quinta-feira, dezembro 14, 2006

Análise Retrospectiva/Avaliação Pós-Ocupação (APO) habitacional desenvolvida e aplicada pelo LNEC, artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 117

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Análise Retrospectiva/Avaliação Pós-Ocupação (APO) habitacional desenvolvida e aplicada pelo LNEC


(análise, apo, habitação, urbanismo, satisfação, estudos de caso, metodologia)

Nota sobre a ilustração: as imagens que ilustram o artigo referem-se à última campanha de APO do LNEC, pretendem dar uma ideia muito geral do tipo de soluções e do trabalho desenvolvido – que vai do mais geral para o mais particular, e das reuniões de trabalho com promotores e projectistas para a visita aos locais – e iniciam-se com quatro imagens referidas aos seguintes conjuntos: Fig. 01, edifício municipal em Queluz/Sintra, 1994, projecto coordenado pelo Arq. Bartolomeu Costa Cabral; Fig. 02, Cooperativa Ugtimo, Zambujal/Amadora, 1997, projecto do Arq. José Bicho; Fig. 03, conjunto municipal da Politeira/Oeiras, 1998, projecto coordenado pelo Arq. Manuel Salgado; e Fig. 04, zona posterior do edifício municipal na Buraca/Lisboa, projecto coordenado pela Arq.ª Ana Lúcia Barbosa (soluções adequadas à etnia cigana). Na fotografia de grupo atente-se no Prof. Khaled Ghoubar da FAUUSP então em estadia no LNEC e que, tal como a Prof.ª Sheila Ornstein, participou em algumas jornadas de APO do LNEC, no âmbito de uma cooperação, que continua activa, entre o LNEC-NAU e a FAUUSP-NUTAU.




(fig. 01)


Equipa do LNEC

Equipa do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) que desenvolveu a Retrospectiva/APO do LNEC nas suas três campanhas/edições: António Baptista Coelho (ccordenação), António Baptista Coelho, João Branco Pedro. Isabel Plácido e António Reis Cabrita (Urbanismo e Arquitectura); Marluci Menezes e Maria João Freitas, (Geografia, Antropologia e Sociologia,), António Leça Coelho, Fernanda Carvalho e Paulina Faria (Engenharia e Construção).

Destaca-se, desde já, a importante contribuição da Doutora Marluci Menezes em todo o trabalho e designadamente no apuramento dos aspectos de satisfação residencial, a partir dos dados recolhidos nos inquéritos, aspectos estes que constituíram uma importante matéria de base para este texto.

Introdução
Apresentam-se, sinteticamente, as bases metodológicas e alguns dos resultados da aplicação da Análise Retrospectiva, ou de Pós-Ocupação, desenvolvida no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, através dos seus Núcleos de Arquitectura e Urbanismo e de Ecologia Social.
Esta Análise Retrospectiva foi realizada ao parque habitacional financiado pelo Instituto Nacional de Habitação – habitação apoiada pelo Estado (Habitação de Custos Controlados, HCC) – e foi já aplicada em três campanhas abrangendo, assim, um período temporal significativo.

A análise foi desenvolvida numa perspectiva multidisciplinar, que inclui a apreciação dos modelos de arquitectura urbana desenvolvidos, considerando desde os processos de promoção à pormenorização habitacional, bem como os aspectos construtivos e de acabamentos considerados mais importantes e ainda a fundamental problemática da ligação entre o que é projectado e construído e a satisfação dos habitantes.

Todas as três campanhas de análise foram realizadas pela mesma equipa técnica, com pequenas variações na sua composição e numa estreita colaboração entre responsáveis e técnicos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e do Instituto Nacional de Habitação (INH).

Desta forma conseguiu-se uma sequência de três estudos de acompanhamento da promoção de HCC:
1ª Análise Retrospectiva ao período de 1985 a 1987;
2ª Análise ao período de 1988 a 1994;
3ª Análise Retrospectiva ao período de 1995 a 1998.


A ideia foi fazer-se uma aproximação aos aspectos mais significativos, para a actual promoção de HCC, de um amplo período de promoção de habitação apoiada pelo Estado, em Portugal, período que abrange cerca de 14 anos, entre 1985 e 1998.

