sexta-feira, maio 25, 2007

Cidade e habitação apoiadas (II) - artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 141

 - Infohabitar 141

Cidade e habitação apoiadas (II): “Casas individualizadas em alternativa às instituições de acolhimento”, sobre uma Conferência da AEIPS, Associação para o Estudo e Integração Psicossocial


Parte I: introdução e enquadramento à habitação apoiada


Na continuidade da temática da “Cidade e Habitação Apoiadas”, este artigo constitui uma primeira abordagem específica a uma das facetas da matéria hoje em dia já crítica, e “amanhã” crucial, da “habitação apoiada” e tem uma dupla justificação, que tem a ver seja com a referida importância do tema e sua relevância e diversidade de facetas, todas elas bem integradas na temática do habitar, temática esta que estudo no LNEC já há cerca de 25 anos, e que é estudada no LNEC quase há 40 anos, seja no interesse em se sublinharem algumas notas retiradas de uma recente e extremamente interessante conferência internacional sobre a temática da “habitação apoiada”, neste caso mais direccionada para uma perspectiva assistencialista.

Desde já se salienta o carácter pessoal que têm estas notas, bem como a eventual ocorrência de pequenos lapsos ou situações de deficiente explanação das ideias apresentadas na Conferência referida, situações pelas quais se apresenta o essencial e prévio pedido de desculpas, ao qual se associa a plena disponibilidade do Infohabitar para a publicação de artigos que esclareçam e desenvolvam essas ideias, bem como toda esta urgente temática – e para tal bastará um contacto com o autor deste texto ( abc.infohabitar@gmail.com e abc@lnec.pt ).

A conferência intitulou-se “Habitação apoiada - Casas individualizadas em alternativa às instituições de acolhimento, hospitais psiquiátricos, sem abrigo e outras situações de exclusão social”, foi promovida pela Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS), http://www.aeips.pt/, que comemorou 20 anos de actividade em 2007, e teve lugar em 14 de Março de 2007 na Fundação Calouste Gulbenkian, com apoios da própria FCG, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e do British Council.


Fig. 01: Lisboa, Alfama.

Desde já lembra-se que, tal como foi apontado no primeiro artigo desta série, a temática da “habitação apoiada” constitui um prolongamento natural da temática do habitação corrente, podendo mesmo afirmar-se que não haverá habitação corrente capaz de “viver” e fazer viver com verdadeira qualidade residencial e urbana, se não estiver “apoiada” em, e por sua vez se não “apoiar”, variados elementos urbanos e ambientais com variadas naturezas – ex., física, social, paisagística, activa.

É assim que podemos afirmar que se vivemos em espaços habitacionais verdadeiramente qualificados, vivemos em habitação apoiada pela cidade e em habitação que apoia a cidade, e esta é uma forma de desmistificar, muito positivamente, a “habitação (mais) apoiada”, abrindo lugar para a sua total integração com a restante habitação e com a cidade; afinal, um desígnio que se impõe e que muito deve “beber” na cidade tradicional, aquela em que o comércio se estende sobre a rua, aquela em que são as próprias portas dos fogos e das lojas que estruturam e vitalizam as ruas, aquelas em que estar em casa é estar perto de poder estar a uma mesa de “café”, aquelas em que estar num jardim é também estar na cidade.

Fig. 02: Lisboa, Alfama.

Tendo-se dito isto e considerando este fundamental novelo de ideias, vai-se, em seguida, fazer, aqui no Infohabitar, uma primeira e muito prática viagem pelos aspectos que devem caracterizar a “habitação (mais) apoiada”, e lembremos, a propósito que o LNEC tem estado e estará envolvido numa acção, promovida pelo Instituto da Segurança Social, de elaboração de Recomendações Técnicas para a construção nova e para a requalificação de diversas valências de equipamentos sociais, entre as quais se destacam, numa primeira linha, os Centros de Dia e os Lares de Idosos.

