sexta-feira, julho 14, 2006

93 - A CIDADE QUE SOU E TENHO EM MIM – Maria Celeste Ramos ; REGRA DE OURO: HABITAR – Maria João Eloy - Infohabitar 93

 - Infohabitar 93

Artigo duplo
Introdução
Das propostas do PNPOT (1) destacamos o tema “Portugal: os grandes problemas para o Ordenamento do Território” (2), elegendo o domínio que incide na “Expansão urbana desordenada e correspondentes efeitos na fragmentação e desqualificação do tecido urbano e dos espaços envolventes” para, numa abordagem não institucional, empreendermos uma reflexão sobre o acto de ‘habitar’, a pretexto das louváveis intenções das alíneas seguintes:
Degradação da qualidade de muitas áreas residenciais, sobretudo nas periferias e nos centros históricos das cidades, e persistência de importantes segmentos de população sem acesso condigno à habitação, agravando as disparidades sociais intra-urbanas”; “Insuficiência das políticas públicas e da cultura cívica no acolhimento e integração dos imigrantes, acentuando a segregação espacial e a exclusão social nas áreas urbanas”.
(1) No dia 27 de Abril de 2006, foi publicada em Diário da República a Resolução do Conselho de Ministros que aprova para discussão pública a proposta técnica do Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território, PNPOT. O período de discussão pública ocorre de 17 de Maio a 9 de Agosto de 2006.
(2) http://www.territorioportugal.pt/Proposta.aspx

A CIDADE QUE SOU E TENHO EM MIM

Maria Celeste Ramos



A cidade é como a vida – está dentro de mim e sou dela pertença.
Ao atravessá-la a caminho da escola ou do local de trabalhar ou, simplesmente, de ir daqui para acolá, recolhem-se imagens codificadas que vão para uma zona do cérebro, arquivo da memória imagética, como vão as imagens de qualquer outra vivência no espaço familiar.
A vida é um processo de acumulação de imagens (3) anexando a respectiva emoção que, frequente e tardiamente, já não é uma memória mas uma recordação, baralhando o "tempo" cronológico mas deixando uma sucessão de "pegadas."
A cidade educa e eleva, ensina e informa estabelecendo um relacionamento eu-cidade-espaço-acontecimento, transmite alegria e/ou dor, nem que seja a provocada pelas enxurradas e pelo fogo, porque a cidade não é apenas o espaço físico impessoal e impessoalizado, mas sim o que nele se vive e se troca.
A Cidade como a Casa é palco de-vida-acontecer e tal que, ao viajar-se para longe se traz, igualmente, a memória do lugar habitado por outrém, colhida emocional e culturalmente e vivida como se o homem e o espaço fossem impossíveis de dissociar, tornando-nos mais ricos e conscientes ao adquirir mais experiência vivencial e matéria de troca, porque viajar é por si só aprender.
Uma cidade abandonada pelos habitantes é uma cidade fantasma que o vento e o tempo devoram ficando só ruínas, ou nem isso.
A cidade vive porque nela se habita com-a-vida-toda e será sempre o espelho multi-facetado das vivências humanas e das estações do tempo.
A cidade é o espaço de crescimento e desenvolvimento do ser humano que vai construindo memória colectiva como herança de cada geração, para a legar às gerações que vão nascendo.
Lisboa é a minha Cidade - é a cidade que eu tenho cá dentro – porque a gente pertence às cidade e às vilas e a cidade pertence à gente numa interacção constante.
Como as pegadas que deixamos na vida dos outros, a cidade deixa em nós matéria de identificação do que somos e que transborda para não importa que habitante urbano ou rural.




Lugar que pode ser também cidade do ESQUECIMENTO - cidade que esquece os velhos porque os DESACTIVA, ou não valoriza os que, sendo portadores de handicap, são também cidadãos activos, criativos e produtivos
E porque a cidade é o espaço de abrigo que fornece habitação, cultura, religião, serviços, jardins e bem estar, é também o lugar que dá prioridade ao automóvel sobre o peão – que se limita a fornecer espaços lúdicos só para os teenager e não para os velhos, num ambiente que se torna progressivamente hostil e incomunicável com o habitante, perdendo o sentido de cidade e das funções para que foi contruída – as funções dos cidadãos.
Esta Cidade de hoje é a cidade onde MORA o quê ?? A alienação ? O esquecimento da origem da sua função ?? O esquecimento da criação de lugares com "espírito do lugar" e espírito de criar condições de vizinhança, de bem estar e de alegria e de um orgulho de pertença de nela habitar.
(3) Na esteira de George Steiner: “Não é o passado literal que nos governa, excepto, talvez, muma acepção biológica. São imagens do passado: com frequência tão intensamente estruturadas e tão imperativas como os mitos. As imagens e as construçõs simbólicas do passado encontram-se impressas, quase à maneira de informações genéticas, na nossa sensibilidade. (…)” – “No Castelo do Barba Azul – Algumas Notas para a Redefinição da Cultura” (1971), Relógio d’Água, 1992, p 13
Maria Celeste d’Oliveira Ramos, 4 junho 2006
Fotos: ‘O Rio como Paisagem’, Doca de Santo Amaro, Lisboa, 2006 – MCOR.


