domingo, abril 06, 2008

“A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro”, um novo livro de Alberto José de Sousa - Infohabitar 191

 - Infohabitar 191
Edita-se esta semana no Infohabitar a apresentação de um novo livro que acabou de sair no Brasil e que trata matérias de grande interesse no cruzamento das correntes e influências na área da Arquitectura desenvolvidas entre Portugal e Brasil.

O livro intitula-se “A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro” e o seu autor, o Arquitecto Alberto José de Sousa é professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal da Paraíba (Brasil) desde 1983, é doutorado na Universidade de Paris I, fez pós-doutoramento na Universidade Nova de Lisboa em 2003 e é autor de divesos estudos e livros.

Desejamos ao colega Prof. Arquitecto Alberto Sousa as maiores felicidades com este seu novo livro e esperamos que, proximamente, ele possa voltar aqui ao Infohabitar com outras colaborações.

Para melhor apresentação deste excelente estudo e por iniciativa do autor, anexa-se, em seguida, a sua sinopse, a sua introdução e uma parte do seu capítulo 3.

A edição do Infohabitar
António Baptista Coelho


“A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro”

Alberto José de Sousa

Sinopse

O livro tem por objeto um segmento da arquitetura portuguesa, produzido na segunda metade do século XIX e afiliado ao classicismo. Tal segmento não foi estudado ainda, como uma corrente arquitetônica individualizada, pela historiografia portuguesa e destaca-se pela particularidade de ter derivado de uma arquitetura desenvolvida no Brasil a partir de 1826. Dele fazem parte marcantes edificações lisboetas, como o Teatro da Trindade.

Perto de 70 exemplares desse segmento – divididos em habitações e prédios públicos – são examinados no livro, que, além de fazer uma análise arquitetônica do exterior de cada um deles (que é retratado em pelo menos uma imagem), classifica-os, compara-os, avalia-os e relaciona-os com a referida arquitetura brasileira. Ademais, o livro aporta um contributo à divulgação da iconografia arquitetônica lisboeta, pois reproduz 26 projetos de fachada que foram submetidos à Câmara Municipal de Lisboa entre 1850 e 1880 (que estão guardados no Arquivo do Arco do Cego, em Lisboa).


Ficha técnica


Título: A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro
Autor: Alberto Sousa
Editor: Editora Universitária/UFPB (Brasil)
ISBN: 978-85-7745-127-5
Data: 2007
Nº de páginas: 200 (incluem 116 ilustrações e bibliografia)
Dimensões: 14,5 x 21,5 cm
Acabamento: brochura, capa plastificada e com orelhas
Cores: texto e maioria das ilustrações em preto e branco; 26 ilustrações e capa em policromia
Impressão: Imprima Gráfica e Editora


Capa do livro

“A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro”


Introdução


Na segunda metade do século XIX, construíram-se, em Lisboa e outras localidades portuguesas, numerosas edificações (como o lisboeta Teatro da Trindade) que se assemelhavam bastante com a arquitetura classicista produzida no Brasil imperial a partir da segunda metade dos anos 1820, por nós denominada classicismo imperial brasileiro – a qual tem sido, em geral, rotulada, erroneamente, como neoclássica.(1)

A constatação deste fato levou-nos a investigar um bom número dessas edificações, a compará-las com prédios brasileiros assemelhados e a procurar conhecer contextos relevantes existentes na época do aparecimento delas. E o conhecimento daí resultante fez-nos concluir que elas constituíram um eco ou desdobramento da citada arquitetura brasileira – conclusão lógica, fundamentada na expressiva anterioridade de boa parte desta em relação a elas e na intensa comunicação existente entre o Brasil e Portugal no terceiro quartel do Oitocentos.

Se nossa dedução está correta, como evidências indicam, estaremos diante de uma situação inovadora, marcada por uma inversão do fluxo das influências arquitetônicas entre os dois países, que tradicionalmente tinha tido, durante três séculos, Portugal como origem. Pela primeira vez, apenas três décadas após sua independência, o Brasil conseguia exportar para sua ex-Metrópole um tipo de arquitetura nele desenvolvido, o que era um feito notável tendo em vista que o mais natural é que Portugal procurasse modelos nas arquiteturas européias mais avançadas, como as da França e da Itália – terras de onde provinham, inclusive, profissionais nele atuantes.

