segunda-feira, setembro 16, 2013

ARQUITETURA EM ESTADO CRÍTICO - Infohabitar 453

 Infohabitar, Ano IX, n.º 453

É sempre com grande satisfação que a Infohabitar acolhe um seu novo autor, neste caso o Prof. Arq.º Carlos Marques, projetista e professor que, lembramos, apresentou um novo livro, em março passado, no 2.º CIHEL – “Habitação: Da Indústria à Fábrica da Cidade” – e que aqui nos oferece uma oportuna reflexão sobre assuntos que se colocam aos estudiosos e interessados pelas matérias da arquitetura e do urbanismo contemporâneo, nas áreas das referências históricas, dos critérios estéticos e das questões ligadas ao gosto.
Agradecemos ao colega Carlos Marques por este excelente texto, que cabe muito bem dentro do amplo leque temático da Infohabitar, e que sem dúvida poderá contribuir para o fundamental diálogo entre aquilo de que gosta quem projeta e o que os habitantes das casas e das cidades desejam;
e boa leitura!

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Nota prévia: o presente artigo corresponde a uma comunicação ao Congresso Internacional “O que é uma escola de Projeto na contemporaneidade – Questões de ensino e critica do conhecimento em Arquitetura e Urbanismo”, promovido em São Paulo, Brasil, entre 9 e 11 de SETEMBRO de 2013, pela FAU UPM – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, Brasil e organizado pela FAU UPM – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, Brasi e pelo INIFAUA – Instituto de Investigación – Facultad de Arquitectura, Urbanismo y Artes. Universidad Nacional de Ingeniería. Lima, Peru.
Quem estiver interessado poderá consultar o Blog do Congresso em:
http://projetocontemporaneo.wordpress.com/
 

ARQUITETURA EM ESTADO CRÍTICO
Carlos Almeida Marques (*)
(*) Centro de Administração e Políticas Públicas – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Universidade Técnica de Lisboa, Portugal, camarques@iscsp.utl.pt

RESUMO
O artigo pretende trazer a debate algumas questões que hoje, de alguma forma, se colocam aos arquitetos, aos teóricos ou estudiosos do mundo académico, sobre a arquitetura e o urbanismo contemporâneo. Num primeiro momento procura-se analisar alguns aspetos relacionados com a ausência de referências históricas e critérios estéticos, em favor do surgimento de processos criativos subjetivos, em que a forma e a imagem são vistas como um fim em si próprias. Num segundo momento do texto, propomos analisar o tema do julgamento de gosto, tomando como referência a Dialética do julgamento estético de Emmanuel Kant para interrogar a argumentação do gosto no contexto específico da conceção e da teorização arquitetónica contemporânea.
Palavras-chave: Arquitetura. Espaço. Gosto. Estético. Ensino.
ABSTRACT
The article aims to bring to the discussion some issues, currently placed to architects, researchers, academic scholars on contemporary architecture and urbanism. At first we seek to analyze some aspects related to the absence of historical references and aesthetic criteria, in favor of the emergence of subjective creative processes, in which the shape and image are seen as an end in itself. Secondly, we propose to analyze the theme of taste judgment, with reference to work of Emmanuel Kant "Dialectic of aesthetic judgment" to examine the arguments of taste in the specific context of design and contemporary architectural theory.
Keywords: Architecture. Space. Taste. Teaching




1. INTRODUÇÃO

Uma leitura dos ciclos históricos mostra que vivemos hoje um período eclético, em que tanto os cânones da arquitetura clássica como os paradigmas da arquitetura moderna “não fazem escola”, nem é suposto serem seguidos os seus conceitos teóricos e críticos como referência analítica, estética ou compositiva da arquitetura e do urbanismo. Por outro lado, a busca incessante do gesto bizarro, a vontade de fragmentar à exaustão volumes e espaços, o apelo à subjetividade concetual e ao arbítrio do traço pessoal, surgem sem causa ou ideologia, em rutura com qualquer pacto coletivo ou compromissos com o lugar e a história.

