quinta-feira, agosto 25, 2011

Exemplo de realojamento na Alta de Lisboa: Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – III - Infohabitar 359

Infohabitar, Ano VII, n.º 359

Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – III: Conjunto de realojamento na Alta de Lisboa

Nota editorial:

Com o presente artigo tem continuidade uma nova série editorial no Infohabitar, que à semelhança de outras séries da nossa revista, terá uma edição alternada por outros artigos tematicamente autónomos ou também integrados em séries editoriais específicas.


Iremos editar “Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU” – Prémio Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana –, numa iniciativa que irá divulgar imagens e comentários técnicos de descrição e análise sumária de alguns dos candidatos às primeiras cinco edições daquele Prémio e que se fundamenta no interesse que sempre teve, tem e terá a divulgação de boas práticas de habitat (num sentido lato e verdadeiro de habitat), neste caso associadas a quatro grandes linhas de actividade específicas e que são, em seguida, apontadas:


(i) Promoção de novos conjuntos de habitação de interesse social - numa faceta de actividade em que o Estado e os seus parceiros têm de continuar activos, embora numa perspectiva mais delimitada e provavelmente cada vez mais atenta à adequação das soluções específicas aplicadas e sua qualidade arquitectónica.


(ii) Reabilitação de velhos edifícios e de conjuntos edificados, também com o objectivo específico de disponibilização de habitação de interesse social – um objectivo cujo interesse aqui se sublinha de forma bem evidenciada – ou de outras categorias habitacionais; estas acções de reabilitação habitacional estão e devem estar estrategicamente integradas em centros históricos e em outras malhas urbanas carentes de vitalização e melhoria física, numa faceta de actuação que, hoje em dia, assume importância estratégica e multifacetada, seja para os respectivos habitantes, seja para a cidade que se quer urgentemente mais e melhor habitada.


(iii) Reabilitação de velhos edifícios não-habitacionais para melhoria das suas condições de uso e de conforto no uso, considerando a manutenção das suas funcionalidades básicas ou a respectiva reconversão, total ou parcial, a novos usos; uma faceta de actuação também vital numa perspectiva de melhoria consolidada e durável da globalidade do tecido urbano.


(iv) (e finalmente) Reabilitação de espaços exteriores públicos ou de uso público, numa faceta de actuação com uma importância igualmente estratégica e ainda não devidamente considerada na sua urgência, no seu interesse e nas suas exigências específicas de projecto, obra e manutenção/gestão; afinal, será de uma adequada redinamização do uso dos nossos espaços públicos urbanos, em termos de frequência e intensidade de uso, que decorrerá boa parte da vitalização urbana dessas áreas e não bastam arranjos “de aspecto” para assegurar o êxito destas operações.


Em termos informativos refere-se que o Júri do Prémio IHRU integra representantes das seguintes instituições: Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, Ordem dos Arquitectos e Ordem dos Engenheiros. Em 2007 e porque este Prémio constituiu uma edição única do Prémio INH/IHRU (o Instituto Nacional de Habitação deu lugar ao IHRU no decurso do Prémio), o Júri integrou, ainda, representantes ANMP, da AECOP, da ANEOP e da FENACHE.


Numa primeira reunião do Prémio IHRU é feita uma pré-selecção dos empreendimentos a visitar e é elaborado um programa de visitas. Na última reunião, efectuada após as deslocações aos empreendimentos seleccionados, e após a revisão comentada das respectivas visitas (imagens projectadas) e de uma natural e sistemática discussão técnica o Júri atribui os respectivos Prémios e Menções.


Mais se esclarece que os candidatos aos Prémio IHRU, um prémio exclusivamente honorífico, concorrem nas variantes Construção ou Reabilitação: sendo que na primeira variante (Construção), há várias vertentes/categorias de concurso - Promoção Municipal e Regional, Promoção Cooperativa e Promoção Privada – enquanto na variante Reabilitação há, actualmente (à data da escrita deste artigo), há também várias vertentes de concurso - Reabilitação Isolada de Imóveis, Reabilitação ou Qualificação de Espaço Público e Reabilitação Integrada de Conjuntos Urbanos.


