domingo, fevereiro 23, 2014

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional - Infohabitar 473



Infohabitar, Ano X, n.º 473


Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional


Artigo XLVIII da Série habitar e viver melhor


António Baptista Coelho


Tipos de adaptabilidade e flexibilidade habitacional


A adaptabilidade da habitação a diversos modos de vida e usos domésticos ou específicos, colocada ao serviço de diversos tipos de agregados familiares e de diversas apropriações funcionais e pormenorizadas, é cada vez mais um aspecto fundamental a considerar na concepção dos espaços domésticos, tal como foi apontado em artigo anterior desta revista, mediante a referência à opinião de diversos autores, que salientaram a importância de deixarmos de privilegiar organizações domésticas rígidas e excessivamente hierarquizadas, favorecendo-se, sim, os caminhos marcados por espaços habitacionais mais apropriáveis e potencialmente mutantes:

  • seja pela capacidade “passiva” de adaptabilidade e conversão de espaços a diversos usos, proporcionada pela própria organização e dimensionamento gerais de uma habitação;
  • seja na flexibilização oferecida aos seus respetivos conteúdos funcionais e de mobiliário/decoração (nos mesmos espaços-base);
  • seja pelas condições de adaptabilidade relacional disponibilizadas, em termos de localizações e relações que proporcionem e incentivem diversos usos;
  • seja pelo potencial de adaptabilidade física (“hardware”) específica que igualmente ofereçam, designadamente, através da junção e subdividão de espaços e compartimentos, já existentes;
  • seja pela dinamização do equipamento evolutivo de alguns espaços e compartimentos;
  • seja mesmo pela capacidade de expansão real que seja proporcionada para novos compartimentos – uma solução naturalmente mais adequada a soluões habitacionais unifamiliares.

Fig. 01: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" ocupação "a".

 

Relação entre família e habitação


No entanto, para além desta múltipla perspectiva da adaptabilidade e flexibilidade habitacional, que está globalmente ligada às amplas matérias da apropriação dos espaços domésticos, outra linha de reflexão é importante na opção por diversas formas de organização dos mesmos espaços; trata-se da caracterização do perfil da habitação na sua relação com as características etárias e gregárias dos seus habitantes.

E nesta perspectiva vários autores apontam um leque global de soluções integradas de tipologias família-habitação, tal como em seguida se regista.

Fig. 02: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" ocupação "b".

Estúdios individuais e para casais

Estúdios mínimos para jovens longe de casa e pessoas sós, idosas ou não; estúdios estes com equipamentos domésticos muito funcionais e completos, ou reduzidos a um mínimo razoável, que pode ser pré-instalado, e dispondo de um quarto de dormir em zona que possa ser separada do resto da casa, ou nela integrada de forma a criar um espaço amplo.

Segundo Alexander, a habitação para uma pessoa só deve ser um espaço com grande capacidade de individualização/apropriação, podendo caracterizar-se por um amplo espaço central e multifuncional, rodeado por recantos ou subespaços com diversas atribuições funcionais (1); e um espaço doméstico entre cerca de 30 e 40m² serve bem uma solução deste tipo.

Naturalmente que este tipo de solução pode ser adaptada, com alguma facilidade, ao uso por casais (jovens ou idosos), que aceitem este tipo de condições domésticas marcadas por alguma informalidade e/ou versatilidade da organização e do recheio doméstico. 
 
Fig. 03: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" ocupação "c".

Soluções habitacionais para pessoas sós

Citando, julga-se, a propósito, um estudo realizado pela Taylor University of York (2), apontam-se, então, diversos subtipos de soluções habitacionais para pessoas sós e para casais:

  •  "unidade auto-suficiente", provida de porta de acesso, cozinha, casa de banho completa – uma habitação pode ser uma unidade de alojamento ou conter várias unidades desse tipo; (3)
  • "unidade compartilhada", onde vivem várias pessoas, cada uma com um "espaço particular", mas compartilhando uma zona de estar, cozinha e casa de banho completa ;
  • "espaço particular", quarto individual dentro de um alojamento compartilhado, usado essencialmente como espaço para dormir, mas também como zona de estar e para guardar bens pessoais;
  • "quarto completo", como o "espaço particular", mas com pequena zona de estar mais desenvolvida e incluindo lavabo e pequena cozinha; há que compartilhar a retrete e o banho;
  • "espaço comum ou colectivo, compartilhado", que pode incluir casa de banho, cozinha, estar, arrumações;
  • e, finalmente, uma evolução do "espaço particular", anexando-lhe instalações sanitárias que podem ser mínima e/ou pequena zona de estar, que pode resumir-se a um espaço para um pequeno sofá e uma mesa de trabalho (esta opção foi desenvolvida pelo autor deste trabalho).