Salienta-se que se estudaram conjuntos habitacionais cujo prévio conhecimento genérico apontava para poderem contribuir, significativamente, para o adequado conhecimento e caracterização de determinados períodos de promoção de HCC, sublinhando-se ainda que essa análise foi e será sempre feita numa perspectiva dinâmica e prospectiva de poder trazer úteis contribuições para se fazer melhor HCC. Os critérios globais de selecção destes empreendimentos de HCC foram a sua caracterização em termos de tipo de promoção, tipologia residencial e localização geográfica e urbana.

Dimensão das três Análises Retrospectivas ou de Pós-Ocupação:


Na 1º Análise Retrospectiva foram estudados 12 conjuntos com 674 fogos, concluídos nos anos de 1986 a 1988, portanto conjuntos do início da actividade do INH e ainda de transição entre a actividade do ex-Fundo de Fomento da Habitação (FFH) e a do Instituto Nacional de Habitação (INH); a taxa de resposta ao respectivo inquérito a todos os moradores foi de 19%.

Na 2º Análise Retrospectiva foram estudados 14 conjuntos, num total de 1267 fogos, concluídos nos anos de 1988 a 1994; a taxa de resposta ao respectivo inquérito a todos os moradores subiu para 23%.

Na 3º Análise Retrospectiva foram estudados 16 conjuntos com 1283 fogos, concluídos nos anos de 1995 a 1998 – salientando-se haver ainda um caso de 1994; a taxa de resposta ao respectivo inquérito a todos os moradores subiu ainda para 24%.



(fig. 02)

Entre qualidade arquitectónica e satisfação habitacional

Com alguma frequência acontece que aquilo de que os arquitectos gostam é rejeitado, mais ou menos intensamente, por quem habita. São os espaços mal amados de tantos conjuntos habitacionais, que associam, por vezes, a qualidade do desenho a uma discutível qualidade vivencial.
Mas se, numa perspectiva oposta, privilegiamos a satisfação simples de quem habita é muitas vezes criticamente afectado todo um património cultural; trata-se da pobre arquitectura urbana de tantos subúrbios e das aberrações que comprometem a imagem dos centros históricos.

Estas reflexões indicam a oportunidade de se poderem seguir opções intermediárias em termos do desenho e da designável “satisfação bruta”, e atentas às boas práticas, sobressaindo, já aqui, a importância da designada análise retrospectiva ou avaliação pós-ocupação (APO).

De certa forma é apostar num conjunto de alianças de imagem e de conteúdo:
Que não são exclusivas de determinados desenhos.
Que não são exclusivas de determinados grupos socioculturais, constituindo valiosas ferramentas de integração cívica.
E que dependem, frequentemente, de um exterior público com conteúdo e imagem urbanas que possam ser verdadeiramente estimados.

É, assim, necessário um aprofundamento duplo e articulado, da matéria disciplinar da qualidade arquitectónica residencial e dos processos ligados à satisfação do habitante:
Uma linha de aprofundamento disciplinar da qualidade arquitectónica residencial, através da investigação dos respectivos rumos qualitativos; e do desenvolvimento de Programas de Qualidade pormenorizados. Salienta-se, por exemplo, que o Programa de Qualidade de um novo grande bairro de Malmö vai até ao diâmetro das árvores.
E uma outra linha de aprofundamento da satisfação habitacional, ligada à consolidação dos processos de Análise e Avaliação retrospectiva ou de Pós-Ocupação.
qualidade do espaço público e dos edifícios

A fruição diária de um ambiente de vizinhança e de animação, espacial e funcionalmente diversificado, numa mistura harmonizada de habitação e serviços é um necessidade humana.

