quinta-feira, novembro 16, 2006

Cidade relógio de horas, artigo de Maria Celeste Ramos - Infohabitar 113

 - Infohabitar 113

Cidade relógio de horas

Artigo de Maria Celeste Ramos
Imagens de A. B. Coelho

Calendários, tantos que o mundo teve durante milénios como o calendário Maia que se baseava em ciclos de 26 mil anos e em que estará dentro em pouco a acabar mais um, ou Egípcio, para "dividir" o tempo marcado pelos ritmos cósmicos e as estações do ano, estas porém diferentes em latitude e longitude, mas igualmente marcadas havendo ainda em vigor o Calendário Chinês (calendário lunar) e o Calendário Cristão (calendário solar) do mundo ocidental e do resto do mundo.

Esta ansiedade milenar conduziu o homem à edificação de construções tão fantásticas que tornaram os locais míticos, tendo sido erigido no nosso mundo ocidental um dos mais extraordinários como Stonehenge, para "medir equinócios e solstícios" com exactidão e tornado local sagrado, bem como outros construídos para determinar a exactidão das fases da Lua como certos monumentos Aztecas de que restam ruínas da sua evidência, para além dos monumentos Maia como a Pirâmide do Sol e a Pirâmide da Lua no México, local de fascínio nos arredores de Mexico City e de intenso turismo internacional.

Tempo, cuja noção mais próxima e objectiva nos é dada pelo dia que nasce com o Sol que vem de leste e que se detém cor de oiro e sem sombras quando a pino, que depois cai por detrás da montanha ou mergulha no mar lá para ocidente em espasmos de luz, marcando o nosso ritmo interior e exterior mais importante de viver, estudar, trabalhar, brincar e descansar, fazendo o que somos, sendo parte da perpetuação de toda a vida que também transmigramos através da formação do grupo familiar.



Tempo primordial e também Bíblico, marcado pelo Sol e pela Lua, igualmente anunciado pela estrela da manhã matutina, a mesma estrela da tarde, vespertina, como se fora mais um relógio.

Tempos de Lua de nascermos, tempo de marés e sementeiras, tempos de Sol de amadurecer e crescer de consciência mais desperta.

Tempos de Lua e de silêncios, tempos de Sol e de risos.

De noche, el oro
es plata
Plata muda el silencio
de oro de mi alma


(Prémio Nobel-Juan Ramón Jimenez-Antologia poética-ed.1970)

Tempo definido por Einstein em termos relacionais por e=mvt – em que o espaço percorrido é função da massa do corpo que se desloca, a velocidade e o tempo de deslocação que, se calhar, não existindo para o universo, tem de ser tornado pragmático para os homens para que possam, melhor, entender o TEMPO que por nós passa e nos vai fazendo descobrir os espaços e a vida que levamos, por mais misterioso que seja olhar uma estrela, e saber, que o que o que o nosso olhar detecta tão depressa está a milhões de anos-LUZ de distância, como se fosse semelhante ao olhar cá em baixo o tempo de atravessar uma rua e tal que se por outro lado o planeta Neptuno é impossível de enxergar a olho nu, pode no entanto com a maior naturalidade ser olhado num simples atlas.

Evolução imparável a do homem perguntar e perguntar-se e, depois, como se tivesse sido óbvio e simples, dividir o globo terrestre com risquinhos imaginários horizontais, as latitudes, e em 12 risquinhos curvilíneos como gomos de uma laranja, as longitudes (fusos horários), para que nos pudéssemos situar no nosso planeta e poder viajar para a cidade no local certo no tempo pré-determinado que se tornou tão rotineiro que já não se lhe dá valor nem sabe a origem.

A encantatória Volta ao Mundo em 80 dias de Júlio Verne que todos lemos em meninos, passou da ficção para uma verdade concretizada e realizável em menos de 24 horas exactamente no ano de 2005, com mais uma maravilha construída pelo homem, em que espaço e tempo continuam a interligar-se, fique-se ou não com a cabeça azamboada ao mudar de longitude e contrariar o percurso natural do Sol a que estamos sujeitos e habituados quotidianamente e preparados geneticamente, como estão, igualmente, todas as plantas e animais e mesmo as FLORES.

