domingo, fevereiro 18, 2018

Raúl Hestnes Ferreira, memória bem viva e algumas ideias - Infohabitar 631

É sempre com profunda tristeza que escrevemos sobre a partida de um amigo, mas porque a maneira de combatermos tal tristeza é contribuir, mais um pouco, para o registo e a mais do que merecida divulgação da pessoa, do seu pensamento e da sua obra, aqui se faz uma sóbria referência à partida do Raúl Hestnes Ferreira, na noite de domingo dia 11 de Fevereiro, e uma pequena homenagem à sua pessoa. 
O texto que se junta, mais abaixo, retirado de uma conversa entre amigos, quer, assim, saudar e homenagear, de forma convivial e participada, um dos grandes arquitectos portugueses do Século XX e início do XXI e fazê-lo com o necessário sentido de grupo e de naturalidade; e não tenhamos dúvida de que a Arquitectura só ganha em termos de desenho enriquecido e de verdadeira humanidade com uma tal naturalidade e um tal sentido de grupo e de diálogo, qualidades marcantes na pessoa e na prática do Raúl Hestnes Ferreira.



Afinal, e tal como disse o próprio Hestnes Ferreira (em1973): “De acordo com o que penso que seja a arquitectura, a formação profissional nada é se não for estruturada por uma perspectiva humanista que clarifique os aspectos técnicos dessa formação e lhes dê sentido...”
Lembremos, também, que a Arquitectura só ganha com uma continuada, cuidada e sentida leitura e divulgação de ideias, pois desta forma vamos conseguindo cruzar e reter palavras, desenhos e obras, e na carreira de Raúl Hestnes há, sem dúvida, excelentes palavras, muitas delas como professor de futuros arquitectos, belos desenhos e grandes obras de Arquitectura.

E passemos à conversa entre amigos, que foi acima referida:

“(Hestnes Ferreira) – Aquela ideia da casa, muito ligada até aos românticos, e sei lá, ao Thoreau, o tipo que vai para a floresta, corta a árvore, arranja as pranchas, faz a sua casa e ali, ali é a sua casa, é uma ideia que continua, a estar presente, culturalmente ...
(Manuel Vicente) – Afinal uma casa é boa para uma família quando for boa para todas, não é? Mas isto não é o elogio do anónimo mas antes da extrema qualidade, a universalidade pela qualidade e não a universalidade pelo «éffacement», pelo apagar.
(Bravo Ferreira) – O neutro ... o neutro é chato em qualquer situação, é sempre cinzento...
(Manuel Vicente) – Do neutro ninguém se apropria... uma pessoa só se apropria daquilo que ama. Uma pessoa não pode amar uma coisa que não seja nada.
(Hestnes Ferreira) – E quando visitamos uma casa do século passado e ficamos deslumbrados com certo tipo de espaços e gostamos mesmo de ir para lá, isso é mesmo um sintoma de que aquilo transcendeu a família para quem foi feito, continua a sugerir e se calhar já foi utilizada de mil e uma formas, já teve mil e uma jarras diferentes em mil e uma mesas diferentes.
(Bravo Ferreira): restou-lhe sempre a qualidade, e essa é que está sempre.”
(Raul Hestnes Ferreira, Manuel Vicente e Vicente Bravo Ferreira, “Conversa à roda de uma casa”, Arquitectura, n.º 129, 1974, pp. 36-40).


Raúl Hestnes com Nuno Teotónio Pereira, Vasco Folha e Teixeira Trigo no Auditório do Edifício Sede do então INH – hoje IHRU – , no âmbito da iniciativa que é, mais à frente, referida.

Uma sentida homenagem à partida de Raúl Hestnes podia e pode ficar por aqui, pois tantas são as obras e tantas são as memórias que por ele falam!

No entanto, para quem se lembra bem da sua forma de nos falar/tocar e muito especialmente para quem não teve esse privilégio, juntam-se, em seguida, algumas notas – em jeito de relato informal  (e não revistas, relativamente à sua edição na Infohabitar em 2006 ) – referidas  a uma intervenção de Raúl Hestnes sobre o “habitar” e o seu próprio percurso projectual, realizada em 24 de Janeiro de 2006, no Auditório do Edifício Sede do então INH – hoje IHRU – , no âmbito de uma iniciativa deste Instituto e do GHabitar – intitulada “Encontro sobre prática profissional em projectos e reflexão para o futuro na promoção de habitação - com Raúl Hestnes Ferreira, Nuno Teotónio Pereira e José Teixeira Trigo.”

