segunda-feira, janeiro 12, 2009

PORQUE MORREM AS CIDADES OS VELHOS E AS ÁRVORES, PORQUE MORRE UM PAÍS - I - Infohabitar 229

Infohabitar, Ano V, n.º 229
Com breves palavras, porque se edita, em seguida, um grande artigo, renovam-se as boas-vindas a uma das pessoas que há mais tempo e mais intensamente têm cooperado com excelentes textos no nosso Infohabitar.

A Arq.ª Maria Celeste Ramos tem, realmente, os seus leitores nesta nossa revista e é com grande satisfação que a temos de volta numa série de três artigos sob o título geral “PORQUE MORREM AS CIDADES OS VELHOS E AS ÁRVORES PORQUE MORRE UM PAÍS”, que iremos editar ao longo de várias semanas; eventualmente alternando estes três com outros artigos.

E faço aqui uma pequena quebra de sigilo relativa a uma parte do texto que me enviou a Maria Celeste Ramos, como apresentação e “justificação” do seu grande artigo, e julgo que as palavras dela falam por si.
“ ... Só o fiz por prazer e AMOR ao meu país e à minha e CIDADE
Por vezes RAIVA é uma forma de gostar
E quem GRITA não é por não gostar dos OUTROS – é por SOFRIMENTO do que só se vê a forma mas não a essência do grito e eu que vivi uma vida inteira a calar o meu GRITO interior, felizmente que grito para não rebentar ... ”

E boa leitura,

A coordenação do Infohabitar

PORQUE MORREM AS CIDADES
OS VELHOS E AS ÁRVORES
PORQUE MORRE UM PAÍS - I
Artigo de Maria Celeste Ramos

Há 50 anos atrás

Há 50 anos atrás – na 2ª metade do séc. XX – independentemente das cidades destruídas pelas guerras mundiais e que foram “levantadas” e recriadas para funções de maior modernidade, principalmente a partir da II.ª guerra, contando também com o automóvel, havia uma certa estabilidade no crescimento urbano – as cidades pareciam estar estáveis.

Nem sequer se tinham iniciado os grandes movimentos turísticos nem de Verão e muito menos de Inverno, nem os de fim de semana, que obrigariam a construção de alojamento específico, não havia ainda subsídio de Natal nem de Férias, só a cabeça de casal trabalhava, as férias correspondiam apenas às férias escolares das crianças, não havia berçários nem creches (mas havia as amas para tratar os bebés em casa), não havia escolas pré-primárias, pelo que tudo da vida das famílias se passava para a grande maioria das populações, em casa e no lugar em que se vivia, os transportes eram quase exclusivamente colectivos e ainda incipientes, focados no comboio (1).

É certo que as famílias mais ricas já tinham a segunda habitação, em geral uma “quinta”, tendo ou não habitação na cidade, sendo grande exemplo as Quintas e Palácios dos arredores de Lisboa e de Setúbal, e as da região do Minho sobretudo no vale do Lima, algumas que ficaram e resistiram ao camartelo ser terem sido retalhadas para serem construídas as piores “urbanizações de má memória que parecem estar para sempre” ficando no entanto algumas na sucessão das “famílias”, tendo ou não sido adoptadas ao “turismo rural” que foi a saída para os descendentes que entretanto tinham falido ou eram muitos os herdeiros, e votaram-nas ao turismo para poder recuperá-las e ter rendimento adicional, tendo Inglaterra, mais uma vez, sido pioneira já em pleno séc. XX, o que viria a acontecer em Portugal no fim dos anos 80.

Um turismo hoje muito procurado no silêncio do Campo e em contacto não apenas com a natureza mas toda a tradição e cultura, sobretudo para população mais adulta que foge do caos dos lugares litorais de praia e de Verão e poluição e se interessa também pelos aspectos da história e cultura de outros locais ainda conservados na sua originalidade já que o turismo é de “modas” e são as classes mais cultas que vão abrindo outras viagens a outras paragens, mesmo em situações de pobreza, que conservam a genuinidade dos lugares e formas de viver.


Fig. 01: a caminho de Sintra, uma paisagem destruída


As maiores atrocidades a estes locais de arte, beleza, silêncio e natureza

Portugal começaria aqui, no fim dos anos 50 do século passado, a fazer as maiores atrocidades a estes locais de eleição, arte e beleza, silêncio e natureza, pois que a Quinta era ao mesmo tempo local de habitação e de produção, e de lazer, e fazem parte da memória de grandeza da arte portuguesa de ocupar o território, adicionando beleza em vez de o desmantelar, locais de eleição de contacto com a natureza e as flores e a arte do ordenamento e de riqueza arquitectónica de valor intemporal. Essas relíquias e Santuários mereceram o elogio de obras de literatura e poéticas dos estrangeiros que as visitavam, restando entretanto algumas em Sintra, votadas a espaços de recreio e cultura e arte e, outras, ocupadas para turismo de luxo e para reuniões de altas individualidades da economia e da política.

