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terça-feira, setembro 02, 2014

Oferta diversificada de espaços domésticos específicos II- Infohabitar 498

Artigo LX da Série habitar e viver melhor

Infohabitar, Ano X, n.º 498

Nota prévia do editor da Infohabitar:

Em junho de 2014 foi aqui editado um primeiro artigo sobre a “Formação em Arquitetura na Universidade da Beira Interior (UBI)”, na Covilhã, uma escola de Arquitetura que ajudei a criar, há cerca de 10 anos, e à qual estou atualmente ligado, como professor, coordenador do respetivo Mestrado Integrado em Arquitetura, e para ajudar a estruturar um novo Centro de Investigação, que abranja as áreas da Arquitetura, Urbanismo e Habitat Humano, e apoiar no desenvolvimento de um renovado Doutoramento em Arquitetura.

Outros artigos serão editados nesta revista, visando a divulgação da formação em arquitetura da UBI, brevemente associada a um novo Departamento de Arquitetura, capaz de dinamizar excelentes relações com as Engenharias da UBI, com outras faculdades da mesma UBI e com outras Universidades, Laboratórios, Centros de Investigação e, também em primeira linha, com as  mais diversas entidades sociais e autárquicas, seja no âmbito formativo, seja no quadro do futuro novo Centro de Investigação.

Em toda esta reforçada e renovada dinâmica estão previstas parcerias com a sociedade e a academia, no quadro dos mais diversos projetos e iniciativas, como é, por exemplo, o caso do Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono - CIHEL, cuja terceira edição será, em breve, devidamente anunciada, mas desde já prevista para São Paulo em 2015 -, numa dinâmica que estimule um amplo conjunto de ações e eventos formativos, informativos, técnicos e científicos, que tirem todo o partido das excelentes condições humanas e de instalações existentes na UBI, na Covilhã, bem como do agradável e estimulante ambiente académico, urbano e social que ali se vive.

O Editor da Infohabitar, António Baptista Coelho
Professor catedrático convidado (UBI), investigador principal com habilitação (LNEC), doutor em Arquitectura (FAUP), arquitecto (ESBAL)


Oferta diversificada de espaços domésticos específicos II: variedade espacial e funcionalidade doméstica

Artigo LVX da Série habitar e viver melhor


Funcionalidade expressiva, mas dirigida para certas funções domésticas e não para determinados compartimentos


Tal como se tem apontado nesta série de artigos, as matérias da funcionalidade doméstica deverão ser específica e criteriosamente consideradas nas zonas de cozinha, tratamento de roupa e de instalações sanitárias, que são aquelas que suportam boa parte dos mais intensos serviços domésticos.

No entanto é fundamental destacar, desde já, que a funcionalidade doméstica não pode ser aplicada “cegamente” aos referidos compartimentos, mas especificamente às funções de preparação de refeições, de higiene pessoal e de tratamento de roupas que aí se desenvolvem, considerando-se que há muito mais vida doméstica para lá de tais funções nestes mesmos compartimentos e é deste “para lá” das funções que decorrerá boa parte do interesse das soluções domésticas, e será neste caminho que surgirão as “cozinhas salas de família”, os “quartos de banho” e os espaços de roupas domésticos; e atenção que não se está aqui a tratar de “habitação de luxo”, pois por vezes é uma questão de larguras úteis e do tal suplemento espacial estratégico

Nesta temática salienta-se que uma das ideias que continuam a estruturar as preocupações funcionais domésticas é o facilitar ao máximo a “lide da casa” nos seus variados aspectos e numa altura em que, cada vez mais, não há ninguém especificamente dedicado a uma tal lide, e essa facilitação encontra já um excelente apoio em muitos estudos funcionais e designadamente nos estudos que desde há muitos anos foram desenvolvidos pelo Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC e editados por esse Laboratório Nacional.


Funcionalidade doméstica privilegiando o convívio na habitação


E, nos restantes compartimentos habitacionais, a funcionalidade tem de ser devidamente conjugada com as outras qualidades domésticas e expressivamente embebida nos mais diversos elementos que integram o espaço doméstico.

