segunda-feira, maio 20, 2013

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES I: O caso de Itá - Santa Catarina - Brasil - Infohabitar 440

Infohabitar, Ano IX, n.º 440

É com uma alegria e satisfação muito especiais que a Infohabitar continua a editar artigos de novos colaboradores da nossa revista, neste caso as colegas Niara Clara Palma e Graziela Dal'Lago Hendges, a quem desde já a edição agradece. Trata-se de matérias que foram abordadas, no LNEC em Lisboa no passado mês de março, no âmbito do 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono (2.º CIHEL) e 1.º Congresso da Construção e da Reabilitação Sustentável de Edifícios no Espaço Lusófono (1.º CCRSEEL), e deseja-se que outros colegas possam disponibilizar os seus trabalhos para edição, aqui, na Infohabitar.
Como se entenderá e considerando o amplo leque das temáticas abordadas no referido Congresso, bem como o largo leque temático da Infohabitar, iremos aqui editando trabalhos sobre diversas matérias - embora todas elas ligadas ao habitar e ao espaço urbanizado -, trabalhos estes que foram devidamente submetidos à análise da Comissão Científica do Congresso e que, portanto, há todo o interesse em terem a maior divulgação possível, salientando-se que a edição da Infohabitar aceita, com entusiasmo, novas propostas editoriais por parte dos leitores.
Considerando-se a extensão do presente artigo, intitulado “PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES”, a edição da Infohabitar propôs às suas autoras a sua divisão em duas partes: o que foi aceite; e neste sentido desde já se avisam os leitores que a 2.ª parte do presente artigo será editada aqui no Infohabitar daqui a uma semana, portanto, em 27 de maio de 2013.

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES I:
O caso de Itá - Santa Catarina - Brasil
Niara Clara Palma e Graziela Dal'Lago Hendges

Niara Clara Palma Dr.
Universidade de Santa Cruz do Sul; Profª. no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Mail: niara.palma.br@gmail.com

Graziela Dal'Lago Hendges
Universidade de Santa Cruz do Sul; mestranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Mail: grazielahendges@yahoo.com.br

Sumário Geral

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES: O CASO DE ITÁ - SANTA CATARINA - BRASIL I

1 INTRODUÇÃO

2 ABORDAGEM

3 CARACTERIZAÇÃO DOS MARCOS HISTÓRICOS UTILIZADOS COMO BASE DE PESQUISA
3.1 Caracterização do Projeto Original
3.2 Identificação Geral da Cidade de Itá Atualmente
3.3 Análise socioeconômica
3.4 Análise Configuracional: Análise de Redes Complexas
3.4.1 Teoria dos Grafos
3.4.2 Centralidade por Proximidade
3.4.3 Grau de Intermediação
3.4.4 Detecção de Centros
3.4.5 Vértices com Vizinhança Máxima

PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES: O CASO DE ITÁ - SANTA CATARINA - BRASIL II

3.4 Análise Configuracional Continuação: Análise de Redes Complexas Aplicação nos Marcos Históricos Utilizados na Pesquisa
3.4.6 Cidade Original
3.4.7 Projeto Original
3.4.8 Cidade Atual

3.5 Análise Morfológica: Geometria Fractal

3.6 Densidade Populacional

4 COMENTÁRIOS FINAIS

5 REFERÊNCIAS


NOTA EXPLICATIVA
Esse trabalho é a primeira parte da pesquisa desenvolvida sobre a cidade de Itá Santa Catarina/ Brasil e traz inicialmente, indicadores socioeconômicos como a mudança de padrão salarial e de idade dos moradores, bem como a transformação radical da sua base socioeconômica ocorrida após implantação da Hidroelétrica de Itá e o deslocamento da cidade inteira para um sítio mais alto fora da área alagada onde ficava a cidade original.
Nessa primeira parte também será apresentado a base teórica um dos indicadores espaciais a serem utilizados para a análise da estrutura urbana nos três marcos históricos avaliados, sendo essa a teoria de redes complexas.
A teoria sobre redes complexas será aplicada nos casos reais na segunda parte do artigo que trata mais objetivamente das propriedades espaciais relacionadas ao caso. Por isso será apresentados à evolução do comportamento da forma urbana através da Geometria Fractal e Estatística Espacial.