Como se o macro e o micro com que vivemos conjuntamente sem sequer nos apercebermos, pudesse sempre ser resumido por poder ser medido através desse último e magnífico objecto que usamos para não nos atrasarmos para o que temos de fazer em cada dia incluindo lançar um satélite espacial.

Relógio sideral – Relógio de Sol – relógio de Água – relógio "suíço."

Cidade-Relógio-de-Horas é o espaço físico onde todos podemos ter consciência do tempo, não apenas através dos monumentos que contam a história da história e da arte dos homens da cidade reavivando a MEMÓRIA e os saberes nela contidos e aprendidos para nos orientarmos no tempo e no espaço, mas que tem também outros relógios de horas da natureza dos outros seres vivos, e de rigor cósmico, de que não nos damos bem conta e até alguns homens desprezam, porque hoje só há "time is money."

A natureza viva dentro da cidade permite manter a vitalidade física e psíquica e espiritual, não apenas por haver flores e frutos, cor e perfumes e magia, diferenciando-se nas quatro estações do ano, mas porque é também memória dos nossos sentidos e memória celular que, mesmo sem sabermos, nos ligam à vida do céu e da terra com seu relógio do Sol e da Lua.

A cidade não é apenas o espaço físico do viver em que se é obrigado a olhar o palacete Bragança que apesar de belo abrigou a PIDE, falando assim do mal que homens infligiram a outros em passado ainda recente e que lamentavelmente está previsto ser abatido para dar lugar a mais um betão, apagando história e memória, ou o marco que assinala o assassínio dos Távora que igualmente reaviva consciência ao olhá-lo, como não é também só o reavivar da grandeza como a da Torre de Belém ou da luminosa Basílica da Estrela, porque nem só do tempo-pedras vive a cidade edificada.

Ela contém ainda elementos de suporte de outro tipo de memória, ainda mais rigorosos, mas tão escondidos que nos passam ao lado e, talvez por isso, os "construtores da cidade não lhe dêem tanta importância", e referimo-nos aos ritmos biológicos da natureza manifestadas na fauna mas sobretudo na flora, cuja reprodução e formas de vida, e por espécie, obedecem ao rigor do tempo sideral, natureza parcamente representada dentro da cidade e assim despojando os habitantes da observação e ligação quotidiana com a vida global e os seus ciclos diferenciados e específicos.

Como se o essencial nos passasse despercebido por ter perdido importância e se pudesse justificar ter vida cada vez mais superficial e artificial e, sobretudo, a correr – porque o "relógio não pára."


Cidade não é apenas Livro de história das coisas e do homem, mas também livro de todas as memórias manifestadas em 24 horas de todos os dias do ano e de todos os anos, que determinam comportamentos na fauna e na flora e também nos homens, mas cuja inteligência evolutiva se tornou separatista dos fenómenos iniciais que seria bom fazer redespertar na cidade como acto de revitalização da qualidade do habitar e de se ser mais saudável e mais consciente dos seus direitos e deveres de cidadania.

Ao nascer do Sol a cidade levanta-se com os homens que vão à sua vida, mas mais madrugadores são os pássaros que sabem que a sua vida começa com os primeiros raios de sol, recolhendo sempre também ao mesmo lugar de acordo com a hora certa do pôr-do-sol, da mesma forma que em tempo de migrações há um momento exacto para todos os animais, em cada lugar do planeta, para a iniciarem, sob pena de não sobreviverem, pois que irão a caminho ou da época de hibernação ou da reprodução da sua espécie como as andorinhas que aqui chegam na Primavera, mesmo fria, anunciando-a.

