domingo, abril 12, 2015

Da valorização patrimonial a uma cuidadosa recaracterização urbana - Infohabitar 528

Infohabitar, Ano XI, n.º 528
Da valorização patrimonial a uma cuidadosa recaracterização urbana: ou mais uma reflexão sobre o "espírito do lugar"
António Baptista Coelho


A valorização do património arquitetónico local

A valorização do património arquitetónico local tem grande importância para o aprofundamento do conhecimento do património material e imaterial das respetivas zonas, e para o desenvolvimento da caraterização ou caráter local desses sítios – partes de cidades e de vilas, aldeias e lugares; uma diferenciação que importa aliar a outras iniciativas culturais dinâmicas e diversificadas e que urge apoiar numa dupla perspetiva de defesa e recuperação patrimonial e de apoio à dinamização social local nas suas diversas facetas, mais diárias e correntes ou mais ligadas a um turismo cultural, que está cada vez mais ativo.

Esta perspetiva fica em boa parte evidenciada numa citação, quase completa, do poema de Eugénio de Andrade, cujo título é, significativamente, “O Lugar da Casa”:

Diz o poeta:

“Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de Abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.”
Eugénio de Andrade
E repete-se o início do poema:

“Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar"


Fig 1: vista da costa da Ilha da Madeira

O fazer e o refazer verdadeiros lugares

É desta matéria que aqui tratamos: o fazer e o refazer verdadeiros lugares; identificar, construir e reconstruir lugares bem caraterizados e viáveis, com base no que existe, nos sítios, resgatando-se o que sobreviveu do nosso património edificado, urbano e paisagístico, aos longos períodos tantas vezes despreocupada e mesmo por vezes criminosamente ignorantes dos valores do passado e da cultura nacional, regional e local.

Mas centremo-nos, agora, “apenas” na importância social e cultural de uma adequada caracterização arquitetónica, num sentido amplo de arquitetura que vai à cidade e à paisagem.

Defende-se, como diz o Arq.º Yves Lyon, “uma nova atividade de arquiteto feita da atenção para com os lugares”, uma atenção que depende em muito das suas condições preexistentes, da sua pormenorização, e que tem de nascer de uma tão cuidada como estimulante leitura da sua imagem urbana e paisagística, pois, como defende Manuel Salgado, hoje em dia “desenhar a cidade é antes de mais saber lê-la.”

Ler bem os lugares e (re)fazer lugares bem legíveis

E havendo lugares que conseguimos ler fluentemente e com interesse, porque nos cativam e nos “contam histórias”, ainda que incompletas ou a necessitar de alguma reabilitação, então temos parte da tarefa já realizada, pois todos sabemos que há cidades e bairros ricos de lugares e há também lugares onde, até, por vezes pequenas intervenções reconstroem e sublinham atraentes ambientes, plenos de conteúdos e de estímulos no sentido de um seu uso intenso e prolongado.

Avançamos assim no que se julga ser a importância das relações humanizadoras que podemos estabelecer com os espaços que nos rodeiam, protegem e caracterizam, assumindo-se a importância que tem uma afirmada diferenciação pela valorização do carácter local, no encontro íntimo que sempre marcou a relação entre os homens e os espaços por eles habitados, edificados e urbanizados.

A relação íntima entre os homens e os espaços por eles habitados

Mas este encontro especial de natureza íntima que a Arq.ª e Prof.ª Ludmila Brandão refere acontecer “ (1) “entre casas e homens”, não esgota, naturalmente, o manancial do carácter local, e registam-se, aqui, as palavras/ideias de outros estudiosos da Arquitetura, como Gordon Cullen  e Kevin Lynch e a sua defesa de uma cidade que tenha uma forte “imagibilidade” (2), pois “quem sabe se tenha falado muito de forma e pouco de forma na cidade, daquela forma que vai da imagem urbana à imagem doméstica”, tal como defende Gonçalo Byrne (2000). (3)

Fig. 2: preexistência no modernista Olivais Norte, Lisboa

Esse encontro íntimo entre as histórias dos homens e as histórias das suas casas e das suas ruas acontece, quando acontece, em diversos níveis interligados, porque habitamos as diferentes escalas da cidade numa teia de espacialidades e de apropriações diversificadas, cuja complexidade é problema, mas também grande riqueza; de certa forma podendo nós habitar e experimentar uma história rica de variados pontos de vista, relações e pequenos mundos frequentemente sobrepostos, num argumento que desta forma nos pode cativar e “prender” por lá, repetida e intensamente.

Um argumento e um conjunto de cenários vivos que caraterizam um espaço urbano em que, como refere William Mitchell, há, hoje em dia, que (re)inventar os espaços públicos e as formas de habitar, mas sempre no respeito pelas características específicas do lugar – que podemos referir de “espírito do lugar”; e Mitchell, em muitos dos seus escritos, sublinha as grandes e inevitáveis mudanças no habitar a casa, o bairro e a cidade de hoje, mas defende a convivência de tais mudanças com o reforço de uma caracterização local coerente, que seja base de identidade e de diferenciação.

Uma base de identidade que, julgamos nós, deverá reger-se, desejavelmente, por uma perspectiva culturalmente consistente e marcada por uma cívica sobriedade, pois estamos a tratar de espaço público, espaço que tem de servir e agradar ao maior número dos seus habitantes e que deve, também, assumir um sentido de representatividade global e de identidade local.

