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terça-feira, junho 30, 2020

Espaço público e identidade urbana – Infohabitar # 736

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 736


Notícias:

Encontro, na WWW, sobre "Questões éticas na pesquisa em Arquitetura e Urbanismo: reflexões em tempo de pendemia" - na FAU-USP

Caros leitores,

É com todo o gosto que se divulga o convite para uma conferência virtual na grande FAU-USP de São Paulo, na tarde do próximo dia 1 de julho, pela Prof.ª Gleice Azambuja Elali, com moderação da amiga Prof.ª Sheila Ornstein, que tem estado sempre connosco desde o início das edições da Infohabitar, solicitando-se, ainda, que a divulguem entre os vossos contatos,
e chamando-se a atenção, para os colegas portugueses, para a diferença de horas entre Brasil e Portugal, as 14h do Brasil (início do encontro) são as 18h de Portugal.

Com um abraço forte e desejos de muita saúde e força,

O editor da Infohabitar,

Links de compartilhamento do FAU ENCONTROS:

YouTube da FAU

https://youtu.be/OuP9SPTyo90

Esse evento será transmitido via YouTube e aberto ao público, entretanto para envio de perguntas pelo Chat da transmissão é necessário fazer login no YouTube.

Meet

https://stream.meet.google.com/stream/80eb39dc-5c93-4d23-b3f7-08f6fe223a46





Espaço público e identidade urbana

Qualificação do espaço público como fator de identidade e apropriação coletiva do espaço construído – Infohabitar # 736

 

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

 

Edição: terça-feira, 30 de junho de 2020

 

espaços da casa, espaços da habitação, funções da habitação, microfunções domésticas, habitações térreas, viver no rés do chão, habitação ao nível da rua, viver de novo junto da rua

 

Notas prévias:

Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,

Esperamos que estejam todos de saúde e aproveitamos para reforçar que temos de continuar com um máximo de cuidados em termos de distanciamento social, proteção própria e dos outros e higiene geral, pois a epidemia continua ativa.

No que se refere à Infohabitar e antes de continuamos com uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feita tendo por base alguns artigos já aqui editados, há alguns anos, e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta nova ocasião editorial,

e na sequência dos últimos artigos, aqui editados, em que refletimos sobre uma paisagem urbana bem pormenorizada com base em misturas diversificadas de tipologias edificadas e respetivas estratégias de acessibilidade,

abordamos neste artigo e no próximo as áreas da imagem urbana de proximidade e os seus essenciais contornos relativos aos aspetos de identidade, apropriação e escala humana, que devem estar bem presentes e marcar os espaços que habitamos interior e exteriormente.

Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),

despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,

Lisboa, Encarnação, em 29 de junho de 2020

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

Espaço público e identidade urbana

Qualificação do espaço público como fator de identidade e apropriação coletiva do espaço construído – Infohabitar # 736

 António Baptista Coelho

Construir no construído

Qualificamos e requalificamos o espaço público para que este seja mais e melhor habitado – mais intensa e prolongadamente –, e, neste sentido, pensamos num re-habitar da cidade, através de um desejado e evidenciado reforço do uso dos espaços urbanos – no sentido de a podermos ter mais viva e estimulante, num círculo virtuoso gerador de inúmeros benefícios – desde a saúde e prosperidade dos habitantes à respetiva segurança pública.

Para tal, para se visar uma cidade com espaços exteriores mais intensa e prolongadamente habitados/usados, tal como refere Jan Gehl, há que privilegiar um diálogo com o espaço contruído (mais horizontal ou mais vertical) marcado pelo “construir no construído”, ou , se quisermos e tendo em conta também novas intervenções (cada vez mais raras) o construir numa ligação total e simbiótica com a envolvente da intervenção e tendo em conta a máxima dinamização dos desejáveis fluxos e relacionamentos entre exteriores e edifícios.