Parte II: uma nova abordagem da “habitação apoiada”


Desde já se aponta que este artigo não constitui qualquer relato de conteúdos tratados na referida conferência promovida pela Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS), mas sim usa matérias aí tratadas e aqui apontadas como bases de referência e de partida para o registo de ideias sobre a temática da “habitação apoiada”, seja, neste artigo, numa perspectiva mais direccionada para o apoio a grupos socioculturais com graves carências, seja, em futuros artigos desta mesma série, em perspectivas mais ligadas à consideração da “habitação apoiada” como resposta desejável para uma cada vez maior faixa de população envelhecida, e/ou com diversas carências e problemas específicos, ou, simplesmente, com necessidades e/ou opções específicas de habitar casa e cidade; e será no aprofundamento desta reciprocidade que se poderão resolver muitas das questões que hoje se colocam em termos de falta de vitalidade urbana e de falta de adequação habitacional – considerando aqui a “unidade” fogo/edifício/vizinhança.


Fig. 03: um exemplo da “unidade” fogo/edifício/vizinhança no pequeno bairro de realojamento do Telheiro (44 fogos unifamiliares em bandas cerradas e com pátios), Matosinhos, projecto coordenado por Manuel Correia Fernandes em 2002.

E recorde-se a perspectiva que se pretende inculcar no conjunto destes artigos, que é todos nós vivermos, desejavelmente, em habitação apoiada, designadamente, por uma vida urbana útil e motivadora; só que alguns de nós, hoje, e ainda mais amanhã, precisaremos de mais apoios habitacionais, e assim é fundamental que tais apoios sejam assegurados de forma o mais possível eficaz, sustentável, completa e integrada.

E sobre esta faceta da “habitação apoiada” há que sublinhar, desde já, que ela poderá e deverá proporcionar linhas de desenvolvimento bem ligadas a um reviver da cidade que urge assegurar e a um reviver a vida de cada um a que urge dar atenção nesta sociedade que era a sociedade do lazer – era o que diziam- e que, cada vez mais, é a sociedade da desocupação e até da alienação; e, como se verá, nesta linha de desenvolvimento da muito rica temática da habitação e da cidade apoiadas, há uma forte ligação que é possível desenvolver com a iniciativa cooperativa habitacional e de dinamização de actividades.

Alguns dos novos caminhos de uma “habitação apoiada” (a partir das notas da Conferência da AEIPS)

Considerando, agora, os novos caminhos de uma “habitação apoiada” associada a aspectos exigenciais específicos, vão ser, em seguida, registadas diversas ideias divulgadas na referida conferência intitulada “Habitação apoiada - Casas individualizadas em alternativa às instituições de acolhimento, hospitais psiquiátricos, sem abrigo e outras situações de exclusão social”, promovida pela Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS), www.aeips.pt, e que teve lugar em 14 de Março de 2007 na Fundação Calouste Gulbenkian, com apoios da própria FCG, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e do British Council.

Salienta-se que os temas que, em seguida, serão referidos muito devem às seguintes duas intervenções que integraram a referida conferência da AEIPS:

“Supported housing: Theory and research”, por Priscilla Ridgway, PhD – Yale University (EUA).

“Housing first: Ending homelessness and recovering lives for people to live independently”, por Sam Tsemberis, PhD – New York University.

No entanto volta a referir-se que não se fez qualquer relato de conteúdo e que o apontamento das matérias referidas pelos conferencistas é da responsabilidade do autor deste artigo, que aqui registou, naturalmente, a sua “leitura” das matérias comunicadas pelos referidos conferencistas, numa perspectiva de eficaz informalidade e utilidade desta disseminação de ideias.

Parte III: Conferência de Priscilla Ridgway - “Supported housing: Theory and research”


No que se refere às ideias apontadas por Priscilla Ridgway, PhD – Yale University (EUA), na sua intervenção intitulada “Supported housing: Theory and research”, sublinham-se, em seguida, alguns aspectos e em itálico o autor deste artigo integra alguns comentários julgados a propósito.