São necessários espaços urbanos calorosos e ricos de identidade

Para tal é fundamental não se aceitarem mais espaços públicos, frios, austeros e inimigos das pessoas, e nestas matérias é inestimável a importância das fontes literárias e das fontes artísticas em geral para a aproximação a um habitar humanizado e cívico, pois são os escritores e os poetas aqueles que melhor e/ou frequentemente conseguem descrever como são, ou como podem ser, pedaços de cidade habitada humanizados/calorosos, envolventes e estimulantes de percursos e estadias.

Antes de concluir esta sequência de ideias não é possível deixar de registar que tudo isto é vital para a revitalização urbana de muitos sítios do nosso mundo de cidades, mas que tais condições não podem substituir a adequada funcionalização de tais espaços em termos de acessibilidades e eficácias funcionais amplas e completas, incluindo-se as matérias de sentido de segurança urbana; e mais do que isto, importa desenvolver soluções em que a referida e essencial humanização espacial integre verdadeiramente a “razão” funcional da respetiva zona/intervenção nos seus diversos aspetos.

Sublinhemos, então, que, tal como se salientou acima, os espaços que habitamos têm de dialogar connosco, têm de nos “prender”, têm de nos contar a sua história “única” – que corresponde a boa parte da sua identidade – e algumas das suas histórias do dia-a-dia, histórias que fazem realmente viver esses espaços, que não podem ser mudos e descaracterizados.

Fig. 3: porta de habitação em Alfama, Lisboa

Espaços urbanos interessantes e com significado

E sobre estas matérias lembremos, para concluir esta pequena reflexão, as sábias palavras de dois grandes arquitetos:

Charles Moore diz-nos (4) “estar contra as atitudes que fazem de edifícios com potencial para comunicar com os seus habitantes, edifícios mudos”, que está “contra a homogeneização do lugar”, que acredita que “o silêncio é imposto pelo fazer edifícios sem cuidado, e multiplicando uma tal falta de cuidado sem qualquer preocupação”, e que o “resultado foi que os edifícios, quando tornados mudos, ficaram tão desinteressantes, que os habitantes deixaram de tomar atenção neles, deixaram de se preocupar com eles.”

E sobre o carácter do lugar escreveu Christian Norberg-Schulz no prefácio ao seu “Meaning in Western Architecture” (1986): (5) “Desde tempos remotos a arquitectura tem ajudado o homem a dar sentido e significado à sua existência. Com a ajuda da arquitectura ele conseguiu marcar uma posição no espaço e no tempo. A arquitectura preocupa-se portanto com algo mais do que necessidades práticas e economia. Ela refere-se a conteúdos e significados existenciais. Os conteúdos e significados existenciais resultam de fenómenos naturais, humanos e espirituais, e são experimentados como ordem e carácter...” E por vezes o projecto “não é mais” que um (excelente) elemento de valorização da união de condições naturais e urbanas preexistentes.

E, tal como referiu a colega Marilice Costi, “uma cidade precisa surpreender, mostrar sua história, entregar-se a quem passa por ela e dar-lhe o seu sabor. Ela precisa apaixonar a qualquer um, provocar sensações, proporcionar vivências. Ser lugar para seus moradores e um novo lugar para quem chega.” (6)

Nota final:

Este artigo foi elaborado a propósito e na sequência de uma intervenção do autor num encontro realizado no Museu dos Lanifícios, Universidade da Beira Interior – Covilhã, no âmbito da exposição “um destino; coisa simples” - Património arquitectónico do séc. XX no concelho do Fundão .

A exposição esteve patente n’A Moagem Cidade do Engenho e das Artes, no Fundão, e depois no referido Museu dos Lanifícios e foi desenvolvida pelo Atelier Pedro Novo Arquitetos, com o apoio do Município do Fundão e da Ordem dos Arquitetos (inaugurou a 15 de Novembro de 2014).

A exposição pretende divulgar o património arquitectónico do século XX existente no concelho e aproximá-lo da população, dando a conhecer algumas das figuras mais importantes da arquitectura portuguesa do século XX com obra construída no concelho do Fundão. Para além da divulgação deste património, pretende-se alertar e sensibilizar a população para um quadro de responsabilidade partilhada, numa perspetiva futura de classificação e manutenção do património edificado no concelho do Fundão.
https://www.facebook.com/umdestino.coisasimples?pnref=lhc

Notas:
(1) Ludmila de Lima Brandão, “A Casa Subjetiva”, 2002, p.133.
(2) Kevin Lynch, “L'Image de la Cite”, 1976 (1960), p.12.
(3) Ricardo Carvalho, “Estou cansado de falar de forma – entrevista com Gonçalo Byrne”, Público, 16 Agosto 2000.
(4) Idem, Ibid.
(5) Texto de Christian Norberg-Schulz, no Prefácio ao seu “Meaning in Western Architecture”, 1986.
(6)Texto de Marilice Costi, integrado em um dos primeiros artigos da revista na www Infohabitar, em Junho de 2005.


Notas editoriais:
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Infohabitar, Ano XI, n.º 528
Da valorização patrimonial a uma cuidadosa recaracterização urbana: ou mais uma reflexão sobre o "espírito do lugar"
Editor: António Baptista Coelho –abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


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