Esses fatos fazem com que o estudo do acervo formado pelos edifícios portugueses em questão interesse à historiografia arquitetônica brasileira. Por isso e porque tal estudo não havia sido feito ainda, nós, que já tínhamos pesquisamos a fundo o classicismo imperial brasileiro (estilo pelo qual temos grande admiração), vimo-nos no dever de realizá-lo, e o realizamos.

Foi para expor aos leitores os resultados desse estudo que este livro foi elaborado.
Como o acervo atrás referido não foi ainda batizado,(2) é preciso que adotemos um nome para identificá-lo, visto que estaremos constantemente referindo-nos a ele ao longo deste trabalho. Pareceu-nos apropriado designá-lo pela expressão classicismo à brasileira, formada pelo nome da linguagem maior que o caracteriza e um qualificativo que faz alusão à arquitetura que lhe deu origem. Com ela, o acervo fica identificado de forma suficientemente clara, porquanto não houve em Portugal nenhum outro segmento arquitetônico classicista inspirado no Brasil.

As edificações do classicismo à brasileira eram habitações, tanto unifamiliares quanto coletivas, e prédios públicos de diferentes funções, como teatros, escolas, edifícios da administração pública e estações ferroviárias – estas e os teatros aparecendo em maior número no levantamento que efetuamos. As habitações antecederam um pouco os prédios públicos.

Foi em Lisboa e arredores que as moradias no estilo em foco brotaram com mais intensidade – num nível tal que lá conseguiram deixar uma marca significativa na paisagem edificada de áreas que prosperaram na segunda metade do Oitocentos. Por isso, e por motivos logísticos, foi na Grande Lisboa (onde residimos em 2000-2001, época em que catalogamos o acervo objeto deste trabalho) que concentramos o nosso levantamento de imóveis residenciais, que identificou dezenas de unidades, donde retiramos aquelas que formam a grande maioria das habitações comentadas neste livro. Mas encontramos também exemplares interessantes de casas classicistas à brasileira em cidades menores que visitamos, como Santarém, Coimbra e Aveiro. E soubemos, por livros e pela Internet, da existência de outros exemplares em cidades nortenhas, como Fafe e Braga.

Já em relação aos prédios públicos, a concentração em Lisboa mostrou-se bem menor, de acordo com nosso levantamento, exemplares deles tendo sido detectados em muitas localidades, duas das quais situadas fora do Portugal continental (uma nos Açores e a outra numa ex-colônia portuguesa, a Angola).

Para encontrar a maior parte do acervo do classicismo à brasileira por nós catalogado, recorremos a dois procedimentos principais: a busca no terreno de exemplares dele e uma ampla pesquisa iconográfica.

Esta última foi feita em fontes variadas, como: guias arquitetônicos recentes e antigos (dentre os quais deve ser ressaltado o Guia Urbanístico e Arquitectónico de Lisboa, editado em 1987 pela Associação dos Arquitectos Portugueses); revistas da segunda metade do Oitocentos (como Archivo Pittoresco); livros que reúnem fotografias antigas, a exemplo dos vários volumes da coleção Lisboa Desaparecida, de Marina Tavares Dias; e, mais recentemente, a Internet. A mais rica de tais fontes foi sem dúvida a notável coleção de alçados do Arquivo do Arco do Cego, da Câmara Municipal de Lisboa, na qual incluem-se os projetos de fachada submetidos à aprovação da administração lisboeta durante os anos de florescimento do classicismo à brasileira (nessa época já se exigia em Lisboa a submissão de projetos arquitetônicos ao poder municipal). Foi consultando mais de uma centena desses alçados, empreitada extenuante mas frutífera, que achamos uma grande parte do acervo por nós catalogado – operação que nos proporcionou a recompensa adicional de entender e visualizar a evolução da arquitetura da capital portuguesa no decorrer do período 1850-1880.

O outro procedimento apontado consistiu em percorrermos bairros lisboetas que tinham conhecido uma expressiva expansão imobiliária em tal período, a maioria dos quais situam-se na parte ocidental da cidade compreendida entre o eixo Av. da Liberdade–Rua do Ouro e a Av. de Ceuta. Essa exploração de campo foi essencial porque permitiu-nos não apenas identificar edifícios, mas também examiná-los in loco e fotografá-los.