Considerando a desinstitucionalização de pessoas com diversos problemas se saúde e sociais, acção esta que foi desenvolvida nos EUA há alguns anos, muitas pessoas não conseguiam condições de habitação com autonomia.

E as pessoas precisam de um “lar”, mais do que de um “simples” alojamento, e este mesmo significado de “lar” pode constituir como que uma âncora chave da habitação apoiada. E significa muito poder ter “um lar” depois de se viver na rua ou de se estar institucionalizado.

Ter um lar é ter controlo sobre o seu próprio ambiente de vida, é ligar a luz quando se quer, é escolher o ambiente em que se vive, é ter o seu “kit de identidade”. Muito se passa como que na extensão de cada um de nós e o lar pode e deve ser como que um “estojo” da identidade, que caracteriza e apoia a experiência pessoal e de vida de cada um.


Fig. 04 e Fig. 05: aspectos essenciais de apropriação de um dos fogos de uma intervenção da Câmara Municipal do Funchal (2002); são oito pequenas habitações apoiadas (Habitação a Custo Controlado financiadas pelo INH) do tipo T0 para idosos que vivem sozinhos - projecto da Arq.ª Susana Fernandes.

*Entre habitação e cidade os laços são fortes e mútuos e, tal como referiu Celeste Ramos, num dos seus artigos no Infohabitar, o homem marca a cidade, mas também por ela é marcado; e assim qualquer habitação deveria/deve ser um pouco o “estojo” da identidade de cada um, e qualquer rua ou praceta habitada também o deveria/deve ser.
Todos terem a mesma mobília e os mesmos quadros resulta numa ausência de “sensação de lugar”, numa espécie de não-universo pessoal que não permite nem a orientação no espaço do dia-a-dia, nem uma âncora identitária que nos transporte ao longo do tempo – *e sem lugar de referência até o próprio tempo ganha em crítica relatividade.
Dessa forma não há espaço pessoal, as coisas são sempre as mesmas, não há estímulo por exemplo para se convidar alguém, a casa perde o seu papel de espaço de sociabilidade, assim como perde o seu carácter de individualidade, o tal sentido de estojo da personalidade – *e lembremos, já agora, a aplicabilidade desta noção da importância da apropriação e da capacidade identitária também por exemplo na “habitação social” corrente.
E é fundamental tudo aquilo que acentue a possibilidade da sociabilidade e do contacto entre as pessoas e Priscilla Ridgway apontou que nos EUA há instituições em que se exige que se olhe nos olhos dos seus utentes de tempo a tempo.

E, frequentemente, não há também liberdade de apropriação, que também se exerce por exemplo na liberdade de se poderem fazer refeições, e em outras pequenas liberdades domésticas que só num lar têm realmente lugar.

Há reais diferenças entre habitação apoiada (supported) e habitação que apoia (supportive): uma habitação “apoiante” e sustentada. *E uma habitação deste tipo tem estruturalmente muito a ver com uma habitação promovida por uma entidade de apoio mútuo, por exemplo com natureza cooperativa, que proporcione, logo ali depois da porta da casa de cada um e mesmo, se desejado, no interior doméstico, um verdadeiro serviço habitacional, que pode ter variadas valências funcionais e que tem múltiplas valências sociais. E nesta matéria pouco importa a dimensão da casa, pois numa perspectiva como esta uma tal dimensão é fortemente suplantada por esse mesmo serviço habitacional que pode e deve ter inúmeras valências funcionais, culturais e de lazer, tornando-se, assim, o habitar estimulante e socioculturalmente rico, e logo aqui se entendem as vantagens de uma entidade cooperativa com raiz local mas bem articulada e apoiada numa estrutura organizativa eficaz e com um elevado potencial em termos de gestão e de capacidade organizativa.

Fig. 06: o citadino interior de quarteirão da cooperativa Coobital em Faro, onde se integra habitação, comércios conviviais, gestão local, equipamentos de apoio à infância e lazer pedonal – (1991) projecto de Lopes da Costa e José Brito (paisagismo).