RESUMO
O desenvolvimento da cidade de Itá constitui um processo inusitado, pois 16 mil pessoas foram deslocadas de onde viviam e relocadas em outra área definida por um projeto urbano desenvolvido pela equipe da Hidroelétrica de Itá que teve sua construção iniciada em 1967 e gerou um lago artificial inundando a cidade original em 2000.
Essa pesquisa foca a antiga cidade Itá, o projeto implementado em 1989 e sua configuração urbana atual. Indicadores já existentes e testados em diversos casos reais serão utilizados para obter um quadro seguro dos dados levantados e permitirão comparar as três fases do sistema urbano elencadas para o estudo.
Além da questão da evolução da configuração espacial e forma urbana, também serão estudados quais os impactos socioeconômicos causados pela implementação da hidrelétrica sobre a população da cidade de Itá e Região, e o desenvolvimento urbano posterior.

Palavras Chave: dinâmica espacial urbana, relações socioeconômicas, desenvolvimento urbano.

ABSTRACT
The city's development of Itá is an unusual case because 16,000 people were displaced from where they lived and relocated in another area defined by an urban project developed by the team of Hydroelectric Itá which started construction in 1967 and generated an artificial lake flooding original city in 2000.
This research focuses on the ancient city Itá, the project implemented in 1989 and its current urban setting. Existing indicators and tested in many real cases will be used to obtain a secure and the data collected will compare the three phases of the urban system listed for the study.
Besides the issue of the evolution of urban form and spatial configuration, which will also be studied socioeconomic impacts caused by the implementation of hydropower on the population of the town of Itá and Region, and later urban development.

Keywords: urban spatial dynamics, socioeconomic relations, urban development.

1 INTRODUÇÃO

Situada na divisa dos municípios de Itá (no Estado de Santa Catarina) e Aratiba (no Estado do Rio grande do Sul), o caso da Hidrelétrica Itá, constitui uma história singular, pois para sua total implantação 16 mil pessoas foram deslocadas do lugar onde viviam e onde tinham suas vidas ancoradas espacialmente. A construção da Hidrelétrica Itá se inicia em 1967, na Região do Alto Uruguai (bacia hidrográfica do rio Uruguai) exigindo assim, a desapropriação de muitas terras. Considerando-se que a obra foi totalmente concluída em 2000, passaram-se 33 anos para avanço deste processo.

Durante todo esse tempo a população do município de Itá conviveu com a dúvida e a incerteza sobre os seus destinos. Para os engenheiros que projetavam a usina tratava-se de mais um local onde algumas terras seriam alagadas, porém aquelas terras eram, para as pessoas que ali viviam, muito mais que uma área a ser alagada para a instalação de um lago artificial. A terra, ali, significava a vida cotidiana e a segurança do trabalho planejado, bem como um lugar social e histórico, ou seja, estas pessoas foram obrigadas a saírem do lugar onde haviam construído suas vidas e de onde planejavam seu futuro e postas em uma situação de reconstrução das relações sociais, econômicas e espaciais.

Nesta pesquisa estudar-se-á a configuração espacial da antiga cidade Itá e sua configuração atual e neste contexto serão apresentados quais são os impactos comportamentais, socioeconômicos e culturais causados pela mudança, da configuração espacial e da implementação da hidrelétrica sobre a população da cidade e região, no período de 1967 a 2012.

A cidade é vista nesse trabalho como um sistema em constante evolução, mesmo se tratando de uma cidade planejada como a nova Itá que, por sua vez, continuou um novo processo de evolução criando novas características.

A mudança da cidade e os impactos causados pela localização da hidrelétrica conformam um caso raro de estudo pela rapidez como aconteceram e também pelas mudanças drásticas na população como: mudança de localização; mudanças de vizinhanças; impactos causados pela nova configuração espacial; mudança de base socioeconômica; criação de novas redes em função dos itens citados acima.

Dessa forma, pretende-se avaliar o estado inicial da cidade (antes da inundação), comparando-o com a cidade planejada inicialmente e a atual condição dentro de uma visão evolutiva baseada em levantamento da sua forma espacial, atividades socioeconômicas, faixa etária da população, além de comportamentos singulares que tenham surgido com o crescimento da cidade.