REGRA DE OURO: HABITAR

Maria João Eloy



A utilização do termo ‘habitar’ traduz tradições e pressupostos contraditórios, reveladores do estatuto dos habitantes de lugares em regime de paz, que é irreconciliável com o dos que sobrevivem nos lugares em guerra; pensar na qualidade do ‘habitar’, releva o significado de pertencer ou não a uma comunidade, de ser ou não reconhecido como habitante, de viver como deslocado e emigrante ou de, paulatinamente, permanecer há gerações no mesmo território.
Além destas situações, em que os envolvidos se empenham na sua cidadania, sempre se puderam encontrar, no ‘habitar’, os sintomas de não pertencer e não acreditar, reflexo das singularidades da vida nua que ignora o implacável poder soberano da cidade, “a coisa mais universal, a coisa mais partilhada (...)” porque “com a cidade temos a impressão de descobrir o mundo tal qual ele é, ‘em directo’, de sermos actor e observador, exploradores de uma selva viva que constitui o próprio corpo da sociedade.”(4)
Reflectindo sobre a esperança daqueles a quem restam tentativas reiteradas de aceder a condições precárias de ‘habitar’, recorrerei à noção de irreparável de Agamben, que não retira nobreza a esse modo de ‘existir’: “O irreparável não é nem uma essência, nem uma existência, nem uma substância, nem uma qualidade, nem um possível, nem um necessário. Não é propriamente uma modalidade do ser, mas é o ser que se dá desde logo na modalidade, é as suas modalidades. Não é assim, mas é o seu assim.” (5)




À necessidade de transmissão, no mundo civilizado, das regras de ouro de ‘habitar’ – aparentemente ausentes do ‘habitar’ precário de todo o tipo de desalojados – tem-se vindo a contrapor uma valorização do papel da intuição, do imaginário, da sensibilidade e do corpo, numa autoregulação indomável que lança uma disparidade de desafios à pesquisa dos conceitos normalizados para projectar habitação; através de persistentes e trangressoras reconfigurações das regras do ordenamento territorial, do urbanismo e da arquitectura, assiste-se à tentativa de “combater o niilismo do mundo moderno: o abstracto lugar onde não há lugar da metrópole, a destruição do mundo interior do espírito e a impossibilidade de morar de um modo autêntico, no sentido heideggeriano do termo”, como o entende M. Cacciari (6).
É neste sentido que, ao reproduzir a lamentação de Gabriel o Pensador em “O resto do mundo” (7), pretendo ir além da invocação do folclore urbano das metrópoles, interrogando-me sobre o valor dos recursos criativos de grande parte da humanidade; de ‘gente’ que, vivendo fora dos limiares do ‘habitar’ regulamentado dos prósperos centros urbanos, se confronta com a linguagem estrangeira da cidadania participativa, sem lhe poder retorquir, senão através do discurso musical e poético – entre outras formas, das menos violentas, do discurso de ‘existir’:
O resto do mundo
Eu queria morar numa favela (...)
O meu sonho é morar numa favela
Eu me chamo de chêroso como alguém me chamou
Mas pode me chamar do que quiser seu dotô
Eu num tenho nome
Eu num tenho identidade
Eu num tenho nem certeza se eu sou gente de verdade (...)
Eu sou o resto O resto do mundo
Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo
Eu sou... Eu num sou ninguém (...)
Eu sou sujo eu sou feio eu sou anti-social
Eu num posso aparecer na foto do cartão postal
Porque pro rico e pro turista eu sou poluição
Sei que sou um brasileiro Mas eu não sou cidadão
Eu não tenho dignidade ou um teto pra morar (...)
Eu sei que a maioria do Brasil é pobre
Mas eu num chego a ser pobre eu sou podre!
Um fracassado Mas não fui eu que fracassei
Porque eu num pude tentar
Então que culpa eu terei
Quando eu me revoltar quebrar queimar matar
Não tenho nada a perder Meu dia vai chegar
Será que vai chegar? (...)
Eu num sou registrado Eu num sou batizado
Eu num sou civilizado eu num sou filho do Senhor
Eu num sou computado eu num sou consultado
Eu num sou vacinado Contribuinte eu num sou
Eu num sou comemorado eu num sou considerado
Evitando alongar esta interrogação, onde não cabe uma conclusão, escolheria o topos ou clichê que é conhecido na tradição como locus amoenus (lugar ameno, recanto aprazível) para, tentando não-entender e não-classificar os lugares de ‘habitar’ atrás exemplificados, perscrutar neles o ameno, o aprazível e o belo …
(4) Portzamparc, C. de - Prefácio a “ Vers la troisième ville ? ”, Mongin, Olivier; Hachette, 1995 pp. 8, 9.
(5) Agamben, Giorgio – “A comunidade que vem” (1991) - ed.Presença 1993, p 73.
(6) Cacciari, Massimo – “Architecture & Nihilism: on the philosophy of modern architecture”, London, Yale University Press, 1995.
(7) Excertos do texto da faixa 10 “O resto do mundo”, Gabriel o Pensador - CD, Chaos, 1993.
Maria João Eloy, Junho 2006
Fotos:
‘Um rectângulo de ouro no Rio de Janeiro’, 2003 – Vera Eloy.
‘Ordenamento do território entre Pemba e a ilha do Ibo’, Moçambique, 2005 – Margarida Nicolau.
‘O Resto do Abandono’, Ilha do Ibo, Moçambique, 2005 – Margarida Nicolau.