A habitação apoiada (HA) tem tido bons resultados relativamente a outras abordagens. São casas correntes, sem pessoal específico, mas com apoios diversos e escolhidos caso a caso. Estimulam a responsabilidade, estimulam mesmo alguma felicidade no habitar, e poupam recursos.

Nos EUA a HA tem apoiado directamente na redução dos sem-abrigo, na redução dos internamentos hospitalares e mesmo na assinalável redução da medicação psiquiátrica. E a propósito desta matéria Priscilla Ridgway salientou a falsidade da ideia de as pessoas quererem morar na rua.

E é fundamental sublinhar que a habitação tem impacto na saúde mental e isto tem muito a ver com os já apontados aspectos do significado e do sentido do lar e com a caracterização de uma habitação que seja mais do que um alojamento estritamente funcional. *Naturalmente esta matéria tem a ver com todo o universo habitacional, e não apenas com a habitação apoiada (HA), mas, provavelmente, aqui, porque se lida, frequentemente, com pessoas muito fragilizadas, este aspecto assume ainda uma muito maior importância; reflexão esta que leva a pensar sobre a sensibilidade de determinadas acções de realojamento, por exemplo, de minorias.
A habitação apoiada reduz significativamente: o número de sem-abrigo; de dias de internamento hospitalar (para metade); e de situações que levam à prisão. E além de tudo isto melhora as condições de saúde, reduzindo a dependência de vícios, reduzindo consumo de fármacos e designadamente de anti-depressivos e promovendo actividades com sentido em termos de utilidade e impacto social, que são fundamentais para um verdadeiro caminho de recuperação pessoal e social.
As casas supportive/apoiantes são preferidas porque associam diversas vantagens pessoais e organizativas, entre as quais se destacam:
  • Disponibilizarem boas condições de privacidade, de liberdade no dia-a-dia e de sentido de pertença e de ligação a uma verdadeira “casa”.
  • Terem custos razoáveis: menores que os ligados à manutenção das pessoas em condição de sem-abrigo e cerca de metade dos ligados a projectos residenciais com equipas próprias.
  • Terem influência muito significativa na redução para cerca de metade dos custos associados a outros programas específicos de integração social.
As casas verdadeiramente supportive/apoiantes exigem, no entanto, uma atenção acrescida e ligada ao apoio social especializado específico e, designadamente, a um apoio específico ao risco do isolamento de cada um na sua casa (o risco do pitfall).
A Habitação Apoiada pode ser, assim, considerada, globalmente, como uma boa prática associada aos seguintes aspectos, *que se consideram como residencial, urbana e socialmente estruturantes:

  • Aplicação do direito de escolha da casa que se deseja (provavelmente enquadrado entre determinados limites).
  • Separação funcional entre casa e serviços de apoio; condição que proporciona seja uma agradável caracterização doméstica e apropriável da casa, seja a maior concentração e especialização dos diversos serviços prestados ao domicílio e fora dele – no entanto há que contar com a facilitação seja da vida doméstica de pessoas muitas delas com limitações funcionais, de mobilidade e de percepção, seja com a facilitação dos referidos serviços domiciliários, seja com o estratégico reforço, mas com a especificidade das tecnologias de informação e comunicação aplicáveis.
  • Desenvolvimento natural da integração social, pois ninguém sabe que uma dada pessoa ou uma dada família é uma pessoa ou família com apoios específicos, é apenas mais um vizinho ou mais uma família vizinha; *o que é excelente em termos de um “anonimato” positivo.
  • Favorecimento de uma excelente relação com um amplo leque de serviços prestados, seja numa perspectiva de voluntariado seja com perfil profissional e de mercado; e sempre numa base de escolha dos serviços que querem ou precisam receber.
Priscilla Ridgway referiu ainda, entre outros aspectos com grande interesse, que se pensava que certas pessoas não tinham capacidade de escolha, não tinham possibilidade de sucesso, e não podiam ter autonomia residencial e de vivência urbana; mas tal não era verdade. E assim a Habitação Apoiada transformou-se numa prova de sucesso para muitas pessoas que, assim todos os dias continuam a partilhar uma vida em comunidade socialmente bem integrada.