Também foi estudado o comportamento das cigarras numa cidade dos USA, cujo nome me escapa, que há alguns anos por elas foi invadida em quantidades invulgares, ficando-se a saber que os ovos são postos em árvore velha da qual se alimentam durante o seu estado larvar que dura 17 anos passando todas à mesma hora ao estado de crisálida.

Igualmente os caranguejos que se vêem na maré baixa e que correm para se enterrarem no areal à procura de alimento duas vezes por dia, sabem que não tardará a maré-alta para os proteger, calendário lunar cujo ciclo nas suas quatro fases marca ritmos maiores.

E se um cãozinho tem 250 mil vezes mais olfacto do que o homem e por isso é aproveitado para prestar tantos serviços que por sua vez fazem desenvolver a sua inteligência, também o usa para encontrar o dono que o abandonou, sendo igualmente um dos primeiros animais a sentir ondas sísmicas como se de verdadeiro sismógrafo natural se tratasse, bem como o elefante ou o golfinho "ouvem", a quilómetros de distância, sons de frequência impossíveis de detectar pelo homem sendo verdadeiros sonares naturais.

Os relógios da natureza da vida no reino animal, fora e dentro da cidade, foram esquecidos pelo homem urbano que deles se afasta cada vez mais e que até já esqueceu, também porque os seus alimentos já não são nem cultivados nem comercializados de acordo com o ritmo das estações e derivados das sementeiras de Primavera e de Outono porque a indústria do frio "guarda" os produtos para mais tarde os vender muito mais onerosos, para além de serem cultivados em regime de "forçagem" em estufa utilizando-se excesso de hormonas de crescimento e de adubos químicos, que lhe retiram toda a qualidade original na forma e cor, perfumes e sabores que os cidadãos mais jovens nem sequer alguma vez conheceram, mas que "constam" da memória dos seus sentidos – por isso renasce novo movimento de agricultura biológica, ainda tão incipiente, porque a SAÚDE humana está em grande risco.

Ao que se acresce a diminuição de espécies da fauna cinegética porque é utilizada, mesmo em anos de ser dizimada pelo fogo e outras catástrofes, para o simples prazer do desporto evitando e atrasando "repovoamento", como se fosse necessário insistir a dizer que serve para regular as populações, como se a natureza não soubesse regular-se a si própria, se lhe for permitido e, para tanto, lembro aqui o bom exemplo de projecto da responsabilidade da CM de Vila Nova de Paiva (2005) feito de acordo com os caçadores, que pararam de caçar um ano inteiro para que todas as espécies autóctones e migratórias se desenvolvessem, ao que a natureza deu resposta imediata e quase inesperada, sendo que é a partir deste novo equilíbrio, recuperado, que a caça passa a ser possível com regras a cumprir por quem gosta ou precisa de caçar como suplemento alimentar.

Santarém, cidade de origem celta e considerada capital do gótico é, igualmente, uma vez por ano no verão, a capital da gastronomia tradicional portuguesa na grande feira anual de agricultura para guardar a qualidade e a tradição de um dos patrimónios mais ricos do país que gera grandes movimentos turísticos.

Também aldeias e cidades que não querem morrer, festejam, com o ritmo das estações os produtos naturais da região, de que é exemplo o festival do chocolate (Óbidos), o festival dos fumeiros (Trás-os-Montes) ou o festival da castanha (e do vinho novo), manifestação de iniciativa rural que arrasta consigo o reavivar dos artefactos e artesanato e da música, dos cantares e dançares do campo e que provoca grandes movimentos turísticos do homem urbano nacional e mesmo de outros lugares da Europa. Quanto à fauna cinegética criada em áreas de caça turística, tipo aviário, também não se sabe que consequências terá na saúde de quem procura restaurante na cidade em que vive.

Como se todos os alimentos não tivessem maior qualidade se continuassem a ser produzidos com os ritmos "anteriores", independentemente da ajuda que pode resultar de novos instrumentos para tornar o trabalho menos penoso e adquirir maior rendibilidade.