Digamos agora algumas palavras sobre a estrutura que decidimos dar a este livro. O formato que pareceu-nos mais conveniente foi dividir o seu texto em quatro segmentos: esta introdução e três capítulos. O primeiro mostrará como surgiu o classicismo imperial brasileiro e como ele desenvolveu-se até o fim da década em que ecos seus começaram a aparecer em Portugal: os anos 1850; entre os edifícios que nele serão mencionados ou comentados estão aqueles que foram os modelos principais para o classicismo à brasileira. No segundo, este estilo será submetido a um estudo global, onde serão analisados os mais importantes tipos de edificação residencial e 17 exemplares da arquitetura pública por nós selecionados – e onde se apontarão os prováveis laços de descendência entre ele e a linguagem brasileira que lhe deu origem. O terceiro também terá o classicismo à brasileira por objeto, mas enfocará apenas a arquitetura residencial (que merece um tratamento especial, por corresponder a três quartos do acervo enfocado neste livro), fazendo um exame do exterior de 40 casas que escolhemos.

O que dava identidade à grande maioria dos exemplares do classicismo à brasileira era principalmente a combinação de dois traços que não eram característicos da arquitetura portuguesa (uso predominante, nas frontarias, de vãos encimados por verga semicircular e o emprego de platibandas cheias ou vazadas) (3) com algumas das características mais tradicionais desta, que tinham sido assimiladas pelo classicismo imperial brasileiro – como a decomposição das fachadas em retângulos delimitados por cunhais, pilastras, cimalhas e balcões, e o uso da bicromia, gerada geralmente pela utilização de dois materiais diferentes, para acentuar a distinção entre os elementos salientes e o plano básico das paredes externas.

A fenestração dominada por vãos com verga semicircular fora um traço bem típico da arquitetura palaciana da Florença renascentista. No início do Oitocentos, houve uma revalorização dessa arquitetura pelos franceses, no contexto dos revivalismos românticos, o que levou a que tal gênero de fenestração fosse reutilizado por eles.

Um arquiteto francês que emigrou para o Brasil após a derrocada napoleônica – Grandjean de Montigny, que estudara detalhadamente vários edifícios renascentistas florentinos e publicara um livro sobre eles (4) – introduziu essa característica no Rio de Janeiro em dois projetos seus elaborados na segunda metade dos anos 1810: a Praça do Comércio e a Academia de Belas Artes, concepções de inspiração neoclássica. E na metade final da década seguinte, um outro arquiteto francês, Pezerat, fez um uso particularmente enfático da característica na ala de três pavimentos que projetou para a residência real de São Cristóvão, também no Rio de Janeiro (que estava concluída em 1831), na qual utilizou exclusivamente vãos com verga semicircular nas quatro elevações da edificação – que já exibiam a linguagem do classicismo imperial brasileiro. Depois disso, a fenestração à florentina foi amplamente empregada neste, tornando-se um dos traços principais do estilo.

Como foram principalmente edifícios dotados de tal fenestração que serviram de modelo para o classicismo à brasileira, ela passou a caracterizar a maioria dos exemplares deste. Porém, em alguns destes que possuíam dois pisos, a fenestração da frontaria foi dividida – meio a meio – em vãos com verga semicircular, concentrados num pavimento, e vãos com outros formatos de verga, colocados no outro (o que também ocorreu no classicismo imperial brasileiro).

Note-se que a presença da verga em arco pleno na maioria ou metade dos vãos da frontaria não é uma exigência para que um edifício faça parte do classicismo à brasileira. Estão incluídos neste alguns prédios que não atendiam a essa condição, mas eram muito parecidos com exemplares do classicismo imperial brasileiro, inclusive um cuja elevação frontal só apresentava aberturas com verga reta (solução adotada em várias edificações nessa última linguagem).

As platibandas vazadas, com balaústres, já tinham sido empregadas em Portugal, principalmente depois do meado do Setecentos, em alguns edifícios barrocos ou rococós e em vários prédios afiliados ao neoclassicismo internacional, de gosto inglês, francês ou italiano. Mas como elas conflitavam com a tradicional preferência portuguesa pelos beirais aparentes, elas foram, em certas obras, adotadas apenas nas elevações frontais (os beirais sendo mantidos nas demais), parecendo, nelas, um mero acréscimo decorativo, que não contribuía para a definição da volumetria. Um notável edifício em que isso aconteceu é o Palácio dos Carrancas, no Porto, de fins do século XVIII.