domingo, julho 09, 2006

92 - Outros destaques no Prémio INH 2006 - Infohabitar 92

 - Infohabitar 92

Outros destaques no Prémio INH 2006

António Baptista Coelho

(INH, Prémio, habitação, habitação social, urbanismo, conjuntos residenciais, exemplos)
No presente artigo do Infohabitar editam-se algumas breves apreciações sobre outros conjuntos residenciais e urbanos candidatos na 18ª edição do Prémio INH, em 2006 e que na opinião do autor deste artigo, também merecem significativos destaques aqui no Infohabitar, essencialmente na área da arquitectura e do urbanismo, de forma a que determinados aspectos positivos de experiências residenciais e urbanas de habitação de interesse social não fiquem sem registo.
Depois destas notas e, de certa forma, também como conclusão desta longa série de artigos sobre o Prémio INH 2006, tecem-se mais alguns comentários sobre a riquíssima experiência do Prémio, apontando-se um leque de conclusões práticas, muito centradas nos aspectos ligados ao tipo preferencial de dimensão da intervenção residencial, conclusões estas julgadas úteis, na área de uma promoção habitacional de interesse social que faça com a cidade viva e humanizada um compromisso solene e de futuro.
Nota: os projectistas referidos, neste e nos artigos precedentes, são os projectistas coordenadores dos respectivos empreendimentos, tal como foram indicados nas candidaturas ao Prémio INH.


O Prémio INH 2006, mais alguns destaques entre os concorrentes.

Promoção cooperativa (Habitação a Custos Controlados):

- GUIMARÃESCOOPE Cooperativa de Habitação C.R.L., construtor, NVE – Engenharias, Lda. Guimarães, Fermentões, 16 fogos, Arq.ª Maria Fernanda Martins.





Neste conjunto salienta-se a grande qualidade patente no desenvolvimento espacial e no acabamento dos espaços domésticos, com destaques para as excelentes cozinhas e para o bom dimensionamento das circulações.



Promoção cooperativa (Estatuto Fiscal Cooperativo):

- MAIACOOPE Cooperativa de Habitação C.R.L., construtor, Mozinho, Construção Civil e Obras públicas S.A. – Maia, Gueifães, R. 5 Out, 28 fogos, Arq.ª Sandra Couto.




Este empreendimento, cujas características urbanas estão, ainda, em desenvolvimento, salienta-se, desde já, pelos excelentes acabamentos, bem visíveis nos seus alçados. Interiormente, e para além dos excelentes acabamentos, destaca-se a interessante solução espacial aplicada na varanda, que sendo comum à sala e à cozinha aproveita mais profundidade útil na zona que “prolonga” a sala, e também se refere a muito versátil solução de sala em dois espaços, ligados por gola e por porta de correr, que proporciona uma grande diversidade de apropriações.



Promoção municipal:

- C. M. de CasteloBranco – C.Branco, Bº Horta d`Alva, 32fogos, Arq.º CassianoNeves e Arq.º Gonçalo MarçalGrilo, construtor Contrope Lda.





Neste conjunto destaca-se o aspecto depurado e racional patente no desenho dos alçados, racionalidade esta que também é positivamente aplicada na organização dos fogos, e o cuidado investido na manutenção das árvores preexistentes.

- C. M. doPorto –Porto, Parceria e Antunes, 54fogos, Arq. Cancelliere & Costa, construtor Constructora SanJose, S.A.





