quinta-feira, maio 17, 2007

LIBERDADE IDENTIDADE – artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 140

 - Infohabitar 140


LIBERDADE IDENTIDADE: História de vida confundida com a história do país


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do ser

Sophia de Mello Breyner Andresen


Fig. 01

Palavras chave: liberdade-identidade, dignidade, identificação, evolução do ser, criatividade e alegria, responsabilidade, existência, libertação, intencionalidade, sonho, realização – capacidade de pensar – desformatação – auto encontro e auto-realização – consciência – libertação da alma individual e colectiva – inteligência pragmática – inteligência emocional – segurança – dever – formatação – caminho espiritual – países sem fronteiras – a guerra da conquista – a guerra de libertação – versus libertinagem – medo e insegurança – irresponsabilidade – fazer tudo o que apetece – enlouquecimento – ignorância – arrogância – violência e crime à solta individual e colectivo – intolerância – fundamentalismo – xenofobia – fanatismo – desigualdade económica e cultural – policia e justiça ineficazes – comércio clandestino e economia paralela – produção, comércio e indústria alimentar descontrolada e novas doenças individuais e problemas de saúde pública – doenças nas culturas alimentares sem lei nem controle – sistema escolar deficiente ausente de ensino de novas realidades sócio-culturais – enriquecimento ilícito – abandono dos hábitos de leitura – ausência de programa escolar integrado de desporto e cultura – iliteracia individual e colectiva


Penso – vivo olho e recordo como quem pensa como quem sente.

Desde pequenina que fui educada com um determinado alinhamento de comportamentos como se houvesse um “catecismo” que determinava normas e, de temperamento dócil e de pronta obediência, até parecia que a vida corria fácil porque obedecer dava alegria a ambas as partes, contente por cumprir e ter agradado, o que fazia parte do crescimento e desenvolvimento pessoal/colectivo.

Nunca senti falta de liberdade em “casa”, no Colégio ou em outras situações públicas como se a qualidade da memória tivesse a ver exclusivamente com a “idade”.

O crescimento físico acompanhava o crescimento intelectual e ía dando lugar ao desenvolvimento psíquico e emocional derivado também do desenvolvimento da vida social e cultural e até aqui não há novidades para ninguém.

Mas uma vez na universidade sopravam ventos de contestação em Abril de 1962, inéditos no país e até no mundo (pois que é país que sempre em algo foi e continua a ser pioneiro), sobretudo por estarem na origem movimentos estudantis, o que viria culminar no Maio 68 tão badalado.

Mas como não há bela sem senão do lado de lá do atlântico no início dos anos 70, outro movimento começava em S.Francisco, por mais diferentes que já fossem as motivações mas igualmente confinado aos jovens – make love not war/flower power – que seria o início da expansão pelo mundo inteiro não apenas do “amor livre” mas também do uso de droga que destruiria pessoas e mesmo países e daria lugar a outro tipo de guerra que ficou sem controle nacional ou internacional ainda hoje.

Estes movimentos tão leves, e apenas juvenis, radicam com certeza em todos os movimentos de libertação dos homens que por alguma razão se sentem aprisionados no seu viver pessoal e colectivo e, assim, até poderemos remontar à revolta dos escravos de tempos que nos ficam para trás na memória e parcos na informação escolar, e ao movimento das mulheres operárias da indústria têxtil nos Estados Unidos, no virar do século XIX para o XX, que por apenas reivindicarem horário e salário foram queimadas vivas.

Mas voltemos um pouco atrás, mais atrás, especialmente à Revolução Francesa que iria revolucionar o mundo ocidental pois que para entender o presente é necessário ir tão atrás quanto necessário para entender que tempo se vive e de onde vem a semente de revolta que nunca mais ficaria esquecida, porque há sempre um fio condutor da mesma ânsia humana de se libertar da opressão (porque há sempre um opressor) de não importa que tipo.

Resultante da sanguinária revolução francesa e com a tomada da Bastilha em 14 Julho de 1789, é promulgada pela primeira vez a Declaração dos Direitos do Homem em 27 Agosto do mesmo ano; ano em que se inicia a grande revolução social com o fim dos privilégios da nobreza e da Igreja francesas, começando a esboçar-se e a implantar-se os direitos dos homens e a construção das novas sociedades. Ponto de viragem irreversível para o nascimento da sociedade contemporânea influenciada pelas ideias do Iluminismo e a independência americana (1776), tendo sido abolida a escravatura e os direitos feudais proclamando-se os princípios universais de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, por mais guerras e convulsões sociais que se lhe seguissem, mas que construíram os países tal qual foram até à I Guerra Mundial, representando o primeiro passo para o igualitarismo.



