domingo, maio 24, 2015

Arrumação domésticas: aspetos gerais - Infohabitar n.º 534



O 3.º CIHEL recebeu 118 propostas de artigos.


Infohabitar, Ano XI, n.º 534

Arrumação domésticas: aspetos gerais
António Baptista Coelho
Artigo LXXX da Série habitar e viver melhor


Continuamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar.
Estamos agora a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e desenvolvemos hoje uma reflexão sobre os espaços de arrumação domésticos.

O relevo a dar à arrumação doméstica


Pequena introdução sobre uma função cuja importância tem sido descurada
A arrumação doméstica é, provavelmente, a função cuja importância tem sido menos evidenciada no conjunto das funções habitacionais, e é aquela cujo evidente teor “funcional”, dimensional e quantitativo, sendo muito claro e crítico, não pode fazer diminuir os respetivos aspetos qualitativos e de opções residenciais ambientais e de vivência.

Uma habitação marcada por excelente e adaptável capacidade e arrumação

De certa forma é até possível considerar a própria compartimentação doméstica como uma meta-arrumação, que numa situação-limite poderá resumir-se a uma planta livre na qual se poderão distribuir, diversificada e mutacionalmente, alguns elementos de mobiliário com carácter extremamente móvel – lembrando, por exemplo, os velhos modos de viver medievais – que garantam um mínimo necessário de arrumações (sendo a restante arrumação garantida, por exemplo, de forma concentrada, em elementos/espaços específicos), podendo ser a própria compartimentação assegurada por tabiques móveis e também com evidente carácter mutacional e adaptável.

Lembramos, aqui estas possibilidades pois, como se entende, elas marcam, profundamente, determinadas opções de estruturação doméstica, não apenas tradicionais – o caso da habitação japonesa, por exemplo –, mas também “inovadoras” e atuais; referimo-nos aquelas soluções de quase planta livre, com instalações (elementos com águas e esgotos) bem concentradas e com soluções de arrumação igualmente concentradas, e associadas a soluções de compartimentação dinâmicas, porque potencialmente geradoras de diversos ambientes domésticos – escondendo ou mostrando, por exemplo, diversos espaços funcionais.

Arrumação como base de funcionalidade geral

A arrumação doméstica constitui uma verdadeira retaguarda logística da funcionalidade e do desafogo no interior privativo de uma habitação, possibilitando que as outras atividades se desenvolvam com eficácia, satisfação e “à vontade”, proporcionando, mesmo, margens ou reservas de “vivência”, evidenciadas, por exemplo, quer em situações em que é possível encerrar, facilmente, determinados espaços, que podem estar mais desarrumados ou que não gostemos de revelar, quer em situações de ocupação provisória e eventual de determinados espaços com camas ou outras pequenas zonas funcionais facilmente escamoteáveis, quando é, por exemplo, necessário acolher um hóspede ou disponibilizar mais uma pequena zona de trabalho ou de estar.

Fig. 01: Imagem de cozinha/sala de família com excelente capacidade de arrumação, de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 4, Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.

Arrumação e apropriação

E a arrumação doméstica tem uma fundamental dimensão de apropriação, pois é pela capacidade de arrumar, dispor, evidenciar, tapar, e criar associações de mobiliário e outros elementos de arquitetura de interiores, que podemos apropriar a nossa casa, evidenciar a sua e a nossa identidade e expressar a quem nos visita aquilo que mais desejamos comunicar na forma como vivemos e, consequentemente, em muito daquilo em que acreditamos e que nos motiva.

Várias "dimensões" da arrumação doméstica

As várias dimensões da arrumação doméstica ficam bem evidentes na capacidade de uma dada sala poder acolher, com desafogo, e com alternativas de disposição, elementos de mobiliário patrimonial que gostemos de evidenciar e que, cumulativamente, ofereçam excelentes capacidades de arrumação; e parece ficar, assim, bem evidenciada a falta de cuidado que muitos projectos de habitação dedicam a esta matéria, obrigando, tantas vezes, a soluções de mobiliário estereotipadas e, além disso, atravancadas (por exemplo, com enormes sofás em espaços com dimensões acanhadas) e até funcionalmente deficientes.

Finalmente, nesta abordagem a uma redescoberta importância da arrumação, há que sublinhar alguns aspetos:

- A arrumação pode ultrapassar os aspetos específicos que a ela estão habitualmente associados para abarcar a capacidade de proporcionar, com eficácia, alterações radicais de ambientes domésticos – por exemplo transformar um pequeno quarto em saleta, através da elevação ou rebatimento da cama. Esta virtualidade da arrumação, em termos de conversão rápida e radical de espaços domésticos, associa os aspectos referidos de arrumação geral e de arrumação de mobiliário com aspectos de curiosidade, diversidade e surpresa no recheio dos espaços domésticos, aspecto este que merece um desenvolvimento específico.

- Aspectos de curiosidade, diversidade e surpresa no recheio dos espaços domésticos: as passagens “embebidas” em grandes roupeiros, as continuidades de portas de arrumações e de quartos, as paredes de arrumação, as paredes-biblioteca, etc.

- A arrumação numa habitação pode ser altamente diversificada, versátil, disseminada e com elevada capacidade global.

- A arrumação, as portas, rodapés, e outros aspetos de pormenorização interior podem/devem integrar uma “solução” de arranjo/aspecto única, marcada pela sobriedade e diversidade de relações de integração.