Ainda nestas temáticas importa sublinhar que devem existir condições de funcionalidade e agradabilidade do estar/lazer da família e das actividades domésticas diárias, que na vida actual, das zonas urbanas, constituem as principais oportunidades de convívio entre os elementos do mesmo agregado familiar (ex., preparar e tomar refeição da noite/lavar e arrumar louça e utensílios/ver TV/conversar).

De certa forma o que aqui se propõe é que as zonas onde há um maior investimento em tarefas domésticas possam ser também as zonas com um potencial de convivialidade acrescido, uma condição que tem implicações seja numa funcionalidade maximizada das tarefas “obrigatórias” e funcionalmente mais exigentes, seja na protecção do convívio familiar relativamente a aspectos de desagradabilidade associados, como é o caso dos ruídos e cheiros produzidos.


Funcionalidade doméstica expressivamente aplicada à arrumação  


Outra das ideias que importa aprofundar e que, muitas vezes, é pouco atendida refere-se à oferta de uma (muito) boa capacidade de arrumação doméstica, tanto ao nível de arrumações especializadas, pormenorizadamente concebidas e estrategicamente localizadas (ex., roupeiros gerais e de quarto, despensa ou armário-despensa de cozinha), como ao nível da capacidade de disposição de mobiliário.

Nesta matéria é muito importante sublinhar que a capacidade geral de arrumação tem duas importantes consequências na habitabilidade e na “felicidade” doméstica, pois liberta realmente espaço habitável, espaço livre entre mobiliário, proporcionando, suplementarmente, alternativas de arrumação e de escolha de mobiliário, e porque ao proporcionar tais condições se constitui talvez no principal elemento de apropriação da habitação pelos seus habitantes, o que é, sem dúvida, algo de fundamental para uma profunda satisfação residencial.

E lembremos que é sempre desejável a proposta de soluções alternativas de arrumação de mobiliário numa dada solução de habitação.


Funcionalidade doméstica, apropriação pessoal e desafogo


Considerar que a espaciosidade dos espaços e compartimentos domésticos deve permitir a personalização espacial (ex., partes de parede livres para afixação de cartazes e desenhos, pequena varanda com prateleiras ou poial para constituir uma colecção de plantas em vasos, etc.).

Privilegiar que em cada espaço doméstico exista "espaço livre" verdadeiramente protagonista, seja para funções concretas (ex., circulação e recreio infantil), seja para a fruição do próprio espaço livre, que é fundamental para um sentido de espaço agradavelmente unificado; e há que considerar, esta perspectiva de “espaço livre” em relação com compartimentos e espaços ocupados pelas "mobílias completas" que são habitualmente usadas. Um espaço livre que é especialmente importante nos casos de habitantes jovens e idosos.

Segundo Sven Thiberg ("Housing Research and Design in Sweden", p. 157), a existência de espaços livres de mobiliário nos compartimentos habitacionais (livres) é importante, tanto para o recreio das crianças e o trabalho em casa, como para aumentar a flexibilidade dos espaços a diversos arranjos de mobiliário e simplificar os arranjos temporários (ex., festas familiares), por outro lado, a existência de espaços livres de mobiliário, amplos e bem proporcionados, nomeadamente, em vestíbulos e casas de banho, facilita os cuidados com crianças e doentes e a movimentação de idosos e deficientes.

Funcionalidade doméstica e relação interior-exterior


Em termos de ideia geral e estruturadora de uma adequada organização doméstica salienta-se o interesse de se privilegiar um estimulante relacionamento entre todos os elementos e espaços de relação entre o interior doméstico e as zonas exteriores ao fogo, sejam elas os espaços comuns do edifício ou tratando-se do próprio espaço exterior e ambiente de vizinhança. Esta é uma matéria que, por si só pede um amplo desenvolvimento, no entanto há aqui temas de grande sensibilidade e potencial formal/funcional como são as condições de segurança bem integradas na imagem do edifício – isto é ganhar a relação com o exterior não a perdendo na pormenorização da segurança contra intrusão (o que não é fácil) [fig.] – e o integral aproveitamento da possibilidade de relação directa ou indirecta com o exterior e o máximo aproveitamento das melhores condições de insolação, iluminação natural e ventilação, equilibradamente compatibilizadas com os diversos conteúdos funcionais dos compartimentos.