Estas duas situações estão diretamente relacionadas tanto com o ensino como com a prática da arquitetura, uma vez que o afastamento de uma abordagem metodológica para a construção formal e estética do objeto arquitetónico serve em grande parte para justificar opções não racionalistas, com a perda de significado e caráter analógico em favor de um experimentalismo apresentado como método estético e compositivo.

A procura da «forma pela forma» não é uma demanda dos nossos dias. Esta quase obsessão por «originalidades arquitetónicas», associada à fragmentação da imagem da cidade enquanto unidade ou agregado de subunidades morfológicas que progressivamente se vão desarticulando e perdendo estrutura orgânica, são em parte consequência do liberalismo da economia monetária que Georg Simmel descreve em a Filosofia do Dinheiro e das mudanças sociais e culturais, que especialmente a partir do último pós-guerra, vêm a caracterizar a civilização pós-moderna ou a sobremodernidade, na expressão de Marc Augé (2005: 67).

Manfredo Tafuri explica este fenómeno na rapidez do consumo das imagens, das investigações, dos movimentos em que a dificuldade em historizar a arquitetura contemporânea resulta de se pretender apresentá-la como fenómeno radicalmente anti-histórico (1979: 31). Tal situação pode ser explicada pelo facto de que, desde há algum tempo, a atitude face ao conhecimento da arquitetura tende a não estar estruturado, deixando de estar assente em paradigmas, axiomas ou qualquer lógica compositiva, estética ou artística, mas a sustentar-se em formulações de «gosto», de que o autor-arquiteto se serve para justificar a criação de objetos-arquiteturais, os quais são mostrados nas revistas e jornais da especialidade como uma vaga sucessiva de ideais vanguardistas, mas que na maioria dos casos mais não são do que exercícios formais, objetos sensação que anseiam ser aceites como ícones acríticos, desobrigados de qualquer regra de valor que não seja a auto-expressão do seu autor ou do seu promotor.

Como será identificada a cultura do nosso tempo, qual a imagem que no futuro irá registar o património arquitectónico e urbanístico, os ideais estéticos e artísticos que identificarão a nossa época? Serão as nossas cidades uma silhueta de objetos insólitos e delirantes perfilados ao longo de eixos viários numa atitude de pretensa monumentalidade? Que modelo urbanístico nos proporciona espaços coerentes de suporte da vida quotidiana? Estas são questões que importa analisar por estudiosos e académicos, a quem cabe ensinar a ver e pensar a arquitetura, transmitir conhecimento teórico e induzir comportamento crítico aos seus formandos, mas também pelos responsáveis da administração pública e municipal, a quem cabe o trabalho de definir as políticas urbanas, gerir e planear as cidades.

2. POR UMA IDEIA DE ARQUITETURA

Quando o Movimento Moderno, nos finais de novecentos, avança contra a disciplina doutrinária do classicismo das Beaux-Arts, não o faz sem propor um conjunto de novos princípios que dão sustentabilidade à sua causa revolucionária. Como sabemos, o Modernismo não nasce da simples recusa do passado, mas da criação de um programa novo, fortemente ancorado em conceitos científicos, matemáticos, sociais, culturais e artísticos a partir dos quais surge uma nova arquitetura e um novo urbanismo que hoje temos facilidade de identificar como a formação de um novo estilo, tal como o foi o gótico, o barroco, o renascimento.

Em As Metáforas da Arquitectura Contemporânea, Victor Consiglieri explica o quanto esta realidade concetual do racionalismo e do funcionalismo modernista é distinta daquilo que caracteriza hoje o pensamento arquitetónico, que nas palavras de Consiglieri vive atualmente da “intranquilidade das imagens” num processo ideológico em que a atividade crítica abandona os esclarecimentos sociais, se desvia de modelos filosóficos e se afasta de interligações culturais para se remeter a uma expressão de símbolos, individuais ou imaginários, apoiando-se numa nova gramatologia da desconstrução como grau mais evoluído da fragmentação (2007: 29).