Sublinha-se, no entanto e desde já, que a apresentação dos casos de referência de candidatos ao Prémio IHRU, que irá sendo assegurada pelo Infohabitar, não dará importância significativa a estas vertentes “oficiais” do Prémio, preferindo salientar as quatro grandes linhas de actividade específicas acima apontadas, bem como aspectos específicos e interessantes de cada intervenção e optando por divulgar de forma não sistemática, não exaustiva, temporalmente não ordenada, e “em pé de igualdade” entre casos que obtiveram Prémios, outros que mereceram Menções Honrosas e ainda outros que não tiveram destaque especial no Prémio, mas que o autor destas linhas considera serem também casos com muito interesse e que, portanto, terá utilidade a sua divulgação; pois, afinal, a própria divulgação de casos de referência muito diversificados tem uma utilidade própria e, como bem sabemos, a cidade não se faz apenas de exemplos excepcionais, mas também de casos de referência com aspectos específicos e meritórios cuja divulgação é importante.


E de certa forma o Prémio IHRU tem a sua existência específica, que se vai cumprindo anualmente, e aqui no Infohabitar estamos num outro contexto de divulgação bem distinto e naturalmente mais flexível, até porque os comentários que acompanham as imagens dos conjuntos, edifícios e espaços que irão sendo divulgados, são apenas e naturalmente da responsabilidade do autor do artigo – com a excepção referida às citações das respectivas actas do Júri e/ou dos textos de apresentação dos respectivos catálogos do Prémio (devidamente assinaladas), que são anualmente ditados pelo IHRU.


Salienta-se, finalmente, que será fortemente privilegiada uma componente de ilustração e de imagens dos casos de referência editados, reduzindo-se os textos de comentário e reflexão ao máximo e caracterizando-os por uma perspectiva informal “de visitante” interessado da respectiva intervenção; e que se convidam os respectivos autores, promotores e habitantes a complementarem e a comentarem as respectivas obras e/ou os próprios comentários do Infohabitar, através de simples envios via e-mail à edição do Infohabitar, que, depois e logo que seja possível integrará os respectivos textos e, eventuais, imagens, nos respectivos artigos, ou, e em alternativa (casos de contribuições com dimensão e interesse significativos), poderá decidir pela sua edição autonomizada, se o respectivo autor autorizar esta possibilidade.


Considerando-se que não decorreu, ainda, a cerimónia de entrega dos Prémios IHRU 2011, não serão editados no Infohabitar até essa data candidaturas respeitantes a este anos de 2011.

A edição do Infohabitar



Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – III: Conjunto de realojamento na Alta de Lisboa (47 fogos)

António Baptista Coelho



Fig. 01

Conjunto de 47 fogos na Alta de Lisboa, promovido pela empresa SGAL, S.A., construído pela empresa Teodoro Gomes Alho, S.A., com o projecto do Gabinete Frederico Valsassina Arquitectos, Lda e a coordenação do arquitecto Bernardo Lacasta.

Julga-se que a referência a 47 fogos se refere apenas às bandas unifamiliares, que foram objecto da análise no âmbito do referido Prémio. Destaca-se, no entanto que o presente artigo de análise genérica incide sobre o conjunto de edifícios uni e multifamiliares e os respectivos quarteirões urbanos, aliás, desenvolvidos em intensa e agradável continuidade funcional e de imagens.

“Neste conjunto residencial destaca-se a forte relação entre o edificado e a morfologia do terreno, bem como, a forma como se articula com o conjunto de habitação colectiva adjacente.

O desenho dos espaços exteriores, de grande agradabilidade, identifica-se com o espírito do local e das formas de habitar nesta zona de periferia, contribuindo também para uma valorização do território urbano sob o ponto de vista ambiental.

Tanto nos logradouros como interior das habitações, é explorada uma interessante relação entre o espaço e a luz natural, potenciada pelo uso dos materiais e pelos detalhes construtivos.”

Foi uma citação integral do texto de apresentação do catálogo do Prémio INH/IHRU 19.ª Edição; salienta-se que este texto de apresentação integra a acta do júri do respectivo Prémio, tendo sido, portanto, elaborado, conjuntamente, pelo respectivo Júri.