Dentro desse contexto serão analisadas as mudanças no sistema urbano levando em conta sua configuração espacial e redes socioeconômicas, avaliando a estrutura da cidade original, da planejada e a forma de ocupação real que será levantada para servir de base de comparação entre as intenções de projeto e os resultados reais com os seguintes objetivos:

• Analisar as mudanças socioeconômicas na cidade e região advindas das novas relações estabelecidas.

• Analisar a configuração espacial da antiga, da planejada e da atual cidade de Itá, sob o ponto de vista de redes complexas.

• Analisar a distribuição espacial da população.

Com isso serão estabelecidos indicadores que serão utilizados para a comparação entre os três momentos da cidade.

A principal hipótese desse trabalho considera que a modificação da cidade acabou por causar uma serie de impactos não somente relacionado com a mudança espacial, mas também tem a ver com mudanças socioeconômicas e criação de novas redes auto-organizadas (PORTUGALI e HAKEN; 1995). Essas modificações se refletem no desenvolvimento da nova cidade fazendo emergir novos comportamentos e propriedades, de forma sistêmica e continuada.

O objeto de estudo, no caso, acidade de Itá, permite a investigação da formação de redes e das novas relações de vizinhança e geografia de oportunidades criadas com a evolução da nova cidade, o que acabou por modificar o projeto original. Segundo essa hipótese essas relações socioeconômicas agem como “forças incidentes” sobre o sistema urbano podendo ser causa de variações em sua estrutura e desenvolvimento.

2 ABORDAGEM

A perspectiva estrutural-funcionalista vê o desenvolvimento de áreas urbanas como funções e relações espaciais necessárias para o desenvolvimento da sociedade. Considerando o espaço urbano e regional como uma geografia de oportunidades temos, consequentemente, a geração de inter-relações entre lugares e funções gerando processos de interação espacial formando um sistema urbano cuja estrutura é hierárquica e altamente organizada.

O método de abordagem a ser utilizado na pesquisa será uma visão estrutural funcionalista e, por conseguinte, sistêmica. A Estrutural Funcionalista permite a construção de modelos e indicadores de desempenho que permitirão, de forma mais objetiva, a comparação das três fases do sistema urbano e regional que será objeto desse estudo e as transformações geradas pela instalação da Hidrelétrica Itá e sua mudança de território em três fases definidas para o desenvolvimento da pesquisa:

1. Cidade original que foi submersa pelas águas do Lago no ano de 2000.

2. Projeto original da Cidade de Itá, que existe desde 1989.

3. Ocupação real da Cidade de Itá desde a transposição da População para o novo local.

As modificações da estrutura urbana podem ser identificadas em características físicas como a volumetria das edificações, intensidade de ocupação urbana, e infraestrutura. Os agentes normalmente definem o local onde irão viver, levando em conta suas necessidades e as atividades que lhe são complementares e as que seriam indesejadas em sua vizinhança. Esse conjunto de informações produzem mudanças na estrutura urbana definindo áreas de maior ocupação e densidade, zonas ligadas a atividades diferentes e ainda os fluxos gerados em função de diferentes atratividades.

A metodologia tem como objetivo aplicar indicadores existentes e outros desenvolvidos durante a pesquisa a fim de identificar os principais impactos socioeconômicos e da configuração espacial após a mudança do lugar da cidade de Itá e seu posterior desenvolvimento.


3 CARACTERIZAÇÃO DOS MARCOS HISTÓRICOS UTILIZADOS COMO BASE DE PESQUISA

A transformação na paisagem a partir da implementação da USINA Hidroelétrica de Itá definiu a relocação da cidade de Itá para outro sítio planejado para tal acontecimento.


Figura 1. Usina Hidrelétrica Itá Inaugurada em 2000, com uma área inundada de 103 Km² formando um grande lago sobre a cidade original. Fonte: elaboração própria a partir de foto da autora e site da prefeitura de Itá: http://www.Itá.sc.gov.br

O diagnóstico elaborado sobre a cidade original foi baseado numa pesquisa direta com a população, envolvendo profissionais das áreas sociológica, econômica, de arquitetura e urbanismo e representantes da administração municipal.