O mesmo se passa com as plantas relativamente aos seus ciclos, sobretudo as flores, abrindo umas pelos primeiros raios de sol, outras só ao meio-dia e, outras ainda, abrem as suas pétalas logo que a luz do sol desaparece, permitindo assim que haja a imensa variedade de insectos que as visitam para lhe colher o néctar para seu alimento, dando em troca o trabalho de polinização de mais flores.

Será que os ritmos humanos e a qualidade da saúde não serão afectados pela artificialização de tantos actos naturais que deixaram de o ser? Para além da corrida pela cidade poluída e engarrafada, o trabalho diário de muitas horas de luz artificial feito sempre sentado ou sempre de pé, com utilização de máquinas ruidosas ou outras não menos danosas como o computador, sendo que as crianças desde a idade em que saem para os colégios entram neste ritmo infernal a que a cidade obriga e não há como mudar, excepto mudando para aglomerados mais pequenos onde o ritmo de vida é mais próximo do ritmo biológico do homem, independentemente de se poder ter mais dias de férias.

Já se sabe que sim, que há doenças novas na cidade que se designou genericamente stress, como há novas debilidades biológicas e psíquicas nos habitantes devido à crescente falta de qualidade do ambiente porque os ritmos naturais humanos foram forçados.

O produtivismo que contaminou não só os bens alimentares mas todo o tipo de necessidade diária de bens essenciais não teria levado a que transvazasse para o produtivismo habitacional com maior afastamento do que é "natural"? Já que sempre a construção tanto de monumentos como de habitação sempre foi ecológica? Ou pelo menos havia uma varanda ou um parapeito na janela para ter um vaso de flores.

As matas ou jardins que a cidade com tanta facilidade destrói são os espaços em que durante 24 horas tudo o que é vivo se comporta durante o período solar e/ou lunar com a mesma exactidão e tal que, de dia, os comportamentos dos seres viventes e perfumes, e sons de comunicação são ciclicamente diferentes de dia e de noite.

Ao visitar-se um jardim durante o dia colhe-se informação muito diferente da que se pode colher à noite pois que mesmo descansando há agitação de vida sobretudo das espécies da fauna, da mesma forma que o homem, ao dormir, tem também diferentes tempos e fases de profundidade de sono, sem os quais o seu equilíbrio total não é readquirido, sendo o relógio humano o do Sol e da Lua como de todas as coisas vivas.

Que importante se torna assim que a cidade, ao expandir-se para o campo, não destrua "nichos de natureza" que não só contribuiriam para que água e clima fossem respeitados, mas também todas estas memórias que contêm e fazem falta ao homem, senão não se assistiria à "debandada da cidade em fim-de-semana" para a procura da natureza, o que não é acessível à maioria dos habitantes urbanos e como as cidades são cada vez mais extensas, há que abrigar nela, também, a natureza selvagem.


A esta situação acrescentar-se-ia a dimensão subtil da beleza da natureza que também faz parte da memória dos sentidos e, as cidades, estando a tornar-se mal arrumadas e feias, de materiais e cores artificiais e deslocadas do espírito do lugar, acrescido a tudo de mais artificial que se usa para lavar o chão e a roupa, o próprio vestuário sintético bem como os alimentos transgénicos ou de cultura intensiva, fazem aumentar o deficit de natureza que está, relativamente ao que existe e é feito, a fechar um ciclo de todo o tipo de poluição, seja do solo e do ar e água, até porque também os lixos industriais mesmo altamente tóxicos, ou escórias de minas mal cuidadas, são lançados aos "espaços despovoados" como parques naturais ou linhas de água, passando pela espalhamento das lamas resultantes dos lixos urbanos e industriais tratados.