Fig. 02

No que respeita ao nosso País, ele também esteve envolvido nas três Invasões Peninsulares por Napoleão pois que Junot entrou em Espanha em 1807 e chegou a Abrantes e Lisboa (é célebre o banco de Junot na Tapada da Ajuda), sendo a segunda invasão em Março de 1809 com Soult ocupando o Porto a 24 de Março mas derrotado com a ajuda dos exércitos de Inglaterra comandados por Wellesley na Batalha do Douro, tendo os invasores saído para a Galiza e sendo a terceira invasão iniciada em 1810, com André Messéna conquistando o Forte de Almeida e depois Lisboa, com novo confronto dos exércitos nacional e inglês em 27 de Setembro na Batalha do Buçaco e, ainda, encontro nas Linhas de Torres em Outubro para se retirarem de vez, mas agora também com os exércitos de Espanha entre Maio e Agosto de 1813 com a Batalha da Vitória e a dos Pirinéus, acabando esta definição europeia ainda com a Batalha de Toulouse em Abril de 1814.

Tendo a guerra peninsular debilitado a França, levou à consolidação em definitivo da hegemonia inglesa, até ao outro lado do Atlântico, mas determinou o início da independência dos países da América espanhola e portuguesa, porque o rei de Portugal se havia refugiado no Brasil aportando à Bahia e, ao tentar voltar para re-colonizar, levaria também à sua independência em 1822 e assinaria o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas dando à Inglaterra privilégios de relações comerciais em ambas as margens do atlântico, mas enquanto os países beligerantes já recuperavam, o país entrava em grande crise económica e institucional favorecendo o desenvolvimento de ideias liberais que conduziriam à revolução do Porto (1820) fazendo do país um campo de Batalha e de cidades pilhadas.

Fazendo do país um campo de Batalha e de cidades pilhadas.



Fig. 03

Mais tarde já depois das duas Guerras Mundiais, Inglaterra rendia-se à inevitabilidade dos movimentos independentistas de praticamente todas as suas colónias, seguindo-se-lhe todos os outros países colonizadores, sendo Portugal o último a aceitar a evidência; libertação que só viria com o 25 de Abril de 1974 com o denominado Movimento dos Capitães, eles também punhado de jovens soldados quase meninos, cansados de guerra em terra alheia que a história recente mostrava ser irreversível e, a partir daí, o país entra, finalmente, em PAZ e em evolução imparável económica e social, mas sobretudo cultural, ganhando mais uma vez o respeito do mundo Livre, pois que saía do regime político opressor mais longo da Europa, saía do “orgulhosamente sós”.

Libertava-se enfim a alma portuguesa que tinha a porta aberta para partir à conquista da sua real identidade e criatividade.

No entanto, uma coisa é o que se passa entre países que por razões de expansionismo ou de saque dos bens naturais entram em guerras, e a Europa conheceu todas e entre elas a Guerra dos 100 anos, outra coisa é o regime político de cada país já estabilizado nas suas fronteiras, que não oprime com armas mas de outras formas igualmente demolidoras da condição humana e que tem a ver com repressão interna para com os cidadãos que não correspondem aos ideais do “catecismo” dos governantes; pois que não há liberdade em mentes aprisionadas, deformadas e formatadas por uma cultura estatal.

Esteve nestas circunstâncias também o ex-bloco da URSS de regime comunista tão repressor como o regime nazista ou de capitalismo absolutista, que um dia também caiu com Gorbatchev e Yeltsin, fazendo desmoronar o elo artificial que existia entre todos os países que tinham sido agregados à força, caminhando cada um na procura da sua identidade cultural e étnica e finalmente para o seu desenvolvimento e lá andam à procura, o mesmo acontecendo à Jugoslávia e a todos os países “de Leste” que ainda hoje oscilam entre identidade e poder, estabilidade e desenvolvimento.