O início da ocupação original se deu no século XX, quando tropeiros procedentes do Rio Grande do Sul chegaram ao local. A ocupação se concretiza, por volta dos anos 20, quando a Companhia Luce Rosa realizou um loteamento ocupado por colonos descendentes de italianos e alemães, procedentes das “colônias” do Rio Grande do Sul. Sem 1956 tem-se a emancipação do município, a partir do desmembramento do município de Seara.

Itá possuía um território no sentido Leste-Oeste, e relevo acidentado, com desníveis bastante expressivos, definida como uma cidade de vale. A produção agropecuária, especialmente avicultura e culturas de soja e milho, era composta por pequenas unidades produtivas autônomas e se tornou a principal atividade econômica da cidade.

A falta de postos de emprego pode ser considerada como a maior dificuldade na antiga cidade de Itá. Por volta de 1980, a oferta mal atendia o crescimento vegetativo da população.

A cidade contava com 200 famílias, que mantinham seus descendentes ligados ao passado de tradições. Uma característica marcante das relações sociais é o papel expressivo desempenhado pela ideia de parentesco, onde todos os moradores se consideravam vizinhos e havia uma baixa intensidade de fluxos no centro urbano, tanto de veículos quanto de pedestres.

O planejamento urbano da cidade nova foi desenvolvido pela Divisão de Urbanismo do Departamento de Projetos de Edificações da Eletrosul, com a participação da administração municipal e representantes da comunidade de Itá, além de técnicos do governo estadual. Durante o processo, foi formado o Grupo Operacional para Relocação de Itá - GORI. O grupo elaborou, em 1984, o documento nomeado “Relocação da Sede Municipal: Plano de Mudança”, para estabelecer as diretrizes que norteariam a relocação da Cidade de Itá.

3.1 Caracterização do Projeto Original

A principal preocupação do plano proposto para a cidade de Itá era oferecer espaços e equipamentos que permitissem a manutenção das atividades desenvolvidas pela população, procurando suprir eventuais carências de modo a estimular o desenvolvimento dos indivíduos e da comunidade em termos sociais, econômicos, culturais e físicos.

O projeto da cidade nova foi elaborado procurando compreender o quanto a população, sendo obrigada a se transferir, perdia de referências afetivas. Os condicionantes principais foram topografia com grandes desníveis, a forma alongada terreno, a vegetação nativa gerando áreas de preservação permanente e a busca de identidade entre os moradores e os equipamentos urbanos.

A Nova Itá, inaugurada em 1996, foi um local onde os monumentos possuem importância no resgate do que os prédios públicos possuíam anteriormente. As intenções de projeto mostram a preocupação com a caracterização da cidade pelos seus prédios públicos, criando referenciais fortes por parte dos habitantes.

Procurou-se colocar no centro urbano os principais equipamentos de uso comunitário. Esses equipamentos foram dispostos de forma centralizada em relação às diversas áreas habitacionais e ecológicas. A praça e o calçadão podem ser caracterizados como o lugar do encontro social e político, do lazer e das manifestações culturais e religiosas.

Na construção das residências destacam-se as relações estabelecidas entre o arquiteto e o morador. A formação colonial da região, bem como sua expressividade arquitetônica, estimulou os arquitetos a buscarem uma arquitetura vernacular local, trazendo fortes elementos entre as novas e antigas residências.

3.2 Identificação Geral da Cidade de Itá Atualmente

Itá localiza-se no Oeste de Santa Catarina, na microrregião do Alto Uruguai Catarinense, caracterizada pelo IBGE (2000) como microrregião de Concórdia. Limita-se com os municípios de Seara, Concórdia e Paial, tem como fronteira Sul o rio Uruguai, limite natural entre os Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Faz limite ao Norte com o município de Seara-SC, ao Sul com o município de Aratiba-RS, ao Leste com os municípios de Aratuã e Concórdia-SC e a Oeste com o município de Paial-SC. A microrregião é composta por 16 municípios, cujo centro polarizador é Concórdia. A capital do Estado de Santa Catarina, Florianópolis dista de Itá, 550 Km.