Este é um belo conjunto ao nível dos aspectos urbanos e de integração local pormenorizada, aplicando-se uma interessante solução de grande garagem comum, apenas semi-enterrada, e que se conjuga com as pequenas “alas” residenciais, criando agradáveis pequenas vizinhanças de proximidade, muito apropriadas a usos pedonais. O desenho de arquitectura é exteriormente depurado e muito atraente e foram visitadas excelentes soluções domésticas, em termos de equilíbrio de espaços e de capacidade de apropriação. Não é possível deixar de sublinhar que é esta a opção mais correcta de introduzir no centro da cidade pequenos conjuntos de habitação de interesse social caracterizados por uma grande capacidade de integração local e por um desenho de arquitectura muito atraente.




Promoção privada – Contratos de Desenvolvimento de Habitação:

- EFIMÓVEIS Imobiliária S.A., construtor, EDINORTE Edificações Nortenhas S.A. – SantoTirso, S. Martinho doCampo, Lugarde Leiras do Ribeiro, 72fogos, Arq.º J.Bragança e Arq.º M.Marques.





Este é um excelente conjunto, seja pela sua escala (equilibrado número de fogos) e imagem gerais, seja pela qualidade evidente da sua construção, seja pela atractividade de alguns dos seus pormenores, importantes para a sua apropriação pelos moradores – “pormenores” de grande escala como o atraente jardim público frontal e de pequena escala marcando as entradas dos edifícios – , seja pela excelente ideia que foi criar uma verdadeira vizinhança de proximidade e de convivialidade, desenvolvendo uma espécie de grande “L” edificado, um agradável espaço urbano côncavo, vitalizado pelos acessos aos edifícios e dinamizado por um pequeno “café”, que rapidamente se tornará o pólo de vitalidade desta vizinhança. Nos edifícios salientam-se as agradáveis escadas comuns e nos fogos um merecido destaque para a dotação com pequenos terraços das habitações menos elevadas.




- EFIMÓVEIS Imobiliária S.A., construtor, Ferreira Construções S.A. – Gondomar, RioTinto,Areias, 94fogos, Arq.º J.Bragança e Arq.º M.Marques.




Sublinha-se neste conjunto a muito interessante praceta residencial, com grande utilidade para recreio e desporto e bem hierarquizada e separada da via contígua, proporcionando-se, assim, melhores condições de segurança e uma agradável marcação da respectiva vizinhança de proximidade.




- Construtora.do Távora Lda. – Trancoso, Bº, Sr.ª dosAflitos, 11fogos, Arq.º Aires Almeida e Arq.ª Sofia Jacob





Neste conjunto fazem-se três merecidos destaques, um deles para uma imagem global na envolvente muito bem harmonizada com uma predominância local de edifícios unifamiliares, outro, no edifício, para a funcional relação entre cada fogo e a sua respectiva garagem privativa, e o último, ao nível doméstico, para a agradável e funcional organização da habitação, marcada por belíssimas cozinhas, verdadeiras salas de família, pelo seu espaço e pelos seus acabamentos – condição esta que pode possibilitar o uso da “sala-comum” apenas como sala de estar.




- EUROHORIZONTE Lda., construtor, FDO- Construções S.A. – Aveiro, Aradas, Magustão, 63fogos, Arq. Jorge Matias.






Neste conjunto destaca-se a atraente imagem geral, marcada pelas agradáveis entradas dos edifícios, que marcam ritmicamente um longo e amplo passeio arborizado. Refere-se também, a nível urbano, o cuidado investido no equipamento de recreio e desporto, e, a nível doméstico, o desenho dos vãos e as amplas cozinhas.





- EUROHORIZONTE Lda., construtor, FDO- Construções S.A. – Trofa, S.Martinho Bougado - Mosteiró, 85fogos, Arq.º Ricardo Alarcão.






Sublinha-se a agradável imagem geral, marcada por uma volumetria orgânica desenvolvida por um amplo conjunto de elementos, desde os edifícios, a muretes e a grandes e contínuas floreiras bem associadas aos edifícios; e tudo isto numa atraente relação com as árvores de arruamento, plantadas já com a dimensão certa. Outros destaques seja para a generosidade, tão adequada, de uma grande amplitude de espaços de recreio e desporto bem equipados, seja para a solução funcional de estacionamentos cobertos sob os edifícios, aproveitando os desníveis do terreno.

- HABIMARANTE Sociedade de Construções S.A. – Cabeceiras de Basto, Arco.de Baúlhe, 21 fogos, Arq.º Hugo Maia.





Destacam-se especialmente quatro aspectos neste conjunto: a coragem de se continuar a usar uma tipologia em galeria exterior que tem os seus problemas, mas também tem as suas vantagens; a variedade de tipos de fogos; a excelente zona de estacionamento e de garagem que marca todo o amplo espaço inferior do conjunto, uma solução que transformou uma parte do problema de implantação numa solução funcionalmente vantajosa; e a integração com a habitação de um equipamento colectivo de apoio infantil (julgo que do tipo “Actividades de Tempos Livres”).