Vão caindo todos os “Muros de Berlim” que enclausuram os homens sendo apenas uma questão de tempo e, curiosamente, o mesmo sucede com cada indivíduo que isoladamente é aprisionado pela família ou mesmo pela sua própria mentalidade, mesmo vivendo em país livre porque, por mais que o ambiente ajude, o crescimento até à liberdade interior depende tão somente da sua inteligência e grau de consciência e de um trabalho individual e, para tanto, diríamos que o grau cultural adquirido pode ser uma ferramenta de valor invulgar pois, quanto mais sábia for a mente mais longe irá até
à sua alma livre, mas sempre com o reverso da moeda, pois que entretanto outros “muros” se levantam, seja a oriente seja a ocidente.

Curiosamente, os países europeus que durante séculos se degladiaram, estão hoje unidos por interesses económicos, formação que se iniciou logo após a II Guerra Mundial com a União do Ferro e do Aço, semente da CEE dos 6 através do Tratado de Roma (1957), depois Tratado de Maastricht que alarga as competências económicas e inclui as do emprego e formas de cooperação, depois Portugal e Espanha que aderem em 1985 e já são 12 membros, em 2003 já há 15 e, hoje já são 27, não parando o número de países que solicitam entrar para Comunidade Europeia, agora União Europeia, de governação única no mundo com rotatividade, cabendo a Portugal a Presidência no 2ª. semestre de 2007, numa tarefa gigantesca de afirmação da sua capacidade de abrir ainda mais a sua capacidade de engenho e arte no encontro de consensos agora de tantos países; afinal, no reassumir de uma vocação humanista milenar.

E há 40 anos que a Turquia espera e se prepara para ser aceite na Comunidade e, no entanto, é o único país que já pertence a outro continente e até a outra cultura; mas espera!

E assim, da união económica dos países do Ferro e do Aço, chega-se, por exemplo, hoje, na fundamental Educação, ao Tratado de Bolonha, que unifica competências universitárias, visando-se a livre circulação no espaço comunitário; o que por um lado parece interessante e, por outro, “aligeira” de tal forma a exigência de qualidade intelectual, como se anunciasse mais uma fragilização por ter atingido tal dimensão com a abertura de fronteiras que tudo globalizou em termos de economia mas também, por exemplo, de violência e de crime, como se se tivesse atingido um limite sobre o qual é necessário repensar este mundo onde tudo parece estar à solta e com pouca eficácia de aplicação de leis universais de comportamentos, como se se atingisse uma outra fase de aprendizagem do viver colectivo, agora alargado a quase um continente.

Por isso em 2006 a tentativa de existência de uma Constituição Europeia, gigantesca e irrealista, chumbada por dois países membros. E, assim, para onde caminha esta Europa Unida? Veremos!

Um pouco em paralelo Portugal tem ainda o “brinde” de ter um Alto Comissário da ONU para os Refugiados (2006) e, este ano, outro Alto Comissário da ONU para a Aliança das Civilizações (26 de Abril 2007, data curiosa! Depois do 25 de Abril e curiosa a designação de “santa” aliança!), cargo recentemente criado pelo ganês Cofi Annan em 2006, no temo do seu 2º mandato de Secretário Geral, tendo já tido também um português o cargo de Presidente da Assembleia Geral, e não esquecendo, naturalmente, a própria presidência da União Europeia.

Que país tão pequenino e agora tão debilitado económica e culturalmente, e no entanto com tantas personalidades com cargos do mais alto valor mundial, como se fosse um país de personalidades e o “povo” uma massa anónima deixada nas suas lutas quase exclusivamente de sobrevivência, diária, país de extremos e de abandonos, forçado talvez a novo engenho e arte.

A Europa, farta de guerras, é hoje contudo um exemplo de paz e de desenvolvimento económico, social e cultural, considerada mesmo a maior potência económica do mundo com os seus 494 milhões e 700 mil habitantes, provando que em paz os países prosperam e desenvolvem-se, embora com crescente índice de envelhecimento da população, minimizada pela população imigrante que não pára de aportar à “terra da abundância e da paz”.

Acontece ainda este ano a I Cimeira Euro-Africana, em Lisboa, parecendo ser 2007 um ano único de afirmação portuguesa, já que não lhe caberá tão cedo a presidência desta super-potência chamada UE.