Tem uma extensão territorial de 165 km2 e uma altitude média de 520 metros acima do nível do mar. O relevo da região é marcadamente dobrado com o vale do Rio Uruguai, apresentando alta declividade. A disposição, em camadas, dos derrames, é responsável pela presença de patamares, com a predominância de rochas basálticas. O clima é do tipo mesotérmico úmido, com verão quente e temperatura média de 33º C, sendo que no inverno a temperatura média é de 18o C, chegando a atingir 2o C abaixo de zero. Podem-se distinguir no município três tipos de vegetação: a mata primitiva1 (cobertura vegetal nativa); a mata secundária (recomposição natural, incluindo capoeiras altas); e a mata implantada (reflorestamento). Os principais rios que banham o município são: o rio Uruguai, Rio Engano, Rio Jacutinga e Rio Ariranhazinha, que são afluentes do rio Uruguai.

A estrutura da urbanização da nova cidade, devido às características morfológicas do sítio, é definida por um eixo viário que atravessa a cidade (zona residencial/centro urbano/zona residencial) canalizando os fluxos mais intensos em termos de veículos e pedestres. O acesso à UHE-Itá é realizado através de uma rodovia paralela ao eixo estrutural para evitar que o trânsito pesado circule dentro da cidade. Ruas secundárias e terciárias complementam o sistema viário urbano, sendo 95% delas asfaltadas.

3.3 Análise socioeconômica

Desde a década de 1980, pesquisadores na área do Urbanismo têm considerado a estrutura urbana como o resultado de um processo dinâmico pode que pode Estudos ligados à economia têm focado sua atenção na análise espacial de contextos regionais e urbanos. Krugman (1997), Krugman, Fujita, e Venables (1999) fazem uso da teoria da complexidade e auto-organização na análise da Nova Geografia Econômica.

O território, nesse caso, tem efeito sobre as diferentes redes onde as atividades urbanas participam e também é afetado por esse processo. Esse conceito é apropriado nesta pesquisa para que seja possível a construção de uma nova representação do processo de transformação espacial e de uso do solo urbano emergentes nesse processo de desenvolvimento urbano singular.

Mesmo que em Itá a cidade planejada tenha oferecido as localizações das atividades urbanas “a priori”, o contínuo desenvolvimento urbano pode fazer surgir uma estrutura de redes diferenciadas das colocadas inicialmente.

O peso da ação da atratividade de cada atividade sobre as demais é capaz de fazer surgir modificações importantes em uma cidade, principalmente quando ocorre uma modificação em sua Base Econômica. Segundo Krugman (1997), as demais firmas são dependentes destas atividades e apresentam comportamento ligado à teoria de localização e economia de aglomeração formando relações dependência espacial na estrutura urbana e interação espacial (Wilson, 1970). A combinação entre estas formas de se conceber a estrutura urbana, resulta em uma análise que leva em conta a dependência espacial e um sistema hierárquico e competitivo.

Quando ocorre a construção de uma hidrelétrica e toda a estrutura necessária, criam-se novas necessidades na região e maior oferta de emprego, além de uma série de expectativas que se formam em função da mesma. São elementos que passam a fazer parte do redimensionamento das atividades e do cotidiano de populações que se situam próximo aos canteiros de obras.

Por um lado, este aumento populacional, representa um aumento na circulação de dinheiro e cria necessidade de prestação de serviços, por outro lado essa população temporária participa não somente do perfil e dimensionamento da demanda urbana, mas representam um ônus para os poderes públicos locais, que são responsáveis pelo fornecimento de equipamento e serviços destinados ao consumo coletivo básico das populações regionais.

A possibilidade de novos empregos e abertura de novos campos profissionais, na cidade, é percebida como um aspecto positivo que se tornou possível pela construção da hidrelétrica, trazendo o “progresso” para a região. Os profissionais liberais salientam muito esta perspectiva profissional aberta com a construção da hidrelétrica, com a possível criação de uma demanda diversificada por serviços de contabilidade, advocacia, área de saúde, entre outras.

Muitos jovens da cidade que saiam em busca de novas oportunidades em centros maiores, tendem a se estabelecer profissionalmente na cidade como autônomos, pois acontece a geração de novos empregos. O progresso econômico é valorizado, entre os comerciantes desde o inicio é destacado o incremento da renda que o município terá com a vinda de várias pessoas, bem como o aumento do emprego no local. Em 1993, esta perspectiva era bem marcante.