Cada Quinta de Sintra é lugar de beleza e arte e ainda de misticismo e até simbolismo como a tão falada Quinta da Regaleira ou espaços esotéricos como o Monte da Lua ou históricos como a Feteira da Condessa e o Palácio mandado erguer por D. Fernando, homem não apenas de letras e artes e de grande cultura e que fez plantar, na Serra, todas espécies do mundo conhecido, sobretudo de árvores, constituindo o que foi considerado um grande Arboretum e é um local de grandeza e paz e de elogio ao mundo vegetal, num centro do país privilegiado pelos ventos do Cabo da Roca (onde se encontra a Floresta das Fadas), que trazem a constante humidade e nevoeiros que dão à região características peculiares, para além de locais que teriam sido património dos Templários; e todas as Quintas estão cheias de história desde o Palácio de Seteais à Quinta dos Lobos, nessa Sintra cantada por Lord Byron.

E se por acaso a maioria das Quintas ainda está conservada, o mesmo não se pode afirmar de todas as aldeolas do concelho que eram nichos de beleza e paz mas são agora arrasadas de mau gosto de betão saloio a que os sucessivos presidentes do concelho de Sintra não souberam pôr cobro, fazendo desses lugares a maior alienação e constituindo a arte e cultura de quem governa regionalmente e transformou os espaços belos e de grande valor agrícola em produção de primícias que até se vendiam à beira da estrada do Guincho, mas que agora são dormitórios de Lisboa e o inferno de quem tem de demandar Lisboa para trabalhar e perder horas sem fim na estrada que foi “a estrada de Sintra do Poema de Álvaro de Campos” e agora é a IC19 de inimaginável fealdade e mesmo crime paisagístico, estético e cultural, ambiental e histórico, em que quem a usa leva de transporte de ida e volta quase tantas horas quantas a que utiliza para trabalhar.


Fig. 02: como morreram aldeias e paisagens (o Lumiar em Lisboa)


Como morrem as aldeias e o seu valor estético, agrícola, ecológico, e económico, e a saúde dos homens
Como morrem as aldeias e o seu valor estético, agrícola e ecológico, e económico, e a saúde dos homens em nome do não saber preservar a herança e aproveitá-la para os homens em vez de as arrasar de fealdade e morte.

Só uma vez ouvi uma juíza afirmar que o Código Penal deveria contemplar o Crime Urbanístico (Dr.ª juíza M.ª José Morgado - 2008). mas até hoje tudo é impune, quem sabe se por falta de se saber definir “ambiente” e outras coisas simples que os agricultores analfabetos sabem por condição genética.

Quanto ao ensino, embora sem acesso para todos, nessas duas metades do século passado de que se fala, havia apenas o ensino primário público e privado, bem como o ensino “liceal” com 5 anos para o curso geral dos liceus (igualmente privado e público), que daria imediato acesso a emprego, como havia a Escola Industrial e Escola Comercial mas apenas em algumas cidades, igualmente com imediato acesso ao emprego nestas duas vertentes, sendo que, para o ensino liceal completado com o 6º+7º anos, daria acesso ao ensino universitário, assim como com as Escolas Industrial e Comercial havia mais um ano para acesso ao nível universitário.

Assim, qualquer aluno teria a 4ª classe e ia à vida, ou o 5º ano do liceu ou Escola Comercial e Industrial, e ia à vida, a partir dos 15 anos de idade.

Mas vieram leis quase universais de Direitos da Criança – o que é bom, claro –, mas que não se aplicam aos mais pequenos para fazer cinema e telenovelas ou mesmo passagem de modelos, entre outras situações, já que tal situação derivou das classes mais pobres em que as crianças ajudavam seus pais no campo e outras situações aprendendo ofícios de continuidade das formas de viver em cada local. A “cidade” consegue descriminar as situações que lhe convêm para mais uma vez as crianças passarem de não-analfabetas a “escravas da modernidade”, deixando de ser crianças, e ficando outras com seus pais apenas progenitores porque a lei é tantas vezes “cega” de acordo com as circunstâncias como se toda a vida e cada gesto tivesse de ser regulada por “lei” que entra em casa, mas que nem sempre resolve o que há a resolver, e tantas vezes criando problemas, como se o ser humano não tivesse, por si mesmo, aspiração para seus filhos.