Fig. 04

A União Europeia atravessa enormes dúvidas não apenas quanto à sua Identidade mas até sobre o tão almejado progresso económico que se agrava com mudanças profundas ocorridas nos últimos anos: de entre elas adopção de uma moeda única e a adesão de novos países, levando a que os seis países originais que celebraram 50 anos, sejam agora 27.

Até há poucos anos – talvez com a Europa dos 15 – havia maior homogeneidade na União Europeia que Portugal tentava acompanhar, mas que cedo (2000) o fez descolar não apenas por razões da adopção do Euro, mas por várias contingências internacionais e nacionais conjuntas. “Mas foi o último crescimento do grupo que fez mudar essa situação, com novos países-membros que têm uma memória histórica muito diferente dos últimos 50 anos”, explicou em entrevista António Missiroli, chefe dos analistas políticos do European Policy Centre, centro belga de estudos da União Europeia, sendo que também o fenómeno mais recente e óbvio da globalização apanhou desprevenidos os países mais distraídos, embora esse processo de globalização se processasse mesmo dentro da União desde a adesão de Portugal em 1986, e mesmo com a suculenta atribuição de subsídios para o desenvolvimento económico de infraestruturas gerais, bem como do sector da agricultura e das pescas, que Portugal desbaratou e distribuiu mal do ponto de vista económico, social e ecológico.

Esta situação, criada em 1986, pareceu ser uma grande benesse para todo o país, redistribuindo os proventos europeus para o desenvolvimento de cada canto habitado, não apenas com infraestuturas, viárias mas reforçando pólos de desenvolvimento para gerar mais e melhor emprego, mais e melhor formação profissional, mais e melhor ensino, mais e melhores cuidados de saúde; para que o país não ruísse. Mas o país ruiu, e em apenas 20 anos.

Os grandes subsídios contemplaram apenas novas estradas e os grandes latifundiários e a população mais jovem e activa demandou o litoral e aí criou os seus filhos, que pelo litoral ficaram dando lugar ao fenómeno da litoralização, que destruiu o país mais do que desenvolveu, já que com a chegada da população do interior, foi necessária a construção de habitação e de todas as infraestruturas para a sua sustentação.

Assim nasceram as duas Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto, e assim o caos do Algarve foi adicionado ao caos de todo o litoral, ficando o interior vazio de população activa, e sendo que os que ficaram morreram ou envelheceram, perdendo qualquer capacidade de manter as suas actividades económicas e culturais.

Morreram os habitantes e morreram sobretudo as freguesias rurais, morreu a paisagem e a floresta ardeu, tudo isto na ausência da população, pois que o país nunca ardeu como nos últimos 20 anos com um acelerar na década de 90, e em 2003 foi até “espectáculo mundial”, e a TV mostrou ao mundo um fogo sarcasticamente atribuído aos foguetes das Festas e Romarias dos emigrantes que no Verão ainda voltam “à terra” e a alguns loucos que fugiram do manicómio e que “foram apanhados e identificados”! Dizendo-se tudo isto, embora a questão dos fogos tenha muito a ver com a ausência de água nos níveis freáticos, não apenas por razões climáticas naturais, mas por destruição dos sítios que são, por excelência, locais de inflitração, e com a generalização da eucaliptização em áreas de vale ou montanhosas, numa arborização que consome toda a água no solo; e, assim sendo, a terra e a floresta secam, ficando a árvore sujeita a arder mais facilmente, para além de secarem as poucas manchas de vegetação natural existentes e que na Primavera mal se regeneram, caminhando-se, assim, para a desertificação imparável.

De todos os exemplos que se podem dar, cito apenas um dos mais dolorosos e que respeita à aldeia histórica de Piódão, construída num dos mais altos e severos declives do país, e parecendo um presépio em área de xisto, e que tem actualmente 70 idosos reformados, em que o mais novo tem 50 anos (reportagem de Pedro Almeida Ribeiro na apresentação do seu livro “Estrago da Nação” no programa SIC “Perdidos e Achados” de 3 de Maio de 2007).

