segunda-feira, maio 27, 2013

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES II: O caso de Itá - Santa Catarina - Brasil - Infohabitar 441

Infohabitar, Ano IX, n.º 441

Tal como foi referido há uma semana, aqui na Infohabitar, editamos, em seguida, a 2.ª e última parte do artigo intitulado “PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES: O caso de Itá - Santa Catarina - Brasil".
Relembra-se que este artigo foi apresentados no LNEC em Lisboa, em março de 2013, no 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono (2.º CIHEL) e 1.º Congresso da Construção e da Reabilitação Sustentável de Edifícios no Espaço Lusófono (1.º CCRSEEL); e deseja-se que outros colegas e designadamente outros congressitas do 2.º CIHEL e 1.º CCRSEEL, possam disponibilizar os seus trabalhos para edição, aqui, na Infohabitar.
Salienta-se, ainda, que os artigos do Congresso foram devidamente submetidos à análise da respetiva Comissão Científica, havendo todo o interesse na sua máxima divulgação.

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar

(pode arrastar simplesmente o texto da Infohabitar e ler a 1.ª parte do artigo)

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES II:
O caso de Itá - Santa Catarina - Brasil
Niara Clara Palma e Graziela Dal'Lago Hendges

Niara Clara Palma Dr. - Universidade de Santa Cruz do Sul ; Profª. no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional
Mail: niara.palma.br@gmail.com

Graziela Dal'Lago Hendges - Universidade de Santa Cruz do Sul; mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional
Mail: grazielahendges@yahoo.com.br

Sumário

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES: O CASO DE ITÁ - SANTA CATARINA - BRASIL I
1 INTRODUÇÃO
2 ABORDAGEM
3 CARACTERIZAÇÃO DOS MARCOS HISTÓRICOS UTILIZADOS COMO BASE DE PESQUISA
3.1 Caracterização do Projeto Original
3.2 Identificação Geral da Cidade de Itá Atualmente
3.3 Análise socioeconômica
3.4 Análise Configuracional: Análise de Redes Complexas
3.4.1 Teoria dos Grafos
3.4.2 Centralidade por Proximidade
3.4.3 Grau de Intermediação
3.4.4 Detecção de Centros
3.4.5 Vértices com Vizinhança Máxima

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES: O CASO DE ITÁ - SANTA CATARINA - BRASIL II
3.4.6 Cidade Original
3.4.7 Projeto Original
3.4.8 Cidade Atual
3.5 Análise Morfológica: Geometria Fractal
3.6 Densidade Populacional
4 COMENTÁRIOS FINAIS
5 REFERÊNCIAS

Esse trabalho é a segunda parte da pesquisa desenvolvida sobre a cidade de Itá Santa Catarina/ Brasil e traz, em sua primeira parte, indicadores socioeconômicos como a mudança de padrão salarial e de idade dos moradores, bem como a transformação radical da sua base socioeconômica ocorrida pela implantação da Hidroelétrica de Itá e deslocamento da cidade inteira para um sítio mais alto fora da área alagada onde ficava a cidade original.
Na primeira parte foi explanada a teoria envolvendo um dos indicadores espaciais a serem utilizados para a análise da estrutura urbana nos três marcos históricos avaliados, sendo esse a teoria de redes complexas que servirá de base para as avaliações nesta segunda parte do artigo.
A teoria sobre redes complexas será aplicada nos casos reais que, nesta segunda parte, trata mais objetivamente das questões espaciais relacionadas ao caso. Por isso os três marcos históricos terão seu comportamento da forma urbana serão também explicitados através da Geometria Fractal e Estatística Espacial. Por isso inicia já no item 3.4.6, com a aplicação de teoria de redes complexas diretamente na cidade original alagada em função da construção da Hidroelétrica de Itá.