Que falta faz o planeamento do ensino a todos os níveis – desde o pré-escolar até sobretudo ao profissional pois que havendo cada vez mais “doutores”, também há cada vez mais desempregados e desaparecem artes e profissões que muitos gostariam de ter mas não há – só há cada vez mais doutores sem vocação e sem trabalho: perdendo as pessoas, perdendo as profissões e perdendo o País.

Se um dia um “trolha” da construção civil tiver o 10º ano, certamente que fará melhor o seu trabalho, com mais alegria e eficiência e, depois de cada dia, em vez de se meter na Taberna, talvez procure outra ocupação cultural para os seus tempos livres e menos futebol ou outras manifestações e, como diria Sá Carneiro, “sofro à míngua de excesso”.

Onde está o DIREITO à vocação?


Porque morrem as profissões

Porque se conduz o mundo da “abundância” ao desperdício por não haver mais reparação dos “bens normais e universais de consumo” que por não haver quem faça as reparações ou reciclagem, conduz a que milhões de milhões de toneladas de “não usáveis” sejam carregados em gigantes do mar que os transportam para serem despejados a céu-aberto em países pobres em que as crianças têm, para brincar, esses desperdícios do “mundo rico e civilizado” que despeja os seus dejectos em país alheio e cada vez mais longe de casa.

Será que vivemos de facto num mundo rico e civilizado ou apenas incapaz e hipócrita sendo que nem sequer o homem desse “paraíso evoluído” é informado da forma e destino a dar e das consequências do seu “velho computador” ou de outro bem sofisticado que é fonte de morte (chumbo e outros metais pesados) para os que recebem tal “benesse”?

Com a integração na UE a escolaridade obrigatória passou para os 18 anos, a estrutura e curricula dos cursos foi alterada e os meninos, nem sequer sendo obrigados a frequentar aulas e poderem ter faltas, passaram a não saber nem ler nem escrever, não apenas por existência do computador que devia ser auxiliar, mas até põe não terem caligrafias legíveis, que são verdadeiros gatafunhos mesmo depois de terem cursado as universidades, e não sabem contar nem pelos dedos porque lhes é permitido utilizar máquina de cálculo, e não sabem nem pensar nem perceber se se enganaram a usar a maquineta. Decorar a tabuada a cantar também foi abolido para não martirizar as pobres crianças, que, assim, não puderam automatizar os mais simples dos raciocínios para ir formando, também, a sua memória.

Quanto aos exercícios de leitura e ao decorar as velhas poesias nas três línguas que foram obrigatórias no Curso Geral dos Liceus, na I.ª metade do séc. XX, também não! E, hoje, vê-se como os funcionários da Rádio, mas sobretudo da TV, lêem aos soluços, e quando pela frente lhes passa uma palavras que não pertencem ao normal do quotidiano, não sabem a fonética e lêem, por exemplo, uma palavra francesa aportuguesando-a da pior maneira como se a palavra estivesse “encapuzada”.

Se agora não conseguem distinguir em cada palavra, as vogais átonas das tónicas, o que será quando houver gerações formadas em pleno vigor do tratado luso-brasileiro, tão defendido pelo actual ministro da Cultura e tão deitado abaixo por um famoso escritor-poeta e deputado.


Fig. 03: a partir do CCB “já não há RIO”


“A minha Pátria é a Língua Portuguesa”
“A minha Pátria é a Língua Portuguesa” – Não. Já nem isso é, meu amado Fernando Pessoa – grande sábio das letras e de todos os sentires dos homens.

Em paralelo havia (e há ainda) outras escolas ligadas às artes como a Escola Ricardo Espírito Santo ou a Escola António Arroio, ou ainda o A.R.C.O. – falando-se só de Lisboa – bem como o ensino “fechado” do Colégio Militar” para o acesso directo às Forças Armadas para rapazes e o Colégio de Queluz para as filhas de militares. O ensino estava muito bem organizado e até certo ponto mesmo com cadeiras gerais iguais, o ensino estava dirigido a ramos profissionais, mas era raro nesse tempo o acesso às Universidades pois que a elas acediam quase exclusivamente as classes possidentes e mais os rapazes.

