quinta-feira, julho 12, 2007

À volta da cidade: sobre cidades verdadeiramente habitadas e amigáveis - Infohabitar 148

  - Infohabitar 148

Este ano a Associação Portuguesa de Sociologia (APS) elegeu a Cidade como tema para a 14ª edição das Noites de Sociologia, dia 12 de Julho de 2007, com início às 21h00, no Bartô do Chapitô (Lisboa, Costa do Castelo, 1/7), com o título “À Volta da Cidade”.

Com a moderação a cargo de Luís Vicente Baptista, Presidente da APS, esta associação convidou três oradores provenientes de diversas áreas científicas que poderão dar uma visão plural sobre a Cidade: - Arquitecto António Baptista Coelho (LNEC); Historiadora Amélia Andrade (FCSH-UNL); Socióloga Graça Índias Cordeiro (ISCTE). As comunicações são seguida de debate com o público. O local (o Bartô, cedido pelo Chapitô, na Costa do Castelo) permite excelente vista da cidade de Lisboa.

Em seguida apresenta-se o texto que serviu de base para a intervenção de ABCoelho, acima referida

À volta da cidade: sobre cidades verdadeiramente habitadas e amigáveis

  • Cidade habitada
  • Cidade e Habitação Apoiadas
  • Uma cidade de cidades
  • Uma cidade atraente, do pormenor e do vagar
  • Domar a “praga” automóvel
  • Uma cidade de jardins
  • Cidade revitalizada, cidade desejada
  • Caminhos à volta da cidade


Fig. 01: Parque das Nações, Lisboa, o verdadeiro reinventar de um mundo pedonal sustentado.

Cidade habitada


Na definição de “habitação”, da Enciclopédia Focus (1) pode ler-se, e cito, que a “realidade da concentração urbana, a evolução da estrutura e modos de vida da família na sociedade industrial obrigam a considerar a casa como célula do tecido urbano relacionada estreitamente com a localização e organização do recreio infantil, da educação, ocupações de tempos livres, abastecimentos e transportes quotidianos para as zonas de trabalho. A casa insere-se em núcleos residenciais de grandezas calculadas, onde se procura valorizar a comunicação entre grupos de moradores dispondo intencionalmente os edifícios em relação ao terreno, seu prolongamento natural, localizando os equipamentos de utilidade comum em relação com os percursos exteriores e os órgãos de distribuição dos grupos residenciais, e assegurando aos moradores, pelo isolamento acústico ou de vistas, uma menos ilusória intimidade. A escolha entre habitação colectiva em altura e a moradia de tipo unifamiliar não pode fazer-se independentemente das situações urbanísticas, mas, prevalecendo as razões que conduzem ao primeiro tipo, procuram-se actualmente soluções que permitam dispô-las em habitações densamente agrupadas, de prolongamentos privados em terraços ou pátios.”

É uma definição que fala por si, sobre o que deveria ser a cidade habitada.

Diz o Arq. Luis Fernández-Galiano (2) que “ o problema da habitação se tornou o problema da cidade” e clarifica esta afirmação escrevendo que “a habitação não é hoje um problema que precise de experimentações estéticas ou inovações estilísticas; é um problema urbano, da civitas ou da polis, o que quer dizer, um problema de cidadania e político.” E remata esta sua intervenção defendendo que “precisamos de mais arquitectura; mas, acima de tudo, precisamos de mais cidade.”

Uma cidade que, basicamente, se volte a preocupar amplamente com a escala humana pois não podemos esquecer que nos muitos séculos de cidade pré-industrial os elementos básicos de uma planta urbana não eram as vias, mas sim as unidades de habitação e as praças públicas; as estreitas vielas eram determinadas pelo arranjo espacial das portas de entrada; e a pequena rua era e é, assim, directamente referida à escala do homem – a rua ligada à “presença ampliada do homem”, como escreve Rudolf Arnheim (3), uma rua aqui e ali marcada por verdadeiros recantos domesticos, como por exemplo acontece em centros históricos e em bairros bem desenhados como Alvalade e Olivais Norte em Lisboa.

E a propósito de ruas marcadas pelo homem lembra-se um estudo do Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (4) onde se concluiu que a imagem mental que os habitantes associam, frequentemente, a um ambiente especificamente designado “como urbano” é a imagem de uma pequena rua orgânica, ladeada de pequenas casas e muros altos e fortemente marcada pela vegetação; sem dúvida uma questão que nos pode e deve levar longe nesta temática à volta da cidade e que fica para outras reflexões.