A ideia do “construir no construído” foi defendida e lançada por Francisco de Gracia (1), e refere-se a uma perspetiva de intervenção urbana que se baseia numa reconstrução da coesão urbana marcada pela escala e uso humanos, pelo desenvolvimento de adequados estímulos visuais e funcionais e por uma cuidadosa e vitalizada densificação; estando todos estes aspetos integrados num objetivo de verdadeira reabilitação – ou habilitação, acrescenta-se – da paisagem urbana local, que há que preservar e (re)construir, designadamente, nos seus aspetos orgânicos e ligados ao respetivo caráter do lugar.

Avançando-se, assim, num sentido de (re)construção da paisagem urbana de vizinhança e não numa truncada intervenção que se limite, praticamente, ao edificado, tratando-se os exteriores, mais ou menos envolventes, essencialmente, como espaços de enquadramento; e nem assim acontece frequentemente, pois como bem sabemos muitas vezes os exteriores são reduzidos a espaços sobrantes.

Naturalmente que uma tal perspetiva obriga a um verdadeiro Projecto de Arquitetura Urbana bem fundamentado e valorizador de cada lugar, e muito bem qualificado, seguindo metodologias estrategicamente diversificadas e adequadas a cada situação, extremamente “dúcteis”, porque verdadeiramente (re)inventoras de um espaço urbano bem pormenorizado e à escala humana e urbana; existente, entre nós, em algumas ações de referência, que depois de dezenas e dezenas de anos de vivência estão, por vezes, melhores e mais vivas do que quando foram desenvolvidas, e que é essencial divulgar e visitar/viver local e demoradamente, pois só assim as poderemos conhecer com a profundidade necessária a uma sua sempre parcial e relativa reaplicação em outras situações.


Fig. 01: um verdadeiro Projecto de Arquitetura Urbana bem fundamentado e valorizador de cada lugar, e muito bem qualificado, seguindo metodologias estrategicamente diversificadas e adequadas a cada situação, extremamente “dúcteis”, porque verdadeiramente (re)inventoras de um espaço urbano bem pormenorizado e à escala humana e urbana.

 

Sobre a cidade do pormenor e do vagar

Nesta matéria o arq.º Yves Lyon, faz uma síntese, quando refere que “depois do período dos grandes projetos há que assumir a arquitectura como abertura ao mundo ... numa clara abertura à vida, bem distinta de clausuras disciplinares”; defendendo, assim, “uma nova atividade de arquiteto feita da atenção para com os lugares” e que privilegie “não mais a criação de objetos isolados, mas sim a integração, a conjugação e o desenvolvimento de ligações entre sítios, entre pessoas e entre exigências e necessidades.”

Continuamos, deste modo, na referida perspetiva do “construir no construído”, ligada à reconstrução ou recriação da coesão urbana marcada pela escala e uso humanos, pelo desenvolvimento de adequados estímulos visuais e funcionais e por uma cuidadosa e vitalizada densificação.

Uma recriação à escala humana, com o sentido mais amplo possível desta “escala”, concretizada seja na requalificação do próprio espaço exterior público, seja na relação que nele se deverá desenvolver com os vãos dos edifícios contíguos, refazendo-se um exterior público religado à “presença ampliada do homem”, como escreve Rudolf Arnheim (2), e um exterior público renovado, libertado da opressão do veículo motorizado, e que, assim sendo, pode e deve ser estratégica e agradavelmente pontuado por verdadeiros recantos domésticos, como por exemplo acontece em tão velhos como vivos centros históricos e em novos bairros bem desenhados como, por exemplo, Alvalade e Olivais Norte em Lisboa.

Assim se irão melhorando estrategicamente as imagens urbanas de cada vizinhança e de cada conjunto urbano mais coeso, evidentemente, não apenas com o sentido estrito e “visual” de tais imagens – sempre em sequências de imagens estruturantes de acessibilidades –, mas também e objetivamente para que tais agregados estimulantes de imagens contribuam, direta e indiretamente, para a referida promoção do uso intenso do exterior, condição que, por sua vez, proporcionará melhor fruição dessa imagem urbana, num círculo virtuoso de melhor imagem e mais e melhor uso, e numa atenção às suas sequências, pormenores e recantos de estar, que, por sua vez é dinamizadora de melhores relações de identificação com cada local, de uma convivialidade pública e vicinal mais espontânea, e mesmo de melhores condições de segurança pública no seu uso.