Havia igualmente, e em geral para as classes mais pobres, o Seminário, até à ordenação de Padre, ensino geral mas essencialmente vocacionado para essa função por ser, também, uma forma de ter acesso ao ensino e deixar “a casa e família” e ter um rumo de vida, e sendo que alguns seminaristas eram concomitantemente, professores de várias instituições da aulas de Religião e Moral, e de Latim, e mesmo aulas de Canto, pois que era comum a todos os graus de ensino, incluindo o universitário, o Canto Coral; que lamento não ser hoje tão importante como foi, não apenas para a educação vocal, mas porque tem para além disso muito mais virtudes do que essa, podendo até revelar vocações, como sucedeu no passado, e desde pequenino, como convém, e sendo ocupação de prazer para os jovens, pois que é sobretudo a partir dos 4 anos de idade que as crianças têm o máximo de capacidade para aprender não importa o quê.

Quanto à mulher na I metade do séc. XX deveria ser educada sim, mas sem grandes pretensões, pois o seu destino natural (e libertação do poder paternal e mesmo ascensão social) era o casamento, pelo que deveria saber bordar, “tocar piano e falar francês” e saber mandar nos seus empregados (os criados), restando uma grande mole de população que ficaria “analfabeta”, porque a vida nada mais permitia do que o trabalho no campo e em casa ou, duplamente, no campo e parcialmente na fábrica, o que não significa que das classes menos privilegiadas não saíssem crianças que nunca deixando de estudar foram homens ilustres de que será o melhor exemplo o nosso Prémio Nobel da Literatura.

A cidade e os seus habitantes reflectiam a organização social e determinavam comportamentos de grande civilidade, já que a população do País estava extraordinariamente bem distribuída por todo o território em cidades, vilas e aldeias de que até podiam recolher benefícios culturais, já que os “palácios dos senhores” se localizavam por todo o lado, havendo a população mais pobre que “servia os senhores” e até as crianças de quem servia e era servido, brincavam e aprendiam, independentemente de eu pretender valorizar o que não é valorizável quanto ao fosso cultural e económico que sempre existiu, mas que não existia no “convívio” de onde saíam gestos e motivações de uns para com outros.


A população do País estava extraordinariamente bem distribuída por todo o território, … hoje as sociedades … não deixam de criar guetos
Creio que hoje as sociedades, livres e libertadas, e mesmo democráticas, não deixam de criar guetos, diferentes sim, porque agora há outros medos e grande insegurança não importa em que lugar, mas sobretudo nas cidades-dormitório, mesmo que de boa arquitectura, mas onde não há emprego, onde as infraestruturas não são nem suficientes nem atraentes para todos e, sobretudo, ainal, quer-se sempre atingir o “coração” da zona mais nobre das cidades, onde é tão difícil chegar, não apenas pelo tempo de deslocação, mas porque os transportes são limitados e têm horário curto. E em paralelo as desigualdades económicas levam a desigualdades culturais e a informação generalizada deste princípio do séc. XXI, conduz a que a tentação esteja mais presente.

Também em geral quando há catástrofes naturais como enxurradas, as piores situações dão-se onde a habitação é menos cuidada, tal que são sempre os mesmos que vão perdendo os seus bens e os seus pequenos negócios que têm de refazer constantemente, e ir à escola quando a esperança de obter emprego é cada vez mais baixa, mesmo com cursos universitários.

E não esqueçamos a revolta de jovens nos arredores de Paris no verão de 2008 por morte de jovem, que se repetiu em Lisboa quase logo a seguir e, mais tarde, quase no fim do ano, em Atenas, em que recém formados invadiram as ruas e fizeram estragos violentos, pela revolta de ter estudado e chegado ao fim sem lugar de trabalho, e o mesmo tendo sucedido em Portugal porque a polícia tinha atirado a matar a um jovem que apenas atravessava uma rua em hora “errada”.

O verão de 2008 foi como nunca em Portugal; em que jovens fizeram os assaltos mais inesperados a lojas sobretudo a ourivesarias, a gasolineiras e a bancos, de onde arrancaram caixas multibanco como nunca se havia visto, e ainda assaltos a velhotes que viviam sós pelo país fora e os maltrataram e roubaram – os jovens andam à solta e sem rumo.

