Madrid, 1997.

LE GOFF, Jacques, “Por Amor às Cidades”. UNESP, São Paulo, 1998.

ELIADE, Mircea. “O Mito do Eterno Retorno”. São Paulo, Mercuryo, 1992. A obra original foi publicada em francês, em 1949

GREGOTTI, Vittorio. “Território da Arquitetura”. São Paulo, Perspectiva, 1975.

HALL, Stuart. “Identidade Cultural na pós-modernidade”. Rio de Janeiro, DP&A, 1998.

ROSSI, A. “La Arquitectura de la Ciudad”. Barcelona, Gustavo Gili,1982.

SALDANHA, Nelson. “O Jardim e a Praça”. Edusp, São Paulo, 1993.

SEVCENKO, Nikolau. “As Muralhas Invisíveis da Babilônia Moderna”. Oculom, Revista de Arquitetura, Arte e Cultura, nº1, anoo II, 1985.

Nota complementar:
A edição do Infohabitar não quer deixar de registar a nota enviada pelo autor deste artigo no sentido de evidenciar o grande interesse da obra do jurista e fiósofo Nelson Saldanha, “O Jardim e a Praça”, acima referida e que é considerada como um trabalho fundamental na área do estudo sobre as esferas pública e privada.

Artigo preparado para edição em 2008-05-17, por António Baptista Coelho.
Artigo editado no Infohabitar em 2008-05-18, por José Baptista Coelho.
Infohabitar: Lisboa, Encarnação – Olivais Norte.

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