Fazer habitação ao longo de espaços públicos viáveis e habitados obriga a fazer-se arquitectura residencial urbana claramente muito bem qualificada logo ao nível do projecto e que não se pode limitar ao espaço que fica da soleira da porta de entrada para dentro. Numa casa pequena, por exemplo, a existência próxima de bons espaços exteriores de estar, de um seguro parque infantil, e de um agradável "café à esquina", melhoram muito a vivência interior, dando mais espaço, sossego e à vontade, tanto aos adultos como aos mais jovens,
Ruas, jardins e espaços livres, constituem a “outra face da moeda” de uma unidade residencial que estimule o convívio e a apropriação; em habitação não é possível continuar-se a pensar essencialmente nos respectivos edifícios, sendo essencial garantir condições naturais de convívio e segurança nas zonas de transição entre o espaço privado de cada habitação e os vastos espaços públicos urbanos.



(fig. 03)

Análise retrospectiva ou em pós-ocupação (APO)

Na procura das melhores soluções o estudo e a avaliação dos programas residenciais existentes é uma medida essencial que poderá ser assegurada através do desenvolvimento sistemático de processos de Análise Retrospectiva ou em “Avaliação Pós-Ocupação (APO)” com conteúdo multidisciplinar e visando variadas situações residenciais. Este conceito específico de APO é aquele que é usado internacionalmente.

Desde o final dos anos 60 foram desenvolvidos pelo LNEC estudos sobre o uso da habitação, através de inquéritos e associando diversas especialidades sob a orientação do arqº Nuno Portas. Em meados dos anos 90 decorreram no Departamento de Edifícios do LNEC, e no seu Núcleo de Arquitectura, sistemática e periodicamente, por iniciativa do Instituto Nacional de Habitação, análises multidisciplinares à qualidade de espaços habitacionais "a custo controlado" recém-concluídos e financiados pelo Instituto, incidindo, portanto, fortemente sobre as diversas facetas da qualidade construtiva, mas incorporando, já, uma importante componente de análise arquitectónica.

A mais recente fase de desenvolvimento dos estudos de avaliação residencial no LNEC assumiu a forma de análises retrospectivas ou de pós-ocupação (APO), sobre um parque já habitado há, pelo menos, cinco anos, distinta, portanto, das anteriores análises ao projecto e à obra concluída ou em curso.

Este tipo de análise/avaliação apreciou a arquitectura urbana, o comportamento da construção e a satisfação residencial dos moradores através de uma forte integração interdisciplinar, entre a Arquitectura/Urbanismo (Núcleo de Arquitectura do LNEC), as Ciências Sociais (Grupo de Ecologia Social do LNEC) e a Engenharia/Construção (Núcleo de Arquitectura do LNEC com a colaboração de outros Núcleos do Departamento de Edifícios do LNEC).

Tal análise/avaliação abordou os diversos níveis residenciais (do pequeno Bairro ao compartimento do fogo), constituindo uma primeira aproximação aprofundada sobre a satisfação dos habitantes de conjuntos residenciais desenvolvidos com controlo de custos e segundo um determinado quadro recomendativo (Recomendações Técnicas de Habitação Social) com assinaláveis reflexos nas áreas domésticas.
A maior interdisciplinariedade resultou de terem sido criados novos instrumentos analíticos através da total conjugação de objectivos e de conceitos entre as três frentes disciplinares referidas.
A metodologia e a natureza global dos resultados deste tipo de estudo prático são em seguida sintetizadas.

Metodologia da APO


Objectivos do estudo

Avaliação da qualidade dos empreendimentos habitacionais de "Custos Controlados" financiados pelo INH em determinados períodos temporais, numa dupla perspectiva da satisfação dos moradores e do bom funcionamento das soluções arquitectónicas e construtivas, após um período de ocupação e vivência mínimo de 5 anos.

Especialidades envolvidas: Arquitectura, Engenharia e Ciências Sociais:

A análise arquitectónica teve como principal objectivo, a avaliação da qualidade das características físicas, funcionais e ambientais dos empreendimentos, numa sequência de níveis físicos: envolvente alargada, envolvente próxima, edifícios, habitações e respectivos compartimentos.

A análise construtiva teve como objectivo, fundamental, a avaliação do comportamento das soluções construtivas, componentes e instalações, e a caracterização de casos de patologia existentes.