 

Fig. 02: um exterior público renovado, libertado da opressão do veículo motorizado, e que, assim sendo, pode e deve ser estratégica e agradavelmente pontuado por verdadeiros recantos domésticos, como por exemplo acontece em tão velhos como vivos centros históricos e em novos bairros bem desenhados como, por exemplo, Alvalade e Olivais Norte em Lisboa.

 

Mas evidentemente que nas ações de requalificação em que se privilegiam os usos pedonais do espaço público não podemos desenvolver uma segregação simplista do automóvel privado, pois como escreveu Spiro Kostof (3), “o mais importante aspeto do apoio ao peão ... liga-se ao desenho de vizinhanças residenciais ... através de um novo tipo de rua .. cuja principal função não é a circulação e o estacionamento automóvel, mas sim o andar a pé e o recreio.”

Um caminho urgente na revitalização tanto de espaços centrais de cidades, como de vizinhanças residenciais, que está a ser privilegiado até na recente regulamentação de tráfego europeia, que esteve bem evidenciado numa importante e excelente exposição, com autoria francesa, que passou por Lisboa – A exposição itinerante “A rua é nossa...é de todos nós!”, concebida pelo Institut pour la Ville en Mouvement – e cujas noções parecem terem tido algum eco em diversas e recentes intervenções em espaços públicos de Lisboa; e um caminho que,« é essencial numa urgente recuperação da cidade para o cidadão, passo estruturante para uma verdadeira requalificação do espaço público, que o reabilite ou habilite como espaço privilegiado e protector dos mais idosos e dos mais jovens, que são, afinal, aqueles cidadãos e habitantes que tendem a usar o exterior mais intensa e frequentemente, mas se este for verdadeiramente agradável e seguro.

Escreveu António Pinto Ribeiro (4), sobre esta matéria, que “seria desejável que a cidade voltasse a ter como medidas de planeamento o peão e o utente do transporte público. Tal corresponderia […] a uma ligação mais epidérmica com o espaço, à possibilidade de se instalar durabilidade”, e talvez verdadeira sustentabilidade, “no tempo de gozo da cidade”.

 

Cidade passeável e passeada, cidade mais habitada

O peão precisa de poder passear em verdadeiras cenas habitadas, precisa de emoção e de conteúdos, não apenas funcionais e o peão gosta de sentir que passeia em zonas vivas e nestas matérias provavelmente o habitar do dia-a-dia ganhará com algumas técnicas ligadas ao turismo, enquanto o turismo pode ganhar muito com alguma da qualidade espontânea e com o sentir e participar (d)a vida de comunidades urbanas e residenciais positivamente caraterizadas e ativas, e exemplo disto encontra-se já em vários “centros históricos” bem vivos e já disseminados pela Europa.

 

 

Fig. 03: o peão precisa de poder passear em verdadeiras cenas habitadas, precisa de emoção e de conteúdos, não apenas funcionais e o peão gosta de sentir que passeia em zonas vivas; e do Norte ao Sul da Europa os bons exemplos aí estão.

 

Precisamos de poder passear fisicamente e mentalmente, viajando, pausada e agradavelmente, por uma “cidade desaparecida”, mas que esteja viva, aqui e ali, mais em em determinados bairros, em alguns espaços mais apetecíveis e, essencialmente, através de percursos estruturantes e bem apoiados em excelentes sequências de imagens urbanas e residenciais; é esse o objectivo que devemos ter em mente, e para isso é também fundamental associar, sistematicamente, a resolução dos problemas de carências habitacionais aos da falta de qualidade e vitalidade urbanas, pois de contrários corrermos sempre riscos de falta de animação e/ou até de um sentido um pouco artificial de vivência.