Raúl Hestnes Ferreira falou-nos, então, sobre os aspectos que podem ser identificados como fundamentais no habitar a casa, falou-nos sobre as raízes do habitar e sobre os espaços domésticos polarizadores da vida em comum e em família.
Iniciou a sua galeria de imagens (projectadas) com a planta de uma casa simples de Rio de Onor, retirada da “Arquitectura Popular Portuguesa” e falou sobre o projecto e a sua ponderação, sobre os espaços domésticos mais correntes e sobre outros recantos, que são os principais obreiros do habitar interior, como foi o caso da entrada desnivelada que criava um espaço de transição na entrada do escritório da casa que projectou para o seu pai,  o poeta José Gomes Ferreira.
Falou-nos com exemplos ilustrados sobre o estar junto ao fogo e à televisão que reúnem as pessoas à sua volta, mas antes disso falou-nos do viver simples junto ao chão e em torno do fogo, da mesa como espaço familiar e unificador de actividades, lembrando hábitos orientais de usar a mesa para um grande leque de actividades, num encadeamento natural de usos, utentes e horários, e também nos falou do grande quarto/sala com uma ampla mesa de Jorge Luís Borges, onde este escritor trabalhava, recebia, conversava, vivia.
Continuando a reflectir sobre estas matérias dos espaços domésticos essenciais e envolventes e a propósito da pequena casa de férias de Francisco Keil do Amaral, Hestnes Ferreira disse-nos que era uma casa muito amigável, uma casa pequena, mas que reflectia e envolvia o modo muito informal/simples, humano e caloroso que caracterizava o modo diário de viver daquela família, dando-lhe um bom suporte, até naquela mesa estrategicamente situada sob a janela e sobre a vista exterior.
Passou depois para as sempre novas questões do dia/noite doméstico, uma forma interessante de colocar uma eventual distinção de duas zonas, que serão provavelmente tanto dia/noite como, por exemplo, comuns/privadas; e aqui defendeu opções de adaptabilidade, em que através de uma adequada concepção estrutural e de um cuidadoso dimensionamento, se possa alterar a disposição das zonas de dormir e de estar, entre outras.
Sobre o exterior urbano e relativamente ao Bairro das Fonsecas e Calçada, em Lisboa, cujo projecto coordenou, referiu que os fogos tiveram uma relação directa com a génese da forma edificada, proporcionando flexibilidade na sua integração e que a tipologia de acessos foi influenciada, no esquerdo/direito predominante, por uma opção dos próprios habitantes, que foram convidados pelos projectistas a visitarem (nos Olivais, Lisboa) uma outra bem diversa forma de circulação comum através de galerias, e seguidamente a expressarem a sua tipologia preferida, que, como se deduz, foi o esquerdo/direito; que aliás é bem matizado por pequenas galerias/varandas de distribuição nos cantos interiores dos edifícios. Sobre este bairro Hestnes Ferreira chamou ainda a atenção para a sobriedade da sua envolvente, que contrasta com pequenos interiores de quarteirão mais diversificados; e, quanto aos fogos, salientou que se ouviram os moradores, projectando-se organizações habituais/bem conhecidas.
Sobre a diversificada experiência residencial em Beja (outros extensos projectos do seu atelier) – a Unidade João Barbeiro e a Cooperativa Lar Para Todos – começou por salientar a importância da harmonização construtiva em sede de projecto, numa relação aberta com a obra e com as potenciais e específicas qualidades de execução que aí muitas vezes se detectam e que têm a ver, por exemplo, com capacidades técnicas concretas de determinadas empresas e mesmo de determinados operários.
Depois falou da caracterização pública e também comum do grande pátio da Unidade João Barbeiro, do modo como, a partir dele, se pode aceder com naturalidade aos fogos, motivando-se o convívio, e da forma como o conjunto se integra solidamente na sua envolvente directa através de uma base de betão em que se integram galerias públicas comerciais, harmonizando-se, assim, um espaço de vizinhança assumido e eficaz com a tal sobriedade urbana, já acima apontada.
Relativamente à Cooperativa Lar Para Todos referiu, no exterior, os pátios alongados sempre que possível vitalizados pelos acessos directos a fogos térreos, e salientou o investimento ambiental e caracterizador que foi desenvolvido nos amplos espaços comuns de cada edifício (com distribuição esquerdo/direito), trespassados e matizados pela luz natural de cima abaixo e em cada entrada dos fogos (nos grandes patins comuns). Nestes espaços procurou-se realizar uma agradável e muito graduada transição com a rua, estimular o convívio possível e proporcionar uma cuidadosa transparência da vida dos fogos [neste caso através de um pano de tijolo de vidro no hall privado, que assim ainda leva luz natural ao centro/entrada da habitação].
Finalmente, ainda neste último conjunto, mas ao nível dos fogos, há uma clara e muito estimulante inovação na criação de um amplo espaço familiar de cozinha/refeições, mas também a rara possibilidade de toda a continuidade entre esse espaço, a entrada e a sala, poder ser vivido praticamente como um único grande espaço.

E fica aqui um desafio para quem não conheça estas excelentes obras habitacionais se deslocar a Beja e as percorrer com vagar; uma óptima visita, não tenham dúvidas e uma homenagem viva à Arquitectura de Hestnes Ferreira.

Mais tarde, na fase de debate, Raúl Hestnes sublinhou ter havido uma época em que se acreditou que a arquitectura poderia mudar o mundo.


Uma imagem da introdução, feita por Manuel Correia Fernandes, à memorável intervenção de Raúl Hestnes Ferreira na Conferência que realizou a encerrar as 1as Conferências CIHEL – Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono – no final da tarde do dia 6 de Março de 2017, no Porto, no que foi mais uma grande lição de humanidade, vitalidade e excelente Arquitectura!


Escreveu Francisco Keil do Amaral:
“As cidades são algo mais do que conjuntos de edifícios ladeando ruas e praças. São organismos vivos. Os edifícios, as ruas e as praças formam com as pessoas que ali habitam, transitam, trabalham e passeiam, unidades coerentes e características... as cidades morrem mesmo sem terem sido destruídas. Basta quebrarem-se os elos que ligam num todo harmonioso os edifícios e as pessoas; basta que o modo de vida deixe de corresponder à feição e ao carácter das edificações" (em "Lisboa uma Cidade em Transformação", p. 31); e não tenhamos dúvidas, e quem conheceu o Raúl Hestnes não as tem, que o Raúl foi daqueles que trabalhou, diariamente e ao longo de toda a sua longa vida, para defender e reforçar esses elos que ligam, num todo harmonioso, os edifícios e as pessoas.

Bem hajas Raúl Hestnes Ferreira,
Estarás sempre connosco

António Baptista Coelho, GHabitar e CIHEL

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