segunda-feira, abril 25, 2016

Espaços domésticos privados - Infohabitar n.º 579


Infohabitar, Ano XII, n.º 579

Espaços domésticos privados - Infohabitar n.º 579

Artigo XCVI da Série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho

Nas próximas semanas, aqui nesta série editorial, viajaremos, mais um pouco, pelos espaços domésticos privativos e pessoais, portanto aqueles mais amigos de um uso individual, ou muito ligado ao casal, e onde, também não há que excluir os outros, mas sim acolhê-los marcando, aqui, ainda mais fortemente, aspectos de identidade e de abrigo.

O que pode ajudar a caracterizar a nossa casa como um sítio diferente de um simples espaço de estadia/abrigo é, exactamente, a associação entre as actividades correntes da habitação e inúmeras outras actividades ligadas, quer ao trabalho diversificado, quer ao lazer, quer ao colecionismo (nas sua mais variadas formas), quer a características e modos de habitar específicos e bem distintos dessas actividades referidas como correntes e que se associam, frequentemente, a tipos específicos de compartimentos (sala/estar, quartos/dormir, casa de banho/higiene pessoal, vestíbulo/entrar, etc.).

Realmente, o que poderá ajudar a identificar positivamente uma dada habitação será a capacidade por ela oferecida para que em cada um dos seus espaços, mais correntes, possam ser realizadas muitas outras actividades diferentes daquelas que, habitualmente, aí são realizáveis.

Cumulativamente, uma tal diversidade de potenciais identificações numa dada habitação também dependerá da capacidade, por ela oferecida, para se “transmutar” ou converter no “reino” doméstico mais apropriado para as mais distintas e específicas formas de habitar.

E o que apetece comentar sobre isto é que esta perspectiva é sem dúvida muito mais aliciante do que a que é pobremente oferecida por habitações “unifuncionais” e mesmo “uniformais”, onde em cada um dos seus espaços dificilmente é possível desenvolver outras actividades do que aquelas consideradas correntes pela “família tipo” da “cultura dominante”, e com formas idênticas.

São os seguintes os diversos tipos de espaços domésticos pessoais de que aqui “falaremos”, caso a caso, nas próximas semanas:

- Quartos
- Espaço de lazer/trabalho
- Pequenos escritórios e espaços de trabalho profissional em casa
- Outros espaços privativos e diferenciados
- Recantos vários
- Alcovas em espaços domésticos comuns

Mas para fazer avançar, desde já, um pouco uma matéria que se julga bem aliciante, apontam-se em seguida, exploratoriamente, alguns aspetos gerais sobre alguns desses espaços e recantos domésticos.

Quartos não apenas para dormir, espaços de apropiação, intimidade e sossego
O quarto pode ser o quarto de dormir clássico, praticamente estruturado pelo espaço/cama, sem grandes ambientes/actividades complementares ou paralelas, ou pode constituir um conjunto de zonas de actividade entre as quais as associadas ao espaço/cama terão algumas preponderâncias, mas proporcionando pequenas áreas de lazer, estar e trabalho.
Durante anos e ainda hoje, muita da promoção habitacional "comercial", propôs uma “zona íntima” doméstica, onde se agregavam muitas vezes com carácter quase segregado do resto da habitação, todos os quartos da habitação, um sítio quase isolado, onde afinal acabava por se desenvolver uma espécie de desprivatização ou proximidade excessiva, muitas vezes associada a um exíguo corredor ou vestíbulo interior para o qual dão todos os quartos e as principais casas de banho.

Escritórios e espaços de trabalho profissional em casa

Esta temática do trabalho profissional ou não-doméstico em casa – habitual e globalmente designado por home-office – poderia inaugurar um outro grande tema desta série editorial, o que não se pretende, pensando-se no tema numa perspectiva suplementar às actividades mais directamente ligadas à habitação.

Os espaços para trabalho profissional ou não-doméstico em casa devem ser razoavelmente separados dos restantes espaços da casa e estarem próximos do vestíbulo de entrada, tanto porque podem apoiar actividades que exigem algum sossego e isolamento (escrita, estudo e leitura) ou porque podem ser pouco compatíveis com a habitação (produzem ruídos e lixos), ou porque essas actividades podem incluir a recepção de estranhos à família.

Espaços de lazer domésticos que sejam atraentes e estimulantes
O que se referiu para os espaços de trabalho em casa aplica-se, em boa parte, aos espaços de lazer domésticos, até porque frequentemente serão ténues as fronteiras entre trabalho e lazer em casa, havendo, por exemplo, passatempos que sendo acções de lazer exigem verdadeiros espaços especializados e, frequentemente, oficinais.

Casas de banho e espaços de banho privativos

Importa sublinhar a possibilidade de desenvolvimento da “figura” do espaço de banho com um sentido caracterizador e caracterizado por determinadas formas de viver a habitação. Situação que poderá ligar-se ao desenvolvimento de associações entre espaços de banho e outros espaços de estar, dormir e lazer com forte carácter identitário e relativamente privativo, embora espacialmente pouco controlado em termos dimensionais. O exemplo de um tal espaço é o sítio de banho de uma das grandes casas projetadas pelo Arq.º Charles Moore, que se integra num espaço de estar e assume mesmo uma posição destacada neste espaço.

Os pequenos grandes mundos do pormenor doméstico
O que se irá comentar sobre o detalhe doméstico serão, essencialmente, matérias suplementares, ou melhor dito, paralelas, às já referidas sobre os espaços da habitação,  e praticamente não dedicadas aos aspectos funcionais, já amplamente visados em diversos estudos, mas privilegiando determinadas notas associadas às opções de Arquitectura interior e ao seu diálogo com os habitantes ao serviço das opções gerais apontadas nas respectivas soluções domésticas.

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Espaços domésticos privados

Infohabitar, Ano XII, n.º 579
Artigo XCVI da Série habitar e viver melhor

- Infohabitar n.º 579

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



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