Bruno Zevi expõe o problema quando nos chama a atenção para que o defeito característico da maneira de tratar a arquitectura nas histórias da arte corrente […] consiste no facto de os edifícios serem apreciados como se fossem esculturas e pinturas, quer dizer, externa e superficialmente, como puros fenómenos plásticos. […] desta forma, esquecem o que é específico da arquitectura e, portanto, diferente da escultura e da pintura, isto é, no fundo o que vale na arquitectura como tal (1977:13).
A sua crítica à finalidade escultórica ou pictórica da arquitetura é expressa de forma quase radical quando defende a não arquitetura do templo grego: Quem investigar arquitectonicamente o templo grego, buscando, sobretudo, uma concepção espacial, fugirá horrorizado, assinalando-o ameaçadoramente como exemplar típico da não arquitectura (Zevi, 1997:48). […] Os elementos constitutivos do templo grego são, como é sabido, uma plataforma elevada, uma série de colunas apoiadas nela e um entablamento contínuo que sustenta o tecto. É verdade que existe também uma cela que no período arcaico constituiu o único núcleo construtivo do templo, e por isso um espaço interior, mas nunca foi pensada,… [com] funções e interesses sociais: foi um espaço não contido, mas literalmente fechado, e o espaço interior fechado é precisamente característico da escultura (Zevi, 1977:49).

Naturalmente que com isto não queremos por em causa o quanto os protótipos da arquitetura greco-romana influenciaram a arquitetura do mundo Ocidental, e que Chueca Goitia soube magistralmente expor nas suas lições sobre a depuração dos modelos arquitetónicos e a agregação de corpos simples que, desde o Partenon até ao recente projeto do Bundestag de Berlim, criam toda uma gama de composições elementares ou mais complexamente articuladas (Goitia, 1996:21).

É exatamente por se constituir como espaço habitado que a arquitetura se distingue das outras artes, designadamente a escultura. Para Zevi o espaço é a realidade em que a arquitetura se concretiza (1977:19). Este protagonismo do espaço sobre a arquitetura, de que fala Bruno Zevi, não pode ser entendido pelo sentido meramente físico da coisa, ou seja, ele não se refere exclusivamente à compreensão do espaço enquanto abrigo da atividade humana, ainda que, apesar de todos os desenvolvimentos da ciência e da técnica, o homem, continua condicionado pela sua própria biologia, pela gravidade que o prende ao solo e pelas necessidades culturais inexoráveis que são constantes da arquitetura, independentes das roupagens com que esta se reveste em cada época.

Temos de entender esta ideia de espaço arquitetónico enquadrada numa lógica que incorpora múltiplos princípios e conceitos, como por exemplo os que Attilio Marcoli apresenta no seu curso de educação da visão em a Teoria do Campo. Aqui são tratadas matérias chave sobre a arte e a técnica na conceção da arquitetura como: os campos geométrico intuitivo, ghestáltico, topológico e fenomenológico; o campo morfogenético e as células construtivas; o campo ambiental. Em todos estes campos, um conjunto de elementos constitutivos estabelecem, entre si, interações e relações associativas, descritas e apresentas detalhadamente por Marcoli, como sejam as interações entre cada um destes campos, entre o objeto e cada campo, e a sua influência na composição arquitetónica.

A par destes aspetos teóricos, outros domínios da gramática arquitetural foram elaboradamente expostos e ilustrados por Francis Ching em Arquitectura: Forma, Espaço e Ordem, como sejam as ligações entre formas aditivas e subtrativas, as relações entre forma e espaço, a sua modulação, agregação e articulação, a interceção dos espaços e das formas, a relação interior exterior e as suas implicações com as aberturas, a circulação, a luz as sombras, os sistemas matemáticos e a noção de escala e proporcionalidade e não menos importante os princípios ordenadores como o eixo, a hierarquia ou o ritmo.