Afinal não basta ordenar o espaço para se criar um ambiente interessante e motivador; o habitante também necessita de emoção na relação afetiva com o espaço urbano e o uso a pé do espaço público é ação de grande proximidade e, portanto, muito diretamente estimulada pela qualidade do desenho urbano; afinal passeamos mais e melhor quando sentimos que os espaços urbanos e residenciais são “mais passeáveis”, porque caraterizados por imagens coerentes e estimulantes, que incentivam o passeio, desde que, evidentemente, também funcionalmente bem servidas em termos de agradabilidade dos percursos.

Vizinhanças amigáveis, vizinhanças amáveis

Importa salientar que, atualmente, não parece haver ainda um conhecimento devidamente sedimentado, publicitado e, essencialmente, consensualizado (no que for possível) sobre a qualidade urbana que é possível ter, por exemplo, numa praceta ou rua residencial, verdadeiramente amigável, apropriável, digna a atraente.

Os conhecimentos e as preocupações continuam a estar, aqui, dirigidos para os aspetos funcionais do tráfego de veículos. Estamos agora apenas a começar a ultrapassar, um pouco a medo, uma tal estrita e fictícia funcionalidade numa perspectiva de simples defesa da segurança pedonal, falta-nos todo um caminho de humanização de conteúdos funcionais e de imagens.

Não é possível deixar de referir que este caminho de projeto deve ser compatibilizado com a disponibilização de novas e diversas tipologias residenciais adequadas para grande diversidade de formas e gostos de habitar, talvez agora com uma atenção específica às pessoas sós e ás pequenas famílias, numa ação que contribui, estrategicamente, para a vitalização da cidade com novos habitantes e habitantes muito disponíveis para participar nessa vitalização, até porque serão pessoas que irão encontrar nesse meio urbano “concentrado” condições adequadas para a manutenção ou a redescoberta do interesse, da riqueza e da vitalidade e funcionalidade na vida diária citadina.

E não tenhamos qualquer dúvida de que a perspetiva que acabou de ser apontada é muito bem servida por uma reinvenção tipológica que termine de vez com os formatos “únicos” do mau funcionalismo e que proporcione um leque muito diversificado de relações de acessibilidade e de transição entre os espaços públicos ou de uso público e o interior dos edifícios, numa diversificação de elos de ligação entre interior e exterior que vitalize e torne mais seguros toda uma estimulante e diversificada família de espaços exteriores e de transição interior/exterior.  

Cultura e urbanidade

Neste processo de reflexão e de projeto importa aplicar ferramentas facilitadoras das intervenções e nesta matéria devemos ter presente que a revitalização urbana, a dinamização da cultura e da arte, e a criação de uma cidade mais cívica, humana e ambientalmente sustentável, são aspetos que mutuamente se conjugam e se influenciam.

A arte urbana ou pública tem, realmente, uma, frequentemente, pouco conhecida, mas muito grande, importância na valorização, na identificação, na apropriação e no rechear de afetividade dos espaços públicos; mas há que ter sensibilidade no apurar das intervenções.

 

Aliança entre intervenções no exterior urbano e nos edifícios

Em tudo isto importa salientar que grande parte do segredo de uma cidade viva e sensível relativamente aos seus habitantes, está num tecido urbano com continuidades afirmadas, que acolham bem e atraentemente uma diferenciação formal e funcional equilibrada, em continuidades urbanísticas não especializadas e que levem a cidade até à porta de muitas casas, enquanto também proporciona recantos “domésticos” em zonas citadinas mais animadas.

E esta grande unidade dos espaços urbanos e residenciais constitui-se num fundamental ligante de apropriação, sendo que nesta unidade formal e funcional fica evidente o protagonismo do espaço público.

Um protagonismo que é essencial veículo de diversas qualidades da urbanidade, entre as quais é atualmente bem oportuno evidenciar a criação de espaços com usos mistos; sejam exteriores, sejam edifícios, sejam unidades com partes interiores e exteriores.