Já as platibandas cheias foram raras em Portugal antes do surgimento do classicismo imperial brasileiro (seu uso só começou a se ampliar, na certa por influência deste, nos anos 1850). Os países importantes onde seu emprego tinha sido mais freqüente eram a França e a Inglaterra. E foi por influência deles que esse tipo de coroamento foi introduzido no Brasil, na segunda metade dos anos 1810 (portanto, quando o classicismo imperial brasileiro ainda não existia), em dois prédios: a já referida Praça do Comércio, do francês Grandjean de Montigny, encimada por uma platibanda alta, e a Associação Comercial, em Salvador, edifício que, embora traçado por um engenheiro português, tinha nítidas afinidades com o palladianismo inglês.

Em meados da década seguinte, Pezerat utilizou uma platibanda cheia baixa no prédio da Academia Militar do Rio de Janeiro, o primeiro exemplar do classicismo imperial brasileiro, e depois disso esse tipo de coroamento tornou-se uma das características definidoras dessa nova linguagem. Na verdade, um requisito para que um edifício seja considerado um exemplar desta é estar encimado por uma platibanda cheia ou vazada (especialmente uma com balaústres, no último caso).

Se as platibandas distinguiam o classicismo à brasileira dos estilos tradicionais da arquitetura civil portuguesa (nos quais desempenhavam um forte papel os telhados e seus beirais), elas (sobretudo as com balaústres) o aproximavam dos prédios neoclássicos erguidos no país. Mas outras características se encarregavam de garantir a distinção entre ele e tais edifícios.

Uma delas, talvez a mais importante, era a ausência, no classicismo à brasileira, do pavimento térreo rusticado (contrastando com os andares sem rusticação), um componente habitual da arquitetura neoclássica produzida em Portugal. Tal ausência era mais uma tradição da arquitetura civil portuguesa do período 1600-1750 que se fazia presente no classicismo à brasileira – o qual, contrariando uma tendência do neoclassicismo internacional, preferiu dar aos alçados do térreo e dos andares tratamentos semelhantes, como fizera o estilo chão.

Outra diferença era o fato de o classicismo à brasileira não usar nas fachadas colunas colossais, elementos que tinham presença quase obrigatória nas frontarias dos prédios neoclássicos. Assim, quando estas não exibiam rusticação no térreo (Palácio Real da Ajuda), suas colunas colossais bastavam para distingui-las das elevações do classicismo à brasileira.

Os vãos com verga semicircular destas elevações constituíram outro traço diferenciador dos dois estilos, pois só em casos excepcionais, como o Teatro de D. Maria II, é que vãos desse tipo tiveram uma participação importante nas frontarias neoclássicas portuguesas (esse teatro é, contudo, inconfundivelmente neoclássico, em razão do seu térreo rusticado e das oito colunas colossais do seu pórtico). Portanto, edifícios civis portugueses do Oitocentos com platibanda e com vãos de verga em arco pleno exercendo um papel destacado na fenestração são, na sua maioria, exemplares do classicismo à brasileira.

Essas três características garantiram a distinção entre este e o neoclassicismo português, apesar das platibandas e de outro traço que era comum aos dois estilos (embora tenha tido uso moderado no primeiro): o coroamento da fachada com um frontão triangular.

Duas outras características do classicismo à brasileira que não podem ser esquecidas provieram de tradições portuguesas que tinham sido assimiladas pelo classicismo imperial brasileiro.

Uma, proveniente do estilo chão, era o fato de as fachadas serem rasas. Em regra geral, elas apresentavam um plano básico amplamente dominante (o paramento da parede externa), de onde se projetavam minimamente pilastras, cimalhas, cercaduras e outras molduras, que não chegavam a configurar um outro plano; quando saliências mais pronunciadas existiam, geralmente se limitavam a balcões, que mesmo gerando, em pequenos trechos, um plano visivelmente avançado em relação ao básico, não conseguiam, com isso, alterar significativamente a forte preponderância deste. Essa característica esteve pressente em edificações civis luso-brasileiras das últimas décadas do Setecentos e das primeiras do Oitocentos e foi absorvida pelo classicismo imperial brasileiro, quando este se formou.

