terça-feira, fevereiro 26, 2019

O cromatismo residencial - Infohabitar 676

Infohabitar, Ano XV, n.º 676
O cromatismo residencial - Infohabitar 676
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagem)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Sobre o comatismo residencial – algumas notas

O cromatismo residencial tem uma importância que, desde já se sublinha, não será adequadamente considerada neste texto, exigindo abordagens muito específicas e amplamente pormenorizadas e debatidas, considerando-se as diversas opiniões especializadas e os variados estudos existentes.
A cor doméstica constitui-se como um verdadeiro pequeno mundo de cenários que poderão dar leituras aparentemente mais amplas ou mais reduzidas dos espaços onde são aplicadas, consoante os tons sejam mais claros ou mais escuros e consoante haja boas ou más condições de luza natural, proporcionadas pelos respectivos vãos exteriores.



(Fig. 01) Sem título.

Principais tons de cor usados no interior doméstico

Segundo Christopher Alexander, os principais tons de cor usados no interior doméstico devem ser naturais e quentes, referindo o autor, especificamente, os tons vermelhos, amarelos, laranjas e, castanhos/ocres; estes tons podem resultar, apenas, de matizes sobre bases dominante brancas, ou sugerirem directamente a natureza com verdes e azuis.
E, desde já, se aponta que esta estimulante opinião, que se partilha, entra um pouco em colisão com ideias muito generalizadas e respeitáveis, por exemplo entre muitos arquitectos, da importância de se caracterizar um ambiente doméstico com tons de cor pouco “expressivos”, ou intensos, visando-se, designadamente brancos “sujos”, cremes, sépias claros, etc.
Voltando às opiniões de Alexander, este defende, ainda, que a escolha da cor deve considerar:
- se a luz natural recebida num dado compartimento é mais "quente", porque recebida dos quadrantes Este (início da manhã), Sul (meio-dia) e Oeste (final da tarde) ou mais "fria", porque recebida do quadrante Norte;
- e qual a função desse compartimento (por exemplo mais "funcional" ou para trabalho em casa, ou para repousar e dormir, ou para estar e conviver), de modo a que se equilibre, reduza ou acentue, pela cor escolhida, o efeito da luz recebida, ponderando-se, também, as consequências e os conteúdos mais ou menos repousantes ou estimulantes dos diversos efeitos cromáticos e texturais - cores vivas ou neutrais, brilhantes ou "mate", lisas ou texturadas. (1)

Relação entre os tons de cor e a orientação solar dos compartimentos

A propósito dessa importante relação entre os tons de cor e a orientação solar dos respectivos compartimentos onde elas se aplicam, o investigador do LNEC e saudoso amigo Licínio Cantarino de Carvalho (2), defende, num importante e pioneiro estudo português sobre iluminação natural – matéria esta que exige urgente aprofundamento na sua relação com o projecto de Arquitectura – , que importa aumentar a reflexão da luz natural nas superfícies interiores, adoptando para elas cores claras, em particular na zona envolvente dos vãos exteriores envidraçados; reduzindo-se o contraste com a luz directa desses vãos, responsável por condições incómodas de encandeamento; matéria esta, que, por si só, nos levaria longe nas suas implicações em termos de cromatismo e arquitectura de interiores.
A cor doméstica pode/deve, assim,  ligar-se/conjugar-se com as orientações dos diversos compartimentos domésticos, sendo interessante, por exemplo, poder dormir a Nascente e ter uma janela perto da cama, e poder despertar naturalmente (período de sonolência) com os ciclos naturais, suave mas firmemente, em sítio donde se veja a luz, mas sem o Sol directo; "ver o tempo que faz" e acompanhar, logo ao acordar, os ciclos naturais; e talvez acentuar os tons do amanhecer com tons de cor específicos nas paredes dos quartos.
E, complementarmente, não tenhamos dúvida de que a luz filtrada por cortinas, estores e, até, folhas de árvores é maravilhosa, porque evita a luz directa criadora de sombras marcadas e imagens duras com fortes contrastes (3), e porque os padrões luminosos com pequenas escalas são sensualmente agradáveis e estimulantes; e, de certa forma, tudo isto também acaba por ser um tipo muito estimulante de quase-cor dinâmica.

A desejável agradabilidade dos acabamentos interiores

Ainda segundo Christopher Alexander, as paredes interiores e os tectos, quando aparentemente muito duros, frios e maciços tornam-se desagradáveis ao tacto, provocam mais reverberação e impossibilitam ou dificultam muito a sua decoração; o contrário sucederá com acabamentos de gesso e revestimentos com texturas naturais, como a madeira. (4)
Alexander recomenda, ainda, (5) o uso de materiais de qualidade, disponíveis em elementos com escala pequena, que sejam fáceis de preparar em obra e de trabalhar; e sendo, consequentemente, fáceis de adaptar e fazer variar, mas suficientemente pesados e sólidos para serem duráveis e de fácil conservação e manutenção; e defende que estes materiais devem ser ecologicamente convenientes e bio-degradáveis, o que se liga, por um lado, ao desenvolvimento, defendido pelo citado autor, de paredes brandas e de texturas naturais (uso de materiais com as suas texturas naturais) e, por outro lado, à envolvência dos habitantes por ambientes basicamente relacionados com a natureza (cores e texturas naturais, elementos envelhecendo com naturalidade); que parecem ter importantes influências apaziguadoras e calmantes.