Fig. 02: Telheiras, Lisboa, uma banda mista comércio/habitação cheia de vida.

Cidade e Habitação Apoiadas


Deixando a fundamental matéria da imagem urbana para outras oportunidades, há que sublinhar que toda a habitação é apoiada, ou deve ser apoiada, pela cidade, nas múltiplas facetas habitacionais e urbanas, e que toda a cidade é apoiada, ou deve ser apoiada, pela habitação, também em todas essas facetas.

Afinal, e tal como diz o Arq. Manuel Correia Fernandes (5), “o modo mais natural de fazer cidade é (fazê-la) com habitação” e o mesmo projectista sublinha que “cidade sem habitação não faz sentido. E quando faz, é certo estarmos a falar de cidades «únicas» e talvez nem sequer estejamos a falar da cidade dos homens.”

Pode parecer um lugar comum esta ideia, da cidade e habitação mutuamente apoiadas, mas não o é, pois ao assumir-se este conceito, fica de pé uma noção essencial: é que todos nós precisamos de apoio habitacional e de apoio citadino, em variados níveis e em diversas modalidades, e tal apoio é provavelmente a razão de ser “primeira” e fundamental da cidade, pois foi por necessidade de tais apoios e pelo valor acrescido de tais apoios mútuos e do associado convívio que surgiu a vizinhança e a cidade das vizinhanças.

E esta ideia tem ainda a virtude de incluir uma perspectiva natural de solidariedade, pois põe em relevo a noção de que a diferença entre um cidadão “dito comum” e um cidadão dito “especial”, por exemplo, com algumas deficiências nas suas capacidades físicas e psíquicas, pode estar em usos da cidade adequados e diversificados – do lazer e das necessidades diárias, à ajuda mútua e ao convívio, por exemplo -, entre um e outro cidadão poderá haver, assim, apenas, diferenças no leque e na intensidade dos apoios habitacionais e urbanos desejados por um e por outro, o que é, naturalmente, excelente em termos de uma inclusão urbana e social geral, afinal, numa perspectiva de cidade potencialmente integradora e solidária (uma interessante solidariedade física e social).

Afinal trata-se de encarar não só a habitação como um conjunto de serviços, mas também a cidade como um conjunto de serviços e, ao fazê-lo:
apoiar a ligação entre esses leques de serviços numa diversidade, teoricamente ilimitada, de misturas de serviços que dêem resposta a uma enorme diversidade de leques de procura;
enriquecer a cidade e as cidades na cidade com conteúdos e imagens funcionais e motivadores;
e proporcionar, paralelamente, a activação de um significativo leque de novas e renovadas actividades económicas muitas delas com cariz local.


Fig. 03: Areeiro, Lisboa, a excelente densidade da cidade, bem visível.

Uma cidade de cidades


Um cariz local que vive nos bairros da cidade!

Sobre uma cidade assim constituída, física e socialmente solidária, escreveu Celeste Ramos, num dos seus artigos aqui no Infohabitar, que tal como os habitantes vão aprofundando as suas histórias de vida, assim vai a cidade habitada, gradualmente, sedimentar-se e caracterizar-se nos seus bairros, que são verdadeiras pequenas e diversificadas cidades com memórias e linhas de vida específicas, mas integradas na cidade-mãe; afinal uma cidade feita de pequenas cidades.

E a pequena cidade-bairro tradicional, ou bem planeada, que contém, ainda, grande parte dos grupos socioculturais e etários, é sede de resistência à actual e bem conhecida tendência de desintegração física e social do tecido urbano.

Uma resistência baseada nessa coesão, que gera a vitalidade e a diversidade das verdadeiras pequenas cidades de vizinhança, que são os verdadeiros responsáveis e pela sobrevivência da felicidade do viver na cidade.