- Hagen Imobiliária S.A., construtor, Sociedade de Construção Hagen, S.A.– Sines, Qt. dosPassarinhos, 128fogos, Arq. MiguelRocha e Arq. Miguel Saraiva.





Este é também um agradável conjunto que merece um destaque muito específico e amplo: relativamente à imagem urbana geral, marcada pela atractividade e dignidade; ao nível das excelentes pracetas pedonais com uma agradável escala geral e um interessante equipamento; relativamente a soluções pouco frequentes, mas muito interessantes, de articulação de vias de acesso com “impasses” residenciais muito bem pedonalizados (este aspecto é visível em uma das imagens); ao nível de soluções de edifícios em que se desenvolvem pequenas galerias comuns interiores de distribuição, mas com iluminação natural; e finalmente, quanto aos fogos, destaca-se a muito agradável distribuição doméstica, a associação entre arrumações e definição de espaços e privacidades, e a definição de espaçosas cozinhas e salas (concentrando-se, aqui, um máximo de área).





Algumas, sempre poucas, notas conclusivas

O Júri do Prémio embora anualmente renovado, garantiu a manutenção de um núcleo de aspectos de observação e análise, que asseguraram, genericamente, o acompanhamento da mais recente habitação de interesse social em Portugal, possibilitando, assim, uma muito útil e interessante noção da evolução qualitativa dessa habitação e das suas diversas modalidades de promoção ao longo de quase duas décadas.
Mas um aspecto deve ser aqui salientado, pois é, de certa forma, uma conquista deste período de promoção habitacional com o apoio do INH, que, embora não se possa considerar, ainda, como reflexo de uma guerra ganha, é uma conquista muito significativa no apoio a uma habitação de interesse social bem integrada, física e socialmente, e ligada a uma arquitectura urbana bem qualificada; esta conquista é a “pequena” escala e a diversidade das intervenções, que:
- favorece a participação dos habitantes, a identidade local, o desenvolvimento comunitário, e o controlo local
- facilita o equilíbrio ecológico de cada conjunto.
- privilegia o peão e favorece uma rede de espaços públicos conviviais
- proporciona diversidade de soluções de edifícios habitacionais e mistos.
- favorece uma ampla gama de usos e actividades.
- pode e deve privilegiar o verde urbano em todas as suas formas.
- e assegura o desenvolvimento de pequenos conjuntos urbanos, controláveis, fáceis de gerir, capazes de funcionarem como elementos positivos de qualificação e requalificação urbana; o que é muito importante.

Encarnação – OlivaisN, Lisboa
António Baptista Coelho

segunda-feira, julho 03, 2006

91 - Premiados e mencionados no Prémio INH 2006 - Infohabitar 91

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Premiados e mencionados no Prémio INH 2006

António Baptista Coelho e Maria Celeste Ramos

Uma das iniciativas que o INH assegurou ao longo dos seus 22 anos foi o Prémio INH, desenvolvido anualmente e que foi promovido, sem interrupções, ao longo de 18 edições anuais, entre 1989 e 2006; o Prémio de 2006 teve a sua cerimónia pública a 30 de Junho no Salão Nobre da Sociedade de Geografia de Lisboa.

O prémio INH integra a ponderação da qualidade arquitectónica, numa perspectiva muito ampla, mas também a apreciação do processo de promoção, da qualidade da construção e da apropriação pelos habitantes; e desenvolve essa apreciação sobre o que é visto realmente nos locais, espaços exteriores, edifícios e habitações, e não apenas em projectos e fotografias.

O Prémio INH integra ainda um outro aspecto fundamental, que são as sistemáticas sessões de análise e discussão sobre as características de cada empreendimento candidato, realizadas em cada local, com a presença do Júri multidisciplinar e dos promotores, construtores e projectistas de cada empreendimento; uma acção formativa e informativa que assegurou, ao longo das suas 18 edições anuais, o muito significativo número de 568 acções de dinamização da qualidade residencial. No final do artigo divulga-se a constituição do Júri do Prémio INH 2006.

E, de imediato, se faz a apresentação sumária dos conjuntos residenciais premiados e mencionados em 2006, utilizando-se os textos de síntese que correspondem à respectiva apreciação pelo Júri do Prémio e que constam da respectiva acta. No entanto e considerando o objectivo de divulgação que marca este artigo, associaram-se, por vezes, a esses textos, muito breves comentários complementares e relativamente informais, desenvolvidos pelos autores deste artigo e que, apenas para melhor esclarecimento, das respectivas autorias, foram escritos em itálico.




