segunda-feira, novembro 23, 2009

Bairros vivos, cidades vivas: uma reflexão geral - Infohabitar 273

Infohabitar, Ano V, n.º 273
Conferência Bairros vivos, cidades vivas
24 de Novembro de 2009 no LNEC
O Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Departamento de Edifícios (DED) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) faz 40 anos de actividade, em 24 de Novembro de 2009, pois data de 24 de Novembro de 1969 o documento que regista a criação do NAU.
Com vista a marcar esta data é realizada nessa data uma conferência sobre os “Bairros Vivos, Cidades Vivas”, que terá como oradores vários colegas que desenvolveram actividade ou que cooperaram de perto com o NAU ao longo desses 40 anos.
Caso ainda haja vagas no auditório será ainda possível realizar a sua inscrição nesta Conferência, cujo excelente programa encontra, também aqui no Infohabitar, bastando consultar as edições n.º 271 e 270.
A inscrição é gratuita e obrigatória, para o respectivo Secretariado: apinho@lnec.pt
Telf.: + 351 21 844 35 15
A edição do Infohabitar e a Chefia do NAU do LNEC
Bairros vivos, cidades vivas: uma reflexão geral
António Baptista Coelho
A temática de uma cidade mais viva é, hoje em dia, um objectivo central do desenvolvimento urbano. E é um objectivo extremamente ligado ao desenvolvimento de uma habitação mais adequada pois, como diz Manuel Correia Fernandes, “o modo mais natural de fazer cidade é (fazê-la) com habitação” e a “cidade sem habitação não faz sentido...” (1)
Mas não será uma qualquer habitação pois como os modos de vida mudaram e se diversificaram, é necessário flexibilizar a oferta de soluções urbanas e residenciais e assumir cada vez mais a habitação como vários espaços de habitar: dos agradáveis interiores domésticos às ruas e pracetas animadas. E nestas ruas e pracetas citadinas, é essencial a sua devolução à estima e ao intenso uso públicos, pois, tal como defende Jan Gehl, enquanto antigamente uma casa cheia de gente era uma pequena cidade, hoje em dia os que vivem sós, ou em pequenos grupos, precisam da vida urbana para viverem com diversidade e estímulo.