RESUMO
O desenvolvimento da cidade de Itá constitui um processo inusitado pois 16 mil pessoas foram deslocadas de onde viviam e relocadas em outra área definida por um projeto urbano desenvolvido pela equipe da Hidroelétrica de Itá que teve sua construção iniciada em 1967 e gerou um lago artificial inundando a cidade original em 2000.
Essa pesquisa foca a antiga cidade Itá, o projeto implementado em 1989 e sua configuração urbana atual. Indicadores já existentes e testados em diversos casos reais serão utilizados para obter um quadro seguro dos dados levantados e permitirão comparar as três fases do sistema urbano elencadas para o estudo.
Além da questão da evolução da configuração espacial e forma urbana, também serão estudados quais os impactos socioeconômicos causados pela implementação da hidrelétrica sobre a população da cidade de Itá e Região, e o desenvolvimento urbano posterior.

Palavras Chave: dinâmica espacial urbana, relações socioeconômicas, desenvolvimento urbano.

ABSTRACT
The city's development of Itá is an unusual case because 16,000 people were displaced from where they lived and relocated in another area defined by an urban project developed by the team of Hydroelectric Itá which started construction in 1967 and generated an artificial lake flooding original city in 2000.
This research focuses on the ancient city Itá, the project implemented in 1989 and its current urban setting. Existing indicators and tested in many real cases will be used to obtain a secure and the data collected will compare the three phases of the urban system listed for the study.
Besides the issue of the evolution of urban form and spatial configuration, which will also be studied socioeconomic impacts caused by the implementation of hydropower on the population of the town of Itá and Region, and later urban development.

Keywords: urban spatial dynamics, socioeconomic relations, urban development.

3.4.6 Cidade Original

A cidade original cuja localização aparece na figura 1 desse trabalho, apresentava um tipo de tecido urbano tradicional, típico das cidades do interior de da Região Sul, com os principais usos distribuídos ao longo da Rua Principal que passava por toda a cidade apresentando um centro mais desenvolvido perto da Praça principal e da Igreja Católica, a principal da cidade que aparece abaixo identificada com o nome de torres em função da sua preservação como memória da cidade mesmo após a inundação.

Figura 4. (a) Cidade de Itá Original, antes de ser demolida e o local ter se tornado um lago. (b) Grafo definido a partir das ruas da cidade original. (c) Grafo gerado pelo software Paijek. Os pontos salientados nos dois grafos correspondem à mesma área central

O deslocamento do central se deu nesse caso, em função da topografia e das concessões de posse da área agrícola, base econômica da região até a construção e ocupação do novo Projeto.

A base original serviu de modelo para a criação do mapa axial da cidade que foi construído representando as esquinas da cidade com pontos e as linhas de ligação representam segmentos convexos de ruas. Como podemos ver, se trata de um traçado bastante simplificado constituído de 42 pontos.

Esse mapa axial permitiu um processo de descrição da rede que passou a ser representada de forma mais abstrata que permitiu a análise do sistema viário da cidade a partir do ponto de vista estritamente topológico e a análise dentro do contexto das redes complexas, como apresentado a seguir:

A área que concentra o maior número de atividades culmina na direção da Rua Principal porém se encontra deslocada em relação dos demais pontos. Mesmo assim a distribuição da “Centralidade por Proximidade” demonstra alto grau de conectividade da malha com pouca variação de seus valores como se pode observar pelo Gráfico e pelo Desvio Padrão dos valores de cada Vértice medidos nessa Propriedade Topológica. O Desvio Padrão indica nesse, e em todos os casos a seguir, o diferenciação espacial gerado em cada vértice por cada medida aplicada.



Figura 5. (a) Centralidade por Proximidade; (b) Grau de Intermediação; (c) Detecção de centros. Desvio Padrão: (d) Maiores Graus de Vizinhança. Desvio Padrão:.

Tabela .1. - Desvio Padrão nos valores de Centralidade Cidade Original
Centralidade por proximidade - 0,03989
Grau de Intermediação - 0,0908
Detecção de Centros - 9,2149
Maiores Graus de Vizinhança - 12,4363

Apesar da simplicidade da malha da Cidade original, algumas diferenciações aparecem quando levamos em conta o “Grau de Intermediação” de seus vértices. A conformação da malha com uma descontinuidade considerável em seu interior faz com que alguns vértices sejam de fundamental importância na ligação entre os vértices. Esses pontos aparecem a seguir, demonstrando descontinuidades e indicando a formação de clusters na malha Urbana da Cidade de Itá em sua conformação original.