A primeira mudança foi o crescimento de Empresas de Construção Civil. Com a “auto relocação”, geraram-se possibilidades maiores para as empreiteiras locais. A presença de uma grande empresa influencia e modifica as relações salariais estabelecidas no local. O salário pago aos trabalhadores temporários é, relativamente, mais alto que a média no município, principalmente, nos empregos de baixa qualificação.

O aumento dos aluguéis e dos preços dos gêneros alimentícios é um dos fatores que mais atingiu a população. A presença da Eletrosul é apontada como um dos causadores do aumento excessivo dos preços no comércio, que passa a ser sentido, principalmente, pelos moradores de menor renda econômica.

Neste contexto pode-se observar que quando havia lucro, não era distribuído igualitariamente entre toda a população. Alguns setores tem muito mais possibilidade de lucro imediato com o aumento populacional, enquanto outros dividem os custos que vão desde o aumento da demanda pelos serviços e espaço público, até o aumento do custo de vida.

A economia da sede flutuava dependendo do ritmo das obras. Em momentos de paradas nas obras, por falta de recursos, ocorre uma diminuição da população e do consumo, consequentemente, ocorre uma baixa nas vendas do comércio. Ao mesmo tempo em que existe um incremento da renda, do capital circulando, surge aumento da demanda por determinados serviços públicos como: aumento da infraestrutura básica na área de educação, saúde e segurança, e ainda a necessidade adaptar a economia do município à saída dos agricultores atingidos.

Nos momentos posteriores à construção da barragem, quando foi desmobilizada economia temporária na região, com muitas terras férteis alagadas, gerou-se preocupação para a população em geral. Foi também tema de discussões entre o executivo e algumas lideranças locais.

Após o ano de 2000, quando a hidrelétrica iniciou seu funcionamento, o Poder Executivo atraiu algumas indústrias para o município, oferecendo isenção fiscal. Tem-se trabalhado muito para transformar Itá em polo turístico e o município está caminhando para isso de forma firme e sólida. O município pretende em um futuro próximo, ter, além da indústria, o turismo como uma possibilidade forte de o mesmo progredir.

A população do município de Itá sofreu significativas transformações no tocante ao número de munícipes. A primeira de 1970 a 1980 deve-se ao fato do inicio dos estudos para construção da Usina. No período de 1980 a 1990 com a obra já em andamento um grande número de pessoas passa a residir no município. No terceiro momento, período de 1990 a 1995, houve uma inversão da população no espaço rural e urbano. A população da zona rural deslocou-se para a urbana supostamente à procura de trabalho que a construção da usina oferecia aos habitantes da região. Antes a maioria das pessoas residia na área rural e a partir desse momento a maior parte passa a residir na área urbana, de 1995 a 2002 constata-se uma redução significativa de pessoas em Itá devido, provavelmente à construção da Usina em 2001.

Atualmente a população é de 6.755 habitantes, sendo 3.418 na área urbana distribuída no centro e em mais 06 bairros. Na área rural vivem 3.337 pessoas distribuídas em 24 comunidades. Itá passou por três ciclos econômicos: agrícola (produção de milho e feijão), ciclo da cachaça (possuindo cerca de 30 alambiques), ciclo da madeira (levada através de balsas pelo rio Uruguai até a Argentina). Produz grãos de feijão e milho, destaca-se na produção de aves e suínos.


Figura 2. Distribuição por faixa etária. Fonte: censos 2000(a) e 2010 IBGE (b); PIB da Cidade de Itá (c). Fonte: IBGE Cidades@

Tem atualmente, a indústria como principal atividade econômica, onde se considera o empreendimento hidrelétrico como uma indústria de grande porte e está em pleno desenvolvimento na área turística.

3.4 Análise Configuracional: Análise de Redes Complexas

O estudo de redes como bases de complexidade tem sido eficiente para entender a estrutura e a função de vários sistemas naturais e artificiais. Este tipo de relação é utilizado por diversas áreas do conhecimento como informática, teoria da informação, redes sociais e outros.

“Uma característica importante de redes complexas é a existência de estruturas de comunidades”. Comunidades também são chamadas de “clusters” ou agrupamentos e são formadas por grupos de vértices que provavelmente partilham propriedades comuns como entidades funcionais, por exemplo, incluindo sua função na estrutura do grafo.