Sem hospitais nem escolas foge a massa cinzenta, e não havendo regeneração da população não há condições para implantar o turismo de que aquela aldeia poderia beneficiar, pois que há anos não beneficia de coisa nenhuma, porque os políticos não se focam nas zonas que não lhe dão votos e, para o turismo, é necessária população com determinada formação para que o turismo seja realidade e novo ponto de partida para não desabar, como desabam os telhados de xisto, caminhos e paredes, pois que já não há quem possa e saiba trabalhar com essa velha arte da pedra.

Piódão não tem peso eleitoral, aliás como todo o interior pois que em 60% do território vive apenas 15% da população e nem sequer se investe em adução de água e esgotos como se se tratasse do III mundo – o 25 de Abril passou por lá só nesse longínquo dia de 1974 mas a flor morreu em 33 anos nesses territórios esquecidos onde a população vive e morre anonimamente.

A pouca população idosa que existe (média 60 anos), não tem sequer uma farmácia (apenas um café que é o único ponto de encontro) e só tem acesso à saúde em Arganil, que dista 40 km da aldeia, e em muitos casos até terá de se deslocar a Coimbra.

O governo deu no fim de 2006 e início de 2007 o golpe de misericórdia ao interior fechando milhares de escolas primárias e de centros de saúde, e sem escolas não há crianças, nem os seus risos, e sem saúde não há alegria.

Os muitos Piódão(s) de Portugal só terão vida turística se tiverem vida com verdadeiros habitantes e não apenas com agentes de turismo a fazer floclore como em muitas aldeias da Europa. O interior só terá vida humana e de natureza se tiver habitantes e actividades próprias, como a agricultura; e sem agricultura e sem agricultores, resta o fogo e a acumulação ou depósito de lixos industriais, e o resto é tristeza, abandono e morte das pessoas e das pedras por eles postas de pé e a que deram vida e beleza.

Porque nunca os decisores usaram bem os fundos comunitários recebidos ao longo de, exactamente, 20 anos, o país viu também, e mais recentemente, aumentar o desemprego, depois da destruição do tecido económico do sector primário (agricultura e pescas), indústrias agro-alimentares e serviços derivados e, mais tarde (2002-2007), mesmo boa parte do restante tecido industrial, quando este entrou em crise agravada com o advento da globalização da China; tentando-se uma recuperação, que não está à vista dadas as circunstâncias de obrigação de convergência do valor de crescimento conveniente e do limite do déficit do PIB nacional imposto pela UE.

De tantos diálogos diários e já obcessivos, que são moda nestes anos do início do séc XXI, em vários programas de TV pública e privada, diálogos esses entre quase todos os maiores empresários e gestores e também todos ministros e ex-ministros da economia, e não só, e em tantos artigos de jornais, não há uma só observação que não seja técnica e politicamente correcta, sendo pura perda de tempo de antena e esvaziamento da própria palavra, que se tornou VAZIA, mas não deixam de se mostrar nem recusam a entrevista porque mostrar-se passou a ser importante.

O mesmo sucede com todos os discursos dos partidos políticos, não interessa qual partido, em que tudo se resume a conversa de manutenção do lugar de poder e de alimentar diálogo para que se não pense que já não existem, sem no entanto nunca ser referido o grande país rural e, deste, o interior, como se fosse assunto arrumado, e fechando nos últimos dois anos o que aí ainda restava de apoio de infraestruturas colectivas; o que vem aliás na linha do pós 1986, em que Portugal tendo 43% de população activa no sector agrícola, constituía este o seu grande índice de subdesenvolvimento. Sò que nenhum país da UE matou a sua agricultura; embora recentemente o país recomece a exportar frescos e fruta para o norte europeu dada alguma qualidade que entretanto se perdeu na Europa e que finalmente se renova em Portugal.

Se a Europa tentou maior homogeneidade a partir da formulação de uma Constituição Europeia, que acabou por ser recusada pela França e pela Holanda, por outro a duplicação de países ajudou a degenerar em crise que é fatal serem os mais frágeis e inábeis a pagar; e Jacques Delors, o primeiro presidente da UE (1985-1995) já afirmou que haveria a possibilidade de desmembramento da actual União.

É dito que 44% da população da UE afirma que o nível de vida piorou, acompanhado do envelhecimento da população e mesmo da crise de valores da “velha” Europa Humanista e Solidária, que começa a pôr em causa as vagas de emigrantes do continente africano, que passam a ser maltratados e mesmo expulsos ou, de novo, reduzidos a mão de obra escrava como no séc.XVIII, acontecendo isto mesmo com os portugueses que trabalham em “países” amigos, situação já denunciada oficialmente.