A análise sociológica teve como principal objectivo a avaliação da satisfação residencial dos residentes, associada às características de uso e apropriação dos espaços interiores e exteriores e aos fenómenos de mobilidade social e residencial.


(fig. 04)

Faseamento
O estudo contempla cinco fases de trabalho:

Fase 1 _ Preparação do estudo: definição da amostra representativa, elaboração de instrumentos de análise, planeamento do trabalho de campo, apreciação preliminar dos elementos de projecto.

Fase 2 _ Trabalho de campo: realização de visitas aos empreendimentos e recolha de informação.

Fase 3 _ Compilação da informação obtida: elaboração do primeiro documento que reúne em volumes individualizados as fichas de análise arquitectónica, construtiva e sociológica e respectivo levantamento fotográfico a cada empreendimento.

Fase 4 _ Análise da informação obtida: apuramento de resultados, elaboração de quadros comparativos, análise informática das respostas aos questionários.

Fase 5 _ Elaboração do documento final: generalização ponderada dos resultados da análise à amostra representativa do parque habitacional financiado pelo INH no período a que se refere a APO e elaboração das principais conclusões e recomendações.


(fig. 05)

Instrumentos de recolha de informação

Para o desenvolvimento desta análise retrospectiva elaboraram-se e foram utilizados os seguintes instrumentos de recolha de informação:

Ficha de Identificação do Empreendimento: integrando determinados elementos do projecto.

Guiões de Entrevistas semi-directivas: utilizados junto de interlocutores privilegiados e alguns residentes.

Questionário destinado ao "Levantamento da Qualidade Habitacional": a aplicar a todos os moradores.

Fichas de Observação Técnica:
(i) de Análise Arquitectónica no local e ao projecto;
(ii) de Análise Construtiva.
(iii) das Ciências Sociais.

(fig. 06)


Estudos de especialidade sobre problemas concretos
Quando são detectados problemas graves (ex., patologia construtiva) recorre-se à visita posterior de um especialista do LNEC na temática identificada, “em primeira linha”, pela equipa multidisciplinar da APO.

Caracterização da amostra


Os empreendimentos estudados resultaram dos três tipos de promoção de HCC e caracterizam-se por diversas tipologias residenciais e localizações:

Tipos de promoção: cooperativa, municipal e privada.
Tipologias residenciais: unifamiliares em zonas pouco densificadas; bi a tetrafamiliares em zonas pouco densificadas; pequenos multifamiliares em zonas pouco densificadas ou de periferia de cidades médias; multifamiliar com galerias exteriores comuns em periferia citadina; multifamiliares em zonas citadinas periféricas ou centrais.
Tipos gerais de localização: zonas próximas ou integrando grandes centros urbanos do litoral; zonas integradas em grandes centros urbanos do interior; zonas integrando pequenos centros urbanos.


(fig. 07)


Trabalho prático

Identificação do Empreendimento (através da colaboração dos seus responsáveis).

Observações significativas sobre o desenvolvimento dos conjuntos residenciais seleccionados para a análise (com a colaboração dos responsáveis pelo empreendimento e respectivo projecto).
Visitas técnicas aos conjuntos residenciais:

Reuniões com os responsáveis pelos conjuntos residenciais;
Observação e análise técnica;
Levantamento fotográfico e em vídeo;
Entrevistas semi-directivas à população e outros interlocutores privilegiados locais;
Entrega dos questionários a todos os moradores.


(fig. 08)


Análise urbanística e arquitectónica


Exemplo de elementos gerais destacados:
Qualificação geral do habitat, mas atrasos no acabamento do exterior.
Empreendimentos bem integrados, com pequena dimensão e imagens quase sempre positivamente caracterizadas.
Promoções Municipais ganham com dimensão física reduzida e máxima integração na envolvente, enquanto as Cooperativas ganham com a amplitude da sua dimensão de habitat (convivialidade, serviços, aspecto, vida própria), em conjuntos maiores, faseados e realizados pela mesma Cooperativa.