(Fig. 02) Sem título.

Algumas observações sobre as cargas emocionais das cores

Naturalmente que todas as cores têm cargas emocionais latentes dependendo do contexto, da situação cultural, da personalidade do sujeito e da sua atitude (disposição) no momento; todos estes factores influenciando um "código" que cada pessoa usa  (6). E, a este propósito Ken Kern fala-nos dos conteúdos das cores e das tonalidades: (7)
- “O azul escuro e o negro têm factores de reflexão baixos.  O amarelo e o branco altos.  A quantidade de luz reflectida por várias cores é a seguinte: branco de 80 a 90%; pastel pálido (amarelo, rosado) 80%; pastel pálido ("bege", lilás) 70%; cores frias (azul, pastéis verdes) 70 a 75%; amarelo intenso 35%; castanho 25%; azul e verde de 20 a 30%; negro 10%.
- O verde, o azul e o violeta dão a sensação de frio (peso, passividade e afastamento), enquanto o amarelo, o alaranjado e o vermelho parecem quentes (luminosidade, actividade e movimento de aproximação).
- Devem usar-se cores quentes em compartimentos expostos ao Norte ou que recebam pouca luz natural, enquanto se devem usar as cores frias em compartimentos expostos ao Sul ou cheios de luz do Sol.
- As cores brilhantes e fortes podem dar a sensação de expansão a compartimentos pequenos, enquanto os contrastes de tonalidades pouco intensos podem tornar os compartimentos grandes mais sóbrios.
- O vermelho é excitante, o azul é calmante e apaziguador, o verde reduz o nervosismo e a tensão muscular, e o amarelo produz uma sensação de jovialidade que se comunica ao metabolismo humano".
Considerando-se, agora, embora de forma muito sumária, a relação entre cores e clima e lembrando Victor Olgyay, no seu conhecido estudo "Design With Climate", recomenda-se para uma região climaticamente temperada alguns aspectos a considerar no desenho residencial e de que seleccionámos os seguintes dados: (8) superfícies ao Sol com cores médias, superfícies reentrantes podem ser escuras se forem sombreadas no Verão, cores claras em coberturas.

O cromatismo e a fruição espacial

Sobre a função do cromatismo como elemento de estruturação da capacidade de deleite oferecida por dados elementos e embientes residenciais importa referir que a cor ocupa um importante papel na arquitectura, nomeadamente, através da valorização da percepção do espaço (9). Claire e Michel Duplay consideram, sobre este assunto, os seguintes aspectos (10) (apurados apenas os aplicáveis ao interior doméstico):

- os modernos usaram cores primárias simples associadas ao verde e ao branco, expressas em pintura e não em matéria, e justapostas ao cinzento do betão;
- a prática corrente usa tons "previamente sujos", de modo a esconder a sujidade, "tudo já está previamente sujo";
- a cor deve ser um meio de exprimir e sublinhar os volumes, os planos diferenciados e, designadamente, a espessura de um edifício;
- as cores devem ser, preferencialmente,"integradas na massa" dos materiais de construção, mas quando estes materiais são pobres, é preferível a cor/tinta "em vez da tristeza sob o pretexto do purismo";
- o jogo cromático segue um conjunto de oposições de cor: do material, natural/por pintura, artificial; de fundo/de guarnecimento de vãos; na estrutura da edificação/nos seus preenchimentos;
- uma regra simples considera que deve existir uma harmonia cromática entre as: paredes; caixilharias; cobertura(s); e elementos mais efémeros (tais como estores).

Breves notas de remate sobre a cor doméstica

Aponta-se, finalmente, que sendo  o adequado cromatismo doméstico um assunto que nada tem a ver com mais despesas, mas apenas com a boa escolha dos tons usados, e sendo esta matéria directamente associável a uma positiva ou negativa influência no agrado ou desagrado com o uso dos espaços domésticos privados ela deveria merecer um cuidado aprofundado e a respectiva divulgação aos habitantes e designadamente junto daqueles que terão menos acesso a este tipos de informações.


Notas:
(1) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 1003.
(2) Licínio Cantarino de Carvalho, "Iluminação Natural no Projecto dos Edifícios", pp. 21 a 26
(3) Reduz o contraste abrupto entre a luz directa do vão e a parede que o rodeia e, assim, permite uma melhor percepção dessa parede.
(4) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 954 e 955.
(5) Christopher Alexander, Sara Ishikawa, Murray Silverstein, et al,"A Pattern Language/ Un Lenguaje de Patrones”, pp. 839 e 840,
(6) Sven Hesselgren, "Architectural Semiotics", em "Architectural Psychology Lund Conference".
(7) Ken Kern, "La Casa Autoconstruida", pp. 360 a 363.
(8) Victor Olgyay, "Design with Climate", pp. 155 e 156, 161 e 162, 167 e 168.
(9) Alfonso Stocchetti, "Spazi Per la Vita degli Uomini, Architettura Parametri", pp. 163 a 172.
(10) Claire e Michel Duplay, "Methode Illustrée de Création Architecturale", pp. 103 e 104.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 676
O cromatismo residencial - Infohabitar 676
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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