Os pontos com valores mais altos correspondem exatamente à via principal, onde as principais atividades estavam localizadas, indicando uma distribuição mais próxima ao formato clássico de “espinha de peixe”, apesar de manter uma boa parte de sua malha com alto grau de conectividade como o Grafo com os vértices com maior grau de vizinhança mostrará.

Como já dito, a malha da cidade original apresentava alguns pontos de descontinuidade de seu tecido urbano que são salientados agora com a detecção de centros. Esses pontos aparecem claramente como internos à área mais conectada da cidade, ocupada pela maior parte da População Urbana na época.

O alto Desvio Padrão na distribuição dos valores de vetores centrais demonstra grande diferenciação espacial e tendência à formação de clusters, pois a rota alternativa iniciada pelo vetor 28 (apontado nos dois grafos anteriores) poderia vir a ser um início de formação de cluster conectando a área mais ocupada àquela compreendida pela população como o centro identificado principalmente, pela igreja e maior número de atividade comercial ali alocada.

O comportamento da malha viária da cidade original de Itá se mostra pouco trivial já que os vetores com maiores graus de vizinhança se encontram deslocados dos pontos principais e com maior alocação de atividades comerciais, menos na entrada da cidade apontada acima.

Outra peculiaridade da malha é a existências de “Patamares” com vários vetores de mesmo valor, distribuídos na rede Viária.

3.4.7 Projeto Original

No projeto Original foi definido um eixo viário que atravessa a cidade e organiza os fluxos mais intensos de veículos e pedestres. Ao redor da praça tem-se a prefeitura, a galeria comercial e de serviços e a igreja. A praça e o calçadão da avenida central são os espaços estruturadores do centro, onde se localizam os principais prédios públicos.



Figura 6. (a) Plano Original da Cidade: desenho de 1998; (b) Mapa Axial do Plano Original.

A intenção dos projetistas em formar uma cidade cuja estrutura tivesse relações identificáveis com a cidade original aparece já no desenho original e também no mapa axial produzido através dele. Além disso, o forte condicionante da Topografia da área potencializa as descontinuidades do tecido. A definição de um centro com a alocação das principais atividade coletivas e a necessidade de “acomodação” dessa nova cidade às áreas de preservação e à grande declividade do sítio forma, desde já, três áreas bem definida que aparecerão como clusters nas diversas análises apresentadas a seguir.



Figura 7. (a) Mapa Axial do Plano Original, (b) Passagem do Mapa Axial Base (Software Paijek) (d) Centr., por proximidade; (c) Grau de Intermediação; (a) Detecção de centros; (d) Maiores Graus de Vizinhança.

Tabela .2. - Desvio Padrão nos valores de Centralidade Cidade Original
Centralidade por proximidade - 0,022860
Grau de Intermediação - 0,094874
Detecção de Centros - 15,9861
Maiores Graus de Vizinhança - 28,3800

Nos grafos acima podem ser vistas descontinuidades importantes no tecido urbano que já induz, desde o projeto uma característica típica de redes complexas auto-organizadas: a formação de comunidades. Nesse caso os projetistas por determinantes naturais e culturais replicam peculiaridades do sistema urbano original.

A imagem abaixo e o baixo Desvio Padrão na Distribuição dos valores de Centralidade por Proximidade, demonstram um sistema altamente conectado. O Projeto tem a propriedade de limitar a diferenciação espacial trazendo acessibilidade semelhante para todo o sistema, mesmo com as dificuldades trazidas pelo

O Projeto, de forma semelhante à cidade original, possui a marcação de alguns vértices que têm sua importância ligada ao local de passagem entre os três núcleos de maior integração. Esses vértices compõem a principal via estrutural principal da cidade.