Assim, os bairros sem cuidados de ordenamento e beleza urbana, a par de escolas que são contentores de qualidade igual à má habitação, não levam a que certas camadas de população se auto-estimulem para sair dos seus guetos, o que também não quer dizer que não haja criatividade e centros culturais suburbanos, em vez de apenas bandos de delinquência; mas a sociedade mesmo libertada não leva a igualdade de acesso às mesmas ambições e à concretização dos sonhos da juventude, que é sempre a mais criativa mas também a mais rebelde e a que faz mudar o mundo, no melhor e no pior, quando a saída é apenas a droga e o crime, flagelos da segunda metade do séc. XX, agravados pelos meios de comunicação mais e mais sofisticados e que chegam a todo o lado, no País e no mundo, porque já não há fronteiras nem no bem nem no mal.


Fig. 04: um desenvolvimento que chega a ser absurdo


Algumas notas sobre o desenvolvimento do País
Quanto a transportes, o país tinha desde o fim do séc. XIX uma extraordinária rede que cobria todo o país (e o rei viajava de comboio na sua carruagem especial), ligando vilas e cidades e mesmo aldeias, pois que nem sequer havia automóvel que só começa a aparecer a partir do fim dos anos 60; e ainda agora é motivo de grande polémica a Linha do Tua, que serve população e turismo, mas que, mais uma vez se quer fazer desaparecer com construção de barragem acabando com memória e paisagens, em vez de se desenvolverem as novas energias alternativas sem ser à custa do “passado glorioso” tão útil à modernidade e ao turismo de natureza e dos locais históricos e arqueológicos.

Estranhamente o desenvolvimento do País desde a integração na UE não sabe fazer mais nada do que deixar ruir o passado ou destruí-lo e fazer obras faraónicas de novo-rico depauperando o “oiro” que é sempre oiro e só é preciso limpar da oxidação do tempo e actualizar.

E falando de transportes será curioso dizer que em plenos anos 60, do século passado, a população rural se deslocava em carroças puxadas por burros ou mulas, e que ainda recordo as carroças tão especiais do Algarve, pintadas com sentido cromático da arte popular, que se vai apagando, restando no entanto ainda nos barcos da Ria de Aveiro, outro meio não apenas de trabalho mas também de transporte e, mais tarde, aproveitados inteligentemente para passeio turístico para aqueles que não desistiram das suas “artes e orgulho” que o turista aprecia pois que é história e herança, arte e cultura e a percepção do passado. E assim se salienta que é possível encontrar formas de conservar a herança cultural e a história de forma a que o presente seja muito mais do que insípido, descaracterizado e estandardizado, frio e asséptico, porque os “tempos de como fazer” podem, e devem, coexistir constituindo por outro lado aprendizagem ao vivo da história de cada lugar.

Em contrapartida com a construção quase inútil e anómala das IPs, dos anos 80 do séc. passado, que rasgaram paisagens, destruíram grandes e pequenos relevos, grandes e pequenos ecossistemas e paisagens que foram decepadas, mais uma vez não se conservou o que tem valor e se destrói para dar lugar a “coisa nova e moderna”, sem se querer perceber que o uso do automóvel está condenado à escala actual devido ao consumo de energia altamente dispendiosa e poluente, e bem cedo se adoptarão outras formas de transporte, voltando-se a um uso muito mais intenso do comboio, desta vez de alta velocidade, porque o mundo não dorme e a evolução não pára, mas sempre volta atrás para ir para a frente, excepto este País que não sabe planear, quanto mais prever e valorizar o que tem há séculos.

E diz-se para consolo dos mais ignorantes que se faz EIA (Estudos de Impacto Ambiental) que não valem nada de nada a não ser se qualquer projecto de implantação e ocupação do solo (mesmo de cultura agrícola) derive de Plano de Ordenamento do Território – sobretudo ordenamento Biofísico e, então sim, o EIA faz sentido para fazer corrigir e minimizar a intervenção na paisagem.


País rico – País tão pobre
O novo-riquismo dos anos 80 do séc. passado viria a acabar não apenas com a extraordinária rede ferroviária, mas também com outro tipo de património representado pelos belíssimos edifícios das Estações da CP que, ou já desapareceram, ou estão, frequentemente, num abandono imperdoável nem sequer próprio de III mundo, com eles perdendo-se magníficos painéis de azulejaria, excelente património; sendo que uma nova linha de turismo aparece depois dos excessos de turismo de sol e de praia e de Verão, e de massas, pois que se demandam agora locais do interior para visitar “mais esse oiro perdido”, como se o país não soubesse nem classificar tanto património, nem preservar e restaurar tanto para os naturais como turistas, que constantemente mudam de “modas” e de percursos. Já que o turismo parece ser a única indústria que desde que começou não pára de crescer velozmente já em todo o mundo, mesmo nos países do mundo velho e degradado, mas que contém ainda ruínas e vestígios da civilização do homem.