A configuração e a localização dos vãos exteriores deve atender, nomeadamente, aos seguintes aspectos: relação com as funções mais prováveis em cada compartimento; insolação desejável e protecção da radiação solar, considerando a respectiva orientação; ventilação desejável e, mesmo em condições adversas, bem controlável; vistas exteriores próximas e paisagísticas funcionais e/ou interessantes (por exemplo de um piso térreo sobre um maciço de vegetação, ou sobre uma animada zona urbana); privacidade, que tem a ver com a natureza do compartimento em causa; e iluminação natural adequada aos usos dominantes de cada espaço ou compartimento, definida considerando a importância fundamental da iluminação na satisfação residencial.

O conforto ambiental geral dos diversos espaços e compartimentos domésticos deve estar de acordo com as seguintes exigências básicas: a cozinha deve receber boa luz natural ao longo de todo o dia; a sala deve receber Sol de manhã ou a partir do meio da tarde; os quartos devem receber Sol de manhã e estarem protegidos do Sol poente; as casas de banho devem ter janelas ou, no mínimo, um excelente processo de ventilação forçada; a entrada do fogo e os corredores devem receber luz do dia.

Notas editoriais:
·       (i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
·       (ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
·       (iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

INFOHABITAR Ano X, nº 498
Artigo LX da Série habitar e viver melhor

Oferta diversificada de espaços domésticos específicos II: variedade espacial e funcionalidade doméstica

Editor: António Baptista Coelho – abc.infohabitar@gmail.com
Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura da Universidade da Beira Interior
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional



segunda-feira, novembro 01, 2010

Melhor Habitação com melhor Arquitectura VI: a Funcionalidade Residencial - Infohabitar 318

Infohabitar, Ano VI, n.º 318 Nota de divulgação

Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial
Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI:
a Funcionalidade Arquitectónica Residencial
Artigo de António Baptista Coelho

Nota prévia: retomando uma edição cujo último “capítulo”, sobre a capacidade arquitectónica residencial, foi editado com o n.º 316 deste Infohabitar, há duas semanas, publicam-se agora algumas reflexões sobre a matéria da funcionalidade arquitectónica residencial.

Introdução geral Nas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido constante e sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial.

É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa todos os artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total serão 17 ou 18, sendo 15 sobre qualidades, um de introdução, um de conclusão genérica e outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade).
Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que, repete-se, será, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados):

Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: Introdução A matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.

Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.

A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.

Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.

Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.

A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).

A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: Convivialidade – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.

A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado.

A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: Domesticidade – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: Integração – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.




Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, da Livraria do LNEC, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php

Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pelo LNEC que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.


Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, às matérias da espaciosidade, enquanto qualidade arquitectónica residencial, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma e diversificada relativamente a essa primeira abordagem.






Fig. 02

Apresentação: a Funcionalidade Arquitectónica Residencial
A funcionalidade arquitectónica residencial refere-se à previsão e à promoção de um desempenho operacional ou eficaz das funções e actividades residenciais num dado espaço habitado e considerando, habitualmente, uma perspectiva orgânica de articulação entre zonas e actividades diversificadas.

A funcionalidade arquitectónica residencial tem assim uma relação directa com a eficiência proporcionada ou directamente apoiada por determinados espaços e elementos do habitar mais ligados a aspectos funcionais, sendo que não podemos esquecer que o habitar não é uma fábrica, que a habitação não deve ser considerada, pelo menos directamente, como um produto, e que, portanto, a funcionalidade exterior e interior do habitar se deve cisrcunscrever a aspectos específicos de desempenho dos diversos espaços e elementos, aspectos que facilitem as tarefas mais custosas do habitar e aquelas mais "maquinais" e objectivamente previsíveis (exemplo: a circulação e o estacionamento de veículos motorizados a velocidades baixas e com um máximo de relação com a movimentação pedonal).