O tratamento dos lixos que exige alta tecnologia e conhecimento superior adquirido na cidade, da forma como ainda hoje é feito, fecha o ciclo porque deveriam, pela sua diferença qualitativa, ser tratados separadamente, os lixos urbanos dos industriais, e nem sequer há levantamento das quantidades e cartografia dos locais da sua produção e dos locais de vazamento, nem informação da percentagem reciclada e tratada, excepto o seu enterramento em aterros sanitários, sem tratamento e que são grandes volumes que não só alteram o ciclo hidrológico das águas profundas e sub-superficiais, para além da sua fermentação destruir a protecção de plástico cuja poluição vai directa para as toalhas freáticas e linhas de água, como se se tratasse de atitude de "apenas acumular o máximo e esconder bem fundo."

Esta atitude dos homens educados na cidade, não informa que as lamas que resultam do tratamento conjunto, contêm a maior concentração de metais pesados, que posteriormente se espalham como "fertilizante para as áreas agrícolas", pondo toda a vida em risco porque a terra ao chover ou ser regada, recebe as componentes das lamas que arrasta para as toalhas freáticas e linhas de água e litoral marítimo, pelo que devemos perguntar, e com direito a saber, como se recicla o quê e onde, quais os produtos finais reciclados, se quisermos ser cidadãos informados e evoluídos, e co-responsáveis pela qualidade da vida colectiva, já que o que se come provém de terra com cada vez maior grau de poluição, seja cultura de estação seja de estufa.

A cidade não sabe quase nada da cidade e quem devia pelo menos informar não o faz nem pouco nem muito, e muito menos em verdade total, como se a cidade marcasse outro tempo em que a palavra se esvaziou e não servisse como via fundamental de transporte de informação e de ideais.

É como se a CIDADE não soubesse LER.

É como se a cidade patenteasse o seu elevado grau de iliteracia.

Não será esta modernidade outro tipo de violência?

No nosso viver há que andar a correr mudando todos os ritmos naturais e humanos, tendo cada vez menos tempo para as pequenas coisas dos prazeres quotidianos, porque a cidade passou a marcar as horas de viver de forma desumanizante como se também o homem interviesse nesse ritmo solar e anual e fizesse tudo acelerar sem haver mais tempo para parar e pensar, e recusar tais ritmos.

E as andorinhas, embora há pouco tempo ainda, já não poisam na minha janela, as folhas das árvores da minha rua começam a secar antes do Outono e já não têm pássaros, e até os pombos foram banidos do espaço urbano para não sujarem os edifícios e lá desaparece mais uma manifestação de vida urbana tão tipicamente urbana como se o homem urbano devorasse os aspectos mais imperativos da vida e se julgasse mais e mais evoluído.

Bastou apenas um ano para que a minha rua passasse a ser uma "rua moribunda" e sempre, e mais uma vez, a natureza é indicadora da qualidade de vida do ambiente em que o homem se movimenta.

A Cidade abriga os homens mas desabriga-os dos saberes e da verdade quanto ao conforto a que todos têm direito não apenas por nascimento e condição de seres vivos mas também pela lei humana que o reconheceu (artigo 66 da Constituição Portuguesa - direito ao ambiente) bem como dos seus direitos à Habitação (artigo 65 da Constituição), mas como se a alienação tão recente tivesse tornado a letra-de-lei letra também morta e quando se pensa, muito actualmente, em revitalizar os espaços públicos, e a cidade envelhecida nas suas pedras e monumentos referenciais que definem um tempo histórico-social, também agora este esvaziar da essência da "palavra" reflecte o esvaziamento da mente-humana-urbana, essa que mais precisa de ser revitalizada antes que o "paraíso perdido" seja revelador da capacidade humana de se auto-destruir.

A cidade tornou autistas os seus habitantes – até a escola, mesmo universitária, não ensinou, não FORMOU cidadãos para o direito à idade, o direito à vida com qualidade urbana.


A cidade tem de recuperar-se e revitalizar-se com mais parques e pequenos jardins para reaver a qualidade do ambiente para haver mais terra e mais água e ter melhor clima, mais relvados para serem filtros da poluição do ar, mais árvores para haver menos poluição do som e maior infiltração da chuva e regulação das enxurradas e produção de oxigénio, mais flores anuais para recortar melhor o ciclo das estações e dar cor e perfume e nos encantar pelo menos o olhar, mesmo quando se corre, e para poder haver mais pássaros e os seus cantos, como sempre teve antes de se ter tornado cidade-país e se ter desagregado em guetos habitacionais diferenciando e distanciando cada vez mais as classes socio-económicas, independentemente da segregação social, para que se possa viver nela e deixar de ser um ecossistema humano cada vez mais artificial e insalubre, robotizado e infeliz.

