domingo, maio 22, 2016

Quartos bem habitáveis - Infohabitar n.º 583

Na imagem: parte da Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, que no dia 30 de abril de 2016 comemorou o seu 30.º aniversário

Infohabitar, Ano XII, n.º 583

Quartos bem habitáveis - Infohabitar n.º 583

António Baptista Coelho
Artigo C da Série habitar e viver melhor


Atualidade:

O 4.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono - 4.º CIHEL, desta vez associado a uma série de atividades, e a diversas cidades e visitas, decorrerá novamente em Portugal, entre 5 e 10 de março de 2017; muito em breve, aqui na Infohabitar e nas entidades organizadoras, terá início o lançamento do 4.º CIHEL.


Neste artigo n.º 100 (C) da “Série habitar e viver melhor”, continuamos a abordar a temática do projeto arquitetónico dos quartos domésticos.


Problemas correntes nos quartos domésticos

Quando tratamos dos quartos o problema mais frequente e grave é o da sobreocupação, um problema que terá resultados muito negativos em termos de saúde física e psíquica, considerando, designadamente, aspectos de eventual falta de ventilação e de reduzida volumetria de ar interior, muito possíveis em compartimentos dimensionalmente reduzidos (exemplo, com reduzida altura) e, naturalmente, graves problemas de ausência de privacidade e de possibilidade de apropriação de um espaço mais individualizado.
Nesta matéria há interessantes bases de dimensionamento dos quartos para diversas pessoas e salienta-se, aqui, uma simples "fórmula": devem ter uma área mínima por pessoa de 6.00, 5.50 e 5.00m², consoante se destinem a 2, 3 e 4 ocupantes; sendo a área total, respectivamente, 12.00, 16.50 e 20.00m² (1). E é interessante aqui perceber a criação de compartimentos entre 12 e 20 m2, portanto desafogados espacialmente, numa opção que deverá ser cruzada, por exemplo, com as tendências sociais vigentes em termos de composição de família.

E há aspectos críticos no uso dos quartos, entre os quais se destacam e  apontam, em seguida, alguns.
Nas zonas sociais dos fogos dúplex deve existir, pelo menos, um quarto; só assim a respectiva habitação não ficará hierárquica e funcionalmente diminuída, com uma natural tendência para aspessoas se acumularem na zona social, nem que seja devido a uma tendência natural para poderem ir optando entre pequenos períodos de convívio e de "privacidade em companhia", sem terem de ultarapassar o desnível sempre que façam tal opção.

O uso multifuncional dos quartos, ou o seu uso específico por idosos e doentes, obriga a que em todas as habitações deve haver a possibilidade de posicionar uma cama, perpendicularmente à respectiva parede de encosto; esta é a regra "básica", que, no entanto considero claramente insuficiente, e que deveria ser substituída por uma contrária que referisse que, apenas, a  partir de uma dada tipologia com vários quartos se aceita que em um deles não seja possível optar por essa posição da cama.

A actividade de fazer e desfazer as camas e as tarefas de limpeza e arrumação que lhes estão directa e indirectamente associadas constituem e constituirão boa parte e a parte mais “pesada” da lide da casa, situação esta que deve obrigar a cuidados especiais e exigentes de dimensionamento e acabamento dos quartos. No caso das camas encostadas às paredes deve ser possível desencostá-las, cerca de 0.60m, de modo a facilitar o "fazer a cama" e a permitir boas condições para tratar pessoas doentes e acamadas (condição importante nas camas em nichos, onde se deve prever uma distância mínima de 0.40m entre um dos topos da cama e a parede do nicho).


Equilíbrio de espaciosidade entre zonas domésticas

Um aspecto importante é o desenvolvimento de um equilíbrio entre o espaço dedicado aos quartos e às zonas de convívio doméstico, equilíbrio este que deverá prolongar-se na zona de quartos por uma harmonização entre soluções com mais quartos pequenos ou com menos quartos maiores; tais condições poderão ser objecto de opções iniciais de projecto, podendo prolongar-se, posteriormente, por diversas acções de reconversão (exemplo, ligação e separação de compartimentos).

De certa forma um tal equilíbrio refere-se a uma escolha importante e básica sobre como organizar uma habitação, designadamente, no aspecto fundamental da opção por uma maior zona privada ou, inversamente, por uma zona mais socializadora predominante; ou ainda por um espaço amplo e convertível em ambientes dedicados a diversas ocupações e actividades, que poderão ir evoluindo no tempo e consoante  evolução das necessidades e dos desejos dos habitantes. Uma coisa é certa: muitos quartos regulamentarmente mínimos não configuram uma solução com adequado valor de uso.



Fig. 01:  entrada de quarto (ver figura a seguir) – habitação integrada no conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Moore, Ruble, Yudell, Bertil Öhrström.