A outra característica foi o uso do azulejo para revestir as fachadas. Ela constituiu um desdobramento da tradição portuguesa de cobrir paredes internas com tal material e teve sua origem em igrejas do Brasil setecentista. O classicismo imperial brasileiro redescobriu-a e incorporou-a aos seus recursos estéticos depois de 1850, enriquecendo-se com isso em termos de funcionalidade, beleza e originalidade. Em Portugal, ela encontrou largo emprego, tendo sido utilizada não apenas no classicismo à brasileira, mas também noutras linguagens da segunda metade do século XIX.

Concluiremos a caracterização estilística do classicismo à brasileira acrescentando que de um modo geral a geometria manifestava-se com força nas suas elevações. Eram responsáveis por isto as linhas simplificadas e geométricas de saliências marcantes, como cercaduras, pilastras e cimalhas, e a presença, nas fachadas, de uma trama ortogonal saliente decompondo-as em painéis retangulares.

Feitas estas considerações necessárias, é hora de dirigir o nosso foco para o classicismo imperial brasileiro, a fim de explicar sua origem e apontar momentos marcantes de sua evolução até o desabrochar de sua variante portuguesa, passo indispensável para a construção do nosso discurso a respeito desta.

NOTAS
(1) Para conhecer essa arquitetura ver as seguintes obras minhas: Arquitetura neoclássica brasileira: um reexame, São Paulo, Pini, 1994; O classicismo arquitetônico no Recife imperial, João Pessoa-Salvador, Editora Universitária/UFPB-Fundação João Fernandes da Cunha, 2000; O ensino da arquitetura no Brasil imperial, João Pessoa, Editora Uni-versitária/UFPB, 2001; “Origens da arquitetura classicista do Império”, in Ivan Mizoguchi & Nara Machado (orgs.), Palladio e o Neoclassicis-mo, Porto Alegre, EDIPUCRS, 2006, p. 151-170.

(2) Em regra geral, as análises portuguesas não têm individualizado esse acervo: elas simplesmente têm visto os componentes dele como exemplares tardios da arquitetura neoclássica. Só temos conhecimento de uma única exceção a esta regra: a tese de doutoramento da Profª. Raquel Henriques da Silva, Lisboa Romântica - Urbanismo e Arquitectura, 1777-1874, defendida em 1977 na Universidade Nova de Lisboa (FCSH). Nesta está escrito (p. 493): “Lisboa da Regeneração [a Regeneração foi um período histórico de Portugal iniciado em 1851], pelo menos até 1874, elegeu na arquitectura doméstica como gosto dominante uma espécie de ‘revivalismo classicista’, que não é correto chamar neoclassicismo tardio”. Todavia, nela não está dito que esse classicismo diferente foi adotado também em prédios públicos e não apenas em Lisboa – sendo, portanto, um estilo de difusão bem maior que a sugerida pela tese.

(3) No classicismo à brasileira, as platibandas vazadas assumiram variadas feições, mas as mais comuns foram aquelas recortadas por panos retangulares preenchidos com balaústres pouco espaçados – que tinham sido muito utilizadas na arquitetura neoclássica.

(4) L’Architecture toscane, publicado em 1815.

“A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro”

parte do Cap. 3, intitulado “O classicismo à brasileira: uma visão global”

De acordo com os achados da pesquisa que efetuamos, o primeiro edifício do classicismo à brasileira foi construído em Lisboa, em 1857-58, para abrigar lojas no térreo e moradias nos andares.

Sua linguagem equilibrada e agradável era uma bem-vinda forma de expressão que se incorporava ao heterogêneo e con- fuso panorama estilístico da arquitetura residencial, sem brilho, que Lisboa tinha produzido na década.

Deram-nos uma boa visão da heterogeneidade estética de tal arquitetura os numerosos projetos de fachada submetidos à apreciação da Câmara Municipal de Lisboa, que esta cuidado-samente guarda no Arquivo do Arco do Cego.

Apesar de sua diversidade, foi-nos possível repartir a maior parte desses projetos em três grandes categorias.

A primeira reúne as fachadas cujo esquema compositivo se afiliava à estética do estilo chão. Elas podem ser exemplifica-das pelo alçado, de 1851, mostrado na Fig. 12. As característi-cas principais delas eram: (a) os beirais dos telhados ficavam aparentes, (b) havia cunhais, mas não pilastras intermediárias, (c) os cunhais terminavam, no alto, numa espécie de estranho capitel que em vez de apoiar a cornija, fazia parte dela, (d) os pavimentos ficavam separados por uma estreita cimalha lisa, e (f) as aberturas tinham verga reta e/ou em arco abatido.