Os casos mais positivos de sobrevivência do carácter e da vida do bairro estão associados aos conjuntos urbanos fisicamente coesos e urbanisticamente unificados, e devemos interiorizar que, tal como defende Celeste Ramos, "é a ausência de bairros bem caracterizados e vivos, a condição que leva à prolongada doença da cidade: a cidade que se desorganiza e perde escala humana, a cidade que se desagrega, física e funcionalmente, a cidade que, tal como uma árvore não cuidada, faz surgir ramos de subúrbios sem qualquer qualidade formal e urbana, que atingem dimensões incontroláveis, que geram, eles próprios enormes problemas e que foram e são responsáveis pelo devorar dos espaços do campo que davam sentido e qualidade à cidade, desfragmentando grandes unidades de paisagem de valor ecológico, cultural e patrimonial, seja no campo, à volta da cidade, seja no seu interior, que se vai descaracterizando e definhando. "


Fig. 04: Parque das Nações, Lisboa, o verdadeiro “gozo” pedonal do flanar, bem vivo.

Uma cidade atraente, do pormenor e do vagar


Para reagir a esta situação é necessário privilegiar a caracterização e a diferenciação de partes da cidade, que têm de ser servidas por uma fundamentada, subtil e cuidadosa pormenorização, numa opção que negue, sistematicamente, as soluções marcadas pela rapidez, pelo stress, pela ausência de convívio e por uma dita “funcionalidade”, mais aparente do que real; aplicando-se soluções que convidem ao uso da cidade com prazer e em paz, com tempo e a pé.

Uma opção que está intimamente ligada à descoberta das muitas sequências urbanas que integram a cidade do pormenor – e aqui voltamos a encontrar o mundo da imagem urbana –, e uma opção que naturalmente se liga à saúde, pela promoção da marcha e pela defesa do sossego e da acalmia dos tráfegos, que se liga à protecção ambiental e que oferece um número infinito de motivos de atenção, de paragem e de movimento, proporcionando, assim, muitos cenários espontâneos de convívio.

Uma opção pela cidade do vagar, onde se pode e deve andar ao sabor de tantos motivos, entre verdadeiras “ilhas de paragem”, que são locais de contemplação, de reflexão e até, aqui e ali, de comunidade; e que deverão marcar, intensamente, seja as vizinhanças residenciais – que devem constituir uma último nível semi-público da cidade, também, elas verdadeiras pequenas cidades, mas caracterizadas pelo sossego e pela domesticidade -, seja os pólos urbanos onde se queira que o habitante e o visitante se detenham mais do que um momento, integrando-se e cooperando, assim, activa e efectivamente, na vida da cidade.

Mas só é possível desenvolver uma cidade do pormenor e do vagar usando-se ruas e pracetas como verdadeiras extensões do habitar, e, para tal, é necessário “domar a praga automóvel”, pois como referem Nunes da Silva e João Seixas (6), “domar a praga automóvel e transformar os subúrbios num local onde as pessoas se sintam bem são os principais desafios da actualidade no que respeita à qualidade de vida nas cidades” e “o desafio é criar cidades de proximidade e diversidade, onde as várias funções que compõem a urbe – habitação, comércio, serviços e lazer – convivem juntas nos diferentes bairros, em vez de estarem acantonadas em pontos distintos da cidade.”


Fig. 05: Telheiras, Lisboa, os automóveis bem arrumados no interior do quarteirão rosa.

Domar a “praga” automóvel


Tal como disse António Mega Ferreira, sobre esta matéria e sobre Lisboa (7), mas que podemos infelizmente generalizar: “Há-de haver um tempo em que se percebe que uma das mais belas cidades da Europa não pode continuar a viver exclusivamente ao ritmo das pressões do trânsito automóvel.

Pressões que colidem com o justo direito de uso da cidade pelo peão na referida e essencial perspectiva de uma cidade do vagar, e pressões bem evidentes nas palavras do arq. Manuel Tainha (8) que se refere ao grande conjunto de Chelas, em Lisboa, “como uma zona sombria” e “um território dilacerado”. E é o mesmo projectista que afirma “que o que está a acontecer em Chelas é um caso paradigmático. As pessoas vivem nos interstícios das grandes vias e o automóvel é soberano na cidade. As áreas residenciais são áreas residuais entre os sistemas de circulação.” Terminei a citação, mas quero aqui fazer a experiência de inverter esta qualificação de Tainha e, desta forma, falar de um bairro como uma zona de luz, um território coeso, com vias funcionando nos interstícios do tecido urbano vivo, sendo a pessoa a pé soberana na cidade.

