segunda-feira, janeiro 27, 2014

Mundos domésticos e pessoais: habitação e espaços da habitação - Infohabitar 469


Infohabitar, Ano X, n.º 469
Infohabitar a revista semanal na WWW sobre o habitat humano

Mundos domésticos e pessoais: habitação e espaços da habitação, temas de desenvolvimento

Artigo XLIV da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Retomando o excelente parágrafo do arquiteto P. Céleste, citado no último artigo desta série, é essencial que nos interiores domésticos possamos “estar em sua(nossa) casa (o “nossa” é responsabilidade do autor destas linhas) e numa “habitação calorosa”, sendo que “o contexto é o que nos anima” e, nesse contexto, o “exterior deve fazer sonhar”, e há que privilegiar uma “distribuição simples que proporcione dar um nome a cada peça e que se ligue a comportamentos habitacionais muito flexíveis” e “é preciso encontrar uma certa forma de deambulação, estar atento à arte de colocar uma porta, uma janela, atento aos gestos quotidianos.” (1)

E esta “repetição” sincopada das palavras do citado autor são de grande interesse pois sintetizam muito daquilo que ser irá tentar fazer nos próximos artigos desta série e salienta-se, desde já, que em 10 aspetos considerados no texto acima (referidos em seguida na mesma ordem usada no referido parágrafo), apenas dois se podem considerar com natureza mais objetiva e mesmo assim a questão de uma “distribuição simples” e da adequação aos “gestos quotidianos” incluem, também, aspetos menos objetivos:

(i) apropriação geral;

(ii) atratividade e domesticidade;

(iii) integração;

(iv) comunicabilidade e estímulo ao desejo/sonho no habitar;

(v) racionalidade e acessibilidade – “distribuição simples”;

(vi) apropriação específica e reforço da identidade de cada espaço;

(vii) adaptabilidade;

(viii) acessibilidade flexível, adaptável e apropriada.

(ix) criatividade projetual e capacidade de pormenorizar

(x) funcionalidade e adequação à multiplicidade dos “gestos quotidianos”.


Fig. 01

Não se trata aqui de aprofundar qualquer conflito/despique entre aspetos mais qualitativos e eventualmente mais subjetivos ou mais quantitativos e objetivos, pois ambos têm natural presença no quadro de uma adequada e ampla qualidade residencial e arquitetónica, mas apenas sublinhar que, quando estamos em presença de uma boa conceção de arquitetura residencial (e sublinhou-se expressivamente esta condição), a essencial mistura qualitativa e quantitativa ou mais subjetiva e mais objetiva, referida aos diversos aspetos de projeto e vivência a ter em conta, não parace favorecer os aspetos habitualmente considerados como mais objetivos, funcionais e racionalistas, e, aliás, isto acontece, quer devido à fulcral importância dos outros aspetos, em boa parte responsáveis pelo fazer das habitações de que realmente gostamos – tal como aponta P. Céleste –, quer devido à frequente circunstância de tais aspetos mais funcionais estarem, habitualmente, tão intimamente embebidos no “partido” geral e no quadro de pormenorização da habitação, que acabem por não ser entendidos de forma específica e esolada por quem a habita e mesmo por quem a visita.
Dito isto apontam-se e comentam-se, muito brevemente, em seguida as matérias em que se dividiu a abordagem do grande tema dos “mundos domésticos e pessoais”, que irá ser publicada, ao longo de vários meses, na Infohabitar e nesta série editorial (Série habitar e viver melhor), naturalmente de forma intercalada com outros artigos, de outros autores e sobre outros temas, e sempre procurando que cada artigo tenha a sua máxima autonomia temática.
Serão, assim tratadas as seguintes matérias relativas aos “mundos domésticos e pessoais”.

Fig. 02
 

Grandes Opções Domésticas.

A organização e a caracterização de um espaço doméstico pode seguir determinados hábitos de organização domésticos, alguns dos quais decorreram da evolução da vivência doméstica ao longo de alguns milénios, e outros que, praticamente, acabaram de nascer pois foram inventados em finais do séc. XIX e no séc. XX, ou então a organização e a caraterização de um espaço doméstico pode passar por uma verdadeira reinvenção bem fundamentada das respectivas funções, ambientes, associações espaciais e diversos espaços de actividade e de cena, numa perspetiva de aplicação discutida do que podemos designar como “Grandes Opções Domésticas”.
 