Exemplo de elementos destacados na análise da Vizinhança Alargada:

Os exteriores inacabados têm más influências no uso e na imagem das respectivas zonas e estão relacionados com a indefinição de responsabilidades de execução.
A continuidade urbana, a ausência de espaços residuais ou visualmente pouco controláveis e o recurso a modelos espaciais facilmente identificáveis são factores essenciais.
Os espaços verdes e equipamentos com uso real, os elementos de identificação com os residentes e as acções de co-responsabilização dos moradores na manutenção exterior dinamizam a apropriação.

Exemplo de elementos destacados na análise da Vizinhança Próxima:

Diversidade de soluções gerais, repetição de volumetrias simples com baixa altura e de fachadas com desenho minimamente dinamizado.
Os empreendimentos maiores estão equipados, enquanto os mais pequenos se caracterizam por acessibilidade a centros urbanos.
Necessidade de intensificar a integração de equipamentos comerciais viáveis e de pequenos equipamentos de recreio infantil, desporto e lazer.
Necessidade de reforçar a separação entre tráfegos, melhorar os percursos pedonais e reforçar o equipamento das zonas exteriores de estadia com elementos de mobiliário e de "verde urbano”.
Os quintais/pátios privativos têm importantes funções (privadas e públicas), mas não podem prejudicar as imagens urbanas locais.

Exemplo de elementos destacados na análise do Edifício:
Soluções baixas do tipo "esquerdo/direito" são muito procuradas.
É fundamental a anulação das imagens de pobreza/tristeza de aspecto frequentemente associadas a edifícios habitacionais de baixo custo.
A minimização dos espaços comuns compensa-se com condições de conforto ambiental e pela redução do número de vizinhos.
A necessidade de maior privacidade dos fogos térreos pode ser servida por soluções com excelente imagem urbana.
Arrumações privativas e garagens são elementos de satisfação dos habitantes e de eficaz integração topográfica.
A apropriação dos edifícios é bastante generalizada e positiva.
A qualidade do exterior funciona como compensação da reduzida espaciosidade dos fogos.

Exemplo de elementos destacados na análise da Habitação:

Racionalização na utilização da área doméstica.
Deficiente previsão de certas tarefas domésticas (exº. arrumação).
Conforto ambiental geralmente satisfatório (ventilação cruzada).
Interesse da modalidades de participação dos habitantes na escolha de acabamentos.

Exemplo de elementos destacados na análise dos Espaços e Compartimentos do fogo:

Entrada e privacidade.
Compensação entre espaciosidades.
Dimensionamentos e zonas funcionais a melhorar.
Controlo da apropriação do exterior privado.


(fig. 09)


Temáticas gerais da análise construtiva


Soluções Construtivas
Componentes, Instalações e Equipamentos
Apreciação da concepção e do projecto
Componentes de edifícios
Instalações

Análise da satisfação residencial


A análise das ciências sociais à satisfação residencial, baseou-se na articulação da observação técnica com as próprias respostas dos habitantes, em entrevistas e no inquérito postal, tendo sido tratados vários níveis de análise, desde a satisfação residencial global, até à satisfação com os processos de promoção, com o edifício e com o alojamento.
Análise da satisfação residencial – numa ligação entre a análise técnica e o tratamento e enquadramento da matéria recolhida por inquérito.

Apresenta-se, em seguida, muito sinteticamente, o quadro de estruturação dos resultados das análises à satisfação residencial realizadas ao Parque financiado pelo INH entre 1985 e 1987 – 1ª Análise Retrospectiva – , entre 1988 e 1994 – 2ª Análise Retrospectiva – e entre 1995 e 1998. – 3ª Análise Retrospectiva.

Esta sequência de análises, cruzadas com os restantes trabalhos que integram o processo geral da “análise retrospectiva” proporcionaram uma perspectiva da satisfação habitacional num período de cerca de 14 anos, para uma período total de promoção de HCC, apoiada pelo Instituto nacional de Habitação, que cumpriu 20 anos de actividade em 2004.