Há, de facto, urgência em acções de re-humanização da cidade e de controlo da referida “praga automóvel”, e em tais acções há que privilegiar sequências de espaços públicos estimulantes e amigos do peão – não têm de ser privativas do peão, mas sim amigas do peão, sublinho; sequências que se iniciam, obrigatoriamente, nos recintos de vizinhança próxima residencial, e que nos devem poder levar pela cidade fora, através de praças, pracetas e ruas citadinas, que sejam verdadeiros compartimentos e corredores da cidade.

Para (re)humanizar a cidade não devemos privilegiar, como já sugeri, um caminho de segregação simplista do automóvel privado, e nesta matéria um grande autor, Spiro Kostof (9), estudou a evolução das zonas mistas de peões e veículos que servem conjuntos residenciais, tendo apontado que “o mais importante aspecto do apoio ao peão ... liga-se ao desenho de vizinhanças residenciais ... através de um novo tipo de rua .. cuja principal função não é a circulação e o estacionamento automóvel, mas sim o andar a pé e o recreio; e continuou, especificando que uma tal rua, ou vizinhança de proximidade, tem de ser caracterizada por “elementos que a distingam claramente das restantes vias ... elementos de acalmia de tráfego de veículos; e inserção de verde urbano ... numa paisagem de rua (paisagem urbana) partilhada com o carro, mas desenhada em torno das necessidades e dos prazeres pedonais” (acabei de citar).

Há ainda que sublinhar que a recuperação da cidade para o cidadão deve ser o primeiro passo da reabilitação da cidade como espaço privilegiado e protector dos mais idosos e dos mais jovens, que são, afinal, aqueles habitantes que mais usam a cidade, que tanto podem dar de vida à cidade e aos quais a cidade tanto pode dar em termos de quadro de vida naturalmente formativo e de lazer.

Disse António Pinto Ribeiro (10), sobre este novelo de matérias, que “a maioria das nossas cidades tem perdido a escala que seria mais adequada à sua fruição enquanto espaço, arquitectura, urbanismo e coreografia, porque a medida do cidadão pedestre – que deveria ser a medida reguladora das cidades – tem sido preterida em favor do automóvel, actual meio prioritário de ocupação da cidade... Neste sentido, seria desejável que a cidade voltasse a ter como medidas de planeamento o peão e o utente do transporte público. Tal corresponderia, segundo penso, a uma ligação mais epidérmica com o espaço, à possibilidade de se instalar durabilidade” (e talvez verdadeira sustentabilidade) “no tempo de gozo da cidade”; .... acabei de citar

Uma durabilidade e um gozo citadinos que muito têm a ver com a proposta que Daniel Filipe fez quando escreveu (11) que: “De vez em quando, apetece a gente tomar por uma dessas ruazinhas que não se sabe onde irão acabar, deixando correr o tempo ao sabor dos passos erradios.”


Fig. 06: Parque das Nações, Lisboa, uma verdadeira e excelente rua/jardim.

Uma cidade de jardins


Falando de prazeres pedonais e de re-humanização da cidade não seria aqui possível deixar de lembrar e de reforçar a enorme importância do verde urbano e especificamente o papel do jardim, em todas estas matérias; porque o jardim humaniza, pois aí se faz “uma síntese única: Arquitectura pela composição, Escultura pela modelação do terreno, Pintura pela efeito cromático da vegetação, Música pelos ritmos da composição ... Poesia, teatro e mesmo dança”; disse-o René Pechère (12), num livro de síntese de uma longa prática paisagista.

Sobre as potencialidades do verde urbano há que salientar que ele é de difícil desenvolvimento (poluição, manutenção, vandalismo), mas que é muito importante pois proporciona muitos e bem diversos aspectos de bem-estar, e agradabilidade cultural, bem associáveis à humanização do habitar citadino, entre os quais se sublinham o conforto ambiental e a saúde física, a formação das crianças e o lazer dos idosos, e o fundamental agrado físico, psicológico e cultural pela possibilidade do contacto com o meio natural.

E sobre esta matéria disse Kenneth Frampton (13) que “a paisagem se tornou muito importante” e que se grande parte das ruas têm ambientes insuportáveis, a única coisa as vai poder humanizar “é o verde ... Só a paisagem pode fazer alguma coisa.”

E este é mais um tema que muito longe nos deverá levar, designadamente, aqui, no Infohabitar.