A existência de Clusters existentes no Projeto da Nova Itá se mostra mais claramente no processo de detecção de centros como na tabela 2. O Desvio Padrão na distribuição de valores dos vértices nessa propriedade demonstra a formação de clusters e é complementado com a observação dos Vértices de Maior Vizinhança que aparecem mais no interior ou limites externos das três principais aglomerações do Projeto. Apesar disso, a maior concentração de valores permanece na área “de entrada” da cidade, onde o projeto define, desde o início, o Centro Urbano.

3.4.8 Cidade Atual

Essa parte da análise procura apontar a continuidade e diferenciações das propriedades do tecido urbano do Projeto da Nova Itá e sua ocupação atual que podem ser apreendidas pela análise da configuração espacial que surge de forma espontânea, apesar de se tratar de uma cidade planejada.



Figura 8. (a) Imagem Satélite e Arruamento. Fonte: https://maps.google.com.br/ acesso 29/12/12; (b) Mapa Axial da Cidade de Itá atual gerado a partir da foto de satélite; (c) Passagem do Mapa Axial Base (Software Paijek)

Além do crescimento urbano, podemos notar a ocupação mais intensa na área próxima à entrada da cidade a partir da Rodovia SC 485. Essa é uma tendência natural em função da atratividade gerada pela estrada para saída e entrada de pessoas e mercadorias, marcando o acesso da cidade às outras cidades da região e dos turistas que visitam a cidade. Como já visto, essa é uma importante mudança na base socioeconômica de Itá que antes tinha foco apenas na agricultura de pequenas propriedades unifamiliares.

A população então ocupou essa área da mesma forma que na cidade original, pois a identificação com a ideia de todos serem vizinhos próximos aparece primeiramente nessa parte da cidade.

Apesar disso, além das três principais áreas existentes no Projeto Original, encontramos agora uma série de novas áreas de crescimento, quase todos lineares na configuração da malha viária. Assim como nas épocas analisadas anteriormente, a Centralidade por Proximidade se distribui de forma equilibrada em toda área da cidade que apresenta baixo Desvio Padrão nessa propriedade.


Figura 9. (a) Centralidade por proximidade; (b) Grau de Intermediação; (c) Detecção de centros; (d) Maiores Graus de Vizinhança.

Desvio Padrão nos valores de Centralidade Cidade Original
Centralidade por proximidade - 0,0127
Grau de Intermediação - 0,080
Detecção de Centros - 8,955
Maiores Graus de Vizinhança - 12,602

Já o Grau de Intermediação, marca claramente as vias estruturais da cidade. Pode-se verificar então que o mesmo crescimento linear, insinuado no projeto da nova cidade, teve um fortalecimento e continua presente até os dias de hoje ainda demarcando o centro original.

A cidade atualmente apresenta uma forte tendência de formação de clusters e “linhas” que se encaminham em diferentes direções como mostra o Grafo de Detecção de Centros. Também podemos ver que, quando levamos em conta somente a configuração espacial, sem a localização dos principais equipamentos como referência de valor dos vértices, a área inicialmente destinada a abrigar o centro urbano perde força em função do surgimento de novas centralidades.

A topografia tem forte influência nessa propriedade, pois define uma “acomodação ao sítio” causando descontinuidades na malha viária direcionando ainda mais a formação de comunidades que se ligam a um eixo estruturador geral.

Um importante comportamento emergente do sistema urbano atual é o surgimento de áreas de Maior Grau de Vizinhança em áreas diferenciadas do Projeto Original. As áreas que aparecem com essa propriedade no plano original ficavam próximas à entrada da cidade, no início da Via Estruturadora.

Essa área permanece com forte concentração de vértices com maiores valores de Grau de Vizinhança, mas, em conjunto com essa manutenção da estrutura, atualmente vemos vértices com maiores graus de vizinhança nas áreas internas dos clusters formados a partir de prévias e novas ocupações.

3.5 Análise Morfológica: Geometria Fractal

Benoit Mandelbrot introduziu o termo Fractal em 1975 para denominar uma classe especial de curvas definidas recursivamente que produziam imagens reais e surreais. Uma estrutura geométrica ou física tendo uma forma irregular ou fragmentada em todas as escalas de medição.