Nestas matérias a funcionalidade arquitectónica residencial tem de serr assumida como globalmente subjugada à adequada caracterização residencial destes espaços e a conteúdos urbanos que sejam, naturalmente, marcados por relações orgânicas e por condições multifuncionais; portanto numa clara rejeição de estruturas rígida e monotonamente organizadas em termos de relações unívocas e sempre repetidas, pois tanto as vizinhanças residenciais mais estimulantes, como a cidade viva onde estas se integram, não tem essas característica de rigidês funcional.

Conjuntamente com a espaciosidade e a capacidade, a funcionalidade é responsável pela caracterização e adequação de espaços e ambientes do habitar, sendo que a funcionalidade tem a ver, essencialmente, com a garantia do sentido orgânico e a eficácia das acções exercidas nos espaços residenciais e urbanos e das suas relações com outros elementos e níveis do habitar, enquanto que, como se viu, a espaciosidade se liga aos variados desenvolvimentos físicos dos espaços do habitar e à sua configuração global específica, e a capacidade qualifica as diversas extensões do habitar com determinadas bases de uso e de apoio ao uso (por exemplo, arrumação); numa perspectiva que pode fazer lembrar uma estratégia de back-office, mas que abrange, também, um adequado perfil de felixibilidade nos usos.




Fig. 03

1. Reflexão geral sobre a funcionalidade arquitectónica residencial Como já se sublinhou, a última das qualidades do grupo da adequação de espaços e ambientes do habitar é a “velha” funcionalidade, quase sempre presente em inúmeras memórias descritivas de projectos de Arquitectura.

E salienta-se que se considera não ser, evidentemente, discutível a importância da adequação funcional em qualquer dos níveis físicos do habitat humano, mas já é muito desejavelmente ponderável o equilíbrio entre a eficácia funcional da “máquina de habitar” e vários outros rumos qualitativos, designadamente, ligados aos valores da socialização, da radicação sociocultural, e da humanização – em termos de escala e de relações afectivas e de identificação.

E hoje em dia é urgente redescobrir e revalorizar tais valores, assim como isolar e ponderar as novas funcionalidades urbanas e domésticas, articulando, mutuamente, esses velhos e reinterpretados valores e essas novas exigências funcionais - por exemplo: a forma como usamos, actualmente, o automóvel relativamente às nossas habitações; a forma como usamos, actualmente, os espaços públicos; os modos como usamos, actualmente, as nossas habitações.

E não tenhamos dúvidas de que usamos todos estes níveis e micro-níveis físicos do habitar de forma bastante distinta daquela que marcou tantos manuais de funcionalidade do habitar; e, aliás, mesmo quando tais manuais foram elaborados as cadeiras e os sofás de uma habitação já só por acaso se dispunham, por exemplo, rigidamente de forma simétrica e/ou ortogonal entre si e relativamente às paredes contíguas.

A funcionalidade refere-se ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais, organizadas num conjunto coerente e eficiente. É uma velha, muito apreciada e muito discutida qualidade arquitectónica, que foi responsável pela estruturação de um movimento estético que influenciou o século XX.

Colando-se à sempre desejável racionalização construtiva ela teve tanto óptimos, como péssimos exemplos em termos de uma aplicação ao nível urbano e edificado, no entanto, ao nível doméstico trouxe ensinamentos de grande validade e cuja aplicação ainda hoje procuramos desenvolver e rentabilizar ao nível da pormenorização.

2. Aspectos estruturadores da funcionalidade Alguns aspectos ou temas teórico-práticos podem ser considerados como globalmente estruturadores da funcionalidade arquitectónica no habitar, salientando-se, desde já, os seguintes:

. desenvolver uma base geométrica e orgânica sobre a qual se organizam os elementos responsáveis pela funcionalidade residencial arquitectónica;
. assegurar uma unidade diversificada desses elementos;
. desenvolver uma legibilidade funcional equilibrada que não arrisque um sentido residencial básico, mas que assegure boas bases de acção aos dispositivos residenciais correntes e um máximo de eficácia, designadamente, nas funções urbanas potencialmente mais maquinais e e nas lides domésticas obrigatórias (exemplo: limpeza, arrumação, preparação de refeições, tratamento da roupa, etc.);
. e assegurar uma relação múltipla com o amplo leque de potenciais utentes, respectivas ergonomias e variadas formas de uso dos espaços e elementos.