Fig. 07: a vida na zona central de Coimbra e os excelentes Pantufinhas (pequenos veículos de transporte público).

Cidade revitalizada, cidade desejada


Em todas estas matérias, que mutuamente se articulam, sublinha-se que a cidade deve proporcionar ao seu cidadão e habitante um complemento funcional, relativamente à habitação, mas também um verdadeiro suplemento de alma, tal como aponta Jorge Silva Melo (14): “um café aqui, um apartamento em cima, a rua larga, o Tejo ao fundo, passeios, gente que se encontra, gente que se salva, que se reencontra …

Afinal, a cidade precisa da vitalidade da habitação, que precisa da vida citadina para que o habitante possa ter verdadeira qualidade de vida urbana. É assim que deve ser, e para tal temos de enfrentar, com firmeza, os actuais problemas de falta de vida urbana em determinados bairros e de falta de bairros vivos em determinadas zonas da cidade.

Pode-se afirmar que após o reconhecimento da importância que tem a mistura sociocultural no fazer de uma cidade eficaz, amigável e convivial, um reconhecimento, que é preciso dizê-lo não foi ainda nem de longe plenamente assumido, na sua fundamental importância, temos agora o reconhecimento da mistura de usos diversificados no espaço e no tempo como elemento fulcral do fazer de uma cidade que vale a pena.

E nem é preciso ir muito longe para constatarmos a verdade de tais conclusões, podemos passear, por exemplo, nas diversificadas vizinhanças do Bairro de Alvalade e da Encarnação/Olivais N, em Lisboa, e lembramos as respectivas misturas sociais tão bem feitas, em simultaneidade de ocupação, nos anos 40 e 60 do século passado, bem como as ainda hoje bem evidentes e eficazes misturas de actividades, com grandes equipamentos culturais e escolares na continuidade urbana e com zonas de pequena indústria e de comércio claramente diversificado.

Fig. 08: a riqueza das pequenas ruas do Centro Histórico do Porto, na última Visita Técnica do Grupo Habitar, dirigida pelo colega Rui Loza.

Caminhos à volta da cidade


Como refere Herbert Girardet (15), “as cidades são locais humanos únicos”, “celebradas como modelos de desenvolvimento cultural” e que têm de ser obrigatoriamente muito bem desenhadas”; construídas, como refere o autor, “com uma escala de tempo longa” e no respeito de uma escala de desenho adequada, de uma natureza íntegra e numa perspectiva de relacionamento social e de verdadeira vizinhança. Um processo que tem de ser informado tal como defende Girardet, citando Lewis Mumford, pela compreensão da natureza da cidade histórica, isto se o objectivo for, de facto, o desenvolvimento “de um novo ( e verdadeiro) alicerce para a vida urbana.”

Precisamos, urgentemente, de humanizar e vitalizar centros históricos e subúrbios e num tal desígnio é fundamental um habitar que não falhe mais nas suas ligações com o habitante e com a cidade, pois, como diz Jaime Lerner (16), “este é o momento da cidade.”

Falta sublinhar que as novas intervenções na cidade central e na cidade periférica têm de ser, cada vez mais, de pequena escala, muito bem pormenorizadas e qualificadas no seu desenho de arquitectura e muito sensíveis aos respectivos habitantes e sítios de habitar; e nesta sensibilidade local há que privilegiar “o construir no construído”, na excelente e ampla perspectiva defendida por Francisco de Gracia (17), uma perspectiva humanizadora e de estimulante reconstrução da coesão urbana, que passa por uma cuidadosa e vitalizada densificação, por uma atraente e motivadora imagem urbana e também por uma fundamentada inovação tipológica nos conjuntos de edifícios e espaços públicos.

Visando-se estes aspectos e considerando-se algumas das conclusões a que chegaram Javier Mozas e Aurora Fernández Per num seu recente livro (18) sobre soluções de densificação urbana, referem-se, sumariamente, três importantes linhas de objectivos:

(i) Reduzir a ocupação dispersa do território, trabalhando pormenorizadamente a densidade, tendo em conta que uma densidade maior não está obrigatoriamente associada a edifícios altos e a espaços públicos insatisfatórios.

(ii) Visar uma forma urbana adequada, atraentemente orgânica e contínua, condição esta que, como outras aqui apontadas, obriga a um projecto arquitectonicamente muito bem qualificado.