Fig. 01: uma vizinhança residencial fortmente habitável no norte da Alemanha.
Cada vez mais o habitar tem de se ser entendido numa perspectiva ampla, como entidade viva, que contribua para a vida da vizinhança, do bairro e da cidade. E portanto, quando pensamos nas vizinhanças urbanas, que são as células dos bairros e das cidades, elas devem integrar, além das habitações, pequenos equipamentos adequados quer às mais diversas necessidades, quer ao estímulo do convívio, numa perpectiva de verdadeira extensão do habitar à cidade.
A resposta doméstica deverá ser o desenvolvimento da adaptabilidade e da funcionalidade, e uma incorporação ponderada das inovações, mas não uma “casa do futuro” que seja, essencialmente, uma casa de “gadgets”
Ao nível dos edifícios a apropriação cresce com a redução da dimensão do respectivo conjunto habitacional e urbano e do seu número de fogos, em soluções baixas, densificadas e com continuidade urbana; afinal aquilo que Henri Lefebvre qualifica como sendo desejado por muitos habitantes, e que é o unifamiliar num contexto colectivo, o espaço apropriável com as vantagens práticas e conviviais da vida social organizada.
E ao nível das vitais micro-vizinhanças é necessário aprofundar a ligação entre densidade, convivialidade, forma urbana com escala humana e tipologias formal e funcionalmente amigáveis, numa cidade que não seja rígida e dependente do automóvel - e que seja bem apropriável nas suas partes.
Neste positivo "jogo" tipológico que se propões é necessária uma tipologia duplamente iniciada: seja na escala do fogo, e seguindo “para cima”; seja na escala da cidade/bairro, e seguindo “para baixo”, ligando-se a habitação à vizinhança citadina. Construída com elementos de ligação, limiar, separação e transição e marcada pelo seu sítio único.
Fig. 02: a ligação, quase directa, entre vizinhança e habitações numa diversificação dos modelos de habitar a proximidade, Cooperativa Massarelos, Porto, dos arquitectos Francisco Barata e Manuel Fernandes Sá.
Não haja dúvida de que é muito mais motivador fazer, mais livremente, a ligação entre tipos de fogos e tipos de vizinhanças de proximidade, do que continuar a estar cativo de uma relativa ditadura de tipos de fogos, tipos de edifícios e tipos de vizinhanças; e tal como escreveu Francisco de Gracia (1992), “a nova tipologia tende a ligar edifício e morfologia urbana numa fortíssima relação com cada lugar”.
E para podermos gozar espaços urbanos motivadores importa não esquecer o sentido lúdico que deve marcar as conjugações de acessos a habitações, equipamentos e espaços urbanos, sendo o predomínio estratégico do peão em espaços mais segmentados e variados a condição para uma cidade mais viva e amiga do habitante.
Actuar desta forma exige uma arquitectura urbana bem qualificada, pormenorizada, caracterizada por uma pequena escala civicamente enriquecedora , muito humana, e sem negativas repetições de soluções; um processo que exige enquadramento específico, pois o principal segredo é, provavelmente, a qualidade real do projecto, uma qualidade que tem de ser exigida, verificada e direccionada para melhores habitações e melhores paisagens urbanas.
Norberg-Schulz escreveu que “a arquitectura se preocupa com algo mais do que necessidades práticas e economia. Ela refere-se a conteúdos e significados existenciais .. experimentados como ordem e carácter” e, disse ele, que ”por vezes o projecto “não é mais” que um elemento de valorização da união de condições naturais e urbanas preexistentes; e podemos comentar que o projecto deveria ser sempre isso, um complemento subtil, no sentido de uma adequada sobriedade e de um carácter que nos fale à alma.
E bem precisamos destes suplementos de alma num mundo público citadino contemporâneo em que quase desapareceram os pequenos mundos intermediários das famílias alargadas e das comunidades de vizinhos, deixando-nos tantas vezes isolados nos nossos refúgios domésticos. Uma situação que salienta a urgência da re-humanização da cidade e do desenvolvimento de amplas soluções de habitar muito sensíveis a tais problemas, soluções que levem a cidade à habitação e que vitalizem a cidade com habitação; numa visão que traz, também, outras vantagens, pois baseia-se numa caracterização de bairros distintos e humanizados ainda bem viva nas nossas cidades e muito atractiva, o "espírito de bairro" tal como foi apontado num recente artigo do Público (intitulado "Lisboa tem graça como ninguém", e escrito por de Alexandra Prado Coelho, Fugas, 31 de Outubro 2009).
Fig. 03: uma das excelentes vizinhanças residenciais á escala humana, sossegadas, protegidas do tráfego de atravessamento, mas próximas da animação urbana, em Alvalade, Lisboa.
E aliás temos em Lisboa o excelente exemplo do Bairro de Alvalade, provavelmente o único verdadeiro plano bem integrado, alguma vez feito em Portugal, e onde se harmonizaram vários grupos socioculturais, vários tipos de actividades, grandes equipamentos e continuidade urbana e tudo isto bem marcado por uma assinalável humanização do edificado e dos espaços públicos, simultaneamente com a marcação de fortes pólos de urbanidade. Tudo isto num processo de ajudar a fazer uma cidade mais viva com um bairro vivo, e um bairro cuja vitalidade provém de vizinhanças diversificadas, caracterizadas e variadamente vitalizadas.
Talvez que o tema comum numa cidade e numa habitação que tenham, ambas, verdadeiro interesse social, uma realidade bem presente no exemplo de Alvalade - um exemplo que por vezes parece basear-se em "mistérios", mas que está bem à vista nos seus ingredientes -, seja um habitar de vizinhanças bem conjugadas, um habitar que tanto embeba a escala humana e muito amigável das contiguidades domésticas, como esteja disponível, mercê de simples e diversificadas associações, para participar activamente na construção das escalas maiores das vizinhanças mais alargadas, dos bairros e das partes de cidade.
E em tudo isto não tenhamos qualquer dúvida que temos de pensar bem para lá dos aspectos quantitativos, pois, afinal, e como escreveu Burle Marx, há (2) “duas paisagens: uma natural e dada, a outra humanizada e, portanto, construída” e “além das implicações decorrentes das exigências económicas”, não podemos esquecer que “a paisagem também se define por uma exigência estética, que não é nem luxo nem desperdício, mas uma necessidade absoluta para a vida humana e sem a qual a própria civilização perderia a sua razão de ser.” E esta frase fala de um bairro bem desenhado, que valoriza a sua cidade e que ajuda a definir espaços urbanizados e não urbanizados de uma forma positiva.
Notas:
(1) Manuel Correia FERNANDES, «Anos 80 As Cooperativas de Habitação e o Desenho da Cidade, a Senhora da Hora em Matosinhos» in Encontros AAP Habitação, 1.º Encontro: fazer cidade com habitação, Lisboa, Sede Nacional da AAP, 8 de Maio de 1998, p. 1.
(2) Jacques LEENHARDT (entrevistador), Nos Jardins de Burle Marx, São Paulo, Editora Perspectiva, 2000 (1994), pp. 62 e 47
Infohabitar, Ano V, n.º 273
Editor: Grupo Habitar
Coordenador editorial: António Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 22 de Novembro de 2009
Edição de José Baptista Coelho

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