Ainda numa perspectiva estrutural ou organizacional, podemos apontar que a funcionalidade arquitectónica no habitar tem diversas nuances ou mesmo dimensões consoante o nível físico de aplicação:

Ao nível urbano traduz-se, habitualmente, por uma estrutura legível: funcional, una e agradavelmente diversificada.

Ao nível do edifício liga-se, frequentemente, a uma organização dos conjuntos de elementos e fluidos que entram e saem através de dispositivos

Ao nível da habitação refere-se, quase sempre, ao suporte espacial de dispositivos funcionais, considerando-se, designadamente os seguintes aspectos específicos:
. conexões e compatibilidades;
. decomposição e recomposição;
. sínteses em domínios de funcionalidade;
. melhoria das tarefas urbanas e domésticas mais custosas;
. redução de percursos obrigatórios;
. dinamização da mecanização possível;
. e relações diferenciadas entre dispositivos mais maquinais e compartimentos ou espaços, considerando aspectos básicos de boa integração urbana e residencial.




Fig. 04

3. A funcionalidade, da habitação, à vizinhança e ao bairro A funcionalidade arquitectónica e residencial é uma matéria que abarca o habitar de uma ponta à outra, estrutura a cidade em termos de tráfegos e outros fluxos, abastece e proporciona a boa vivência das vizinhanças e caracteriza o conteúdo das habitações, proporcionando-nos um dia-a-dia mais simplificado no que se refere a tarefas obrigatórias.

Globalmente a funcionalidade arquitectónica e residencial associa-se aos diversos níveis do habitar em termos de dispositivos específicos, ou caracteriza-os em termos de uma funcionalidade passiva e adaptável. Mas em qualquer uma destas opções, e especialmente na primeira, deve as valências funcionais devem embeber-se com grande naturalidade em quadros residenciais agradavelmente caracterizados, caso contrário teremos ambientes sem humanidade e "frios".
Para já ficaremos por esta reflexão, mas importa aprofundar a ideia de que no habitar estamos ainda muito pouco avançados num sentido de apoio a um bem-estar amplo e denso, público e apropriado, que se reflicta quer nas nossas relações com a cidade, estimulando-as de uma forma muito sensível, quer na nossa vivência de vizinhanças que sejam verdadeiramente extensões da habitação sobre a cidade, nível ainda bem longe de poder ser considerado regra, quer, ainda naturalmente, num aprofundar de um espaço de habitação que seja a nossa verdadeira "casca de caracol" e não um cenário quase casual, temporário e impessoal.

4. Estratégias de funcionalidade A funcionalidade arquitectónica e residencial é, basicamente, um conceito orgânico que, aplicado ao habitat, visa o desenvolvimento da sua operacionalidade, mas em função da satisfação dos homens seus utentes, e tanto na totalidade da área residencial, como em cada um dos seus níveis físicos (Vizinhança Alargada e Próxima, Edifício, Habitação e Espaços/compartimentos).

"O funcionalismo arquitectónico consiste em envolver por construções um conjunto de funções ...próprias de um dado programa, num sítio específico" (1).
No exterior residencial, hoje em dia, devemos deixar de nos preocupar tanto com os veículos e voltar "a formas de habitat menos consumidoras de espaço, a afectações multifuncionais de bairros, que reduzem significativamente a duração média das migrações pendulares" (2), enquanto no interior dos edifícios devemos procurar apurar os espaços mais especializados que serão atribuídos às funções habitacionais mais exigentes, quanto à dureza e duração das respectivas tarefas, e desenvolver, muito cuidadosamente, características de polivalência noutros espaços; caminho certo de adequação a uma grande diversidade de modos de vida.