Há muito que os decisores não estão à altura de gerir o “oiro” representado por todas as formas do património existente, seja paisagístico seja edificado, desde a pré-história até aos nossos dias – País rico – País tão pobre.

A década de 60 do séc. passado foi com certeza a da grande transição para outra fase que não se adivinhava, dando-se a grande explosão de todos os fenómenos sociais, depois, na década de 80, com todos os benefícios trazidos pela paz e pela democracia que se ia implantando a partir do fim dos impérios coloniais que caíram a partir dos anos 50.

Curiosamente, o grande descobridor da Índia, Vasco da Gama, se por um lado mereceu algumas honrarias pelo feito de desbravar os mares, e tendo nascido em Sines, teve de se contentar com o título de Conde da Vidigueira que teve de comprar bem como a sua habitação. No programa da TV2 de 4 de Janeiro de 2009, foi afirmado pelo historiador Hermano Saraiva que em 2007 a edilidade de Sines acabou o que há 500 anos não foi feito, ao ter dedicado a Gama o Castelo de Sines com seu nome – Casa de Vasco da Gama –, restaurando-o e recheando-o de toda a informação e espólio histórico e cultural, já que no local em que nasceu – Sines – havia e há, apenas, uma pequenina capela – de Vasco da Gama debruçada sobre o mar. País ingrato.

Já vem de muito longe a indiferença nacional pelos homens que fizeram a sua história, pelo que parecerá “natural” que menos ainda se cuide a população “anónima” que, igualmente, fornece os obreiros do País, cada um à sua escala de intervenção.


Fig. 05: tempo de mudanças e de verdadeira e sistemática destruição de paisagens


Um tempo de mudança das classes sociais
Voltando um pouco atrás, mesmo para quem, como eu, trabalhava a partir dos anos 50, do séc. passado, não havia muitos dias de férias/descanso, que apenas a pouco e pouco passaram de 6 dias/mês, para 11 dias (trabalhava-se ao sábado num total semanal de 42 horas e mais tarde 36) e só muito mais tarde as férias passaram a ser de 30 dias e se começou a ter direito a subsídio de Natal e, muito mais tarde, ao subsídio de férias, quando por toda a Europa este procedimento era mais do que banal.

Ainda, por razões socioculturais e políticas, se por um lado havia as Termas, de que as das Caldas da Rainha são as mais antigas da Europa, fundadas pela Rainha D. Leonor, eram essencialmente votadas a problemas de saúde devido à qualidade das águas da nascente, mas, a pouco e pouco, foi levando à construção de belíssimos Hotéis. Hoje as termas independentemente de continuarem a ser locais votados a problemas de saúde são importantes lugares de férias todo o ano.

Lembremo-nos, relativamente ao facto de não haver tempo de férias senão há cerca de 50 anos, do belo filme “Morrer em Veneza” realizado pelo aristocrata e marxista Luchino Visconti, conde de Mordone (Lombardia), um dos mais ilustres cineastas da 2ª metade do séc. XX, com cenas de senhoras de alta aristocracia que frequentavam a praia de longos vestidos e de chapéu e coberto de véu, como se na cidade estivessem, pois que a pele queimada era apenas própria dos trabalhadores do campo e pescadores, filme que juntamente com o Gattopardo a que foi dada majestade pelo extraordinário actor Burt Lencaster, focavam a decadência da aristocracia e a ascensão da nova classe possidente da burguesia.

Nascido em 1916 e desaparecido em 1976, os seus filmes falam de um tempo de mudança das classes sociais sobretudo da Itália e sobretudo da Sicília do séc. XIX até à 1ª metade do séc. XX, caracterizando-as, algumas estando a desaparecer e outras a emergir, falando de um tempo em que a maioria dos governos foram apelidados de nazistas e fascistas, de consequências de que “bem me lembro muito bem”, mesmo vivendo em país sem guerra, mas de que conheci consequência e sinais, como se tivesse atravessado 100 anos de história e acontecimentos que “formataram” o que sou hoje, porque sou, também, património do País em que nasci, e “memória”, com maior ou menor lucidez, mas creio bem que só se sabe falar do que se “vive” porque teóricos e filósofos somos todos, tanto os que fizeram avançar o mundo como os que o travam.


As cidades são elas também, organismos que falam da história dos homens
E as cidades são elas também, organismos que falam da história dos homens, de todos os homens que as destroem ou abandonam, ou acarinham como “coisa sua”.

