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domingo, junho 10, 2012

397 - Sobre a actual importância do cooperativismo habitacional português - I ; e Notícias do 2.º CIHEL - Infohabitar 397

Infohabitar, Ano VIII, n.º 397

Aos leitores do Infohabitar,

Editam-se, em seguida, notícias do 2.º CIHEL, seguidas do artigo da semana do Infohabitar que lembra estarmos no Ano Internacional das Cooperativas 2012 e que o Movimento Cooperativo Habitacional (MCH) pode ser, hoje em dia, um aliado estratégico importante na resolução dos problemas habitacionais de muitas famílias.

Notícias do 2.º CIHEL



Congresso,13 a 15 de março de 2013

Workshop, 11e 12 de março


O 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono (2.º CIHEL) está ser organizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) em associação com o Grupo Habitar, com o apoio de um número crescente de individualidades e entidades públicas e privadas e será realizado no Centro de Congressos do LNEC entre 13 e 15 de março de 2013, salientando-se que em 11 e 12 do mesmo mês decorrerá, também no LNEC, um Workshop sobre as temáticas a tratar no Congresso.

Em breve serão divulgadas as comissões do Congresso e novos apoios e importantes iniciativas associadas.


As propostas de comunicações para o 2.º CIHEL deverão ser enviadas para o endereço comunicacoes2cihel@lnec.pt até 1 de julho de 2012 (1.ª chamada de comunicações; chama-se, ainda, a atenção dos autores de resumos para a escrita da primeira parte do endereço do mail acima registado, que esteve erradamente definida no documento em word com instruções para envio dos resumos, e que é comunicacoes2cihel - tudo de seguida, sem ponto.


Artigo da semana

Sobre a actual importância do cooperativismo habitacional português - I (*)

António Baptista Coelho

"Cooperatives are a reminder to the international community that it is possible to pursue both economic viability and social responsibility. "

Secretário-Geral das Nações Unidas Ban Ki-moon


http://social.un.org/coopsyear/

"International years are declared by the United Nations to draw attention to and encourage action on major issues. The International Year of Cooperatives is intended to raise public awareness of the invaluable contributions of cooperative enterprises to poverty reduction, employment generation and social integration. The Year will also highlight the strengths of the cooperative business model as an alternative means of doing business and furthering socioeconomic development."

(citação do site acima referido, International Year of Cooperatives 2012)

Fig. 01:

Numa altura em que a ONU declarou 2012 como Ano Internacional das Cooperativas (International Year of Cooperatives 2012), e em que, em Portugal, se conjugam (i) necessidades de uma verdadeira qualidade residencial, (ii) com problemas económicos e sociais específicos, graves, sensíveis e muito diversificados, seja ao nível da família, como em termos individuais (e com claros reflexos potencialmente muito negativos ao nível urbano) e (iii) com necessidades habitacionais ainda críticas e também extremamente específicas e diversificadas, parece fazer todo o sentido uma redescoberta e uma rentabilização das potencialidades da promoção habitacional cooperativa e "económica" ou de habitação de interesse social, isto porque é uma forma de promoção local, de proximidade e potencialmente muito dedicada, tendencialmente direccionada para pequenas intervenções bem integradas e que poderá assumir diversas e flexíveis modalidades financeiras - da compra , ao aluguer e à renda resolúvel.

Mas para além de tais vantagens, que se julga serem mais do que suficientes para alavancar uma nova fase da promoção protuguesa de Habitação de Interesse Social (HIS), aliás numa altura em que, muito provavelmente, nem fará sentido fazer grandes conjuntos de HIS, nem haverá meios para a continuidade de uma promoção municipal, por vezes pouco dedicada, nem meios para uma promoção privada de HIS que se esgota na altura da conclusão da obra, esquecendo que aí começa a vida real do habitar; repete-se, para além de tais vantagens, um revitalizar da promoção cooperativa de habitação dita "económica" ou de HIS, cumprirá um papel, pelo menos tão importante, ou talvez mais importante, de luta contra a actual corrente do isolamento doméstico, da ausência de solidariedade e do esquecimento da riqueza da vida na vizinhança e da vivência do espaço citadino público.

