segunda-feira, novembro 24, 2008

VIVER BEM EM CASA OU VIVER BEM NUM DADO ESPAÇO URBANO - Infohabitar 223

Infohabitar 223
artigo de António Baptista Coelho

Série habitar e viver (melhor), II: VIVER BEM EM CASA OU VIVER BEM NUM DADO ESPAÇO URBANO

VIVER A CASA E VIVER A CIDADE


Podemos estar satisfeitos com uma casa e não estar satisfeitos com a respectiva vizinhança? É difícil que isso aconteça, pois vivemos a casa da porta para dentro e da porta para fora e a boa ou má influência que a envolvente residencial nos transmita irá, sem dúvida, reflectir-se na maior ou menor satisfação que sentimos com o sítio onde vivemos, que quer dizer o sítio que habitamos e que, claramente, abarca bastante mais do que as “quatro paredes” da nossa casa.

A ideia que fica é que podemos, eventualmente, considerar a nossa casa, a tal entre “quatro paredes”, grande parte do sítio que habitamos, e, fundamentalmente, como um verdadeiro refúgio. Tal condição acontecerá, provavelmente, em situações, aparentemente, tão distintas como num bairro caracterizado por um ambiente social complexo e, eventualmente, por más condições de segurança, mas também, por exemplo, num sítio em que vivamos, por exemplo, numa moradia isolada, que pode estar até muito bem equipada, mas onde a respectiva envolvente pouco ou nada nos ofereça em termos de outras dimensões residenciais e urbanas.


Fig. 01: num espaço urbano vitalizado e com excelente escala humana do centro de Coimbra (no decurso de uma visita do Grupo Habitar apoiada pela CM de Coimbra e pelo seu Gabinete para o Centro Histórico)

A comparação foi feita entre pólos tão distintos para que se sinta a importância do que está para lá da porta de entrada da nossa casa, um pequeno mundo de vizinhança que pode ser exactamente, isso mesmo, um “pequeno mundo de vizinhança”, pleno de cenários habitáveis e de relações potenciais, ou então uma espécie de terra de ninguém que só nos dá problemas.

Tal como nos diz M. Imbert (1), em França, nos quase sempre tristes "Grands Ensembles", os habitantes dirigiram a sua satisfação residencial para a habitação, salientando os problemas urbanos das respectivas áreas residenciais. Mas aqui os habitantes encararam, frequentemente, situações urbanísticas caracterizadas por uma crítica carência de vida urbana.

Nesta perspectiva os habitantes dos "Grands Ensembles" valorizaram os aspectos naturais do sítio e o conforto do fogo, apontando já alguns aspectos fulcrais dos erros urbanísticos (afastamento ao centro, problemas de vizinhança, sub-equipamento, etc.), mas esta era a geração cuja felicidade residencial estava em boa parte cumprida com a existência de uma habitação higiénica e funcional, era uma geração saída dos terríveis sacrifícios da guerra.

No entanto as gerações seguintes já tiveram outros termos de referência no que se refere à felicidade residencial, que não a destruição da guerra, e então, com certeza não só devido a essas condições de vizinhança, mas também por causa delas, a revolta começou a grassar nas periferias desumanizadas e soltas da cidade.


Fig. 02: a agradável continuidade urbana e residencial de Campo de Ourique, Lisboa.

Ainda antes de voltar a evidenciar esta fundamental alternativa de se poder viver uma vizinhança urbana viva, atraente, apropriável e ligada à cidade, qualidades estas que dificilmente se encontram em grandes conjuntos habitacionais periféricos, massivamente desenhados e sem vida, importa sublinhar que a referida situação relacional do “para lá das quatro paredes e da porta de entrada da nossa casa”, coloca uma perspectiva raramente interiorizada, mas que parece ser real e muito importante em termos de oferta de um amplo leque de soluções de habitar, referimo-nos à ideia de que o que realmente interessa a cada um de nós, habitante, é “a nossa casa” e, depois, provavelmente, o sítio que habitamos; e, desta forma, entre estes dois pequenos mundos – casa e sítio – uma outra dimensão arquitectónica e urbana fica, de certa forma, “no limbo”, referimo-nos ao edifício.

E podemos considerar mesmo que o edifício poderá ser uma realidade que tratemos de forma muito flexibilizada e operacionalizada considerando-o apenas na medida em que nos seja útil em termos de projecto de arquitectura e em termos de diálogo com os habitantes, porque o que realmente nos interessa é a nossa casa e o nosso sítio, um sítio que terá sempre a ver com uma vizinhança, com um bairro e com uma cidade, se estivermos a falar de um verdadeiro “sítio”.

Mas voltando à questão de uma potencial/teórica escolha entre felicidade doméstica ou felicidade residencial, considerando que esta última integra uma activa relação com o sítio que se habita, podemos “virar o bico ao prego” e lembrarmo-nos de sítios onde são as condições urbanas e de vizinhança que, de certa forma, equilibram negativas condições domésticas – situação que provavelmente caracterizou e caracteriza alguns bairros de barracas e casas abarracadas – e de sítios onde são as agradáveis condições urbanas que se assumem como verdadeiros complementos funcionais, espaciais e ambientais de condições domésticas espacialmente escassas.


Fig. 03: da velha cidade coesa e significante, no Bairro da Sé, no Porto, quando de uma outra visita do Grupo Habitar.

