domingo, junho 05, 2016

Trabalhar em casa, escritório doméstico, home office (I) - Infohabitar n.º 585

Na imagem: parte da Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, que no dia 30 de abril de 2016 comemorou o seu 30.º aniversário
Infohabitar, Ano XII, n.º 585

Trabalhar em casa, escritório doméstico, home office (I) - Infohabitar n.º 585

António Baptista Coelho
Artigo CII da Série habitar e viver melhor


Atualidade:

(4.º CIHEL, lançado aqui na Infohabitar, na próxima semana)
4.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono, desta vez associado a uma série de atividades, e a diversas cidades, decorrerá novamente em Portugal, entre 5 e 10 de março de 2017; na próxima semana, aqui na Infohabitar, terá início o lançamento do 4.º CIHEL.



Neste artigo da “Série habitar e viver melhor”, abordamos a atual realidade, em tantas habitações e ainda tantas vezes pouco ou nada considerada, do trabalho em casa – numa perspetiva de trabalho muito associado a um posto de trabalho “em mesa” e atualmente muito informatizado; portanto o que podemos designar por escritório doméstico – em inglês home office (matéria que já proporcionou teses de arquitetura).
E dá vontade de dizer, desde já, que sendo embora uma realidade atualmente presente em grande número de famílias e habitações não encontrou ainda força programática específica – afinal, o programa funcionalista da “máquina de habitar” acaba por ser frequentemente muito rígido e pouco favorável às necessárias atualizações; ou será esta uma situação que carateriza uma parte significativa e menos sensível/atualizada da oferta habitacional?

Escritórios e espaços de trabalho profissional em casa

Esta temática do trabalho profissional ou não-doméstico em casa – habitual e globalmente designado por home-office – poderia inaugurar um outro grande capítulo desta série editorial, o que não se pretende, pensando-se no tema numa perspectiva suplementar às actividades mais directamente ligadas à habitação.

Os espaços para trabalho profissional ou não-doméstico em casa devem ser razoavelmente separados dos restantes espaços da casa e estarem próximos do vestíbulo de entrada, tanto porque podem apoiar actividades que exigem algum sossego e isolamento (escrita, estudo e leitura) ou porque podem ser pouco compatíveis com a habitação (produzem ruídos e lixos), ou porque essas actividades podem incluir a recepção de estranhos à família.

Considera-se ainda que uma opção por uma habitação que integra um pequeno espaço de home-office pode inverte-se em situações em que a actividade profissional assume uma importância determinante, e que se ligam a interessantes formas específicas de habitar e de viver. Lembra-se, por exemplo, o habitar e trabalhar de algumas pessoas idosas e com deficiências físicas ou sensoriais, mas ainda profissionalmente activas, e que transformam a sua habitação num espaço quase unificado em que vivem, descansam, convivem e trabalham, conjugando um máximo de actividades num único grande espaço multifuncional – uma situação que muito ganhará com a possibilidade de se desenvolver um amplo espaço vivencial, muito agradável, funcional e que seja usável com autonomia relativamente a outras zonas domésticas.

E, naturalmente, haverá, sempre, o exemplo, “clássico”, do profissional que integra o seu espaço de trabalho na sua habitação e que, nesse sentido, tentará, na medida do possível separar, ao máximo, as duas funções, para que qualquer delas possa ser desempenhada com a máxima autonomia e eficácia – e neste caso é clara a necessidade de uma acessibilidade o mais possível autónoma relativamente aos espaços comuns ou públicos e de um apoio o mais possível autónomo em termos de serviços sanitários.

De qualquer forma não parece ser fácil a integração de espaços profissionais em habitações rigidamente hierarquizadas em zonas chamadas “funcionais”, de estar e de quartos, assim como não parece ser fácil a integração de espaços profissionais em habitações cujas dimensões estão directamente associadas a um reduzido leque de ocupações habitacionais próximas de áreas e dimensões consideradas mínimas. Podemos mesmo sublinhar a grande dificuldade de integração de um home-office numa pequena habitação em que se entra directa ou quase directamente para uma pequena sala-comum e desta sala se passa para uma rígida zona de quartos – e sublinha-se o potencial de adaptabilidade e de apropriação e liberdade doméstica que se perde com tais opções.