Fig. 05

5. A funcionalidade arquitectónica residencial ao nível urbano: perspectivas a considerar Hoje em dia a funcionalidade arquitectónica residencial ao nível urbano que há em poucos anos era marcada pelo primado do automóvel, passou a considerar a movimentação pedonal e os chamados modos suaves de movimentação; um novo quadro que resulta do intensificar das preocupações ambientais, mas que se saúda pelo avolumar do fundamental protagonismo da pessoa a pé, que traz a habitação para a vizinhança e que, daí, até pode e deve aceder à cidade mais viva através de transportes colectivos funcionais e confortáveis.

Nesta perspectiva há que sublinhar, ainda, a importância que tem a possibilidade de fruição da vizinhança citadina por crianças e idosos, condição naturalmente exigente, mas capaz de garantir um directo acréscimo do uso pedonal no exterior residencial; e condição que, naturalmente, vitaliza mais esse exterior e torna-o mais apetecível para ser usado por outros habitantes peões.
Mas há que assegurar aspectos funcionais já aqui referidos, com destaque para o estacionamento dos veículos dos residentes e para o equipamento colectivo das vizinhanças e da cidade que estas integram. E importa aprofundar estas matérias posteriormente.

6. A funcionalidade nos espaços públicos versus a funcionalidade nos espaços edificados; ou a funcionalidade entre o exterior e o interior urbano A funcionalidade cruza espaço urbano, vizinhança de proximidade, edifício e espaço doméstico.

Mas há que, em cada um destes níveis, considerar quais são as exigências funcionais hoje em dia e localmente determinantes de uma melhor qualidade vivencial e residencial, até porque uma previsão menos sensível e informada de funcionalidade será, frequentemente, responsável por insatisfação e eventualmente, até, por insegurança.

A funcionalidade nos espaços públicos Os eventuais problemas com funcionalidades mal escolhidas localizam-se, essencialmente, em espaços públicos e, designadamente, em vizinhanças residenciais. Automóvel ou peão? Unicidades ou misturas funcionais (em VA, VP e Ed)? Acessibilidades francas ou sossego e humanização ambiental? Todas estas questões têm solução com projectos coerentes e bem pormenorizados, mas, infelizmente, estes continuam a ser excepção. Há, assim, opções básicas que são mais do que simples opções funcionais.

A funcionalidade na VP e na relação VP/Ed A funcionalidade na vizinhança da habitação pode ser muito rica, desde a disponibilização de verdadeiros prolongamentos ajardinados das nossas habitações, à previsão de pequenos recintos de recreio juvenil em grande segurança, até ao sempre apetecível recanto num café; para não falar de se poder levar o veículo até praticamente a porta do edifício, mas sem arriscar a segurança pedonal.

A funcionalidade nos espaços edificados Ao nível do edifício esta problemática é muito mais pacífica, mas ainda assim continua a haver bastantes confusões sobre como (há que) conjugar aspectos mais directamente funcionais (ex. tipos e características de acessos comuns) com outros que sendo indirectamente funcionais têm importantes reflexos qualitativos na apropriação e na satisfação dos habitantes (ex. luz natural, sub-zonas funcionais, etc.).

A funcionalidade doméstica
O que se passa ao nível do edifício tem expressão acrescida no mundo doméstico. No interior da habitação não há dúvidas sobre a importância de uma bancada de cozinha alongada e em “L”, mas estas são raras. E não há dúvidas na estruturação de zonas funcionais, mas nem estas devem ter um carácter rígido, nem as funções desejadas e os modos de uso das casas têm um único padrão, nem as famílias são rigidamente padronizáveis, tanto mais considerando a sua actual evolução (....). Outro aspecto actualmente muito mais determinante do que aparenta e ainda muito pouco traduzido em termos doméstico-funcionais tem a ver com as novas funções das casas (sítios de trabalho; sítios de estudo; sítios de formação ao longo da vida; sítios de lazer alargado e múltiplo). De certa forma há aqui um forte “piscar de olhos” a outras opções funcionais com natureza múltipla e/ou com bases numa possível neutralidade espacial básica e servida por instalações. Mas será “só” isto?