Teremos ainda de incluir nesta estrutura de fundamentos da ciência da conceção arquitetural, o que foram as várias idades do espaço, ou seja a sua história, aquilo que lhe dá identidade cultural e informa a sua antropologia, o que pode ser a expressão vernácula e a tradição local de interpretar, conceber e fazer arquitetura, no seu compromisso com a natureza cultural dos lugares e na sua ligação com a especificidade geográfica dos sítios e das paisagens. Neste sentido há que ter em conta o que diz respeito ao urbanismo ecológico, nomeadamente as interdependências entre o sistema projetado e o meio ambiente e os novos modelos de uso associados aos conceitos de ecoedificação e as suas consequências no projeto, particularmente o que se refere aos modelos lineares e cíclicos de uso de matérias e o seu impacto direto no ciclo de vida do edificado (Ken Yeang: 1999).

A aquisição deste conhecimento teórico é exigível aos arquitetos e deveria fazer parte do seu discurso e do seu vocabulário sobre a arquitectura e o urbanismo. Neste conhecimento teórico deveria sustentar-se a prática da arquitetura, com todas as implicações técnico-construtivas inerentes à materialização e funcionamento dos edifícios, em contracorrente a uma aposta que passa por uma arquitectura não codificada, desterritorializada, intencionalmente subjectiva e na qual não seja possível aplicar categorias de entendimento (Consiglieri, 2007: 290). 

Tal conhecimento confere ao arquiteto uma maior consciência do que é a arquitetura e do seu valor enquanto objeto de arte onde se associam a dimensão física e social do espaço e permite, numa perspetiva otimista, reverter o processo atual de produção de uma arquitetura sem raízes culturais e históricas, que a economia de mercado fez entrar na cadeia de consumo, onde o espaço passou a ser considerado um produto de marketing integrado na cadeia de produção da indústria do imobiliário. Não sendo esse o caso, existe o risco de no futuro as cidades estarem pejadas de “não arquiteturas”, fragmentos de formas efémeras, sem tempo nem lugar, momentos etéreos de modas estéticas, e por isso mesmo dispensáveis e descartáveis no registo da memória futura.

3. CONCEITO, RAZÃO E A QUESTÃO DO GOSTO

A ausência no discurso dos arquitetos de uma linguagem codificada, onde o entendimento do “raciocínio de projecto” (utilizando a expressão do texto introdutório deste congresso) assenta numa gramática logicamente formulada sobre a teoria e a prática da arquitetura, tem levado muitos arquitetos ao uso recorrente da afirmação de “gosto pessoal” como estratégia justificativa das opções arquitetónicas, sem ter de admitir a necessidade de uma defesa lógica e coerente das tomadas de decisão sobre as escolhas estéticas, formais e espaciais.

O mesmo se poderá colocar quando falamos do ensino da arquitetura e do urbanismo, sendo uma das críticas apontadas, o seu estado deficitário em termos curriculares por este se encontrar demasiado centrado nas questões da imagem e propostas casuísticas consignadas ao “gosto individual”, sem verdadeiro propósito de uma formação assente em teorias, princípios, códigos ou modelos de composição.

Sobre este apelo ao “gosto” como argumento de autojustificação para a tomada de decisão estética, formal ou artística, considero ser importante citar o que Emmanuel Kant nos diz na sua Dialética do julgamento estético onde este filósofo faz a exposição da anatomia do gosto, a partir de duas expressões proverbiais de afirmação do gosto, procurando demonstrar a sua insuficiência argumentativa e a inutilidade da sua aplicação prática.

O primeiro lugar comum do gosto está contido na proposição, graças à qual aqueles que, não têm gosto, pensam defender-se de qualquer culpa: a cada um o gosto próprio. Isso significa que o princípio de determinação desse julgamento é simplesmente subjetivo (prazer ou dor); e o julgamento não dá qualquer direito à necessária adesão de outros (Kant, 1986: 162-163). A afirmação do gosto próprio como único termo justificativo implicaria aceitar a arquitetura como um exercício de vontade própria, resultante de uma conceção baseada em princípios subjetivos, desobrigada de um compromisso social e acordo com o coletivo, cultura e lugar, colocando o objeto arquitetónico numa situação acrítica do ponto de vista da sua análise e teorização.