Prémio INH 2006 de Promoção Municipal foi atribuído ao empreendimento de 108 fogos em MonteEspinho, Leça daPalmeira, promovido pelo Município de Matosinhos, construído pela empresa FDO - Construções, S.A, com um projecto coordenado pela arquitecta Paula Petiz.





É um conjunto, constituído por habitação e equipamentos, com expressiva escala humana e grande rigor formal, que se relaciona, muito positivamente, com a comunidade envolvente, através de uma estrutura viária aberta e de equipamentos sociais, contribuindo, ainda, pela sua significativa qualidade urbana arquitectónica, para a valorização da zona de implantação. As habitações apresentam organização e dimensionamento exemplar, complementadas com espaços exteriores que têm em conta as duas escalas, a doméstica e a colectiva. Destacam-se, ainda, as escadas de exterior, que para além da função, são componente de valor estético e cromático e de valorização do clima urbano e determinam espaços exteriores suplementares, a usufruir, em segurança, por todas as classes etárias. Todos estes atributos são valorizados por uma construção muito bem executada, que foi desenvolvida, com grande eficácia, durante um período de obra muito curto. O conjunto atinge uma notável unidade de paisagem urbana e de pormenorização com evidente e muito positiva qualidade, constituindo-se num marco urbano e vicinal valorizador e regenerador da envolvente onde se integra e que ajuda a integrar; é aqui conseguido o difícil objectivo de fazer habitação de interesse social, que se distingue claramente pela positiva e que, assim, é, também, um elemento urbanao regenerador.





O Prémio INH 2006 de Promoção por Entidade Pública Empresarial foi atribuído ao empreendimento de 25 fogos em Jardim daSerra, Câmara deLobos, promovido pelo IHM – Investimentos Habitacionais daMadeira, EPE, construído pela empresa FDO – Construções, SA, com o projecto coordenado pelo arquitecto Carlos Gonçalves.





Neste empreendimento realça-se o muito adequado ajustamento do programa tipológico à população a que se dirige, o exemplar enraizamento dos edifícios num terreno particularmente difícil, desenhando-se com o relevo, a valorização da paisagem local e do sítio, numa verdadeira acção de requalificação ambiental, e a harmonização das construções em relação ao clima de altitude. Todos os espaços interiores das habitações dialogam com um amplo leque de espaços exteriores privados. A adaptabilidade natural deste projecto a moradores , com limitações de locomoção, sublinha as potencialidades desta solução de arquitectura, aliás expressivamente marcada por uma fortíssima e positiva apropriação pelos respectivos moradores, perfazendo uma solução de habitar que contribui para a dignificação das famílias. O nível de agrado com a casa e de apropriação da mesma, designadamente, em espaços e elementos com importante vista pública, atinge aqui características muito positivas e pouco frequentes, o que se considera ser um aspecto muito relevante e que também se liga ao referido e cuidadoso arquitectar de espaços domésticos, que, sendo dimensionalmente limitados, encontram no “jogo” interior exterior uma eficaz dimensão.




O Prémio INH 2006 de Promoção Privada foi atribuído ao empreendimento de 81 fogos em Gala, Figueira.daFoz, promovido pela empresa Efimóveis Imobiliária, SA, construído pela empresa Ferreira Construções, SA, com o projecto coordenado pelos arquitectos Duarte Nuno Simões, Nuno Simões e Joana Barbosa e pelo Eng.º Artur PintoMartins.




Uma concepção conjunta de arquitectura e estabilidade, caracteriza uma construção rigorosa, de imagem clara e de grande economia, atributos realçados por uma coloração apelativa que fazem destacar, positivamente, o novo conjunto na sua envolvente. Os azuis e cinza dos edifícios contrapõem-se com o verde dos generosos espaços exteriores pedonais e recreativos ajudando a criar um ambiente geral marcado pela dignidade, mas também pela alegria e por uma equilibrada diversidade. A solução geral do edifício proporciona uma positiva associação entre imagens e usos das tipologias uni e multifamiliares. As habitações oferecem organizações diversificadas, com uma relação espaço / luz muito interessante. Realça-se o equilíbrio entre um desenho de arquitectura sóbrio e depurado e uma imagem atraente e apropriável pelos seus habitantes, aspectos estes que levam a que este conjunto de habitação de interesse social, tenha uma presença claramente positiva e com influência regeneradora na zona urbana envolvente, marcando um verdadeiro espírito do lugar, muito humanizado e numa íntima relação com a natureza. Sublinha-se a cuidadosa e estimulante utilização de uma tipologia de galerias exteriores (tantas vezes considerada menos adequada), mas que surge com uma imagem associada seja ao unifamiliar seja à tradicional e apropriável varanda corrida.