As Análises foram realizadas com base nas respostas a um questionário postal distribuído a todos os residentes dos conjuntos habitacionais que foram objecto das referidas análises – num “universo” global de 3224 fogos –, salientando-se que a 1ª Análise incluiu, ainda, alguns empreendimentos cujas características de dimensionamento doméstico ultrapassavam, pontualmente, mas de forma clara, as indicações das RTHS (Recomendações Técnicas para Habitação Social) e que a 2ª correspondeu já um período de aplicação plena das indicações dimensionais das RTHS, condição esta que se repetiu, naturalmente, na 3ª Análise.


(fig. 10)


São os seguintes os temas de enquadramento da análise à satisfação residencial:
Perfil sociocultural dos habitantes
Satisfação global
Satisfação com aspectos de organização/gestão local
Satisfação com o empreendimento – conjunto de edifícios e espaços exteriores
Satisfação com os equipamentos colectivos
Satisfação com a vizinhança próxima
Satisfação com o edifício
Satisfação geral com o fogo/habitação
Satisfação com os compartimentos/espaços do fogo
Satisfação com a construção/acabamentos


(fig. 11)

Nota final sobre a APO do LNEC


Da experiência vivida no desenvolvimento prático das APO/retrospectivas pelo LNEC, retira-se que é possível aplicar uma tal metodologia de forma expedita e produtiva em termos de resultados conclusivos sobre diversas temáticas estruturadoras da satisfação residencial, desde que se conte, como é o caso, com uma equipa multidisciplinar já razoavelmente habituada a este tipo de trabalho.

Salienta-se, ainda, que a metodologia de APO/análise retrospectiva desenvolvida e aplicada pelo LNEC proporciona a sua própria reconversão, visando-se, quer uma aplicação mais generalista ou sumária num dado Parque habitacional (ex., municipal), quer uma sua aplicação mais localizada e pormenorizada, visando a cuidadosa aproximação a soluções para problemas identificados, por exemplo, num conjunto residencial específico, em que se vise uma acção de requalificação.

Como última nota refere-se que esta metodologia de APO/análise retrospectiva do LNEC não está ainda adequadamente apresentada numa publicação de grande divulgação, mas consta já de documentos e Relatórios de síntese a seu tempo entregues às entidades que encomendaram os estudos. Esta é uma situação que se pretende vir a remediar proximamente. Entretanto há o recurso a elementos de apresentação geral como é o caso deste texto.

BIBLIOGRAFIA

COELHO, António Baptista _ "Qualidade Arquitectónica Residencial – Rumos e Factores de Análise", Lisboa, LNEC, Colecção Informação Técnica Arquitectura n.º 8 (ITA 8), 2000.
COELHO, António Baptista, António Leça Coelho, Marluci Menezes; Fernanda Rodrigues Carvalho e Isabel Plácido, 3.ª Análise Retrospectiva do Parque Habitacional Financiado pelo INH, Anos de 1995 a 1998. Lisboa, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Relatório 239/04-NAU, 2004, 402 p.
COELHO, António Baptista, Maria João Freitas, M. Paulina Faria, A. Reis Cabrita, J. Branco Pedro, Marluci Menezes; REIS, Susana Reis, A. Leça Coelho – "1ª Análise Retrospectiva do Parque Financiado pelo INH nos anos de 1985/87". Lisboa, Ed. LNEC, 1995.
COELHO, António Baptista, J. Branco Pedro – "1ª Análise Retrospectiva do Parque Financiado pelo INH nos Anos de 1985/87. Estrutura Temática e Fichas de Trabalho da Análise Arquitectónica Residencial", Nota Técnica nº1/95-NA, LNEC, 1995.
COELHO, António Baptista, J. Branco Pedro – "1ª Análise Retrospectiva do Parque Financiado pelo INH nos Anos de 1985/87. Análise Arquitectónica, Fichas de Resumos dos Empreendimentos e Elementos Gráficos dos Projectos", Relatório nº195/95-NA, LNEC, 1995.

António Baptista Coelho: doutor em Arquitectura (ESBAL, FAUP), investigador e chefe do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do LNEC, Presidente da Direcção do Grupo Habitar, Vice-presidente da Nova Habitação Cooperativa
Edição: José Romana Baptista Coelho

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