 

 

Fig. 04: a propósito de uma requalificação pedonal realizada com grande sensibilidade, uma imagem da envolvente do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça – pelo atelier de Gonçalo Byrne.

 

Do estímulo e da surpresa na cidade

Mas todo este caminho não é possível sem intervenções marcadas pela qualidade arquitectónica e que tenham em devida conta adequadas condições estímulo, surpresa, considerando mesmo um certo sentido lúdico (...) , pois o espaço urbano para além de nos acolher e proteger, também nos deve estimular e surpreender, pela positiva naturalmente; e nesta perspetiva o adequado manejar da imagem urbana é essencial e nele a intervenção no espaço público é sempre determinante.

E, tal como referiu a colega Marilice Costi, num dos primeiros artigos da Infohabitar em Junho de 2005: “Uma cidade precisa surpreender, mostrar sua história, entregar-se a quem passa por ela e dar-lhe o seu sabor. Ela precisa apaixonar a qualquer um, provocar sensações, proporcionar vivências. Ser lugar para seus moradores e um novo lugar para quem chega.”


Notas:

(1) Francisco de Gracia, Construir en lo construido – la arquitectura como modificación. Madrid, Editorial Nerea, 1992.

(2) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.70.

(3) Spiro Kostof, “The City Assembled – The elements of urban form through history”, 2004 (1992), pp.240 a 242

(4) António Pinto Ribeiro, “Abrigos: condições das cidades e energia das culturas”, 2004, p. 18.

 

 

Uma primeira versão, bastante menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 482 da Infohabitar, em 27 de abril de 2014

.

 

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

 

Infohabitar, Ano XVI, n.º 736

 

Espaço público e identidade urbana

Qualificação do espaço público como fator de identidade e apropriação coletiva do espaço construído – Infohabitar # 736

 

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).


domingo, março 30, 2008

190 - IDENTIDADE ESCOCESA - artigo de João Ferreira Bento - Infohabitar 190

 - Infohabitar 190

É sempre com um gosto muito especial que o Infohabitar edita um novo amigo e companheiro nesta pequena, mas estimulante, aventura editorial.
É o caso do Arq. João Ferreira Bento, que tem colaborado em vários estudos do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC, como é actualmente o caso de um grande trabalho no âmbito da análise das condições de habitabilidade do edificado do Bairro do Alto da Cova da Moura e que será, espera-se, muito brevemente, doutorando em áreas que muito têm a ver quer com o artigo que hoje nos traz, sobre as políticas de arquitectura europeias, quer com os aspectos fundamentais da qualificação arquitectónica residencial e urbana.

O João Ferreira Bento tem editado vários artigos sobre as políticas de arquitectura europeias no Boletim da Ordem dos Arquitectos; é o caso deste (atenção há novidades na política de arquitectura escocesa desde final de 2007 que não estão incluídas neste artigo), e será, espera-se, o caso de outros artigos que já nos prometeu sobre semelhante temas, mas sobre casos de estudo na Finlândia, Itália e Bélgica.
E já agora fica a indicação ampla para muitos sites que tratam esta matéria, hoje cada vez mais crucial num amplo cenário urbano e paisagístico que tem de passar a ser marcado por uma “obrigatória” qualidade, ou, que, pelo menos, tem de passar a estar garantidamente livre daqueles elementos que são autênticos intrusos sem qualquer qualidade ou mesmo elementos destruidores de uma boa paisagem urbana.

A edição do Infohabitar não tem qualquer dúvida sobre a urgente importância e a falta de divulgação desta temática em Portugal, condição que justifica bem a publicação destes artigos e a sua maior divulgação.

A edição do Infohabitar


Fig. 01

ESCÓCIA
Área: 78,782 Km2
População: 5,062,379 (9,6 % do Reino Unido)
Densidade: 64 ha/Km2
Capital: Edimburgo

Políticas de Arquitectura na União Europeia:

IDENTIDADE ESCOCESA

João Ferreira Bento


No panorama europeu, a Escócia tem-se salientado como um dos países mais inovadores no campo das políticas de arquitectura, não só através das intenções expressas na sua política nacional mas também através das conquistas que tem conseguido alcançar.