O Prémio INH 2006 de Promoção Cooperativa no âmbito da Habitação a Custos Controlados foi atribuído ao empreendimento de 45 fogos no Bº da Senhora.daSaúde, Évora, promovido pela cooperativa CHC – Construção de Habitação Cooperativa, CRL, construído pela empresa AntónioMelro Rodrigues, Construção Civil e Obras Públicas, Lda, com o projecto coordenado pelo arquitecto Rui SilvaRusso.





Um pequeno programa urbano, na continuidade do edificado existente, muito bem integrado, em que se atingiu uma excelente ligação entre objectivos sociais, formais e funcionais, evidenciados no elevado grau de satisfação encontrado nos seus moradores. É de realçar a preocupação de oferecer à comunidade um espaço exterior generoso, no interior do quarteirão, claramente caracterizado por uma concepção funcional e por um equipamento muito cuidadosos e estratégicos, desenvolvidos com o objectivo de criação de um exterior de vizinhança com uso real, bem compatibilizado com a contiguidade das janelas dos fogos, de grande atractividade e com condições para poder ser usufruído por todas as classes etárias e em segurança. A imagem do conjunto é harmoniosa e geradora de equilíbrio, formal e visual, factor positivo na integração destas famílias. Realça-se, ainda, o próprio processo de promoção e de gestão urbana baseado numa eficaz colaboração entre a cooperativa e o município.





Menção Honrosa para 6 fogos em Salir, Loulé, promovidos pelo Município de Loulé e construídos pela empresa António Poucochinho, Lda, com o projecto coordenado pelo arquitecto MarceloSantos.




Projecto concebido para realojar uma pequena comunidade cigana, tendo em conta os modos de vida específicos desta população. Os espaços das habitações são complementados com espaços exteriores de escala doméstica, pequenos pátios privatizados, acolhedores e íntimos, frontais e posteriores, que propiciam actividades domésticas, ao ar livre, com grande mobilidade de relação interior-exterior. Todo o conjunto se harmoniza com o meio rural de grande valor ecológico onde se insere. Sublinha-se o grande interesse que tem a continuidade de experiências deste tipo, em que se tenta, na prática, o desenvolvimento de soluções tipológicas que sirvam, simultaneamente, modos de vida específicos e a manutenção de uma imagem urbana digna e atraente; e anota-se a importância que terá o acompanhamento da ocupação destas casas de forma a ajuizar da sua adequação.



Menção Honrosa para 30 fogos em Barroca, Murça, promovidos pelo Município de Murça, construídos pela empresa Manuel JoaquimCaldeira, Lda, com o projecto coordenado pelo arquitecto João Avelino de Sousa.





Neste empreendimento realça-se uma excelente adequação da edificação à pendente acentuada do terreno e uma interessante relação entre os edifícios que definem acessibilidades pedonais atractivas e muito amigáveis. As habitações de áreas bem dimensionadas, complementadas por espaços exteriores de escala doméstica, têm proporcionado positivas acções de apropriação pelos moradores. Neste conjunto sublinham-se pequenos mas importantes pormenores, seja ao nível do reforço da identidade e da apropriação, como é o caso dos pequenos pátios frontais, portas bem desenhadas e volumes e cores gerais que transmitem imagens de alegria, seja ao nível de aspectos funcionais positivos entre os quais se destacam as cozinhas espaçosas.




Menção Honrosa para 68 fogos em Gulpilhares, Vila Nova de Gaia, promovidos pela empresa Efimóveis, SA, construídos pela empresa FerreiraConstruções, SA, com o projecto coordenado pelos arquitectos J. Bragança e M. Marques.





Um projecto inovador que usa pequenos edifícios bifamiliares em bandas, agradavelmente seccionadas e é caracterizado pela organização das habitações em meios pisos procurando assim uma melhor adequação da construção à pendente acentuada do terreno. O desenho, no seu todo, é muito cuidado, de grande simplicidade e beleza formal e a procura de soluções para obter iluminação natural em todos os espaços é uma das particularidades a realçar neste projecto. A construção apresenta um elevado nível de execução, acentuando-se ainda a correcta implantação, relativamente à riquíssima e bela paisagem rural. Sublinha-se, ainda, seja a muito equilibrada solução que harmoniza, pelas suas características gerais de desenho urbano, a referida paisagem rural com uma agradável e bem caracterizada frente urbana, de bandas densificadas e repartidas, entre as quais se incluem pequenos espaços de enquadramento e de recreio. Salientam-se finalmente dois aspectos distintos: a opção global, que é realmente a mais indicada, de aplicar uma tipologia de certa forma amiga da paisagem e que nela se integra muito positivamente; e o sensível e aturado cuidado investido em toda a pormenorização de arquitectura, designadamente, no exterior público.