Fig. 07, 08, 09 e 10: Vistas gerais e interiores (de uma habitação) de uma promoção da Câmara Municipal do Funchal (2002); oito pequenas habitações apoiadas (Habitação a Custo Controlado financiadas pelo INH) do tipo T0 para idosos que vivem sozinhos, bem integradas na continuidade urbana - projecto da Arq.ª Susana Fernandes em que também se realizou a reabilitação e a reconversão de uma antiga moradia.


Parte IV: Conferência de Sam Tsemberis - “Housing first: Ending homelessness and recovering lives for people to live independently”


No que se refere às ideias apontadas por Sam Tsemberis, PhD – New York University, na sua intervenção intitulada “Housing first: Ending homelessness and recovering lives for people to live independently”, sublinham-se, em seguida, alguns aspectos, e, em itálico, o autor deste artigo integra alguns comentários julgados a propósito.

*Antes de passar a uma síntese informal dos conteúdos apontados por Sam Tsemberis, sublinha-se a própria noção do “housing-first”, “a habitação/casa primeiro”, que se julga ser uma noção que tem grande interesse e actualidade, e que ganha ainda uma importância especial quando associada aos aspectos de caracterização doméstica antes apontados por Priscilla Ridgway e bem patentes no exemplo habitacional no Funchal, que ilustra este texto.
Na fase inicial da sua intervenção Sam Tsemberis esclareceu que as habitações utilizadas nos programas “Housing-first” são apartamentos disseminados por diversas localizações citadinas e arrendados, desenvolvendo-se uma forte separação entre: os aspectos habitacionais; os cuidados de assistência social e de saúde (ex., tratamentos); e o próprio apoio económico. Desta forma, e com esta separação das diversas facetas do apoio, as pessoas são incentivadas a recuperarem o domínio sobre as suas próprias vidas.
Sam Tsemberis, que é director executivo do “Housing-first Programs” apresentou partes do programa “Pathways to Housing”, sublinhou quatro elementos essenciais (i a iv) nos programas de habitação apoiada:
  • Possibilitar a escolha do tipo de “habitação apoiada”.
  • Separar o serviço habitação dos serviços clínicos e assistenciais.
  • Desenvolver serviços orientados para a recuperação.
  • Desenvolver eficácia na prestação dos diversos serviços de apoio.
Em seguida são um pouco desenvolvidos estes quatro elementos, a partir da intervenção de Sam Tsemberis.

(i) Possibilitar a escolha do tipo de “habitação apoiada”


A ideia dos cuidados para a vida desapareceu e, considerando a tendência de desinstitucionalização, há que desenvolver pequenos equipamentos bem integrados e relacionados com o objectivo da prestação de um apoio continuado e sempre presente.

Estes pequenos equipamentos actuarão em parceria urbana e social com o desenvolvimento de programas de “habitação apoiada” disseminada na cidade, havendo que definir adequados critérios de elegibilidade para acesso a essa “habitação apoiada”.

É importante considerar a verdadeira importância da disponibilidade de uma casa como elemento prévio e positivo na reinserção social e mesmo no desenvolvimento de vontades positivas relativamente a tratamentos específicos e, num sentido distinto, importa avaliar e considerar a eficácia dos processos mais correntes de apoio social e clínico, e aqui Tsemberis apontou o caso de uma pessoa com a qual já se teria gasto um milhão de dólares sem êxito em termos da sua recuperação – um caso que deu e dá que pensar.

Sam Tsemberis sublinhou que o desejo dos “consumidores” é terem “a casa primeiro” – designação dos programas “Housing-first” -, querem acesso imediato a uma casa permanente e independente e não querem tratamentos prévios como pré-condição.

O conferencista apontou ainda que deve haver separação entre o risco de interrupção de eventuais tratamentos e o direito da pessoa à habitação, caso contrário quando há problemas eles rapidamente se tornam muito críticos para o dia-a-dia da pessoa.