Fig. 06

7. Carácter e importância da funcionalidade A funcionalidade é, naturalmente, uma qualidade objectiva e de primeira linha, mas que deve ser matizada por outras preocupações que irão influenciar, claramente, as formas e as tendências da sua concretização, designadamente, ao nível urbano de forma geral e, mais particularizadamente nos espaços edificados.

Ligando-se a esta preocupação há, assim, que rever cuidadosamente uma estratégia de funcionalização que tem sido usada, frequentemente, como alibi para implementação de condições mínimas de habitabilidade, designadamente, ao nível dos espaços edificados.
Adequadas circunstâncias funcionais devem ser veículos de articulação entre múltiplas actividades e não espartilhos associados a previsões unifuncionais em espaços por vezes exíguos.

8. Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a funcionalidade arquitectónica residencial Em termos de reflexão geral apuram-se, para já, os seguintes aspectos.

A funcionalidade arquitectónica residencial é uma matéria a rever, a redescobrir, a aprofundar e a desenvolver, porque a funcionalidade do habitar doméstico e urbano de hoje é razoavelmente diferente da que nos ensinaram nas "cartilhas" funcionalistas, porque mesmo estas "cartilhas" não terão sido frequentemente aplicadas de uma forma consistente e integrada, porque é necessário mitigar fortemente os aspectos funcionais quando concebemos adequadas condições habitacionais e urbanas, pois há nestas matérias muito mais para além das funções, e porque ...
Em termos dos desenvolvimentos considerados mais interessantes nestas matérias da funcionalidade urbana e residencial apontam-se, em seguida, algumas matérias, consideradas oportunas.
A funcionalidade arquitectónica residencial que se pode designar como "corrente" tem sido abordada sistematicamente mas direccionada fundamentalmente para aspectos do interior doméstico, havendo ainda, julga-se, trabalho a fazer em termos da funcionalidade nas vizinhanças e numa cidade que se deseja mais habitada.
No que se refere à funcionalidade arquitectónica residencial doméstica há, actualmente, importantes inovações e novidades, ou novas realidades, que importa aprofundar, considerando-se, designadamente, tanto os aspectos associados ao uso "universal" da habitação, essencialmente, numa perspectiva de apoio a habitantes cada vez mais envelhecidos, como os aspectos associados ao considerar, cada vez mais, a habitação como um sítio de trabalho, ou até como vários sítios de trabalho não doméstico; e não se duvide que estas considerações podem ter grande influência no re-equacionar da funcionalidade doméstica tal como tem vindo a ser enecarada desde os meados dos anos sessenta do século passado.
E podemos e devemos ter em conta, ainda, os aspectos de funcionalidade doméstica associada a modos de viver específicos, por exemplo, de minorias étnicas.
Quanto às funcionalidades exteriores residenciais, residenciais e citadinas e rsidenciais e peri-urbanas ou semi-rurais, há todo um trabalho a fazer no elencar de aspectos de uma funcionalidade que já não é aquela muito ligada a um urbanismo estruturado pelo automóvel privado; matéria esta que exige um aprofundamento urgente e cuidadoso.
Notas:
(1)Claire e Michel Duplay, "Méthode Illustrée de Création Architecturale", p. 190.
(2)Claire e Michel Duplay, "Méthode Illustrée de Création Architecturale", p. 191.

Nota da edição: embora os artigos editados na revista Infohabitar sejam previamente avaliados e editorialmente trabalhados pela edição da revista, eles respeitam, ao máximo, o aspecto formal e o conteúdo que são propostos, inicialmente pelos respectivos autores, sublinhando-se que as matérias editadas se referem, apenas, aos pontos de vista, perspectivas e mesmo opiniões específicas dos respectivos autores sobre essas temáticas, não correspondendo a qualquer tomada de posição da edição da revista sobre esses assuntos.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar n.º 318, 01 de Novembro de 2010