Menção Honrosa para 181 fogos em S.António, Faro, promovidos pela cooperativa CUPH – Urbanização Janelas.de Faro I, CRL, construídos pela empresa Varcril – Construções, SA e Edifer, SA, com o projecto coordenado pela arquitecta Jennifer Silva Pereira, pelo arquitecto Rogério Paulo Inácio e pelo arquitecto paisagista José Brito.




É um empreendimento urbano que guarda as memórias rurais do lugar, usando, positivamente, estas preexistências para estruturar e qualificar o conjunto edificado. A imagem urbana e residencial do conjunto é atraente, marcada por excelente solução de arquitectura urbana e de espaços públicos, que privilegia o peão e um desenho sóbrio realçado pela qualidade construtiva. Salienta-se, ainda, a muito agradável paleta cromática. Este é um belíssimo conjunto residencial e urbano, marcado, em termos de concepção, por uma rara e muito bem conseguida aliança entre arquitectura e arquitectura paisagista, caracterizado por uma rara atitude de “dar a volta” a uma zona ambientalmente degradada (as traseiras de uma frente urbana) recuperando-a com uma frente de boxes de estacionamento, aplicando uma rara solução de revestimento dos espaços exteriores que privilegia a infiltração da água da chuva nas amplas zonas verdes e pedonais, onde existe um raro estacionamento arborizado, que salvaguarda árvores preexistentes, e que estrutura toda a intervenção em torno e ao longo de um agradável e estimulante eixo pedonal e naturalizado, que tem uma extensão maximizada e se prolonga por atraentes pracetas pedonais. Nas habitações há que sublinhar a existência de cozinhas que são verdadeiras “salas de família.”



Menção Honrosa para 24 fogos em Colina., Ferreira.do Alentejo, promovidos pela Cooperativa de Habitação Económica Lar ParaTodos, CRL., construídos pela empresa António Jorge, Lda, com projecto coordenado pelo arquitecto AnteroFerreira.



É um empreendimento muito bem integrado, que tem em conta a pendente do terreno e apresenta como referência a arquitectura local tradicional. Os espaços interiores estão bem organizados e dimensionados, articulando-se com espaços exteriores privados, em pátios, com uma escala intimista e possibilitando grande diversidade de usos domésticos. O especial interesse desta intervenção refere-se a dois aspectos distintos: um deles é a capacidade de grande integração numa envolvente basicamente unifamiliar e ruralizada, aplicando-se, claramente, uma imagem térrea; e o outro o desenvolvimento de uma solução edificada em que se tenta, de certa forma, associar à vivência do unifamiliar todas as potencialidades que podem caracterizar o uso de um orgânico conjunto de espaços interiores, exteriores, de transição, mais e menos repartidos e delimitados por muros e servidos por acessos principais e de serviço, e tudo isto respeitando ao máximo uma imagem pública consistente e sóbria, com reduzido impacto visual.

Segue-se a indicação da constituição do Júri do Prémio INH 2006 (indicam-se todos os participantes nos trabalhos de análise, incluindo os elementos suplentes).

Eng.º José TeixeiraMonteiro, Presidente do Conselho Directivo do INH e Presidente do Júri.
Dr. JorgeMorgado e Eng.º PauloReis, do Instituto Nacional de Habitação (DCS)
Eng.ª Teresa Nunes, do Instituto Nacional de Habitação (DCN).
Arq.º Rogério de Oliveira Pampulha, do Instituto Nacional de Habitação (INH).
Arq.º Armindo AlvesCosta, da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP).
Arq.º António Baptista Coelho, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
Dr. LuísFerreira daSilva e Eng.ª TeresaNogueira Simões, da Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas (AECOPS).
Eng.ª Cristina Cardoso e Eng.ª Joana Vaz, da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN).
Eng.ª Maria João Surrécio e Eng.º Manuel Agria, da Associação Nacional de Empreiteiros de Obras Públicas (ANEOP).
Sr. Carlos Alberto da CruzCoradinho, da Federação Nacional das Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).
Arq.ª Paisagista Maria CelesteRamos, da Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas (APAP).
Eng.º Manuel Cenrada Guinapo, da Ordem dos Engenheiros (OE).

No Próximo artigo do Infohabitar tecem-se mais alguns comentários sobre a experiência do Prémio INH e, a propósito, e com toda a naturalidade, editam-se algumas apreciações, muito breves, sobre outros conjuntos candidatos nesta edição de 2006 e que na opinião de quem irá assinar esse artigo, também merecem pequenos, mas significativos destaques, aqui no Infohabitar, de forma a que alguns aspectos positivos de experiências residenciais e urbanas de habitação de interesse social não fiquem sem registo.

Lisboa, Encarnação- Olivais Norte e Bairro de Santo Amaro

António Baptista Coelho
Maria Celeste Ramos

Edição: José Baptista Coelho

2 de Julho de 2006