DA CIDADE COESA E SIGNIFICANTE

Etienne de Gröer escreveu que:"Avenidas que não conduzem a nada e cuja grande largura não corresponde a nenhuma função são sempre desertos cheios de poeira" (2).

Falar de cidades felizes, feitas de sítios felizes, é falar de Avenidas e ruas que levam a sítios específicos e cujas características físicas têm uma fundamentação adequada.

Sobre estas matérias de um tecido urbano coeso e sobre uma cidade habitada e bem marcada pelo homem Kevin Lynch (3) sublinha a falta de modelos intermédios de humanização, entre a zona urbana muito animada e o espaço residencial muito sossegado, e este autor reconhece o interesse de uma afirmada humanização da cena urbana que caracterize as ruas residenciais secundárias, apontando, mesmo, algumas soluções formais: a rua encurvada, a ruela sem saída com um remate ajardinado e a praceta residencial. Lynch vai, assim, ao âmago da questão da frequente falta de “sítios felizes” ou potencialmente felizes nas nossas cidades, pois a preocupação dirige-se ou para o “funcionamento” da cidade ou para o edifício, que, provavelmente, ainda não se libertou do anátema de ser considerado uma “máquina de habitar”.

Mas falar de cidades felizes é, acima de tudo, falar de bairros animados e atraentes e de vizinhanças que nos agradam, quando por elas passamos, por vezes sem entendermos a razão desta relação de atracção. E no entanto que ela existe e se exerce, felizmente, em muitos sítios, é um facto real e um facto que está bem aparente no seguinte comentário que um grupo de investigadores do CSTB escreveu e editou sobre os miolos urbanos vivos e felizes do interior do Bairro de Alvalade, em Lisboa:


Fig. 04: espaços urbanos que sejam espaços amigáveis e habitados.


Fig. 05: um pormenor de Benfica, carregado de vida.

“C’est un urbanisme qui réussit à articuler et à hierarchiser, sur une grande échelle urbaine, les différents espaces – des avenues aux impasses, et des espaces les plus publics aux espaces les plus privés. Il est surprenant que cet exemple ne soit pas valorisé davantage, dans la littérature professionelle internationale; il représente en effet une forma idéalt/ypique de la ville urbaine moderne, comparable à celle élaborée par Haussman à Paris ou par Cerda à Barcelone.

A propos de l’Alvalade il faut d’abord parler du plaisir de la déambulation au hasard des avenues et des rues, jusqu’au coeur des îlots. Nous avons retrouvé ce plaisir typiquement urbain du promeneur qui flâne, erre, découvre un lieu inconnu, se laisse surprendre au milieu d’une placette aux allures villageoises, par la diversité des porches, par les mille détails de modénature, par l’échappée visuelle sur un clocher, par l’ambiance champêtre d’un jardin, puis par l’animation d’une grande avenue et qui se prend à rêver qu’il pourrait lui aussi vivre dans cet appartement dont la fenêtre est ouverte et dont s’échappe une odeur de cuisine qui lui évoque des souvenirs...

Peut-être est-ce là un indice subjectif, mais néanmoins bien réel, da la qualité d’un quartier: la capacité du promeneur à s’imaginer habitant le lieu et à l’investir?” (4)

Não é possível deixar de comentar, a propósito deste excelente texto, tão sintético como expressivo, que estão aqui identificadas boa parte das razões de as casas poderem ajudar a uma verdadeira e expressiva satisfação dos seus moradores, e boa parte dessas razões estão nas vizinhanças e no cuidado que houve no seu desenho público, isto é na coordenação entre todas as formas urbanas exteriores – edifícios e espaços exteriores.

Há, assim, já aqui uma tendência para o privilegiar dos espaços de vizinhança, numa sua força pública, que se retomará, noutros artigos desta série, de outras formas.

Notas:
(1) M. Imbert, "Mission d'Études de la Ville Nouvelle du Vaudreil", p. 17.

(2) Etienne de Groer, "Introdução ao Urbanismo", p. 61.

(3) Kevin Lynch, "La Buena Forma de la Ciudad", p. 299.

(4) GUIGOU, Brigitte, LAFORGUE, Jean Didier, SÉCHET Patrice, Qualité architecturale et urbaine et satisfaction résidentielle – Projet nº 233 H3, Rapport de mission”, Programme de Coopération Scientifique et Technique Luso-Française – Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB) – Laboratoire National d’Ingénierie Civile (LNEC), Laboratoire de Sociologie Urbaine Générative, CSTB, Paris, Setembro 1999, p.10.

Edição Infohabitar
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, de Novembro de 2008
Edição de José Baptista Coelho

1 comentário :

Ligia BM disse...

Excelente blog! Tenho acompanhado os textos. Sou arquiteta urbanista aqui no Brasil, e me aflige ver a cada dia mais situações em que a visão da rua como local de perigo têm influenciado na forma de se projetar e construir novos edifícios e condomínios, verdadeiras fortalezas cheias de muros e sistemas de segurança, negando cada vez mais a necessidade de haver interação entre essas ruas e as propriedades privadas, perdendo-se a oportunidade de se criar espaços que favoreçam uma "acomodação entre mundos contíguos" (nas palavras de Hertzberger), "acomodação" essa tão preciosa na contribuição para a qualificação dos espaços públicos urbanos.
Ligia B. Marchi.
Salvador-BA-Brasil.