O arrumar do mobiliário e do resto

Em primeiro lugar, há que sublinhar que a ação de arrumar o mobiliário se refere ao principal aspeto de apropriação da habitação pelos seus habitantes, sendo que esta apropriação se centra, na prática, na, frequente, apropriação do espaço doméstico pelo casal que habita, ou neste pelo elemento do casal que assume preponderância nesta ação; e aponta-se este aspeto porque, frequentemente, crianças, jovens e mesmo idosos têm os seus espaços mais "pessoais" marcados pelo "mobilador" de serviço, um agente que, até, em certos grupos sociais tem uma intervenção profissional específica, ao nível da arquitetura de interiores, dita frequentemente "decoração", e neste caso a maior ou menor adequação a necessidades e gostos específicos fica a depender da respetiva qualidade profissional da intervenção, que no entanto se pauta, com infeliz frequência, por um desenrolar de modismos e "mestrias" pessoais, que pouco aou nada ligam a esses aspetos de adequação.

Fig. 02: Sala-comum com boa capacidade de integração de mobiliário de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 5, Arquitetura: Bengt Hidemark.

Vantagens de uma casa bem mobilável

Naturalmente que  a existência de boas extensões de paredes bem usáveis, de cima a baixo e sem grandes "zonas mortas" devido ao funcionamento de portas e janelas, associada a um versátil e razoavelmente folgado dimensionamento geral dos compartimentos e espaços de circulação, neste caso com especial enfoque nas respetivas dimensões menores ("de largura"), é uma condição básica para uma boa "mobilaridade".

"Mobilaridade" e adaptabilidade

E podemos ir um pouco mais longe, considerando que se o "hábito faz o monge", então o mobilar fará a natureza do compartimento, e assim habitações em que todas as suas assoalhadas tenham dimensões folgadas e boa mobilaridade - o que não implica serem "super-espaçosas" - são óptimas pois, cada um dos seus espaços poderá tornar-se: quarto, sala, saleta, escritório, sala de jantar, atelier, pequena galeria de arte, oficina, quarto de vestir, e, até quem sabe, grande sala de banhos, etc., etc. Numa versatilidade que tudo tem a ver com o desenvolvimento de casas apreciadas por muitos e onde muitos podem habitar, marcar e alterar em termos de usos, ao longo de extensos períodos temporais, e aqui há matérias associadas a conceitos de durabilidade do parque habitacional e ligadas a aspectos essenciais de adaptabilidade doméstica e de "casa para a vida" ou de "casa para muitas vidas".

E nestas matérias é importante considerar que muito poderá depender de opções básicas entre as quais se destacam aquelas em que se prefere ter um menor número de compartimentos, favorecendo-se uma maior espaciosidade e mobilaridade dos mesmos.
Importa considerar a arrumação doméstica numa dupla e estruturante perspetiva: uma expressiva capacidade de arrumação de diversos tipos e famílias de mobiliário que sejam os mais habituais em cada tipo de compartimento (por exemplo quartos, salas, etc.); e uma capacidade de arrumação dos inúmeros pequenos objetos e elementos, dos tipos mais diversos, que estão ligados à nossa vida diária em casa.

O primeiro tipo de capacidade de arrumação está “embebido” em cada compartimento e em cada espaço doméstico e, basicamente, é apreciável pela quantidade de mobiliário que é possível “arrumar” em cada espaço da nossa casa, mas naturalmente arrumado de forma a que tenha um máximo de utilidade e a que proporcione espaço livre agradável e desafogado à sua volta.

Esta capacidade deve poder encontrar-se seja num corredor e num espaço de entrada, que se possam mobilar, para serem mais úteis e também mais acolhedores e domesticamente caracterizados, além de servirem como espaços de passagem, seja numa casa de banho ou numa cozinha, que se possam mobilar, pelo menos minimamente, para serem mais úteis e também mais acolhedoras, mais “domésticos”, seja num quarto, para que este possa ser, assim, mais apropriado e individualizado, e naturalmente mais útil, seja numa sala-comum, para que esta possa cumprir, realmente, a sua função-base de integração de várias actividades domésticas, deixando espaço livre para o bom uso das diversas zonas e não se resumir, como é infelizmente frequente, a uma espécie de mostruário de peças de mobiliário entre as quais é, até, muitas vezes, difícil passar.

A importância da capacidade de integração de mobiliário

É importante sublinhar que a capacidade de arrumação de mobiliário oferecida por uma dada habitação deveria ser um elemento considerado com tanto cuidado como o cuidado investido, por exemplo, na boa iluminação natural doméstica, pois trata-se aqui de disponibilizar a um dado agregado familiar a mais importante condição de apropriação do seu espaço de vida diária, uma apropriação que tem ligações directas com a fundamental adaptabilidade de cada habitação às necessidades, modos de vida e sonhos de habitar de cada um de nós, mas que também se liga, directamente, à capacidade de identificação e de marcação de cada casa em relação com quem a habita, proporcionando-se, de certa forma, uma extensão da identidade de cada um de nós e de cada grupo familiar ao seu espaço de habitar privado, o que tem também uma enorme importância – e que faz sobressair, mais uma vez, o tanto que no habitar está para além dos “simples” aspectos funcionais.

References/Referências/notas


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XI, n.º 534
Artigo LXXX da Série habitar e viver melhor
Arrumação domésticas: aspetos gerais - Infohabitar n.º 534

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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