Fig. 02

Estamos em presença de uma solução de realojamento, desenvolvida pela empresa SGAL, S.A. em grande articulação/parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, marcada por uma clara e racionalizada atractividade e que podemos e iremos utilizar para reflectir sobre diversos e importantes aspectos de uma intervenção urbana e habitacional tipologicamente adequada e bem integrada.

Relação urbana coesa e em agradável continuidade entre uma solução de edifício unifamiliar densificado e uma solução de quarteirão que integra edifícios multifamiliares com dimensão reduzida/humanizada.




Fig. 03

Uma solução unifamiliar densificada de bandas contínuas e com pequenos pátios traseiros privativos contíguos, que cria continuidade urbana, embora estes edifícios sejam expressivamente baixos e as bandas sejam longas.

Uma solução de bandas de edifícios unifamiliares que, no entanto, integra muito positivamente espaços ajardinados públicos e uma estrutura pedonal estratégica.




Fig. 04

Uma solução de quarteirão híbrido em termos tipológicos, e que integra, positivamente três tipologias de habitar funcionalmente bem distintas, mas unificadas pela sua imagem em termos de arquitectura urbana, são elas as seguintes: a tipologia unifamiliar em bandas densificadas já apontada; a tipologia multifamiliar de baixa altura, também já apontada; e uma tipologia de habitar “especial” com imagem idêntica à do multifamiliar, mas que se refere a um equipamento residencial para um grupo social específico.

Esta diversidade tipológica estrategicamente concentrada num território relativamente pequeno e bem delimitado é referência para o que pode e deve ser uma oferta diversificada e bem disseminada de variados tipos de habitar, que em termos de imagem urbana tenha um resultado tão digno como atraente – o que é, naturalmente, aqui o caso.




Fig. 05

Por outro lado e complementarmente o que sucede nesta intervenção é uma redução e concentração estratégica dos espaços exteriores sujeitos à manutenção e gestão pública: atente-se no elevado número de pequenos pátios privados, frontais e posteriores, que servem as bandas de moradias; atente-se no espaço pedonalizado público concentrado que preenche o interior do quarteirão mais urbano (definido por bandas de unifamiliares e de multifamiliares); e atente-se, também, no espaço de miolo deste último quarteirão que está reservado ao uso pelos utentes do equipamento referido e que se integra muito positivamente no interior pedonalizado do quarteirão.

Finalmente e em termos ainda mais urbanos há que sublinhar o carácter razoavelmente pedonalizado que marca o conjunto, onde se conseguiu uma boa “convivência” entre estruturas rodoviárias e pedonais.




Fig. 06

No que se refere à solução doméstica unifamiliar densificada ela é muito interessante pois baseia-se num rebaixamento volumétrico da edificação, desenvolvendo-se os seus pisos mais baixos e os respectivos quintais/pátios posteriores numa larga zona “escavada”, que constitui o miolo dos quarteirões alongados e unifamiliares, numa solução que resulta, tal como já se apontou, numa escala pública muito baixa e aproximada à própria escala humana, um objectivo que é também servido pela própria pormenorização dos pequenos pátios frontais marcados por volumes térreos salientes, pérgulas e portões baixos e “horizontais”.





Fig. 07

O miolo da solução doméstica unifamiliar aproveita, com naturalidade, a referida opção de desenvolvimento das habitações numa zona “escavada”, abrindo-se vista estimulantemente mergulhantes sobre a sala-comum que se prolonga visual e estrategicamente sobre o pátio posterior.




Fig. 08

E finalmente faz-se notar que esta solução unifamiliar densificada, mas com dois pátios (frontal/eventualmente de estacionamento e posterior/de serviço e/ou convivial) tem um elevado potencial de adequação e de apropriação relativamente ao realojamento de famílias muito habituadas a uma vivência em grande relação com o exterior.



Fig. 09

Notas finais:


- a intervenção de nova construção na Alta de Lisboa que foi aqui brevemente apresentada e comentada foi Prémio INH/IHRU 2007


Bibliografia:

PAMPULHA, Rogério; PEREIRA, Teresa; FORJAZ, Isabel - Prémio INH/IHRU 19.ª Edição. Lisboa, Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, 2007 (Dep. Legal 261148/07)

Infohabitar, Ano VII, n.º 359


25 de Agosto de 2011



Editor: António Baptista Coelho




Edição de José Baptista Coelho




Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

Sem comentários :