A geometria fractal estuda subconjuntos complexos. Na geometria de fractais determinísticos, os objetos estudados são subconjuntos gerados por transformações geométricas simples do próprio objeto nele mesmo, ou seja, o objeto é composto por partes reduzidas dele próprio (Mandelbrot 1977).

Atualmente a Geometria Fractal, e em especial a Dimensão Fractal, vem sendo utilizada em diversas áreas de estudo de sistemas caóticos como: padrão de formações de nuvens; caracterização de objetos; análise e reconhecimento de padrões em imagens; análise de texturas e medição de comprimento de curvas.

Para os fractais, ao contrário do que ocorre com os objetos euclidianos “perfeitos”, cada objeto tem sua dimensão própria. As curvas irregulares têm dimensão que varia entre um e dois, de modo que uma superfície irregular tem dimensão entre dois e três.

Das características que definem um fractal, a mais importante é a “Dimensão Fractal”. Ao contrario do que é observado na Geometria Euclidiana, onde o valor da dimensão representa a dimensionalidade do espaço em que dado objeto está inserido, a dimensão fractal representa seu nível de irregularidade.

Para a aplicação da dimensão fractal nesse trabalho foi utilizado o software Fractalyse desenvolvido pelo grupo de pesquisa "City, mobility, territory" no centro de pesquisas ThéMA (Théoriser et Modéliser pour Aménager - Université de Bourgogne) cujo coordenador de pesquisa de Pierre Frankhauser e Cécile Tannier. Nos gráficos abaixo o eixo X dos gráficos representam o tamanho do lado da janela Ɛ = (2i + 1). O eixo Y representa a média de pontos contados por janela e o parâmetro principal é o tamanho do lado da janela Ɛ.

A análise da morfologia urbana e de suas relações com o processo de distribuição das estruturas espaciais realizadas pela análise fractal pode ser empregada como subsídio para estudo de ocupações intra-urbanas, como se vê no trabalho de Frankhauser (2004). Aqui será feita a comparação das formas da Cidade de Itá nas três fases elencadas:

A dimensão de um fractal indica o espaço ocupado por ele que está relacionado com o seu grau de aspereza, irregularidade (igual em diferentes escalas) ou fragmentação. Daí o fato de os fractais possuírem dimensão fracionária e não inteira, por não serem figuras Euclidianas perfeitas.



Figura 10. Borda Externa do da Cidade Original (a), do Projeto Inicial e (c) atualmente - 2013 (d) Dimensão Fractal Cidade de Itá

Os valores de Dimensão Fractal observados em Itá/SC podem ser ligados ao contexto histórico de organização da cidade a partir do Projeto Original. As análises são formuladas na escala da cidade como um todo comparando as estruturas planejadas e os padrões emergentes de urbanização menos controlados ocorridos após a Implantação do plano e alocação de moradores.

A ampliação do valor de Dimensão Fractal da Cidade entre a implantação do plano até hoje demonstra um comportamento emergente onde as ampliações ocorrem, em sua maioria, sob a forma de novas “ilhas” com grandes vazios internos.

Podemos observar que a forma urbana de Itá Atual, avaliada pelo processo de correlação, teve maiores irregularidades de sua Dimensão Fractal, demonstrando a dispersão do tecido urbano que, como visto nas análises acima, forma “ilhas de ocupação” ou clusters sobre a topografia.

Nessa avaliação da evolução Urbana de Itá podemos ver que o projeto original já apresentava a tendência à dispersão por procurar uma melhor adaptação à topografia do novo sítio Urbano. A partir disso a evolução de sua forma urbana acaba ocorrendo de forma a reforçar essas características trazendo uma forma mais complexa e com maior “rugosidade” que tem seu reflexo na ampliação significativa do valor de Dimensão Fractal encontrado atualmente.

3.6 Densidade Populacional

O estudo população de uma cidade pode trazer importantes informações sobre um sistema urbano. No caso de Itá, suas propriedades estruturais como dependência espacial, densidades e formação de grupos serão estudados permitindo abordar questões sobre a distribuição da densidade populacional.