Espaços de ligação habitação-edifício e habitação-rua.

Sobre a ligação habitação-rua importa aprofundar as possibilidades vivenciais e arquitetónicas que uma diversidade de relacionamento entre esses dois mundos de privacidade e convivialidade pode e deve proporcionar com o duplo objectivo de uma cidade mais variada, atraente e mesmo equilibradamente surpreendente, e de uma habitação marcada pela identidade

Viver ao nível térreo.

A existência de residências térreas, dispondo de espaços exteriores privativos, liga-se a uma oferta, directa, de condições de vida diária potencialmente muito semelhantes ao viver em edifícios unifamiliares e pode, até, ser conveniente para potenciar a continuidade da presença humana e a animação urbana.
 

Sobre a adaptabilidade doméstica

Sobre a importância, hoje em dia crucial, da adaptabilidade das soluções domésticas salientam-se alguns aspectos que são considerados essenciais tendo em vista, essencialmente, o desenvolvimento de habitações adequadas a diversos tipos de famílias, modos de vida e de uso e apropriação, e o combate a "layouts" e configurações pormenorizadas com características funcionais e ambientais "rígidas" (pouco adaptáveis e versáteis); de certo modo e mais uma vez é apagar, de vez, a ideia de que as habitações podem ser concebidas, apenas, como soluções funcionais, e/ou que essa possibilidade é algo que pode ser, até, considerado como um aspeto positivo na conceção.

Fig. 03

Bons espaços e ambientes domésticos.

A ideia que se quer aqui sublinhar é a importância determinante do conforto ambiental, com destaques específicos para a insolação, a luz natural, a ventilação, o isolamento de ruídos e o isolamento térmico, para uma verdadeira satisfação com o espaço doméstico.
 

Zonas domésticas: (novas) ideias organizativas.

Provavelmente, há alguns anos, esta parte do trabalho seria das mais importantes em termos de um apoio prático ao desenvolvimento de melhores soluções habitacionais. Tratava-se, então, afinal, de um relativo culminar de toda uma tradição de zonamentos funcionais ou funcionalistas, zonamentos estes que, infelizmente, ajudaram a destruir bairros de cidades e a uniformizar espaços domésticos no sentido do serviço a uma pessoa “média” e a uma família “média”, que raramente existem.
 

Equilíbrios dimensionais e de privacidade.

Desenvolvem-se, neste tema, considerações sobre o equilíbrio com que se distribui o espaço na habitação e as respectivas consequências na adequação aos tipos de família e a diversos modo de vida.

Opções domésticas de compartimentação.

Trata-se de desenvolver a matéria da junção e divisão de compartimentos e espaços, da escolha entre ter mais compartimentos mais pequenos ou menos compartimentos maiores e da separação entre zonas mais sociais ou mais íntimas.

“Libertar” a habitação das instalações.

A ideia que quer aqui evidenciar é que tudo o que se faça para favorecer uma maior capacidade de apropriação e de adaptabilidade dos espaços domésticos relativamente aos seus habitantes, pode ser extremamente afetado, por redes e padrões de serviço de instalações rígidos e pouco adaptáveis.

Oferta diversificada de espaços domésticos específicos.

Nesta parte da temática abordam-se, globalmente, os compartimentos, cantos e recantos domésticos e os espaços tendencialmente intimistas onde se processa a vida diária das famílias, um leque variado de espaços habitualmente com funções específicas, mas desejavelmente com uma equilibrada flexibilidade funcional, que devem ser espaços privilegiados da apropriação familiar e individual.

Em próximo artigo desta série iremos, então, avançar para as “Grandes Opções Domésticas”.

Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, 1997, p. 238.
Notas:
       
        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
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      Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº469
Artigo XLIV da Série habitar e viver melhor
      Mundos domésticos e privados: temas de desenvolvimento
     Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
     e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
    Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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