E é oportuno citar, aqui, uma pequena parte de um trabalho síntese de Flávio Paiva (1), intitulado “Estudo de caracterização das cooperativas de habitação em Portugal”, em que este autor refere o artº 2º do Código Cooperativo (aprovado pela Lei nº 51/96), baseado na definição da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), onde se aponta que “as cooperativas são pessoas colectivas autónomas, de livre constituição, de capital e composição variáveis, que através da cooperação e entreajuda dos seus membros, com obediência aos princípios cooperativos, visam, sem fins lucrativos, a satisfação das necessidade e aspirações económicas, sociais e culturais daqueles”. Tal como salienta Flávio Paiva, o Código refere os sete princípios aprovados no Congresso de Manchester da ACI de 1995, pelos quais as cooperativas se devem reger:

“(1) adesão voluntária e livre;

(2) gestão democrática pelos membros;

(3) participação económica dos membros;

(4) autonomia e independência;

(5) educação, formação e informação;

(6) intercooperação;

e (7) interesse pela comunidade.”


Fig. 02: A 1.ª fase da Cooperativa As Sete Bicas, em Matosinhos; projecto de Eduardo Iglésias e Pedro Q. Mesquita .

Fica registado o importante “pano de fundo” social e ético que constitui a marca genética do Movimento Cooperativo Habitacional (MCH) português e que se julga que não foi ainda devidamente aproveitado numa perspectiva de continuidade, nas suas múltiplas potencialidades no que toca ao desenvolvimento para o grande número de cidadãos de um habitar muito qualificado e com uma verdadeira perspectiva de qualidade mantida e acrescida ao longo do tempo e com um mínimo de apoios públicos.

Falta sublinhar que o MCH tem sempre tentado e tem, frequentemente, conseguido fazer cidade com habitação, o que é essencial para se habitar com uma qualidade adequada e ampla, e este é um desígnio que foi sempre importante e hoje é vital, pois, como referiu Vasco Folha (2), já há alguns anos, num fórum cooperativo, só num contexto de direito à cidade “é que o direito à habitação pode ser considerado como um verdadeiro direito de cidadania”, pois “é impensável pensarmos hoje na habitação de uma forma isolada, quer dizer, sem entendermos a habitação sem pensar na escola, sem pensar no emprego, nos serviços, na bica, no quiosque, enfim, no espaço de lazer, nos arranjos exteriores, enfim, tudo isso. E entendermos que a cidade tem que ser o mais possível um espaço de encontro e nunca um espaço em que, efectivamente, o desencontro é o que existe.”


Fig. 03: A Cooperativa Mãos à Obra, em Gondomar, projecto de Alfredo Costa Brandão e João Carlos Sarabando.

Foi esta perspectiva de aliança entre habitação e promoção do “encontro” natural, do não estar só ou de estar menos só numa vizinhança afirmada que equilibre uma sociedade tantas vezes ferozmente individualista, que se (re)constituiu, a seguir à Revolução de Abril, o Movimento Cooperativo Habitacional (MCH) português dedicado à "habitação económica", um movimento que se prolongou praticamente até aos dias de hoje, através de múltiplos problemas e incompreensões, uns mais genuínos do que outros. Mas hoje estamos numa altura de opções, numa altura em que a crise ou as crises, geram novamente necessidades críticas ao nível do habitar casa e cidade, necessidades estas muito provavelmente bem à medida das capacidades do MCH.

Isto porque, tal como concluiu, há alguns anos, Claus Hachmann, então presidente da Secção Cooperativa da ACI Europa para a Habitação (3):

(i) este movimento é pouco burocrático, baseando-se no voluntarismo do seus membros;

(ii) porque há intensa actividade social em muitos conjuntos cooperativos, pois os habitantes sentem-se “em casa” e identificados com a cooperativa;

(iii) porque há menos violência e vandalismo, pois a vizinhança funciona bem e as pessoas conhecem-se e respeitam-se;

(iv) porque há transparência, democracia e eficácia na gestão;

(v) porque há democracia nas opções tomadas;

(vi) e porque, frequentemente, as cooperativas habitacionais tomam conta dos seus membros quando envelhecem ou têm problemas de deficiência.