As três fases da pesquisa serão analisadas a partir do software para análise e representação de redes PAJEK (1996, 2010 V. Batagelj, A. Mrvar) para demonstrar as relações topológicas dos elementos espaciais e também sociais e econômicos de uma região trazendo diferentes medidas de centralidade revelando sua estrutura como a identificação de centros, áreas de ligação importantes, etc..

Dentro desse contexto, se torna necessário a transformação na maneira de descrever o sistema para que as análises relacionadas à constituição de redes possam ser aplicadas. Com esse intuito as relações espaciais muitas vezes são relacionadas à representação matemática através dos grafos que traduzem relações topológicas de sistemas espaciais através de uma linguagem matemática.

Dentro da área da pesquisa sobre o urbanismo destaca-se, o trabalho de Hillier e Hanson “The Social Logic of Space” de 1984, onde os espaços convexos são representados como linhas axiais e suas conexões formam uma rede de onde são geradas medidas clássicas como a medida de integração que mede o quão “profunda”, ou distante, uma linha axial está de todas as outras linhas do sistema, ruas, esquinas etc. Vias mais “rasas” estão mais próximas das outras, portanto diz-se que são mais integradas. Vias mais “profundas” em relação às outras são ditas segregadas.

Outra importante contribuição é o Modelo de Centralidade (Krafta, 1994) que se propõe a instrumentar a análise das propriedades morfológicas do sistema urbano a partir de duas categorias básicas: espaços públicos e formas construídas, tendo como objetivo descrever a diferenciação espacial da estrutura urbana. Considera-se que cada porção elementar de formas construídas, sendo intermediada por um sistema interconectado de espaços públicos, é alcançável de qualquer outra porção.

3.4.1 Teoria dos Grafos

Grafos representando sistemas auto-organizados não são regulares, ou seja, são objetos onde a ordem coexiste com desordem. Partindo desse pressuposto, define-se a propriedade das redes auto-organizadas que não produzem grafos aleatórios, mas sim, heterogêneos revelando uma alta hierarquização.

O grau de distribuição é amplo e normalmente seguem a característica de muitos vértices com baixo grau e outros com alto grau. Além disso, a distribuição das ligações não são globais, mas produzem alta concentração de ligações entre grupos de vértices especiais e baixa concentração entre esses grupos. Nesse estudo serão utilizadas quatro propriedades de redes complexas.

Figura 3. Representação geométrica de um grafo. Tipicamente, um grafo é representado como um conjunto de pontos (vértices) ligados por retas (as arestas).

3.4.2 Centralidade por Proximidade

Redes auto-organizadas não são grafos aleatórios e, além disso, são heterogêneas revelando hierarquização. A análise desse processo pode ser feita a partir de características topológicas da rede como as medidas de centralidade. A dimensão dos vértices provém de seus valores alcançados nas diferentes medidas de centralidade que, nesse caso é somente determinado pela configuração espacial da malha urbana da cidade.

A “centralidade por proximidade” de um vértice é o número de vértices dividido pela soma de todas as distâncias entre o vértice analisado e todos os outros.

Essa medida pode ser utilizada para a detecção de continuidades das características estruturais presentes nas redes estudadas em diferentes etapas da simulação. O objetivo é verificar se os vértices ocupados nas etapas iniciais da simulação permanecem com valores de centralidade altos ao longo das iterações preservando assim sua estrutura, o que é chamado “informação mútua”, em um processo chamado de “path dependency”.

3.4.3 Grau de Intermediação

O Grau de intermediação é medido tomando-se em conta quantas vezes um vértice faz parte do menor caminho entre um par de vértices qualquer do sistema. Essa propriedade é utilizada na classificação dos vértices de acordo com sua posição topológica dentro de comunidades. Serve para a identificação de grupos e suas fronteiras. Os vértices intercomunicadores podem ser detectados e a formação de comunidades fica mais clara do que na medida de “centralidade por proximidade”.

3.4.4 Detecção de Centros

Vértices com posição central em seus clusters podem ter importante função no controle e estabilidade dentro do grupo. Podem também ter um papel crítico na mediação de relações e trocas entre diferentes comunidades. Além disso, em alguns casos, podem fazer parte de diferentes grupos em uma sobreposição de redes.