Sob esse prisma, a localização da População vem agora complementar os estudos socioeconômicos, configuracionais e de forma, produtos da evolução contínua da cidade após a implantação do plano original.

A primeira consideração a ser feita é que os setores censitários da cidade correspondem em grande parte aos clusters definidos nos grafos de Detecção de Centros e Grau de Vizinhança. Além disso, a via estrutural principal que aparece com grande Grau de Intermediação define a divisão dos setores que representam as propriedades da rede viária da cidade estudadas anteriormente.



Figura 11. (a) Quantidade de domicílios por setor censitário da cidade de Itá (censo IBGE 2010); (b) Teste LISA e Formação de Clusters Populacionais. (c) Resultado do programa de Estatística Espacial OpenGeoDa 0.9.8.14 (2009) para o ano de 2013 na cidade de Itá.

O principal objetivo da estatística espacial é caracterizar padrões espaciais entre os dados analisados. As variáveis espaciais dificultam a utilização de métodos estatísticos simples pela existência de fenômenos como dependência e heterogeneidade espacial.

De uma forma geral o I de Moran presta-se a um teste cuja hipótese nula é de independência espacial; neste caso, seu valor seria zero. Valores positivos (entre 0 e +1) indicam correlação direta e negativos (entre 0 e -1), correlação inversa.

Dentro dessa premissa, foi analisada a propriedade de dependência espacial e análise de agrupamento utilizando-se o programa de Estatística Espacial OpenGeoDa 0.9.8.14 (2009) tendo como variável o número de domicílios em cada setor censitário que foram transpostos para a linguagem raster para permitir o processamento pelo software.

Foi realizado o teste de permutação aleatória do nível de significância de I, sob a hipótese nula de ausência de auto correlação espacial entre as localizações de indústrias e o resultado foi 0,1056, chegando quase ao valor nulo, igual à zero.

O surgimento de áreas loteadas com maiores densidades indica crescimento em locais novos como podemos ver nos grupos mais significativos revelados pelo indicador LISA (local indicator of spatial analysis) que indica a existência de clusters espaciais de valores similares ao redor de cada observação ou, no caso aqui apresentado, célula representando uma parcela do solo urbanizado da cidade de Itá. Os grupos mais significativos contemplam tanto as áreas mais densas (grupo maior, vermelho), quanto quase desabitadas (de caráter linear, azuis).

Como dito anteriormente, novas atividades deram aos jovens a oportunidade de alcançar uma vaga de emprego nas atividades que hoje consolidam o cotidiano de Itá, como a Indústria e o Turismo. Essa informação complementa análise da formação de Detecção de Novos Centros a diferenciação das características configuracionais da cidade atual em relação ao projeto inicial, reforçando os clusters e novas direções de crescimento como vemos nos grupos mais significativos da população da cidade.

4. COMENTÁRIOS FINAIS

Um processo urbano dinâmico pode ser descrito como o crescimento do número de firmas e residências localizadas em uma cidade. Em qualquer período as firmas localizadas em uma cidade são “seguidas” por novas residências em resposta ao aumento de demanda por trabalhadores.

O território, nesse caso, tem efeito sobre as diferentes redes onde as atividades urbanas participam e também é afetado por esse processo. Esse conceito é apropriado nesta pesquisa para que seja possível a construção de uma nova representação do processo de transformação espacial e de uso do solo urbano levando-se em conta as relações espaciais, estruturais, demográficas e socioeconômicas.

O perfil de uma cidade, ainda mais no caso de Itá, onde essa transformação se deu de forma tão contundente, dificilmente pode ser avaliado com apenas um método de estudo. A avaliação nesse caso é construída por um conjunto de instrumentos de análises onde cada uma pratica diferentes abordagens sobre o objeto a ser medido e testado. Esse processo leva a uma compreensão mais completa sobre as variáveis que estão sendo avaliadas já que procura explicitar as propriedades urbanas através de diferentes conteúdos.