E associado a este direito básico/“inicial” e específico de habitação, há que apoiar uma verdadeira selecção dos serviços de apoio à habitação, por parte dos respectivos consumidores, e há que aceitar que, nestes programas de “habitação primeiro”, a escolha do consumidor é um processo continuo, e há direito a más escolhas.

Em toda esta matéria Tsemberis salientou a sua natural complexidade e a exigência de uma adequada preparação dos serviços, pois nunca se sabe quem responde bem e há, habitualmente, cerca de um quinto dos “habitantes apoiados” que respondem mal ao processo.

(ii) Separar o serviço habitação dos serviços clínicos e assistenciais


Deve haver separação completa entre o serviço habitacional, o processo habitacional, e os eventuais serviços clínicos e assistenciais prestados aos respectivos habitantes.

Quem, por exemplo, não cumpre um dado programa de tratamentos clínicos não perde, por isso, direito à casa que habita.

Mas, sublinha-se, que para obter “habitação apoiada” e para a manter há que pagar renda e cumprir regras específicas.

Os senhorios (proprietários das casas arrendadas) querem que haja um sistema e/ou uma “agência” que assegure o cumprimento das rendas e que desempenhe o papel de parceiro que o senhorio possa contactar logo que detecte eventuais problemas; e aqui é fundamental a gestão local, que pode obviar a problemas graves por antecipação e por acção imediata. Sendo assim, uma tal capacidade de comunicação, de contacto e de responsabilização evitam, frequentemente, situações extremas de despejo, pois possibilitam a actuação com rapidez face a sintomas e problemas que se podem transformar em crises graves.

*Esta capacidade de gestão local em tempo real, em proximidade e “sensível” pode também aproveitar capacidades locais múltiplas, nos mais variados campos e com ganhos seja para os próprios, seja para o micro-tecido económico local, seja para a apropriação e caracterização de cada sítio. E, naturalmente, esta capacidade de gestão local em tempo real, em proximidade e “sensível” encontra excelentes agentes nas cooperativas de habitação.

*A separação entre serviços habitacionais e assistenciais é, também, como já se apontou atrás, importantíssimo factor de real integração, coesão e adequada diversificação social e urbana.


Afinal é fundamental não saber qual é o “estatuto” social de quem habita, por exemplo, o 2.º direito ou o rés-do-chão esquerdo, se, por exemplo, foi sem-abrigo ou não; e esta forma de actuar e de integração é essencial pois a mudança de estatuto que assim se obtém é positivamente drástica e imediata.

*No entanto, sublinha-se, tal positiva possibilidade tem de ligar-se a uma muito eficaz gestão de proximidade, que vele pelo adequado cumprimentos das regras habitacionais previamente definidas e que se ligam, entre outros aspectos de responsabilidade, à manutenção de boas relações de vizinhança; caso contrário todo este processo ficará rapidamente comprometido, podendo mesmo provocar condições de insegurança reais ou sentimentos de insegurança.

Suplementarmente ou paralelamente ao serviço habitacional há o serviço assistencial, desenvolvido por equipas multidisciplinares de atendimento e apoio multidisciplinar, que, privilegiam o serviço a pessoas com necessidades mais críticas.

Tais serviços estão sediados na comunidade, têm raios de influência específicos, e estão acessíveis também por chamada a partir de cada e numa base de 7 (dias por semana) -24 (horas por dia) – 365 (dias por ano).

A caracterização e o perfil de actuação destas equipas estão ligados ao desempenho das acções mais desejadas pelos respectivos consumidores (“habitantes apoiados”), sendo tais acções especificamente marcadas pela amigabilidade.

(iii) Desenvolver serviços orientados para a recuperação


Os serviços são orientados para a recuperação dos “habitantes apoiados” e são caracterizados por uma perspectiva global de apoio a quem precisa, marcada pela ideia de que, por exemplo, mesmo as pessoas com doenças mentais críticas podem viver vidas independentes na comunidade.

