sábado, junho 11, 2011

Outras formas de habitar (i): breves notas sobre o velho Arraial Ferreira Neto e novo Vila Galé Albacora - Infohabitar 350

artigo de António Baptista Coelho

Infohabitar, Ano VII, n.º 350

Fig. 01

Não se pretende com este pequeno artigo fazer mais do que o que se julga ser um pouco de justiça a uma intervenção que, de certa forma, fez reviver um velho espaço de habitar, num novo espaço também de habitar, um habitar de recreio e lazer, mas ainda assim um habitar, reconvertendo-se funções mas mantendo-se viva:

(i) não só a memória dos velhos usos, trazendo-a ao convívio com os dias de hoje, pela presença global do velho Arraial e pela existência de um pequeno museu sobre a pesca do atum;

(ii) mas mantendo igualmente vivo um, carácter e uma escala de edificação fortemente e agradavelmente marcada pela escala e pelos usos humanos, matérias estas com as quais ainda hoje e no futuro podemos e devemos aprender a fazer conjuntos de habitar e urbanos onde nos sentimos melhor, porque nos sentimos em casa, dentro e fora de casa - e no Arrail Ferreira Neto dá realmente para pensar mais um pouco nestas matérias, como iremos fazer, ainda que de forma muito ligeira neste pequeno artigo de simples apresentação geral, deixando-se uma eventual análise pormenorizada para uma outra oportunidade.



Fig. 02

O autor destas linhas não conhecia o velho Arraial Ferreira Neto, convertido no novo Vila Galé Albacora, e foi por acaso e ao sabor das teclas e da www, que encontrou uma crítica de quem o tinha descoberto há alguns anos e, desde aí, a ele voltava, em cada ano, por ser o que ele considerava uma pequena jóia escondida, ou imagem de texto semelhante; era este o teor do pequeno texto do viajante desconhecido, que me levou a espreitar a possibilidade de rumar a Sul até esse sítio com um nome tão pouco vulgar.



Fig. 03

Depois. Falando com um amigo algarvio foi-me dito ser, hoje em dia, o velho Arraial Ferreira Neto, um espaço interessante de estada e, sublinhe-se, um sítio sossegado, qualidade esta cada vez mais rara e apreciada, pelo menos nas poucas voltas que vou fazendo; e diga-se que, naturalmente, o final de semana e a proximidade da época "alta" das praias não irá fazer marcar de forma clara esse sossego, mas dá para imaginar, de forma clara, que ele será expressivo durante boa parte do ano, e um sossego de certa forma bem acompanhado e protegido pela própria forma geral do "Arraial", um quase fortim estrategicamente situado no final da pequena estrada que nos leva às "Quatro Águas" - e cá está mais um nome cheio de força e muito provavelmente de "estórias" e de história.

O Arraial Ferreira Neto está localizado no Parque Natural da Ria Formosa, na foz do Rio Gilão, bem perto de Tavira, num sítio as "quatro águas": do Rio Gilão, do canal de Cabanas, do canal de Tavira e da Barrara de Tavira de acesso ao mar (informações retiradas do folheto dos Vila Galé Hotéis, intitulado "Eco-Hotel Vila galé Albacora", http://www.vilagale.pt/ ).

O Arraial Ferreira Neto está ligado à pesca do atum na zona, uma actividade que obrigava a um elevado número de pescadores e a intervenções ráidas e estratégicas e bem coordenadas.
Fig. 04

Usando informações retiradas de documentos fotocopiados que foram gentilmente cedidos pela recepção do Hotel Vila Galé Albacora - documento intitulado " Hotel Vila Galé Albacora - Visita Guiada ao Museu do Atum Arraial Ferreira Neto" (sem indicação expressa de autoria) - cita-se que:

"No território nacional, o Algarve é a região com melhores condições hidrográficas para a sua captura" (do atum)", pois fica na rora de ida para o Mediterrâneo, e de volta ao Atlântico. Ao longo do litoral algarvio, as almadravas eram colocadas a pouca distãncia da costa em sentido longitudinal ao rumo do atum, de forma a interromper a sua marcha. Este, ao tentar contorná-las, dirigia-se para um compartimento totalmente fechado denominado «copo» (com cerca de 150m de comprimento e 54 de largura, era a parte mais importante da armação, visto constituir o local onde se realiza o «copejo» - puxar os atuns para os barcos) ...