Fig. 01: o espaço de trabalho profissional doméstico exige condições específicas, seja integrado com outras funções domésticas (como é o caso na imagem), seja com condições de localização, espaciais e de certa autonomia particularizadas; e não tenhamos dúvidas de que muitas dessas condições dependem de um bom projeto de arquitetura, que as propicie, mesmo em condições de espaciosidade mínimas, como acontece na imagem   – habitação integrada no conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Tina Wik.

Escritório doméstico, home office - associações interessantes

A associação mais corrente é assegurada entre zonas de trabalho e zonas de entrada na habitação, uma solução que proporciona o funcionamento praticamente independente da referida zona de trabalho, um funcionamento que se caracteriza por total autonomia caso esta zona tenha uma casa de banho privativa ou muito próxima.

As associações mais interessantes são feitas entre as zonas de trabalho e as zonas de estar, seja numa perspectiva de forte associação em continuidade espacial, seja numa associação que permita o funcionamento dos espaços de estar e de trabalho independentemente ou de forma unificada.

Escritório doméstico, home office - hábitos interessantes


As zonas para trabalho não doméstico e para recreio podem ser muito variadas, apontando-se as seguintes:
·        Salas, saletas e quartos de trabalho e/ou de lazer e recreio.
·        Varandas e anexos (variados tipos de trabalhos manuais e oficinais).
·        Quintal ou pátio privado (especialmente para horticultura e floricultura).
·        Quartos de trabalho e escritórios, que são quartos específicos e relativamente especializados, ou, pelo menos, autonomizados nos seus acessos.
·        Sítios para trabalhar
·        Sítios para ler, para ouvir música, para ver televisão
·        Associação de conjuntos de pequenos espaços ou sítios, como os que acabaram de ser referidos, em "suites", compostas por diversos desses espaços, além das zonas de dormir/repousar  e dos apoios em casas de banho; uma solução muito ligada a casais e pessoas isoladas que queiram conciliar a convivência familiar com a manutenção e o desenvolvimento dos seus "universos pessoais" – uma possibilidade associada aos mais diversos grupos etários, embora com evidente aplicação no caso da habitação de pessoas idosas e de jovens adultos. No limite esta solução poderá dispor de acesso independente e mesmo de alguns apoios mínimos para preparação de refeições, numa solução que dá à habitação um enorme potencial de adaptabilidade e versatilidade. Naturalmente que esta solução deve ser adequadamente tratada em termos de privacidade visual e acústica relativamente ao resto da habitação, bem como da sua máxima autonomização em termos de acesso ao exterior da habitação.


Escritório doméstico, home office - aspectos motivadores

As zonas de trabalho são marcadas, idealmente, por uma forte apropriação seja em termos de ocupação por mobiliário, seja em termos de elementos funcionais.


Escritório doméstico, home office - problemas correntes

Os principais problemas referem-se, frequentemente, a intrusões mútuas, em termos de ruído e de privacidade, entre as zonas de estar e as zonas de trabalho em casa.
E esta é matéria que exige muito trabalho de investigação teórico-prático e urgente.


Escritório doméstico, home office - questões levantadas (dimensionais e outras)

As questões levantadas com mais frequência terão a ver, como se referiu, com aspectos de isolamento ou separação relativamente aos ruídos domésticos e de privacidade relativamente às actividades que se desenrolam em casa. No entanto é fundamental a existência de condições adequadas ao desenrolar das várias actividades com destaque para os outros aspectos de conforto ambiental, e designadamente com aspectos de iluminação natural, ventilação e temperatura.

Os aspectos dimensionais parecem não levantar problemas críticos, acontecendo, frequentemente, que os espaços para trabalho profissional ou não-doméstico em casa decorrem em pequenos compartimentos, recantos e partes de compartimentos espacialmente exíguas. (1)


Notas:

(1) Alexander refere que um recanto para trabalho deve ter um mínimo de 6m2 de área e ser encerrado por paredes e janelas ao longo de 50% a 75% do seu perímetro; a posição ideal para trabalho deve permitir vistas para fora do recanto, frontais ou laterais – Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 744 a 747.

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XII, n.º 585
Artigo CII da Série habitar e viver melhor

Trabalhar em casa, escritório doméstico, home office (I) - Infohabitar n.º 585

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



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