Foram citações retiradas de uma síntese que caracterizava o trabalho do MCH na Europa no final do século XX e que se julga ter caracterizado o trabalho extremamente significativo, em termos quantitativos e qualitativos, do Movimento em Portugal, sendo que, tal como também sublinhou Claus Hachmann, o presente e o futuro próximo do MCH europeu passa, seja pelo renovado serviço habitacional aos grupos sociais mais carenciados, incluindo a classe média em crise, seja pelo serviço habitacional diversificado a um amplo leque de novos grupos-alvo carenciados de condições de habitar especificamente adequadas, entre os quais se evidenciam, por exemplo, as famílias com muitos filhos, com filhos pequenos e as famílias monoparentais, os idosos que podem optar por viver em modelos de habitar cooperativos devido a razões económicas, sociais e culturais, os jovens que optem por formas alternativas de habitação e de vida diária e todas as outras pessoas socialmente sensíveis; mas sempre num quadro de total integração social e urbana.



Fig. 4 – A cooperativa HABITOVAR, 237 fogos, projecto de Pedro Ramalho, Alcino Soutinho, Bernardo Ferrão e Rolando Torgo.

Naturalmente que o MCH português e muitas dezenas de milhares de famílias muito devem ao trabalho das cooperativas associadas na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica - FENACHE -, uma entidade que sempre aliou a adequação das intervenções em termos socioculturais com a sua qualidade de integração urbana e de arquitectura.


Neste contexto e considerando a obra feita e a capacidade instalada das cooperativas da FENACHE, espera-se que haja clarividência para se perceber a grande importância estratégica de uma renovada e diversificada promoção cooperativa de Habitação de Interesse Social, numa perspectiva evidenciadamente qualitativa, promenorizada e bem integrada de disseminação de pequenas intervenções num tecido urbano cuja coerência e continuidade ganhará, teambém, com este tipo de intervenções.

Essa importância tem razões básicas, já apontadas neste texto, sendo hoje crucial e desejavelmente dirigida para parcerias que assegurem, por exemplo, condições de financiamento adequadas e terrenos urbanos estrategicamente localizados (para quem irá lá habitar e para as envolventes desvitalizadas) e a custos e com objectivos programáticos direccionados para o que está em jogo: viver melhor (n)a cidade em condições sociais e arquitectónicas naturalmente integradas e estimulantes e com custos aceitáveis, uma matéria referida, afinal, ao importante objectivo de se fazer cidade viva e "cidade de interesse social".

E esta "cidade de interesse social" é a única realmente integradora em termos sociais e físicos, por se tratar de um quadro urbano cujas vizinhanças e zonas conviviais serão, tendencialmente, tão intensamente habitadas como as respectivas habitações; condições estas extremamente adequadas ao serviço habitacional, em continuidade e socialmente sensível, que sempre foi disponibilizado pelo MCH português, e um serviço que é o principal garante de condições de habitar que apoiem activamente a integração social e cívica das pessoas e das famílias nele integradas.

Notas:

(*) O presente texto foi, em boa parte, adaptado a partir de um texto maior do autor, que foi realizado para constituir um capítulo de uma publicação sobre a história prática da habitação de interesse social portuguesa ainda não editada.
(1) Flávio Paiva, “Estudo de caracterização das cooperativas de habitação em Portugal”, in As Cooperativas de Habitação em Portugal, pp. 64 e 65.
(2) Vasco Folha, “Qualidade de empreendimentos de Habitação de Custos Controlados”, in Forum Habitação IV Encontro: Reflexão sobre a Promoção Habitacional Cooperativa", p. 43.
(3) Claus Jürgen Hachmann, “Housing co-operatives in Europe facing the challenges of the 21st century”, in Forum Habitação IV Encontro: Reflexão sobre a Promoção Habitacional Cooperativa", pp. 99 e 100.

Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.

(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Infohabitar, Ano VIII, n.º 397


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte










quinta-feira, julho 26, 2007

150 - Reabilitação do parque habitacional público: O papel das cooperativas - crónica de Nuno Teotónio Pereira - Infohabitar 150

  - Infohabitar 150

Com grande satisfação edita-se no Infohabitar mais um texto do Arq.º Nuno Teotónio Pereira, neste caso sobre a urgente problemática da reabilitação urbana e sobre o importante papel que a iniciativa cooperativa habitacional pode ter neste muito adequado par de objectivos de refazer uma cidade verdadeiramente mais coesa, mais viva, mais cívica e, portanto, mais adequada e estimulante.