A armação do "Medo das Cascas" surge em tavira diante do Forte do rato, no Parque Natural da Ria Formosa wm 1881, tendo enorme êxito ...


A armação ficava próxima do arraial, mas afastada das povoações mais próximas, pelo que foi necessário construir habitações para os pescadores e as suas famílias, durante a temporada das pescas (entre Março e Setembro/Outubro).


Baseada no projecto do Eng.º Sena Lino, o arraial é inaugurado em 1945, como nome de Arraial Ferreira Neto, em homengem a um dos directores da Companhia das Pescarias do Algarve.


Além das habitações possuíam ainda, armzéns de recolha e restauro do material de pesca, escritórios, mini-mercado, escola primária, capela, posto médico e barbearia.


Aqui era-lhes fornecido tudo o considerado essencial para a vida quotidiana, sendo poucas as vezes em que saíam do arraial, e quando o faziam só com a autorização do «patrão», e apenas em ocasiões especiais, como festas e feiras realizadas na cidade.


Os pescadores só eram pagos no final de cada temporada, de acordo com a quantidade e valor dos atuns pescados. Assim, os pescadores usavam «tickets» para fazer as compras no arraial. Quando recebiam o salário que lhes competia saldavam as dívidas.


A «Companha» contava com mais de uma centena de homens, os «companheiros». No caso do Arraial Ferreira neto seriam 120 homens mais as suas famílias."

Fig. 05

Em 1972 a captura do atum fracassou totalmente em Tavira e o "Arraial Ferreira Neto" encerra e fica abandonado, sendo depois utilizado, em 1974, e em péssimas condições de habitabilidade, por famílias de retornados/refugiados das ex-colónias africanas, que, depois, foram realojados, tendo o arraial ficado ao abandono, até que em 1998 o grupo Vila Galé o comprou e reconverteu a hotel/complexo turístico, mantendo e tirando partido arquitectónico das características arquitectónicas e de integração paisagística que caracterizam o Arraial Ferreira Neto como um sítio único.


Fig. 06

E, do mesmo documento, retira-se a origem do nome do novo hotel "albacora", que era o nome que os árabes chamavam ao atum: "al bacora", o porco - talvez porque também como no porco, no atum tudo se aproveita.

Quanto aos espaços habitáveis do velho arraial, algumas pequenas notas, ao sabor das teclas:

- A relação de proximidade e de relativa distância com a excelente cidade de Tavira, que propicia boas alternativas de estada.

- A sobriedade global do conjunto, sempre de salientar numa altura em que tanto se agride a paisagem e a memória ddos sítios e dos edifícios.

- O sentido de recinto protegido e relativa e agradavelmente fechado, que no entanto não evita que a relação com a natureza seja extremamente efectiva, como se aquela obra do homem estivesse razoavelmente aliada àquele sítio natural; e foram várias as espécies de pássaros menos comuns que amigavelmente são observáveis bem perto dos edifícios.

- A relação de contiguidade com a ria, que porporciona todo um leque de passeios e actividades, em alternativa fácil ao sossego e ao descanso no agradável recinto do arraial.

- O "miolo" habitacional recuperado e reconvertido do velho arraial, centrado na zona escolar e religiosa, que nos faz recuar no tempo num sítio que vamos habitare portanto sentir directamente durante alguns dias.

- A intervenção paisagística intensa e de grande sensibilidade com a introdução de grandes manchas de pequenos arbustos, plantas rasteiras, plantas com manchas de cor estratégicas, num conjunto de verdes e plantas aromáticas que se liga muito bem com a escala humana das edificações e que é, també, factor natural de conforto/frescura.

- O sentido de estarmos num pequeno mundo do peão, bem afastados dos automóveis, um mundo pacífico e agradável,.

- As pequenas ruelas que nos levam a parte dos quartos, aqueles realizados a partir dos velhos alojamentos das famílias de pescadores; caracterizadas por uma escala e um cenário extremamente cativantes e que deveriam servir de referência para muitas outras intervenções para habitat humano.