Ao longo da 1.ª metade do séc. XX, tempo decorrido após o extraordinário fenómeno da Era da Industrialização, o conceito de cidade mudaria radicalmente levando à construção, por toda a Europa, de cidades diferentes das até aí desenvolvidas, denominadas “cidades novas”, e criadas, sobretudo, nas proximidades das mais antigas, devido ao afluxo das populações agrárias que demandavam trabalho nas fábricas e que provocaram grande revolução e um novo rearranjo de construir e habitar, bem como no nascimento de novo e moderno conceito de ordenamento urbano e da nova classe de trabalhadores, o proletariado; pois que, até aí, a cidade se organizava agarrada ao lugar e crescia ao crescerem as famílias, inspirada sempre nos factores de natureza que os lugares ditavam.

Desta situação é paradigma a maioria dos aglomerados urbanos históricos e a relíquia dos denominados “centros históricos”, muitos deles hoje ou já classificados como Património UNESCO, ou rejuvenescendo-se para adquirir tal honraria de poder confirmar a sua dimensão de património do mundo e da história dos homens e das suas artes, sendo que no entanto o património UNESCO de Portugal, como foi noticiado na SIC à uma da manhã de 3 de Janeiro, já de 2009, está 1/3 dele em ruína, tendo no entanto, nas palavras de Teresa Caeiro do CDS/PP, sido afirmado pelo ministro da Cultura, que seria elaborada a Lei de Bases do Património até Abril 2008, o que não foi cumprido.

Deste património Unesco em grande degradação faz parte o Convento de Cristo em Tomar, o espantosamente belo Mosteiro da Batalha que se degrada com a poluição automóvel, por ter sido construída estrada quase em cima da sua porta, o que é deprimente, e o mesmo sucede aos Jerónimos onde se permite estacionamento de autocarros de turismo à porta (porque o turista “não pode andar a pé 30 m”), mas anda-se muito mais em qualquer catedral da Europa, muitas das quais conheço; da mesma forma que na Sé de Lisboa (monumento nacional desde 1907) vai caindo o telhado a ponto de no interior entrar água da chuva e cocó de pombos e ter as paredes do interior e exterior degradadas e sujas – como foi afirmado dia 5 de Janeiro 2009 e depois de entrevista a visitantes estrangeiros que lamentaram que não se cuidasse e ao menos lavassem as paredes de tanto “património do mundo”.

País tão rico – país tão pobre – sem orgulho e apátrida.


Fig. 06: País sem história e País com tanta História


País privado da sua história só pode entrar em degradação
Não me preocupa minimamente a degradação económica senão na medida em que é já uma medida da sua fase mais do que envelhecimento, mas de degradação até moral, à qual só se pode seguir a degradação social e a humana.

E por mais ricos que haja e mais ricos que sejam, não são o País, não o fizeram nem farão – são precisos todos para se ser País – de outra maneira, forçosamente e nada afinal se aprendeu com o 25 de Abril que “ainda não chegou” – abortou.

Nada explica nem pode explicar, deixar cair as CIDADES na sua habitação nem nos seus monumentos porque é património irreversível e a sua perda não é apenas de escala nacional mas mesmo mundial.

Ao perderem-se as cidades, os cidadãos empobrecem e entristecem, porque somos orgulhosos do nosso património comum e dele falamos; e, pelo contrário, nenhum orgulho temos ao afirmarmos que moramos em “certo bairro” que nos desclassifica social e humanamente.

No entanto, de que vale hoje tanto a palavra oral como escrita, sem ou com forma de lei?

Houve tempos em que havia maus ou bons, planos de desenvolvimento quinquenais e cumpriam-se.

O País livre e democrático há 34 anos tem muitos planos mas não tem nenhum Plano de Desenvolvimento que abranja todas as áreas produtivas, educativas e culturais, sendo em cada governo, e em cada ocasião, o plano ao sabor do vento e do momento, quantas vezes contraditórios e, sobretudo, em manta de retalhos que não fazem evoluir nada em sector nenhum; como se constata tendo de aluno exemplar da UE passado a ser o mais pobre da mesma união, que desune, separa e guetiza e que, se tivesse moral, também não estaria como está desde 2008 pois que “pelo andar da carruagem logo se vê quem vai nela”.

É um espírito português, que já vem de muito longe, em que quem sai fecha a porta, e quem entra deita fora o que ficou para trás e volta a fazer de novo (pior do que o anterior), e assim sucessivamente num caminho sem regresso; mas se assim não acontecesse territórios e populações evoluiriam e, por muito pouco que fosse, enriqueceriam, ou, pelo menos, não empobreceriam mais e mais.