Fig. 02:  pequenas zonas específicas no mesmo quarto; o espaço não é tudo, pois é essencial definir zonas e atribui-lhes funções potenciais e distintas (como é visível na figura); mas tais cuidados exigem um excelente projeto de arquitetura e bem pormenorizado – habitação integrada no conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Moore, Ruble, Yudell, Bertil Öhrström.


Várias zonas nos quartos

Os quartos devem proporcionar virtualidades de ocupação e de mudanças de usos e não serem obstáculos a tais mutações, proporcionando, no conjunto dos quartos da casa, diversos tipos de ocupação – por exemplo através de um ou dois quartos para dormir e/ou estar, mais perto da entrada da casa e fora da “tradicional” zona de quartos/zona íntima – e de número de ocupantes, seja numa versatilidade adequada à eventual recepção de muitas pessoas, seja numa adequação simples à vivência por poucas pessoas ou mesmo uma pessoa sozinha, reduzindo-se os associados aspectos de solidão.

Estas matérias são muito práticas pois nem é difícil propiciar um espaço amplo e multifuncional (por exemplo, ligando cozinha, sala, quarto(s) e entrada) que receba bem uma festa familiar, e, num sentido oposto um grande quarto ou uma sala em dois espaços e com uma zona mais recatada podem constituir excelentes sítios de vivência multifuncional, por exemplo, para uma pessoa só e idosa.


Várias zonas de quartos

A disposição dos quartos quando feita não exclusivamente na “tradicional” zona íntima é também um aspecto importante na abertura da habitação a mudanças nos tipos de uso e nas respectivas disposições de mobiliário (por exemplo, quarto que se transforma em saleta, quarto que evolui para biblioteca, quarto que se liga a uma sala contígua).

Um aspecto fundamental é que os quartos sejam dispostos, preferencialmente, nas zonas da habitação mais sossegadas e recatadas relativamente à vida urbana e nesta matéria os aspectos de privacidade acústica são estratégicos, mas, frequentemente, esquecidos.

Quartos multifuncionais

Quando se abordaram os aspectos de expressiva multifuncionalidade nos quartos de casal e de crianças e jovens, atribuindo-lhes outras actividades e outros ambientes que não os exclusivamente ligados ao “dormir” está a seguir-se a ideia do desenvolvimento de um rico e diversificado nível pessoal na habitação, um nível onde se pode estar sozinho, mas ao qual se pode trazer algum convívio e um leque bastante amplo de actividades e de gostos de como viver e de como decorar os espaços mais pessoais.

E naturalmente a habitação ganhará em actividades, ambientes e diversidade com uma tal opção, assim como ganhará, também nesta perspectiva de enriquecimento funcional e ambiental (em termos de arquitectura de interiores) com a eventual disseminação nos espaços de estar e mais sociais de sub espaços e de recantos onde seja possível repousar e até, eventualmente, dormir.


Quartos muito completos – “suites”

Uma das actuais tendências no desenvolvimento dos espaços domésticos refere-se à criação de “suites”, cuja caracterização funcional e ambiental pode ser sintetizada pela solução do quarto de hotel com pequena entrada privada, casa de banho privativa, espaço de vestir, zona de cama, zona de toucador e/ou de pequeno escritório, e pequeno espaço de estar; isto considerando a solução maia corrente que, naturalmente, se concretiza em opções mais e menos espaçosas e equipadas. (2)

Considera-se que esta é e será uma tendência interessante no que se refere ao desenvolvimento do já apontado enriquecimento dos diversos níveis de leitura e de vivência do espaço doméstico, em camadas sobrepostas e mutuamente vitalizáveis. Mas apenas e só se um tal desenvolvimento de “pequenos mundos privados” não afectar, negativamente, o restante desenvolvimento doméstico, o que por vezes e infelizmente acontece no caso da promoção de habitação de interesse social; e, por exemplo, nesta perspectiva faz sentido a solução, apresentada por Neufert (3), de conjugação de dois quartos, servidos por um pequeno corredor privativo que dá acesso a uma casa de banho comum a esses dois quartos. Por outro lado importa considerar se tais desenvolvimentos privados não afectam o potencial de adaptabilidade e de convertibilidade da habitação no seu todo.

Notas:
(1) MHOP; LNEC, Instruções para Projectos Promovidos pelo Estado (IPHPE), FFH (Documento 5, p. 22)
(2) Neufert considera que as suites se integram melhor nos ângulos dos edifícios, permitindo uma diversificação das fontes de luz natural e, consequentemente, uma mais fácil e favorável criação de zonas diferenciadas; e ainda segundo o autor os quartos/suites podem dispor-se dois a dois, simetricamente, deixando-se um espaço central para varandas ou balcões – Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 334.
(3) Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 334.

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.
(iii) Para proporcionar a edição de imagens na Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos da Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor da Infohabitar constituem bancos de dados da Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos da Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.

Infohabitar, Ano XII, n.º 583
Artigo C da Série habitar e viver melhor

Quartos bem habitáveis - Infohabitar n.º 583

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



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