Pequenas habitações


Subindo, agora, um pouco na “escala” do dimensionamento doméstico, mas mantendo-nos no âmbito de soluções especialmente adequadas para pessoas sozinhas, casais e outros pequenos agregados familiares, apontam-se, em seguida, as sugestões de diversos autores nesta matéria.

Desenvolvimento de pequenas habitações para jovens longe de casa, pessoas sós, idosas ou não, ou casais sem filhos em coabitação; estúdios estes com equipamentos domésticos que podem ser mais ou menos elaborados e completos, nomeadamente, para se disponibilizarem espaços para a instalação de mobiliário patrimonial ou, contrariamente, oferecendo os espaços já mobilados.

Esta solução deverá dispor de um quarto de dormir relativamente isolado do resto da casa, que seja suficientemente espaçoso para integrar duas camas individuais e certas zonas específicas (ex., sofá perto de janela). A habitação deve ser globalmente espaçoso e ter circulações facilitadas, tanto entre cozinha e sala, como entre a sala e o quarto (pensa-se na funcionalidade do uso por idosos). (4)

Esta solução será muito útil a idosos pouco activos, que assim poderão dispor de pequenos fogos "super-funcionais" e razoavelmente espaçosos que lhes poupem e facilitem o trabalho doméstico e as próprias deslocações interiores. (5).

Pequena habitação para um casal


Considera-se que a habitação para um casal (habitação com quarto comum) será muito semelhante à habitação para uma pessoa só, designadamente, no caso de um casal de adultos; pois no caso de se tratar de um casal de jovens ou de idosos, serão recomendáveis zonas mais amplas e diferenciadas. (6)

As pequenas habitações realizadas especificamente para favorecerem a vida doméstica de casais, num quadro privilegiadamente informal de uso da habitação, devem favorecer os espaços "super-funcionais" para os trabalhos domésticos, a abundância de diversos tipos de arrumações, feitas de raiz, a possibilidade de desenvolvimento de recantos individuais para estudo/trabalho profissional e caracterizarem-se por um franco relacionamento geral entre espaços, que assegure a vigilância natural e simplificada de crianças pequenas. (7)

Grandes habitações multigeracionais e multifuncionais

Interessa também apontar aqui o interesse do desenvolvimento de grandes habitações, razoavelmente espaçosas, para famílias "maduras" com diversos filhos de diferentes idades, com um quarto relativamente autónomo que pode servir para um filho mais velho, para escritório ou para um parente idoso, e, ainda, com um quarto de casal acentuadamente isolado do resto da casa. (8) Estas habitações poderão ligar-se espaços exteriores privados no caso de famílias com crianças. (9)
Este tipo de solução servirá casais idosos e activos continuando nas habitações onde criaram os filhos e onde, posteriormente, terão espaços adequados às numerosas actividades a que se dedicam em casa. (10)

Espaços e serviços domésticos comuns


Vale a pena salientar que se considera muito adequada a associação entre os estúdios e as pequenas habitações e um potencial e diversificado leque de espaços e serviços comuns; condição esta que naturalmente será menos interessante no caso das grandes habitações.

No entanto a ideia que se julga mais adequada é que deverá haver, cada vez mais, uma maior possibilidade de escolha das soluções de habitar, quer em termos de carácter tipológico geral, quer em termos de espaços domésticos e comuns disponíveis, quer em termos de serviços domésticos, e outros, disponibilizados ou facilitados; e depois poderemos escolher o que preferimos.

Serviços comuns e domiciliários e equipamentos coletivos de proximidade


De certa forma até é possível considerar a possibilidade de haver um desenvolvimento de serviços domiciliários com um amplo leque funcional e sedeados fora dos edifícios servidos, disponibilizando o seu apoio/serviço a diversas unidades habitacionais. E um aspeto que aqui deve ser bem considerado é a vantagem que tem uma gestão autonomizada e bem equilibrada destes possíveis pequenos complexos de espaços e serviços comuns e/ou de apoio domiciliári; sendo aqui muito interessante a reflexão que há a fazer sobre a relação deste tipo de “complexos” com algumas das velhas e com novas valências de equipamentos coletivos com faceta residencial.

Em tudo isto há que referir que a potencial diversidade de oferta de espaços e serviços comuns e domiciliários pode a ajudar a diversificar e apurar o leque de opções domésticas e residenciais disponíveis, considerando-se esta matéria de grande interesse, face à grande diversificação dos modos de vida, e  ao evidente e significativo crescimento dos pequenos agregados familiares e das pessoas idosas vivendo sós e necessitando de diversos serviços de apoio.



Notas:


(1) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 356.

(2) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 86.

(3) Por exemplo dois quartos individuais, para duas pessoas que vivem juntas, mas cada uma com o seu espaço privado e independente ("LAT", "Living Apart Together") - Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 79.

(4) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.

(5) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.

(6) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 46.

(7) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.

(8) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.

(9) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.

(10) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.



Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
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Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº473
Artigo XLVIII da Série habitar e viver melhor

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional

Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.




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