Que Plano de Desenvolvimento para o País?
Com a independência das colónias Portugal ficou um pouco desajeitado, e com os habituais complexos de culpa ignorou parceiros privilegiados para outra forma de estar no mesmo mundo, mas deixou que outros, bem mais desumanos, lhe tomassem o lugar e no entanto com a sua integração na UE poderia ter sido a oportunidade histórica de mudar de Plano de Desenvolvimento e acertar passo consigo mesmo e com a Europa e a modernidade.

É uma espécie de “Benfica”, que perde, mas ganha “moralmente”.

Para tanto nem se sabe quantos biliões de biliões de subsídios recebeu para apoiar todos os sectores da economia mas que desbaratou e, entre as rubricas subsidiadas, constava a “valorização da não de obra” (que deu o 1º grande escândalo de dinheiros que não foram utilizados para o fim em vista), a par da modernização não apenas da frota de pescas mas também da maquinaria da indústria e processos de fabrico e transformação.

Aconteceu apenas que as formas artesanais até aí existentes foram malbaratadas, como sendo de “país atrasado”, mas a modernidade não chegou por mais que muita evolução tenha sucedido, mas mais pela liberdade de cada um trabalhar e contribuir com o seu saber e a sua empresa, mas ficou-se excessivamente aquém do que poderia e deveria ter sido, e simplesmente se empobreceu, e já nada pode ser escondido nem sujeito a “malabarismos”, pois que existe, hoje, realmente, uma recessão de que nada se sabe quanto durará e o que e a quem afectará, e como.

O Estado que era “o que não falhava ou pelo menos se sabia com o que se podia contar”, hoje reduziu a sua acção não apenas a projectos megalómanos ou projectos fantasmas, mas enquanto, antes, havia acção e poucas palavras, hoje tudo se resume à palavra de não importa quem e sobretudo à ” imagem” que, entretanto, vale mais do que mil palavras como se se estivesse num beco sem saída.

É certo que entretanto o mundo converteu-se à alta velocidade e chamam-lhe global e sem fronteiras e, então, não se percorre o País mas “segue-se” Europa fora, mas quando Espanha faz greve de camionistas ou outras, Portugal já nem pode “sair pelo mar”, sendo que a solidariedade ibérica só existiu na crise do petróleo em que os TIR pararam na Europa, porque os afectava também, mas não por solidariedade entre “pares”, porque a solidariedade não existe, é pura competição entre os países da união.

Os homens não são ainda solidários e certamente que nem com o crash bolsista nem com as recessões económicas anunciadas.

A UE não é, ainda, UNIÃO e se calhar nunca será.

Mas então que Plano de Desenvolvimento para Portugal e para a Europa?

Acabou a Europa do Ferro e do Aço.

Acabou a Europa económica.

Onde está a Europa política? E o que significará o Tratado de Lisboa mal atamancado e sem compreensão para todos os cidadãos, como requer a democracia?

E com uma Europa em que cada país adere à moeda única e outros não e outros ainda não assinaram o Tratado como se nada estivesse definido em favor da União mas apenas dos que têm mais força económica que lhes confere mais força política: onde está a Europa da Moral e da Equidade?

É apenas uma situação de conveniência de uns que precisam de almofada de outros relativamente ao mundo entretanto globalizado? E que se tornou tão cruel como era antes, agora acrescentado pela “quantidade” e facilidade de circulação, que tornou tudo mais incerto e inseguro porque as “vacas” loucas” são realidade, como outras em que nem sequer há “fronteiras” para as controlar.


(1) Com o início da exploração das minhas de carvão e a descoberta da máquina a vapor estava aberta a descoberta do comboio mais uma vez iniciada em Inglaterra onde foi construída a primeira linha férrea em 1852 que bem cedo passou para Portugal tendo sido inaugurada em 28 Outubro 1856 o primeiro troço entre Stª Apolónia até Carregado numa extensão de 40 km e demorando 40 minutos e sendo que as elites intelectuais da 2ª metade do séc. XIX perante a velha economia discutiam como modernizar o país.


Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Lisboa-Alto de Santo Amaro
24 de Maio de 2008 a início de 2009
Imagens da autora e de António Baptista Coelho

Nota importante: esta série de artigos será dividida em três edições semanais, que poderão não ser sequenciais.

Preparação editorial, por António Baptista Coelho, em 10 de Janeiro de 2009.
Editado por José Baptista Coelho em 12 de Janeiro de 2009.

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