Pensar o objeto arquitetónico como uma singularidade, cujo processo criativo não está sujeito às propriedades das formas nem condicionado pela fenomenologia do fazer arquitetural, dependendo a sua composição estética e estrutura formal do gosto próprio, seria admitir a inutilidade do pensamento arquitetónico e talvez a própria improficiência do seu ensino e vacuidade da sua aprendizagem. Tal não significa que deixemos de ter em consideração um grande número de obras arquitetónicas de excelência, que em todos os períodos históricos se constituíram exemplos únicos, protótipos concetuais de novos movimentos doutrinários, ou cuja beleza pode ser reconhecida sem conceito como objecto de uma satisfação necessária (Kant, 1986:80).

O segundo lugar comum do gosto, do qual fazem uso aqueles que conferem ao julgamento de gosto o direito de pronunciar julgamentos validos para todos, isto é: o gosto não se discute. O que significa: o princípio de que a determinação de um julgamento de gosto poderia seguramente ser objectiva, mas não se podendo reportar a conceitos determinados; por consequência não podemos decidir nada com provas sobre o próprio julgamento, ainda que se pudesse discutir a bom direito; […] naquilo em que por uma resistência recíproca aos julgamentos se procura produzir o […] acordo através de conceitos determinados como razões demonstrativas, e que em consequência admitem conceitos objectivos como princípios do julgamento (Kant, 1986: 163). Tomando como válida esta proposição, poderíamos dizer que «o gosto discute-se» uma vez que de outro modo seria absurdo manter o diálogo sobre um determinado projeto arquitetónico ou plano urbanístico. Defender a atitude opinativa de gosto sem necessidade de referência a conceitos objetivos, seria admitir que a cidade como um somatório de edificações autonomizadas sem critérios ou referências tipológicas e de espaços urbanos desarticulados e desconexos, impossíveis de conceber dentro de um qualquer sistema orgânico, ou seja, a inexistência do urbanismo.

Como refere Kant, onde é permitido discutir, devemos ter também a esperança de concordar: por consequência devemos contar com princípios de julgamento, que não possuem simplesmente um valor particular e que não são simplesmente subjectivos (1986:163).

Aceitando a ideia de que o julgamento de gosto corresponde a uma escolha arbitrária dos códigos que informam o processo compositivo que deixa de ter bases teóricas que o sustentem, sendo assim necessário, numa perspetiva académica e profissional, pensar a fenomenologia da arquitetura e do urbanismo contemporâneo e desenvolver os modelos teóricos e os fundamentos concetuais: técnicos, artísticos e estéticos sobre os quais seja possível construir o pensamento doutrinário que pretendemos seguir. Numa conferência realizada na Aula Magna da Universidade de Roma, em 1963, Bruno Zevi defendia a necessidade da substituição de uma doutrina precedente por doutrinas mais novas e atuais, e o dever de formular um novo método que em vez de suprimir a história e o conhecimento teórico, fosse capaz de penetrar na realidade arquitetónica a todos os níveis, desde o planeamento do território à modinatura e ao signo mais ínfimo da imagem. Esta será porventura a tarefa e o desafio que se coloca hoje a académicos e praticantes.

Figura 1: Cesto de papéis do atelier da rue de Sèvres antes e depois do pontapé de Alfred Roth, publicado por Le Corbusier em «Défense de l´architecture»

4. CONCLUSÕES

Desde o início da formação das sociedades humanas, a arquitetura tem estado intimamente ligada à existência humana e tem acompanhado a sua evolução histórica, registando na permanência da realidade física edificada pelo homem os fenómenos da sua existência. Em todos os tempos, em todas as civilizações, a arquitetura tem servido para registar o potencial da arte e do engenho criativo da humanidade e constituir-se simultaneamente no habitat da própria existência humana, como segunda pele, mais exterior, fazendo do espaço um outro corpo que o homem não sente estranho a si mesmo, mas com o qual se identifica.

