domingo, maio 06, 2012

Habitar a cidade e as paisagens de proximidade (artigo); e Notícias do 2.º CIHEL - Infohabitar 392


Infohabitar, Ano VIII, n.º 392
Artigo da semana: Habitar a cidade e as paisagens de proximidade - Artigo XII, da série habitar e viver melhor
Notícias do 2.º CIHEL


Notícias do 2.º CIHEL
Notas breves sobre o 2.º CIHEL - 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono, que terá lugar no LNEC em março de 2013 sobre o tema "Habitação, Cidade, Território e Desenvolvimento":

(i) Foram já recebidos os primeiros resumos propostos para comunicações.
(ii) O site do 2.º CIHEL, que está a ser desenvolvido pelos respectivos serviços do LNEC, estará, em breve, activo.
(iii) As diversas Comissões de enquadramento e apoio ao 2.º CIHEL estão em fase muito adiantada de desenvolvimento.
(iv) Há novos e importantes apoios institucionais que serão oportunamente divulgados.
(v) Há novas inciativas associadas ao 2.º CIHEL que serão oportunamente apresentadas.
(vi) A prevista actualização do logótipo do CIHEL, para aplicação neste 2.º Congresso está já a ser concretizada no âmbito das actividades lectivas do Curso Profissional de Técnico de Design Gráfico da Escola Secundária de Sacavém; e será objecto de um artigo específico de apresentação.

E remetem-se, desde já, os leitores para o recente artigo nesta revista onde se faz a apresentação pormenorizada do Congresso e dos respectivos contactos:
http://infohabitar.blogspot.pt/2012/04/2-cihel-lisboa-lnec-marco-2013.html

A direção do 2.º CIHEL:
António Baptista Coelho, António reis Cabrita e Jorge Grandão Lopes
O Presidente da Comissão Científica do 2.º CIHEL:
Paulo Tormenta Pinto




Habitar a cidade e as paisagens de proximidade
Artigo XII, da série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho

No presente artigo desenvolve-se uma reflexão sobre um habitar expandido para lá das paredes da habitação de cada um e, designadamente, para os "terceiros" espaços, ou terceiro "sítios", um conceito desenvolvido por Ray Oldenburg (1) e que este autor liga, de forma destacada, designadamente, ao café da esquina, à livraria, ao bar, ao cabeleireiro; terceiros sítios, pois estão para além dos outros dois sítios principais, na vida de cada um, o sítio de trabalho e o sítio doméstico, e espaços que, podem e devem ser “sítios de estadia no coração da comunidade”, como refere Oldenburg, e não é possível deixar de salientar aqui o grande número de casos, nas nossas cidade e povoações, em que ou nem há espaços/sítios desse tipo, ou eles são desenvolvidos sem quaisquer cuidados de funcionalidade e de sensibilidade, esta última essencial para se poderem criar verdadeiros "sítios" de vivência hurmana e urbana de proximidade.

Esta reflexão inicia-se com a perspectiva da urgente recuperaçao de um uso intenso do exterior na cidade e no habitar e desenvolve-se, depois, numa abordagem mais focada da essencial e associada criação de verdadeiras paisagens de proximidade.



Recuperar um uso intenso do exterior na cidade e no habitar

No espaço privado do habitar é fundamental assumir cada vez mais a habitação como várias habitações, e considerar a habitação também como lugar de trabalho (no “den”) e de recreio, a habitação como espaço que deve responder a um amplo leque de necessidades e desejos, simultâneos e sequenciais, aprofundando-se, assim, os aspectos de adaptabilidade e de redução/anulação das hierarquias funcionais domésticas, assim como os aspectos de apoio a diversos modos de vida, desde os mais jovens e conviviais aos mais recatados e assistidos, como poderá acontecer no caso dos idosos.

E importa pensar o habitar para além dos compartimentos interiores, libertando-nos de limitações sem sentido e avançando, seja na recuperação de novos/velhos modos de ligar o espaço privado ao espaço público, directa ou indirectamente, através de estimulantes espaços de transição e de limiar, seja na própria utilização do exterior coberto e descoberto como espaço próprio dos nossos mundos habitacionais privados (re)ganhando uma outra dimensão para as nossas habitações.

Fora do espaço habitacional privado uma fundamentada inovação no habitar parece dever centrar-se nas soluções de vizinhança, numa tendência que se julga ter grande potencial. Estão neste caso quer misturas tipológicas variadas e razoavelmente compactas, criando ruas, pracetas residenciais e vizinhanças afirmadas, servidas por diversas tipologias de acesso e edifícios fortemente articulados com espaços exteriores públicos, embora, por vezes, com um carácter de fruição aparentemente limitado às respectivas vizinhanças, quer um uso específico dos espaços exteriores à porta de casa e dos equipamentos mais próximos como verdadeiras extensões dos nossos mundos domésticos, uma condição que exige elevada capacidade e sensibilidade de concepção.

E aqui, nas ruas e pracetas de uma cidade que se quer habitada, é essencial a sua devolução à estima e ao intenso uso públicos, pois, como defende Jan Gehl (2), enquanto, antigamente, uma casa cheia de gente era uma pequena cidade, hoje em dia os que vivem sós, ou em pequenos grupos, precisam, criticamente, da vida urbana, e de uma vida urbana de vizinhança e de centralidade, para viverem com diversidade e estímulo; é, portanto, crucial que o habitar invada as vizinhanças urbanas e a própria cidade central.

Em tudo isto há que ter, naturalmente, em conta o sítio que se habita, mas no nosso País as possibilidades estarão entre zonas em que há uma muito razoável possibilidade de uso do exterior, durante todo o ano e outras zonas onde tal possibilidade é intensa durante todo o ano, ganhando-se, assim, tendencialmente muito espaço habitável com um custo baixo, pois trata-se, em muitos casos, de espaços só pavimentados, ou pavimentados e parcialmente cobertos, ou cobertos com elementos vegetais ou simples dispositivos de sombreamento.