- Passado
Enquadramento
A Escócia nos últimos anos tem vivido mudanças governamentais muito importantes, devido principalmente à devolução de poderes parlamentares, por parte do Reino Unido para a Escócia.

Devido a problemas financeiros, o seu parlamento original foi dissolvido com o Tratado de União, em 1707, em detrimento de um único parlamento para a Grã-Bretanha, resultando numa união política e económica entre os dois países.

No entanto, após quase trezentos anos, o Reino Unido devolveu à Escócia os poderes legislativos que antigamente possuía, aproximando o debate político dos cidadãos escoceses, criando-se assim um governo regional e um parlamento.

Este processo iniciou-se após um referendo (em Setembro de 1997) no qual os escoceses, numa percentagem de três para um, votaram sim à criação de um parlamento regional separado do Reino Unido. Deste modo, em 1999, a Escócia volta a criar um governo e a eleger deputados.

Para a elaboração do projecto do parlamento foi lançado um concurso de ideias internacional e, paralelamente, iniciou-se o processo de elaboração da primeira política nacional de arquitectura escocesa.

Desenvolvimento de uma Política Nacional de Arquitectura


O início do processo de criação desta política deu-se com o compromisso do governo escocês em desenvolver uma Política Nacional de Arquitectura. Deste modo, em Setembro de 1999, após 4 meses do novo governo ter tomado posse, foi publicado o primeiro esquema da política, “The Development of a Policy on Architecture for Scotland”.

Este primeiro esquema estabelecia o contexto do desenvolvimento da política e salientava o porquê do interesse do governo na qualidade dos edifícios e espaços públicos, definindo também a importância dos edifícios em termos sociais, culturais e económicos. O documento foi submetido a consulta pública realizando-se discussões sobre áreas de intervenção “chave”.

Em Outubro de 2001, foi finalmente aprovado no parlamento Escocês o documento final da Política Nacional de Arquitectura.
Objectivos

Os objectivos da Política são os seguintes:

-Promover o valor e os benefícios da arquitectura de qualidade, encorajando o debate sobre o desenrolar da arquitectura na vida local e nacional, e levar a um maior entendimento dos produtos e processos no design dos edifícios.

-Premiar e reconhecer a excelência do design, celebrando conquistas no campo da arquitectura e do espaço urbano e promovendo a arquitectura escocesa ao nível nacional e internacional.

-Encorajar um maior interesse e envolvimento das comunidades em assuntos que afectem espaços urbanos locais.

-Promover uma cultura de qualidade na construção de edifícios públicos que englobem bom design como uma maneira de atingir um desenvolvimento sustentável.

-Assegurar que, tanto o projecto dos edifícios como os seus componentes construtivos e os processos associados, ambos promovam e facilitem o desenvolvimento uma arquitectura de qualidade.


Fig. 02: Parlamento Escocês, projecto de Enric Miralles,
2005, Edimburgo. Image © Scottish Parliamentary Corporate Body - 2005.

-Presente

Parlamento

Uma conquista importante para a política de arquitectura, foi a construção do novo parlamento, o qual, devido à sua função de lugar de debate, concertação e decisão, deveria ser um edifício que reflectisse o país que representa.

Deste modo, o desenho do edifício foi entendido como elemento fundamental a ter em conta, quer a nível nacional, quer ao nível internacional. O vencedor do concurso de ideias acabaria por ser o arquitecto espanhol Enric Miralles.

Este complexo edifício é uma mistura de aço, madeira e pedra, localizando-se em Edimburgo, perto de Holyrood Park. Recentemente, foi considerado como um dos edifícios mais inovadores da actualidade, existentes no Reino Unido.