12. Projeto para a casa nº 122, à Rua Direita da Junqueira (Alçado nº 263 do Arquivo do Arco do Cego)

A segunda categoria é formada por frontarias que seguiam esquemas pombalinos. Altas, elas compunham-se de três ou mais pavimentos, alguns dos quais ficavam separados por uma estreita cimalha lisa (existente geralmente entre o térreo e o primeiro andar, e entre o segundo e o terceiro andares). Elas exi-biam também os traços apontados nos itens (a), (b) e (c) do parágrafo anterior. Ademais, em geral elas apresentavam nos andares aberturas encimadas por verga reta, enquanto no tér-reo estas apareciam freqüentemente misturadas com vãos de verga em arco abatido. Um formato peculiar de cercadura foi muito empregado nelas: aquele no qual os membros verticais ultrapassam um pouco o horizontal inferior.1 Esta categoria fica bem representada pelo alçado exibido na Fig. 13, traçado em 1851 pelo arquiteto Malaquias F. Leal – funcionário da Câmara Municipal de Lisboa que durante anos emitiu pareceres sobre os projetos arquitetônicos a ela submetidos.2


13. Projeto para prédio à Rua de São Francisco
(Alçado nº 238 do Arquivo do Arco do Cego)

Relativamente homogêneas, essas duas categorias são um testemunho da persistência de tradições.

Heterogênea e complexa, a terceira categoria tem um es-pírito bem diferente. O que lhe dá identidade é o fato de seus projetos tentarem criar novas expressões estilísticas através da combinação de elementos compositivos pertencentes a lingua-gens distintas.

Quase sempre tais elementos eram (a) aqueles característi-cos das duas precedentes categorias de edifícios, (b) traços classicistas, como o frontão triangular e a platibanda, e (c) aber-turas de formato ogival. Da mistura deles resultaram fachadas com aparências muito variadas.

Algumas tinham estruturação básica à maneira pombalina, mas apresentavam-se vazadas por vãos ogivais e/ou estavam coroadas por uma platibanda. O alçado que se vê na Fig. 13 foi rejeitado porque se deu preferência a uma versão modificada dele na qual as janelas tinham forma ogival.

Outras eram composições organizadas, no geral, à maneira da arquitetura chã, mas que estavam encimadas por um fron-tão triangular (colocado geralmente no alto de um último andar, mais estreito e centralizado) e/ou por uma platibanda – mais ou menos como se vê no projeto, de 1861, exibido na Fig. 30 – e/ou tinham aberturas em arco ogival.3


14. Projeto para a casa nº 83-85, à Calçada da Estrela
(Alçado nº 748 do Arquivo do Arco do Cego)


Por vezes, no lugar deste usavam-se nas vergas dos vãos outros tipos de arco herdados dos tempos medievais – como o trilobado.

Note-se que ainda nos anos 1860 – ou seja, em pleno flo-rescimento do classicismo à brasileira – projetos de elevações enquadradas nas três categorias apontadas foram submetidos à Câmara Municipal de Lisboa. Um deles (de 1860), com jane-las ogivais, aparece na Fig. 14.

Além das fachadas incluídas nessas três categorias, algumas frontarias de fisionomia peculiar foram erguidas em Lisboa e seus arredores na década de 1850.

Na arquitetura de uso público, o estilo dominante nessa dé-cada era o neoclássico, que em Lisboa chegara ao apogeu nos anos 1840, com a construção do Teatro de D. Maria II. Afiliava-se a ele o principal edifício público então em execução na capital portuguesa: a Escola Politécnica. O mesmo acontecia na cidade do Porto com o prédio correspondente: o Palácio da Bolsa. Convém assinalar que a linguagem manter-se-ia em uso no decênio seguinte e mesmo posteriormente, competindo com o classicismo à brasileira.

Foi na certa a insatisfação com esse contexto arquitetônico que levou Francisco José Gonçalves de Oliveira a decidir que a arquitetura exterior do prédio que ele pretendia construir à Rua da Patriarcal Queimada (que é o hoje o imóvel nº 53-71 da Rua da Escola Politécnica) tivesse por modelo um novo estilo que florescia no Brasil: o classicismo imperial. Dessa decisão nasceu o edifício que marcaria o início do classicista à brasileira. Ele tornar-se-ia conhecido como a Casa das 11 Portas.