Aliás não fará grande diferença da escravatura actualmente perpretrada no Dubai (zona franca), para com os que saem do seu país (chineses, nepaleses e indianos), que nele assinam contrato com a empresa para que irão trabalhar mas que, ao chegar, lhes é retirado o passaporte, os obrigam a assinar novo contrato em que consta que não têm sindicato nem assistência social nem sequer de saúde, e que tudo corre por sua conta e risco sendo “prisioneiros” das empresas, sendo que as respectivas embaixadas nada fazem, ou podem fazer porque a lei do país é intocável; no século XXI, no país onde se compram ilhas artificiais como quem compra uma casa, a escravatura foi assim levada ao inimaginável.

Acabam a guerra e os conflitos e logo homens arranjam outras formas de humilhação cada vez mais cruéis e de imposição do seu poder para com a maioria mesmo no regime político mais civilizado denominado democracia. Ninguém quer distribuir o bolo ou pagar o valor do trabalho de outrém, seja ou não bolo comum e toma para si o que não lhe pertence, sem lei.



Fig. 05
O dia de comemoração do Homem livre e libertado da escuridão do fascismo ou totalitarismo, o dia em que os portugueses têm “braçadas de cravos” e cheira a Primavera e a esperança, não tem sido objectivo e concreto para real desenvolvimento do país inteiro e totalidade da população mas, pelo contrário, apenas para cada vez menos grupos cada vez mais coesos e fechados, que tendo já sido privilegiados, detêm agora ainda mais, depauperando e defraudando mais pessoas, os seus sonhos e mesmo direitos inscritos da Constituição Portuguesa, que revestia, na forma escrita, a revolução dos cravos porque dela foi consequência.

O Dia de comemoração do Homem Livre não chegou a todo o país nem a várias partes do mundo.

Como nunca, porque não usou bem o que havia recebido, o país viu aumentar o desemprego e destruir o seu tecido económico. E quando começa um ciclo de destruição e ausência de valores éticos e estéticos e humanos – e a memória dos povos já não vale nem num papel escrito –, ele acaba por estender-se aos valores da própria Terra, desmantelando-a na grandeza das paisagens construídas durante milénios, seja paisagem rural seja urbana, como se soprasse vento de destruição sem olhar a quê e porquê, e que abarca todos, desde os mais pequenos nos infantários.



Fig. 06

Abril de sim, Abril de Não Manuel Alegre

Eu vi Abril por fora e Abril por dentrovi o Abril que foi e Abril de agoraeu vi Abril em festa e Abril lamentoAbril como quem ri como quem chora.Eu vi chorar Abril e Abril partirvi o Abril de sim e Abril de nãoAbril que já não é Abril por vire como tudo o mais contradição.Vi o Abril que ganha e Abril que perdeAbril que foi Abril e o que não foieu vi Abril de ser e de não ser.Abril de Abril vestido (Abril tão verde)Abril de Abril despido (Abril que dói)Abril já feito. E ainda por fazer.

É como não se ser português só por se ter nascido aqui.

Que bom é afinal o Abril que permite tudo dizer até o mais incongruente!

Não há preço para a Paz e para a Liberdade e no dia 1 de Maio 1974 na rua estavam mais de 500 mil pessoas a festejar o movimento dos jovens capitães – que se espalhou ao país os cravos que floriram porque todos, afinal, estavam desejando que acontecesse.



Fig. 07

Em 1974 já era adulta mas sem qualquer direito de cidadania, pois que a diferenciação de género tudo anulava excepto no direito de existência e de empurrar a porta e saltar muros altos para conquistar um lugar que só dependia de mim já que, do género feminino, votar era irreal, sair do país era quase impossível, porque havia um “Muro de Berlim” e, se saísse, só com a aprovação do “género” masculino.