Naturalmente que estas opções têm influência directa numa busca de soluções tipológicas diferentes dos habituais apartamentos do designado tipo “esquerdo/direito”, mas desta forma acabam por ser mais uma razão para se avançar numa tal inovação.

Tudo isto se baseia numa expressiva diversidade de soluções urbanas e residenciais, que devem ser feitas especificamente para cada situação, caracterizando positivamente cada sítio, com pontes claras de adequação ou adaptáveis a hábitos e gostos específicos e com um forte sentido de identidade urbana, alargando o habitar à cidade habitada, com vantagens duplas: para quem assim tem um habitar muito mais amplo e diversificado; e para uma cidade que assim irá respirar num tecido verdadeiramente habitado e sentido.

Fica, assim, a esperança de que habitar a vizinhança, o pequeno bairro e a cidade possa voltar a ser bastante mais do que habitar a casa de cada um de uma forma mais ou menos “doentia”, num isolamento tirano e tornado crítico, não com as novas tecnologias, porque estas criam laços complementares, mas por uma forma de estar na sociedade em que parece que praticamente só o indivíduo conta.



Criação de verdadeiras paisagens de proximidade

Naturalmente que a recuperação de um uso intenso do exterior na cidade e no habitar, que acabou de ser abordada e defendida, terá tudo a ver com uma adequada (re)criação de verdadeiras paisagens de proximidade, e sobre esta estimulante e urgente matéria, crucial num contexto de crítica deterioração das nossas paisagens urbanas, há que referir, em primeiro lugar, dois aspectos que se julga serem determinantes.

Um primeiro aspecto é que a construção de verdadeiras paisagens de proximidade, adequadas, mas, para além de adequadas, projectadas com qualidade arquitectónica e com verdadeira caracterização local e/ou específica, é um assunto essencial da Arquitectura, pois toda a obra resulta em boa parte dessa relação com o local e nessa relação adquire boa parte do seu carácter; um aspecto que numa linguagem mais corrente tem a ver com a possibilidade de se criarem sítios relativamente únicos e atraentes, excelentes contentores de uma identidade paisagística local, ou de imagem urbana local, que seja um claro elemento aditivo de construção de uma paisagem urbana rica e diversificada.

Um segundo aspecto tem a ver com ser fundamental trabalhar a proximidade, nos seus aspectos de pormenorização, de cuidada diferenciação e de adaptação às inúmeras circunstâncias locais, quando se projecta a escala urbana da vizinhança, pois este é um nível urbano, fundamentalmente usado a pé e com relativo vagar, em que todos dirigimos um máximo de atenção para os aspectos do pormenor, e se ele não existir (como por vezes/tantas vezes não existe) ou se ele for deficiente (como tantas vezes acontece), dificilmente poderá desenvolver-se a fundamental estima para com estes espaços de proximidade.

Há ainda um terceiro aspecto, menos palpável, mas igualmente interessante, que se poderá definir como a capacidade activa de uma paisagem de proximidade para a construção de um sentimento local específico, muito efectivo e afectivo de forte interiorização residencial, um sentimento que poderá marcar os residentes de uma dada vizinhança, com dimensões flexíveis, mas nunca excessivas, e que se caracteriza, frequentemente, por aspectos específicos ou conjugados ligados a um sentido de sítio único e por vezes agradavelmente misterioso, a um sentimento de lugar protector e de sossego, e mesmo a um agradável e ambíguo sentido de imersão na natureza, mas em forte integração urbana.

Tudo isto nunca será possível quando encaramos o habitar como da porta da casa para dentro, pois tudo isto tem a ver com a integração ampla desse habitar e com as formas como ele se relaciona com o seu meio urbano e paisagístico, seja em aspectos de acessibilidade funcional, seja nas fundamentais matérias das visibilidades mútuas e da criação de percursos estratégicos e agradáveis.

E remata-se este pequeno “ponto” sobre as paisagens de proximidade referindo que estamos a tratar de paisagem urbana, ainda que, eventualmente, possa ser ruralizada, e estamos a tratar de sequências e enfiamentos, de vistas de referência e de elementos de surpresa, e tudo isto estamos a tratar sem uma objectiva preocupação de dimensão espacial, pois a relação entre um edifício e o seu passeio contíguo é já paisagem de proximidade, numa diversificação de possibilidades que encontra nas sequências citadinas, de muitas épocas, um inesgotável manancial de referências. Aassim haja a capacidade, a criatividade e a honestidade intelectual para as construir e pormenorizar com uma coerência que tem de ser formal/cultural/sentimental, funcional e construtiva.

Notas bibliográficas:

(1) O conceito dos "terceiros espaços" no habitar - 1.º espaço, a habitação; 2.º espaço, o trabalho; 3.º espaço, o espaço "livre" do lazer, do convívio e também eventualmente do trabalho, mas realizado nos sítios mais diversos - foi introduzido por Ray Oldenburg em “The Great Good Place : Cafes, coffee shops, bookstores, bars, hair salons and other hangouts at the heart of a community”, 1999 (1989).
(2) Jan GEHL,«A Changing Street Life in a Changing Society» in http://repositories.cdlib.org/ced/places/vol6/iss1/JanGehl/, consultado em 13.02.2009.

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
(iv) Para ser possível a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens - é usado o Photobucket; onde, devido ao grande número de imagens, se torna difícil registar as respectivas autorias. Desta forma salienta-se que, caso se pretenda usar essas imagens, se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as respectivas autorias são registadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor abc@lnec.pt

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar n.º 392



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