- E, depois as ainda mais pequenas ruelas (com nomes) que dão acesso directo às casas/quartos, er que são marcadas pelas portas com janelas/postigos das mesmas casas quartos.

- E, finalmente, os quartos/casas, com casas de banho com janela e com luz natural de um e de outro lado, mais um mini quintal/pátio nas traseiras e delimitado por sebes naturais.

- Para além de todos estes aspectos fica por tratar e desenvolver a importante e exemplar componente de sustentabilidade ambiental e de harmonização ecológica que caracteriza a intervenção de reconversão do antigo arraial em hotel, uma matéria que por si própria será capaz de justificar um artigo específico.

Mas desde já se refere que nesta matéria:

"Em 2009 a Vila Galé assumiu o seu primeiro importante projecto na lógica do desenvolvimento sustentável. Encarado como um meio de gestão dos recursos ambientais, respeitando a identidade sociocultural da comunidade de tavira, assegurando uma actividade económica viável a longo prazo e oferecendo benefícios socioeconómicos a todos os envolvidos.


O Vila galé Albacora iniciou a operacionalização do projecto ao implementar um Sistema de Gestão Ambiental e desenvolvimento Sustentável «Eco-Hotel TUV», através da certificação «LiderA», assim como com a candidadtura ao programa «Chave Verde» e à certificação em «Empreendimento Turismo de Natureza»." - citação do folheto dos Vila Galé Hotéis, intitulado "Eco-Hotel Vila galé Albacora".

Mais se refere que a verdadeira pequena aldeia que integra o velho Arraial Ferreira Neto é Edifício Classificado pelo IPPAR como Imóvel de Interesse Público - Decreto-Lei n.º 5/2002, 19 de Fevereiro, e constitui um Núcleo Museológico do Museu Municipal e Polinucleado de Tavira.
Referências úteis:

Vila Galé Hotéis www.vilagale.pt

TÜV Rheinland Portugal http://www.tuv.pt/

Sistema LiderA http://www.lidera.info/

A Chave Verde

Programa Nacional Turismo de Natureza

Museu Municipal de Tavira


Fig. 07

Fig. 08


Fig. 09


Fig. 10


Fig. 11


Fig. 12


Fig. 13


Fig. 14

Sinteticamente, valeu a pena e vale a pena conhecer o velho Arraial Ferreira Neto, um exemplo de um caminho na actividade turística em que é possível aliar uma pequena estada de lazer com um pequeno mergulho na nossa excelente natureza e na nossa estimada história e cultura; um exemplo a seguir noutros sítios e aproveitando outros "temas" naturais, arquitectónicos e culturais.

Notas finais:

O autor deste artigo não viajou a convite de nenhuma entidade ligada ao turismo, sendo estas linhas resultado de uma estada num sítio muito agradável e que merece ser visitado e saboreado, havendo aqui, no velho Arrail Ferreira Neto, aspectos de qualidade arquitectónica residencial que podem ser reinterpretados e utilizados como referência em novos projectos de habitar perm,ente ou de lazer - e não seria um bom objectivo que o habitar permanete fosse também de lazer?

Agradece-se a simpatia da recepção do "Vila Galé Albacora" na disponibilização dos documentos sobre a pesca do atum e a história do hotel, e agradece-se ao autor, que se desconhece, do documento intitulado " Hotel Vila Galé Albacora - Visita Guiada ao Museu do Atum Arraial Ferreira Neto", sem o qual este artigo não teria o seu conteúdo essencial; caso nos seja facultada essa referência de autoria ela será, de imediato, apontada.

Faz-se, também, uma referência de muito apreço pelos projectistas da reconversão do arraial em hotel, pela sensibilidade demonstrada e pelo resultado obtido; não se conhecem, desde já, os nomes dos colegas responsáveis designadamente pelo projecto de Arquitectura e de Arquitectura Paisagista, mas fica aqui a promessa firme que, logo que me seja facultada essa informação ou a consiga obter eles serão aqui devidamente registados.

E tem de fazer-se uma referência final específica e muito positiva ao grande profissionalismo e extrema simpatia do pessoal do Vila Galé Albacora, responsáveis por uma qualidade de serviço muito bem harmonizada com a qualidade cénica e habitável deste excelente arraial.

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