Ir atrás na Memória e repensar tudo, repensar os últimos 50 anos mas sobretudo estes 33, é como viajar de uma galáxia para outra, mas por mais fronteiras que se tenham aberto e muros que se tenham derrubado, outros muros se levantam se calhar porque o homem ainda não está pronto para viver em liberdade e consciência e sentido da Vida; e se calhar estou a confundir a evolução individual com a colectiva, mas estou também a desejá-la, a evolução colectiva.
Porque eu vivi esse dia como um sonho que, afinal é e tem de ser possível, senão nada vale a pena; e recordo como quem pensa, como quem sente o que só esses, desse tempo, sentiram; e que pena tenho de não saber onde está, uma bela fotografia, que fiz, de um velhote muito velhote que só tinha por companhia um cão, mas ambos exibiam o seu cravo vermelho porque a alegria não é pensada, é sentida e intransmissível.

Curiosamente, e não será por acaso, o Ensino do português a qualquer nível encontra-se no mais alto grau de degradação e de irresponsabilidade quanto à formação intelectual e de cidadania e em quase tudo vejo o 25 Abril como uma grande CRUZ NEGRA passada por cima do que ficou além dessa data.

Mas, “privado da sua História um povo entra em degradação” (Sakarov).

Que pena, pois que parece que pouco mais ficou do que o “símbolo” que, no entanto, foi único no mundo e fez aportar ao país, sobretudo a Lisboa, um número inimaginável de reporteres de todo o mundo; e Portugal foi notícia no mundo pela mais bonita e nobre das razões e na mão que pegava a arma havia flores.

Os jovens de hoje, ao estudar História de Portugal, nem ao menos teoricamente sabem como a “passagem” desse DIA, constituiu a passagem da noite para o dia, do silêncio para o grito, da pobreza de espírito para a possibilidade de enriquecimento sem limites, e que o limite só está em cada um.

Mas é até certo ponto compreensível que os jovens não saibam, porque eu também não vivi o tempo da conquista de Lisboa por D.Afonso Henriques e não o sei imaginar; mas alguém passou testemunho que ficou escrito e cada geração vive o seu tempo e com ele constrói a sua memória e com a memória dos homens se faz a História, mas passados 33 anos os livros de História não contam a história do tempo livre em que os meninos hoje nascem e vivem.

Porque se apagou o 25 de Abril ? Aqui tão perto?

No entanto, neste ano de 2007 houve algo inédito na comemoração do dia dos cravos, que foi votada a um ser que tudo deu pela Liberdade – Zeca Afonso –, que mereceu uma homenagem nunca imaginada com um programa luso-galaico e transmitido na televisão, de grande qualidade histórica e estética em que a música foi rainha, música de cá e música de lá, espectáculo só possível porque mesmo que o Alto Minho e Galiza estejam há muito unidos pela sua historia galaico-duriense, e se para eles 25 de Abril é a revolução das flores, também para todos todos os castelhanos foi o prelúdio da sua libertação política e início de um desenvolvimento económico e sociocultural único na Europa. E, ao menos isso, ao menos ter sido farol de tantos outros!

Também todos os países, hoje independentes e estáveis politicamente, terão tido um dia o seu 25 de Abril.

Mas nenhum com flores e só com flores.

Abril há-de de novo florescer, mesmo do pântano, que também dá flor – a cheirar de novo a esperança e de vida a renascer.

MAS FALTA LIBERTAR O PLANETA DA OPRESSÃO HUMANA


Maria Celeste d’Oliveira Ramos

Acabei!

Lisboa, Bairro de Santo Amaro
25 de Abril de 2007



Fig. 08

Em Abril, por uma vez,Um dia se fez verdadeE jorrou de quem o fezA palavra Liberdade.Foi num Abril já distanteQue do cravo nasceu vidaNa espingarda floridaDe soldado militante.Foi um Abril muito breve ...A brisa da madrugadaDe tão solta, de tão leveFicou à porta de entrada.Mas na alma cintilouO fulgor desta saudade.Foi um cuco que cantouJustiça, pão e verdade ?
Amadeu de Carvalho Homem – 20 abril 2007

Fontes de imagens utilizadas:
O HERÓI EXEMPLAR
http://2rosas.weblog.com.pt/arquivo/25%20abril.jpg http://www.pcp.pt/actpol/temas/25abril/25anos/foto09.jpg
http://cc25a.utopia.com.br/fotos/foto72.jpg

Ilustrações escolhidas pela autora; procurou-se referir as respectivas fontes.
Revisão para edição em 2007-05-08, por ABC.
Preparado para edição, por José Baptista Coelho, em 2007-05-10.

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