Seu projeto (Figs. 15 e 16) foi submetido à Câmara de Lisboa em 1857 e sua construção foi concluída no ano seguinte.

Sua elevação frontal (Fig. 17) exibia algumas das principais características do classicismo imperial brasileiro, como a plati-banda cheia, a fenestração uniforme com vãos de verga semi-circular e a presença de pilastras e cimalhas dividindo a facha- da em vários painéis.


15. Projeto de elevação frontal para a Casa das 11 Portas
(Alçado nº 563 do Arquivo do Arco do Cego)


16. Projeto de elevação lateral para a Casa das 11 Portas
(Alçado nº 563 do Arquivo do Arco do Cego)

Uma notícia de jornal considerou-a “exótica”, na época da inauguração do prédio,4 julgamento que permite deduzir que o seu estilo era então inédito em Lisboa – conclusão idêntica à emanada de nossa pesquisa.

Para nós, o exterior do edifício foi modelado a partir de dois exemplares do classicismo imperial recifense (lembremos que nos anos 1850 o Recife era habitado e visitado por muitos por-tugueses e mantinha estreitos contactos com Portugal).

Um era o bonito e admirado Teatro Santa Isabel, concluído em 1850 – então sem rivais na nova arquitetura brasileira.

Sua elevação posterior (Fig. 18) foi a que inspirou a frontal da Casa das 11 Portas, no que concerne à fenestração, à de-composição em painéis (que nos dois edifícios contêm um ou três vãos) e ao coroamento (platibanda cheia sem frontão triangular). Note-se que a última elevação não foi construída exata-mente como determinava o seu projeto (Fig. 15): revestiu-se integralmente o térreo com cantaria e suprimiram-se as moldu-ras das enxutas, as situadas entre as ombreiras das cercadu-ras e algumas previstas na platibanda.

Já o alçado lateral do corpo principal do teatro (Fig. 20) serviu de modelo para o projeto da elevação lateral do prédio lis-boeta: neles repetem-se o tipo de fenestração, as cimalhas (entre pavimentos e na altura dos peitoris) e as molduras horizontais ligando as bases das vergas arqueadas dos vãos. Observe-se que na fachada que foi construída (Fig. 19) não foram executadas as cimalhas entre os pavimentos projetadas no traçado aprovado pela Câmara.

O outro modelo deve ter sido o Palácio da Soledade (Fig. 21), que já havia servido de inspiração para o Teatro Santa Isabel. Além de ser outra origem de algumas das lições por este propiciadas, ele sugeriu o uso, na elevação frontal, de moldura nas ombreiras dos vãos, de janelas de sacada nos andares e de um balcão corrido num desses – e na certa o emprego de molduras nas enxutas. Ademais, ele deu uma mostra da aplicação de suas fórmulas compositivas num prédio de três pisos.


Currículo do autor

Nascido em João Pessoa, Brasil (1951), Alberto José de Sousa é arquiteto graduado pela Universidade Federal de Pernambuco (Recife, 1973). Fez mestrado (M Phil) na Universidade de Edimburgo (1979), doutorado na Universidade de Paris I (1990) e pós-doutorado na Universidade Nova de Lisboa (2001). Escreveu os livros Arquitetura neoclássica brasileira: um reexame (1994), O classicismo arquitetônico no Recife imperial (2000), O ensino da arquitetura no Brasil imperial (2001), Do mocambo à favela: Recife, 1920-1990 (2003) e A invenção do barroco brasileiro: a igreja franciscana de Cairu (2005). É co-autor do livro Guia do Recife: arquitetura e paisagismo (2004). É professor do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal da Paraíba (Brasil) desde 1983.

A aquisição do livro poderá ser feita na livraria da respectiva editora, a Casa do Livro (tel. 55-83-32167327 e e-mail livrariacasadolivro@gmail.com
Para se adquirir o livro em Portugal uma maneira prática será pela Internet, no site da Livraria Cultura (http://www.livcultura.com.br/).

Notas finais:

- Os elementos de conteúdo do livro foram enviados ao Infohabitar pelo respectivo autor, Alberto José de Sousa.

- A preparação da edição no Infohabitar foi realizada por ABCoelho em 5 de Abril de 2008.

- A edição no Infohabitar foi realizada por José Baptista Coelho em 6 de Abril de 2008.

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