No entanto, é também na cidade que habitam os cientistas com o seu reservatório de ideias e capacidades, que avaliam tudo o que o homem faz de nefasto para a sua própria vida e da vida da natureza e avaliam formas de minimização de tais situações ou encontram mesmo, alternativas.

A cidade ainda marca o tempo de ir para a escola e para ir para o trabalho.
Ainda marca o tempo de férias.
Marca o tempo de evolução e de destruição.
Cidade relógio de horas da vida e da morte de todas as coisas inertes e vivas.

É preciso fazer um "regresso" à natureza dentro e fora da cidade e, dentro e fora do homem por mais estranho que pareça, porque é na cidade que a decisão é tomada, mesmo sem a participação e consciencialização do cidadão que tarda em ter consciência colectiva dos valores da terra e da natureza, dos valores patrimoniais colectivos, sejam materiais ou imateriais.

Para voltar a marcar o tempo dos sentidos e do descanso e do prazer de nela viver e passear, para que não cresça o descontentamento e violência, que é também na cidade que se gera quando não cumpre a sua função global – HABITAR.

É na cidade que se gera o futuro e o desenvolvimento do colectivo, ou a sua degradação. Na cidade não há mais relógios para além das badaladas de nascer e de morrer dos "sinos da Igreja."

A Cidade adormeceu como se vivesse toda adormecida – parou o "relógio."


Acabei

Maria Celeste d'Oliveira Ramos
arquitecta-paisagista

Lisboa – Bairro de Santo Amaro


Texto:
i: 1ª versão – 11 de Novembro de 2005
Dia de São Martinho – vai à adega e prova o vinho.
ii: revisto pela autora em 31 de Março de 2006
iii: revisto para edição em 11 de Novembro de 2006 (um ano depois da 1ª versão)


Nota final: as imagens introduzidas no texto são de António Baptista Coelho.

1 comentário :

Anónimo disse...

«[…] para que se possa viver nela [na cidade] e deixar de ser um ecossistema humano cada vez mais artificial e insalubre, robotizado e infeliz.

No entanto, é também na cidade que habitam os cientistas [*] com o seu reservatório de ideias e capacidades, que avaliam tudo o que o homem faz de nefasto para a sua própria vida e da vida da natureza e avaliam formas de minimização de tais situações ou encontram mesmo, alternativas.

A cidade ainda marca o tempo de ir para a escola e para ir para o trabalho.
Ainda marca o tempo de férias.
Marca o tempo de evolução e de destruição.
Cidade relógio de horas da vida e da morte de todas as coisas inertes e vivas».

*e é também na cidade que moram os poetas, ou a (maior) densidade do sonho, cidade-lugar das «massas críticas» e não apenas espaço artificioso e doentio, cidade-espaço-tempo da emancipação cívica, e não apenas da alienação humana, cidade-da-cultura sendo a cultura aquilo que se acrescenta à natureza. Mesmo que seja para a nomear, identificando na cidade a pluralidade das referências e dos territórios pois a cidade é de borracha lisa e negra, mas:

«A cidade é de borracha lisa e negra
mas tem vielas com odor a estábulo,
armazéns de cereais, a madeira molhada,
a selaria, a chicória, a esparto.

Há chilreios que mordem, ruídos inumanos,
há bruscas buzinadas que desincham
meu absurdo coração hipertrofiado.

Alugo-me por horas; rio e choro com todos;
mas escreveria um poema perfeito
se não fosse indecente fazê-lo nestes tempos».

Gabriel Celaya

(Comentário de João Lutas Craveiro)