A organização de um sistema urbano evolui de acordo com as necessidades da sociedade. Essas modificações são identificadas em suas características físicas como intensidade de ocupação urbana e desenvolvimento de seu tecido. Cada decisão de alocação de atividades é tomada considerando a estrutura urbana existente que limita a capacidade de decisão de outras atividades pelo uso do espaço ou das relações estabelecidas assumindo um comportamento sistêmico.

Em um Sistema Urbano ocorre uma relação funcional entre os agentes gerando propriedades coletivas complexas. Dessa forma foram aplicadas técnicas de avaliação diferenciadas que pudessem trazer à tona elementos considerados fundamentais para identificação das propriedades urbanas como sua organização e formação de estruturas.

Através das técnicas de análise aqui utilizadas, foram captadas características como, por exemplo, formação de comunidades, geração de centralidades relacionadas à proximidade, grau de intermediação e detecção de centros. Identificou-se a fragmentação das formas nas três fases analisadas, em função disso os valores de Geometria Fractal acabaram crescendo à medida que os sistemas foram de desenvolvendo e as interações internas e externas (crescimento econômico) se tornaram mais contundentes. Por outro lado, em função da necessidade de adaptação ao sítio o crescimento trouxe consigo a reduzida dependência espacial que aparece também no baixo índice de Moran, quando aplicada estatística espacial nos dados primários do Censo IBGE 2010.

As análises aqui utilizadas se mostraram complementares trazendo à tona características variadas como a organização interna, dependência espacial, comportamento dos sistemas, estrutura espacial, agrupamento e forma, abrindo especulações sobre futuras aplicações em diferentes estudos, principalmente aqueles que considerarem a estrutura urbana como parte de um processo evolutivo com características emergentes ao longo do tempo.

5. REFERÊNCIAS
Livros
ALONSO, W. (1961). “Location and Land Use”. Cambridge, MA: Harvard University Press.
BATTY, M. (2003). “AGENT-Based Pedestrian Modelling in Advanced Spatial Analysis, The CASA Book of GIS.” Longley, P. And Batty, M. Eds. ESRI Press, Redlands, USA.
NOOY W., MRVAR A., BATAGELJ V(2005). “Exploratory Social Network Analysis with Pajek”, Cambridge University Press; http://vlado.fmf.uni-lj.si/pub/networks/book/UK.
KRUGMAN, P. (1997). “Development, geography, and economic theory”. Cambridge, Massachussets. MIT Press, USA.

Artigos
FRANKHAUSER P. (1997). “Fractal Analysis of urban structures”, in: E. Holm, ed. Modelling Space and Networks, Progress in Theoretical and Quantitative Geometry, Gerum Kulturgeografi, 145-181
FRANKHAUSER P. (1998). “The Fractal Approach : A new tool for the spatial analysis of urban agglomerations”. In Population : An english selection, special issue New Methodological Approaches in the Social Sciences, p. 205-240.
KRAFTA, R. (1994). “Modelling intraurban configurational development”. Environment and Planning B: Planning and Design, 21, pp. 67-82.
PORTUGALI, J., HAKEN, H. (1995). “A Synergetic Approach to the Self-Organization of Cities and Settlements” (Environment and Planning B, volume 22, pages 35-46).

Relatórios
CNEC (consórcio nacional de engenheiros consultores); ELETROSUL. (1980) “Usina hidrelétrica Itá: estudo de locação do eixo. Análise das repercussões sócio-econômicas.” Florianópolis: Eletrosul,.

Sites
IBGE. “Censo demográfico 2010”. Disponível em:
http://www.sidra.ibge.gov.br/cd/defaultcd2010.asp?o=4&i=P Acesso em: 12/12/2012
Prefeitura Municipal de Itá: http://www.Itá.sc.gov.br. Acesso em 05/12/2012
Google Maps: https://maps.google.com.br. Acesso 29/12/12

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores, salientando-se, ainda, que os conteúdos das intervenções e dos artigos editados na Infohabitar são da responsabilidade dos respetivos autores.
(ii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

INFOHABITAR Ano IX, nº441
PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES II: O caso de Itá - Santa Catarina – Brasil
Lisboa, LNEC, Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Edição www de José Baptista Coelho: Encarnação - Olivais Norte

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