(iii) E, finalmente, desenvolver uma assinalável inovação tipológica do habitar e das outras suas tantas actividades “amigas”, servindo-se uma (“nova”) cidade “genérica mult-étnica e multi-cultural” e visando-se a obtenção de um máximo de diversidade/adequação no habitar da casa, do edifício, da vizinhança e da cidade.

Pois, afinal, em tudo isto há que ter bem presente que as casas e as cidades que atingem um essencial significado social são aquelas que, para além de cumprirem funções, cumprem sonhos e servem a cultura. E lembremos, por fim, uma recente e magistral afirmação de Leonardo Benevolo e Benno Albretch (19): “os desafios a enfrentar no mundo de hoje não dizem apenas respeito às quantidades e aos números, mas também, – e sobretudo – à complexidade e à subtileza. Só o leque completo dos resultados em que a excelência qualitativa aflora das maneiras mais diversas e imprevistas, dá uma ideia justa dos recursos da mente humana, e ajuda a transformar o passado, de prisão ou labirinto, em horizonte aberto a novas criações.”

Notas:
(1) Focus, Enciclopédia Internacional, Livraria Sá da Costa Editora, 1966, Lisboa, Almqvist & Wiksell, Estocolmo; Habitação (vol 3, pp. 57 e 58).
(2) N.º 97 da revista “Arquitectura Viva”, p. 20.
(3) Rudolf Arnheim, “A dinâmica da forma arquitectónica”, trad. Wanda Ramos, 1987 (1977), p.70.
(4) Patrice Séchet, Jean-Didier Laforgue e Isolde Devalière, “L’Urbanité paysagère ou la perception des rapport ville-nature”, 1998.
(5) M.Correia Fernandes – Anos 80 As Cooperativas de Habitação e o Desenho da Cidade, Senhora da Hora em Matosinhos. Encontros Associação dos Arquitectos Portugueses (AAP), “Fazer cidade com habitação”, 8 de Maio de 1998.
(6) “Dar alma aos subúrbios e domar a praga automóvel”, artigo de Ana Henriques sobre intervenções dos investigadores Nunes da Silva (IST) e João Seixas (Universidade Autónoma de Barcelona); em Jornal Público de 4 de Fevereiro de 2005, p. 10.
(7) António Mega Ferreira (referindo-se a Lisboa), “Roma Bernini”, Público – espaço Público, 21 Junho 1999.
(8) João Carlos Fonseca e José Charters Monteiro, “O artista é o mais frio dos homens – entrevista com Manuel Tainha”, Arquitectura e Vida, n.º 2, 2000, 28-35.
(9) Spiro Kostof, “The City Assembled – The elements of urban form through history”, 2004 (1992), pp.240 a 242
(10) António Pinto Ribeiro, “Abrigos: condições das cidades e energia das culturas”, 2004, p. 18.
(11) Daniel Filipe, “Discurso sobre a cidade”, Lx, Presença, Forma, 1977
(12) René Pechère, “Grammaire des Jardins – Secrets de métier”, 1995, (pp. 16 a 19).
(13) Ana Vaz Milheiro e Isabel Salema, “Entrevista com o crítico de arquitectura Kenneth Frampton - «Há um forte sentimento pela paisagem”, Público, 11 Julho 1998.
(14) Jorge Silva Melo, “Antes da vossa cidade”, em Jornal Público de 22 de Janeiro de 2005.
(15) “Criar Cidades Sustentáveis”, de Herbert Girardet, Edições Sempre-em-Pé.
(16) Rui Barreiros Duarte (entrevistador), “Acupunctura urbana – entrevista com Jaime Lerner”, Arquitectura e Vida, n.º 39, 2003, pp. 38 e 43.
(17) Francisco de Gracia, Construir en lo construido – la arquitectura como modificación. Madrid, Editorial Nerea, 1992.
(18) Javier Mozas e Aurora Fernández Per, “Nueva Vivienda Colectiva – Densidad”, 2004.
(19) Leonardo Benevolo e Benno Albretch, “As Origens da Arquitectura”, 2002, pp.10 e 13.

Texto e imagens de António Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação/Olivais Norte, 12 de Julho de 2007-07-11Editado por José Baptista Coelho, 12 de Julho de 2007

1 comentário :

Filipe disse...

Blog muito bem conseguido e intressante.