Embora tenha havido vários problemas na sua construção, sobretudo devido ao adiamento sucessivo do prazo de execução da obra e ao grande aumento do orçamento previsto inicialmente para a sua construção, abriu as suas portas ao público em Outubro de 2004, tendo já recebido mais de 300.000 visitantes.


Fig. 03: Parlamento Escocês, projecto de Enric Miralles,
2005, Edimburgo. Image © Scottish Parliamentary Corporate Body - 2005.

The Lighthouse
Outra grande conquista da política de arquitectura escocesa foi a criação do Instituto de Arquitectura e Design, “The Lighthouse”, em Glasgow. O instituto situa-se num edifício de autoria do famoso arquitecto escocês Charles Mackintosh e abriu pela primeira vez ao público, em 1999.

O instituto provou ser um grande sucesso e uma aposta ganha para a divulgação da arquitectura, como forma de arte e cultura, sendo considerado o Instituto de Arquitectura mais visitado da Europa, tendo recebido mais de um milhão de visitantes, nos últimos 5 anos.

O desenvolvimento cultural que o Instituto de Arquitectura e Design provocou tem tido um papel regenerador na afirmação da identidade Escocesa.

Centro virtual de arquitectura escocesa

Desenvolvido pelo Instituto de Arquitectura e Design, o centro virtual de arquitectura é um site dedicado a mostrar a melhor arquitectura Escocesa, através de exposições virtuais, artigos, elementos interactivos, etc.

É também capa e meio de lançamento de notícias importantes, sendo actualizado quase diariamente, permitindo aceder a um fórum de discussão e de opinião, debatendo-se assuntos polémicos do mundo da arquitectura.

Desde o seu lançamento, em 2002, tornou-se num recurso nacional de acesso a informação e de comunicação dentro do campo da arquitectura e do urbanismo.

-Futuro
No início de 2005, o governo escocês colocou na Internet um relatório sobre o progresso da implementação da política nacional de arquitectura, desde o seu início até à actualidade. São apontados os esforços e metas alcançadas de modo a conseguir atingir os objectivos propostos.

Os resultados apresentados são surpreendentes. A definição de uma política de arquitectura complementada pela criação de um Instituto de Arquitectura é fundamental para dar uma maior visibilidade à nossa profissão de arquitectos e à valorização da arquitectura e do urbanismo, dos edifícios e dos espaços públicos das nossas cidades.

Quanto tempo, ainda, teremos que esperar para podermos dispor destas ferramentas em Portugal?


Para saber mais ver os sites:

- Desenvolvimento de uma Política de Arquitectura Escocesa (1999)
http://www.scotland.gov.uk/architecture/archpolicy.pdf

- Política Nacional de Arquitectura Escocesa (2001)
http://www.scotland.gov.uk/library3/construction/apoa.pdf

- Relatório sobre a implementação da Política de Arquitectura (2005)
http://www.scotland.gov.uk/library5/culture/pasar05.pdf

- Centro virtual de Arquitectura Escocesa
http://www.scottisharchitecture.com/

- Instituto de Arquitectura e Design Escocesa
http://www.thelighthouse.co.uk/

- Ordem dos Arquitectos da Escócia
http://www.rias.org.uk/

- Parlamento Escocês
http://www.scottish.parliament.uk/

- Ordem dos Arquitectos do Reino Unido
http://www.riba.org/

- Charles Rennie Mackintosh
http://www.crmsociety.com/

- Arquitectura de Edinburgo
http://www.edinburgharchitecture.co.uk/

Este artigo sobre a Política Nacional de Arquitectura da Escócia, publicado no Boletim da Ordem dos Arquitectos, n.º 150 de Julho de 2005.
Informam-se os interessados que, desde final de 2007, já há novidades na Escócia sobre esta matéria.


Edição no Infohabitar em 30 de Março de 2008
Editor: José Baptista Coelho


Créditos das figuras:
Parlamento Escocês, projecto de António Miralles,
2005, Edimburgo. Image © Scottish Parliamentary Corporate Body - 2005.