Em todo este processo histórico, a íntima relação entre a arquitetura e a cultura humana, material e imaterial, implicou na formação dos arquitetos a aquisição de um conhecimento humanista; o desenvolvimento da capacidade de síntese; o exercício do desenho e a habilitação de projetar como processos de configuração e materialização das ideias.

Estas qualidades intelectuais, proporcionadas pelo ensino e a aprendizagem, são hoje essenciais para superar os desafios que se colocam ao urbanismo e ao ordenamento territorial, onde se juntam questões multidisciplinares e transdisciplinares, cuja resolução envolve processos e metodologias de trabalho integrado com o objetivo de conceber soluções de equilíbrio entre a dimensão física e social do espaço.

A capacidade de síntese revela-se determinante quando o arquiteto é confrontado com o dilema «arte-técnica», «forma-função», que faz da arquitetura uma atividade híbrida, que decorre da conjugação, formal e espacial, de lógicas estéticas com programas funcionais exigentes, inovações construtivas cada vez mais complexas, condicionalismos legais e orçamentais que necessariamente o projeto deve articular e integrar de modo coerente e sustentável.

O desenho, a expressão do traço, são normalmente associados à própria identidade do arquiteto, ao seu caráter, à sua forma de ver o mundo e interpretar os seus acontecimentos desde os aspetos mais abstratos e simbólicos aos pequenos detalhes do quotidiano, que se consubstanciam no conceito de projeto. Essa prática do desenho e, por consequência do projeto tem sido fortemente influenciada por dois fatores, interdependentes, que importa assinalar: 1) o acesso aos sistemas informáticos que facilitando o desenho por computação, abriu novas possibilidades no campo da representação da dinâmica das formas e na modelação e plasticidade dos espaços e superfícies; 2) a introdução de uma nova geometria fractal, fragmentada, distorcida, poliédrica, cujo conhecimento matemático verdadeiramente nos escapa e dificilmente se consegue transmitir de forma orientada a sua morfogénese.

Por tudo o anteriormente exposto podemos dizer que se colocam hoje grandes desafios ao ensino da arquitetura e do urbanismo. Competirá às escolas trazer a história, a filosofia, a sociologia e a própria arte para o centro das nossas preocupações de ordem espacial e construir um quadro de referências com base em critérios estéticos e processos criativos. Muito provavelmente a construção dessas referências passará por recuperar conceitos resilientes da história e da teoria que possam ser estudados a par de novos conceitos, num contexto cultural marcadamente distinto da realidade anterior, procurando assim proporcionar continuidade na evolução natural da arte e da ciência da arquitetura e do urbanismo.

REFERÊNCIAS
AUGÉ, Marc, Não Lugares – Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade, 90 Graus Editora Lda., Lisboa, 2005.
CONSIGLIERI, Victor, As Metáforas da Arquitectura Contemporânea, Editorial Estampa, Lisboa, 2007.
GOITIA, Fernando C., Protótipos na Arquitectura Greco-Romana e a sua Influência no Mundo Ocidental, Ed. Ulmeiro, Lisboa, 1996.
KANT, Emmanuel, Critique de la Faculté de Juger, Librairie Philosophique J.Vrin, Paris, 1986.
SIMMEL, Georg, Philosofie de L´Argent, Quadrige / PUF Presses Universitaires de France, Paris, 1987.
TAFURI, Manfredo, Teorias e História da Arquitectura, Editorial Presença, Lisboa, 1979.
YEANG, Ken, Proyectar con la Naturaleza, Editorial Gustavo Gili, SA, Barcelona, 2006.
ZEVI, Bruno, Saber Ver a Arquitectura, Editora Arcádia, Lisboa, 1977.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
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Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº453
ARQUITETURA EM ESTADO CRÍTICO
LNEC- Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

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