Destaca-se que, ao considerar-se o referido objectivo fundamental da recuperação, os serviços podem ter disponibilidade para apoiarem um número alargado de pessoas, que, em cada caso, deixam de apoiar ou mudam o perfil de apoio, logo que deixa de haver necessidades ou há nelas mudanças significativas.

As bases de actuação de todos os serviços associados à disponibilização de “habitação apoiada” são, designadamente, as seguintes: instilar esperança; oferecer escolha; interiorizar e expressar paciência; oferecer apoio específico, empenhado e recuperador; expressar uma verdadeira atitude de compaixão e de respeito; procurar e estimular capacidades específicas; criar e recriar possibilidades de actuação positiva e de vida diária gratificante.

* E em tudo isto há uma actividade social e económica local que pode ser estimulada ou mesmo criada, e na qual os “habitantes apoiados” podem e devem participar.

(iv) Desenvolver eficácia na prestação dos diversos serviços de apoio


Os programas são desenvolvidos numa base de avaliação e melhoria contínuas e desenvolvem-se, habitualmente, ao longo de períodos alargados (ex., 6 a 12 meses). Há, assim, que contar com esta natural “demora”, mas há que lembrar que as pessoas também entraram em espirais negativas comportamentais não de um dia para o outro.

E tem sempre de haver capacidade efectiva de escolha: de onde ficar; e de participar ou não. Pois só assim as pessoas podem (re)ganhar sentido de respeito próprio e de sentido ou desígnio de vida, e de arbítrio e mesmo de liberdade pessoal e cívica.

Nestes programas há que tirar o máximo partido do voluntariado e da vocação que certas pessoas têm para apoiarem os outros, e há que assegurar uma aliança de parcerias entre as autarquias locais e o voluntariado.

* Nesta matéria da identificação de agentes privilegiados para o desempenho das acções de apoio habitacional e especificamente daquelas que não requerem conhecimentos especializados, há que contar, como já se referiu, com as capacidades das estruturas cooperativas habitacionais, que são já experimentados actores locais bem habituados ao contacto com os moradores. E mesmo ao nível da gestão local e global de tais processos também importa aproveitar a capacidade de gestão instalada das mesmas cooperativas e especificamente daquelas que têm já praticado acções de apoio social diversificado.

Parte IV: (muito) breves notas finais sobre apoiar o habitar


São apenas duas palavras para referir que se pretende reflectir, em próximos artigos desta série sobre “a Cidade e a Habitação Apoiadas”, num quadro muito amplo e muito flexível que associe as perspectivas, já apontadas, de uma habitação apoiada pela cidade e de uma habitação que apoia a cidade, o que é simultaneamente, uma forma de atacar os principais problemas da cidade sem habitação e da habitação sem cidade viva, e, como já se referiu, uma forma de avançar na verdadeira integração, física e social, daquela habitação que tem de ser necessariamente mais apoiada, abrindo lugar para a sua natural ligação com a restante habitação e com a cidade; afinal, desígnios que se impõem e que muito “bebem”, seja na cidade tradicional, seja na boa arquitectura residencial e urbana.

Lisboa, Encarnação/Olivais-Norte, 24 de Maio de 2007
António Baptista Coelho ( abc.infohabitar@gmail.com )

Editado por José Romana Baptista Coelho

1 comentário :

jomacarga disse...

Tudo o que está dito sobre a Habitação Apoiada está muito bem. Mas que fazer quando não há vagas ou o programa parou por falta de verbas, ou até quando o candidato começa a entrar na fase muito perigosa de ter já alguma idade... E se não tem família, será remetido possívelmente para um "lar" de idosos, onde aí, vai de certeza ter um tratamento de 5 estrelas (em todos os sentidos...). Há desgraçados que são sempre preteridos. A porta grande da desgraça está sempre aberta. E ninguém irá lá libertá-los. A Habitação Apoiada acho excelente. Mas há aqueles que ficam sempre em frente da porta do lado de fora (e às vezes basta uma fisionomia menos agradável; ou suspeita de que é um "burlão"...).