Salienta-se que esta crónica de Nuno Teotónio Pereira, que é agora editada no Infohabitar, foi publicada no último número (N.º 33) da revista “Pedra e Cal” (*), com o mesmo título, que seguidamente se regista.

A edição do Infohabitar



REABILITAÇÃO DO PARQUE HABITACIONAL PÚBLICO

O papel das cooperativas


O parque habitacional público, quer do Estado, quer de propriedade municipal, tem hoje uma enorme dimensão, em resultado da construção, ao longo de décadas, de empreendimentos de habitação social. Esta massa de edifícios, espalhada por todo o país, vem colocando exigências de manutenção a que as diferentes entidades não têm podido ou sabido dar resposta. É por isso que muitos bairros, para além de frequentes problemas resultantes de deficiente inserção urbana, apresentam hoje graves situações de degradação ao nível dos edifícios.

Que a percepção deste problema não é de agora, atesta-o o facto de, após o 25 de Abril, quando foi criado o Instituto Nacional de Habitação, ter aparecido pouco depois o IGAPHE – Instituto de Gestão e Alienação do Património Habitacional do Estado. Procurava-se, já nessa altura, que a grande quantidade de fogos existentes passasse para as mãos de municípios ou outras entidades, e até para as dos próprios moradores, endossando assim as responsabilidades da respectiva conservação.

Foi neste quadro que uma parte dessas habitações foi sendo alienada, mas a um ritmo claramente insuficiente face às necessidades e expectativas. O mesmo aconteceu com os edifícios construídos pelas Caixas de Previdência, que foram sendo vendidos aos arrendatários, fogo-a-fogo, sucedendo que, na maioria deles, existem ainda fracções na posse do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social.

Com o intuito de acelerar este processo, a lei nº 107-8 de 2003 regulamentou a alienação do património habitacional do Estado para os Municípios. No entanto perante o facto de, em muitos casos, estes os terem rejeitado nas condições propostas, foi mais tarde facultada a respectiva transferência para outras entidades, nomeadamente IPSS, fundações e Misericórdias. Este processo tem-se desenrolado entretanto com muita morosidade e foi manchado com a polémica atribuição de um bairro social de Lisboa a uma fundação que fez aumentar as rendas de forma brutal, provocando a revolta dos moradores.

É precisamente no sentido de evitar erros e injustiças que o movimento cooperativo vem afirmando a sua capacidade, como parceiro do Poder Central e Local, na alienação do património habitacional público. Nesta perspectiva, uma comunicação apresentada ao recente VIII Congresso Nacional da FENACHE (Federação Nacional das Cooperativas de Habitação Económica), é reveladora da vocação específica deste sector da economia social para levar avante o complexo processo de reabilitação que não pode esperar mais.

Trata-se de experiências iniciadas em três bairros de habitação social (Leiria, Salvaterra de Magos e Nisa), em que a metodologia de intervenção assentou em dois eixos fundamentais: contacto permanente com os moradores e utilização de um programa informático especifico para cálculo e controlo das rendas. Estas experiências, promovidas pela cooperativa de habitação NHC e relatadas na revista “Habitar Hoje”, criaram expectativas muito favoráveis quanto ao desenvolvimento desse trabalho a nível da reabilitação social e física dos bairros envolvidos.

Assistindo-se neste momento a uma profunda revisão legislativa no campo da habitação social, com a redefinição do programa Prohabita e a criação de novos instrumentos, como o Proreabilita e a Porta 65, é de esperar que sejam aproveitadas as virtualidades específicas do movimento cooperativo também no campo da reabilitação. Na verdade, as cooperativas de habitação, como foi exuberantemente demonstrado no referido Congresso, têm-se pautado por um desempenho nos últimos anos que augura as melhores expectativas para o futuro. É neste sentido que todas as sinergias possíveis devem ser potencializadas.



Legenda da imagem: Bairro da Bouça, Porto, acção de reabilitação e de completamento desenvolvida pela Cooperativa Águas Férreas, com projecto dos Arquitectos Álvaro Siza e António Madureira.

Imagem enviada por Nuno Teotónio Pereira.

Editado por José Baptista Coelho, em 28 de Julho de 2007

(*) A
presentam-se as devidas desculpas à revista "Pedra (e) Cal", indevidamente referida desta forma pois a sua designação
correcta não é aceite pelo programa de edição obrigatoriamente usado pelo Infohabitar.