A detecção de centros de um grafo no software PAJEK (1) é baseada no “algoritmo de roubo”: vértices que possuem alto grau são considerados mais “fortes” que os vizinhos e por isso podem “roubar” dele.

No início da detecção os vértices recebem valores de acordo com seu grau ou começa com o mínimo valor 1. Quando vértices “fracos” são identificados os vizinhos roubam dele de acordo com seu peso no sistema recursivamente.

Esta medida acaba por apontar não apenas os pontos mais centrais do sistema de forma global, mas também torna visíveis os pontos importantes localmente que tendem a criar centralidade nos clusters. A definição de centros detecta uma hierarquia clara e formação de ilhas que são detectadas por essa medida de centralidade.

3.4.5 Vértices com Vizinhança Máxima

A vizinhança de um conjunto X de vértices de um grafo G é o conjunto de todos os vértices que têm algum vizinho em X. Esse conjunto é denotado por ¡(X). A vizinhança de um vértice v é o conjunto ¡(v). Esse índice demonstra quais os vértices com maior número de vértices com alto grau conectados a ele, ou seja, demonstra os lugares melhor conectados dentro de uma rede.

A base teórica sobre Teoria de Redes Complexas, aqui apresentada, servirá de base para as análises posteriormente aplicadas nos três marcos históricos da cidade de Itá, na segunda parte desse artigo.

(NOTA IMPORTANTE: ESTE ARTIGO CONTINUA E CONCLUI EM 2013/05/27 COM A EDIÇÃO N.º 441)

4 REFERÊNCIAS

Livros
ALONSO, W. (1961). “Location and Land Use”. Cambridge, MA: Harvard University Press.
BATTY, M. (2003). “AGENT-Based Pedestrian Modelling in Advanced Spatial Analysis, The CASA Book of GIS.” Longley, P. And Batty, M. Eds. ESRI Press, Redlands, USA.
NOOY W., MRVAR A., BATAGELJ V(2005). “Exploratory Social Network Analysis with Pajek”, Cambridge University Press; http://vlado.fmf.uni-lj.si/pub/networks/book/UK.
KRUGMAN, P. (1997). “Development, geography, and economic theory”. Cambridge, Massachussets. MIT Press, USA.

Artigos
FRANKHAUSER P. (1997). “Fractal Analysis of urban structures”, in: E. Holm, ed. Modelling Space and Networks, Progress in Theoretical and Quantitative Geometry, Gerum Kulturgeografi, 145-181
FRANKHAUSER P. (1998). “The Fractal Approach : A new tool for the spatial analysis of urban agglomerations”. In Population : An english selection, special issue New Methodological Approaches in the Social Sciences, p. 205-240.
KRAFTA, R. (1994). “Modelling intraurban configurational development”. Environment and Planning B: Planning and Design, 21, pp. 67-82.
PORTUGALI, J., HAKEN, H. (1995). “A Synergetic Approach to the Self-Organization of Cities and Settlements” (Environment and Planning B, volume 22, pages 35-46).

Relatórios
CNEC (consórcio nacional de engenheiros consultores); ELETROSUL. (1980) “Usina hidrelétrica Itá: estudo de locação do eixo. Análise das repercussões sócio-econômicas.” Florianópolis: Eletrosul,.

Sites
IBGE. “Censo demográfico 2010”. Disponível em:
http://www.sidra.ibge.gov.br/cd/defaultcd2010.asp?o=4&i=P Acesso em: 12/12/2012
Prefeitura Municipal de Itá: http://www.Itá.sc.gov.br. Acesso em 05/12/2012
Google Maps: https://maps.google.com.br. Acesso 29/12/12

Notas:
(1) (1996, 2010 V. Batagelj, A. Mrvar)

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores, salientando-se, ainda, que os conteúdos das intervenções e dos artigos editados na Infohabitar são da responsabilidade dos respetivos autores.
(ii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

INFOHABITAR Ano IX, nº440
PROJETO URBANO E NOVAS TERRITORIALIDADES I: O caso de Itá - Santa Catarina – Brasil
Lisboa, LNEC, Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Edição www de José Baptista Coelho: Encarnação - Olivais Norte

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